Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 17 de 44

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Tiros na Noite

Capítulo XI

– E eu sei que posso confiar em você – acrescentei com sarcasmo.

– E eu também sei que posso confiar em você – rebateu. – Darei a você o bilhete se me der meia hora de dianteira.

– Por que faria isso? – perguntei. – Por que não ficar com você e com o bilhete?

– Se você pudesse encontrar o bilhete! Mas, diga-me, eu pareço o tipo de idiota que deixaria um bilhete desses dando sopa? Você acha que está aqui neste quarto?

Não. Mas o fato de Ledwich tê-lo escondido não queria dizer que eu não pudesse encontrá-lo.

– Não vejo nenhum motivo para negociar com você – disse eu. – Eu o peguei, e isso é o bastante.

– Se eu lhe mostrasse que o único modo de libertar a segunda sra. Estep é por meio de minha colaboração voluntária, você negociaria comigo?

– Talvez... de qualquer modo, estou ouvindo.

– Tudo bem. Vou abrir o jogo. Mas a maior parte do que vou dizer não pode ser comprovado em corte sem a minha ajuda. E se você recusar minha oferta, tenho provas suficientes para convencer o júri de que tudo isso é mentira, que eu nunca disse nada disso e que você está tentando me incriminar.

Essa parte me soava bastante razoável. Eu já havia deposto em todos os júris da cidade e do estado de Washington e nunca vira um deles propenso a crer que um detetive particular fosse algo diferente de um especialista em intriga, alguém que anda por aí com um baralho falso num bolso e um equipamento completo de falsário no outro, e que lamenta o dia em que não mandou um inocente para a cadeia.

XI

– Era uma vez um jovem doutor, numa cidade muito longe daqui – disse Ledwich –, envolvido num escândalo dos mais sórdidos, que escapou da cadeia por um triz mas que teve a licença cassada pelo conselho médico estadual.

“Numa cidade grande não muito longe dali, numa noite em que estava bêbado, como sempre costumava estar naqueles tempos, esse jovem doutor contou os seus problemas para um homem que conheceu num inferninho. O homem era um sujeito cheio de recursos e, em troca de algum dinheiro, ofereceu-se para arranjar um diploma falso, de modo que o doutor pudesse praticar a medicina em outro estado.

“O jovem doutor aceitou a oferta e o amigo arranjou o diploma para ele. O doutor é o homem que você conhece como dr. Estep. Eu era o amigo. E o verdadeiro dr. Estep foi encontrado morto no parque esta manhã!”

Essa era boa... se fosse verdade!

– Veja você – prosseguiu o grandalhão –, quando me ofereci para conseguir o diploma para o jovem doutor, cujo nome verdadeiro não importa, eu tinha em mente um diploma falso. Hoje em dia é fácil, há até um mercado regular de diplomas falsificados, mas há 25 anos eram mais difíceis de encontrar. Enquanto tentava arranjar o diploma, topei com uma mulher com quem eu já trabalhara antes, Edna Fife, e que você conhece como primeira esposa do dr. Estep.

“Edna era casada com um médico, o verdadeiro dr. Humbert Estep. Mas ele era um péssimo médico. Depois de passar fome ao lado dele na Filadélfia durante alguns anos, ela o fez fechar o consultório e dedicar-se à jogatina. Ela era muito boa nisso, uma verdadeira limpadora de mesas, e, mantendo-o sob o seu controle todo o tempo, transformou-o também num bom trapaceiro.

“Eu a encontrei pouco depois disso e, quando ela me contou esta história, me ofereci para comprar o diploma e outras credenciais do marido. Não sei se ele as queria vender ou não, mas obedeceu-a e eu fiquei com os documentos.

“Entreguei os documentos ao jovem doutor, que veio para San Francisco e abriu um consultório sob o nome de Humbert Estep. O verdadeiro Estep prometera nunca mais usar esse nome, o que não era nada demais para ele, já que vivia trocando de nome sempre que mudava de endereço.

“Mantive contato com o jovem doutor, é claro, recebendo a minha propina regularmente. Eu o tinha sob controle. Não era bobo de desistir de uma grana fácil como aquela. Cerca de um ano depois, soube que ele havia se estabelecido e que estava ganhando algum dinheiro. Daí, embarquei num trem e vim para San Francisco. De fato, ele andava muito bem de vida, de modo que acampei por aqui, onde podia mantê-lo sob controle.

“Ele se casou por essa época e, entre a prática e os investimentos, começou a acumular um bom dinheiro. Mas endureceu comigo, o maldito! Não se deixaria sangrar. Disse que só me daria uma porcentagem regular do que ganhava, nada além.

“Durante quase 25 anos tive exatamente isso, nem um centavo além do combinado. Ele sabia que eu não iria matar a galinha dos ovos de ouro e, portanto, não adiantava ameaçá-lo. Ele não voltaria atrás.

“Como eu disse, isso continuou por anos e anos. Conseguia o bastante para viver, mas não estava ganhando nenhum dinheirão. Há alguns meses, porém, soube que ele havia feito uma boa grana em um negócio com madeira de construção e decidi agir.

“Após todos esses anos, já conhecia o doutor muito bem. Isso acontece quando se está extorquindo dinheiro de alguém. Você tem uma ótima idéia do que vai na cabeça dessa pessoa e o que ela provavelmente faria caso isso ou aquilo acontecesse. Portanto, eu conhecia o doutor muito bem.

“Sabia, por exemplo, que ele nunca havia contado para a esposa a verdade sobre o seu passado. Que dissera qualquer coisa a respeito de ter nascido na Virgínia Ocidental. Por mim, tudo bem! Daí eu soube que ele guardava um revólver na escrivaninha, e eu sabia o porquê. Guardava-o ali para que pudesse se matar caso a verdade sobre o seu diploma fosse descoberta. O doutor achava que, se desse um tiro na cabeça tão logo surgisse o primeiro indício de que seria desmascarado, as autoridades abafariam o caso em respeito à boa reputação que construíra.

“Dessa forma, e mesmo que a sua esposa descobrisse a verdade, seria poupada da vergonha de um escândalo público. Eu não consigo me ver morrendo só para não magoar uma mulher, mas o doutor era um sujeito esquisito, e era louco por ela.

“Portanto, eu o conhecia muito bem, e foi assim que as coisas aconteceram.

“Meu plano pode parecer complicado, mas era muito simples. Primeiro, encontrei os verdadeiros Esteps. Tive que procurar um bocado, mas acabei encontrando-os. Trouxe a mulher para San Francisco e disse para o marido se manter afastado.

“Tudo teria dado certo se ele tivesse feito o que eu mandei. Mas ele tinha medo de que Edna e eu o traíssemos, então resolveu ficar de olho em nós. Mas eu não sabia disso até você denunciá-lo.

“Trouxe Edna até aqui e, sem lhe dizer nada além do que deveria saber, eu a treinei até que decorasse muito bem o seu papel.

“Alguns dias antes da chegada dela, fui visitar o doutor e exigi cem mil dólares. Ele riu de minhas pretensões e fui embora fingindo estar danado da vida.

“Tão logo Edna chegou, disse-lhe para visitar o doutor. Ela foi e pediu para ele fazer uma operação ilegal em sua filha. Ele, é claro, se recusou. Daí, ela discutiu com ele de modo que todos que estivessem na recepção pudessem ouvir. E quando ela ergueu a voz, escolheu palavras que pudessem ser interpretadas do modo que queríamos que fossem interpretadas. Ela fez tudo com perfeição e saiu dali aos prantos.

“Daí, lancei mão de outro truque! Pedi para um camarada, um sujeito que é um mestre nesse negócio, para gravar uma placa com uma notícia falsa dizendo que as autoridades do estado estavam investigando a informação de que um proeminente cirurgião de San Francisco estava praticando a medicina com uma licença falsa. A placa media dez por dezoito centímetros. Se você examinar a primeira página interna do Evening Times em qualquer dia da semana encontrará uma foto exatamente desse tamanho.

“No dia seguinte à visita de Edna, saí à rua às dez da manhã e comprei uma cópia da primeira edição do Times. O falsário meu amigo apagou a foto com ácido e imprimiu a matéria falsa no lugar dela.

“Naquela noite, substituí a página externa de um exemplar de assinante por aquela que viera com o jornal que havíamos preparado e fiz a troca assim que o menino entregou o jornal. Essa parte foi fácil. O menino atirou o jornal, me arrastei até o vestíbulo, fiz a troca e deixei o jornal falsificado para o doutor.”

Eu tentava não parecer tão interessado, mas os meus ouvidos estavam atentos a cada palavra. A princípio, me preparara para uma fieira de mentiras. Mas agora sabia que ele dizia a verdade! Cada sílaba era uma bazófia. Ele estava meio embriagado pela própria esperteza, a esperteza com a qual planejara e levara a cabo o seu plano de perfídia e assassinato. Eu sabia que ele falava a verdade e suspeitava que ele estava contando mais do que pretendia. Ele estava intumescido de vaidade, a vaidade que freqüentemente infla o vigarista após um pequeno sucesso; e o prepara para a cadeia.

Seus olhos brilhavam e a sua boquinha sorria triunfante enquanto falava.

– De fato, o doutor leu o jornal. E se matou. Mas primeiro escreveu e enviou um bilhete... para mim. Eu não pensara em incriminar a esposa dele. Foi pura sorte.

“Imaginei que a notícia falsa no jornal seria ignorada em meio à confusão. Edna deveria prosseguir com a trama, apresentando-se como sendo a primeira esposa. E o fato de ele ter se suicidado depois de sua primeira visita, somado ao que a enfermeira ouvira durante a visita, faria a sua morte parecer uma confissão de que Edna era a sua esposa.

“Estava certo de que ela passaria por qualquer investigação. Ninguém sabia coisa alguma sobre o verdadeiro passado do doutor, exceto aquilo que ele lhes dissera e que acabaria se revelando mentira.

“Edna realmente se casara com um certo dr. Humbert Estep, na Filadélfia, em 1896; e os 27 anos decorridos desde então se encarregariam de ocultar o fato de que o verdadeiro dr. Humbert Estep não era esse dr. Humbert Estep.

“Tudo o que queríamos era convencer a verdadeira mulher e seu advogado de que ela não era a mulher legítima. E conseguimos! Todo mundo aceitou o fato de Edna ser a mulher verdadeira.

“O passo seguinte seria fazer Edna e a mulher chegarem a um acordo a respeito da herança, com Edna herdando a maior parte ou ao menos a metade de tudo. E nada viria a público.

“Se acontecesse o pior, estávamos preparados para ir aos tribunais. E nos daríamos muito bem, embora eu me contentasse com a metade. Daria algumas centenas de milhares de dólares, o bastante para mim, mesmo deduzindo os vinte mil que prometi para Edna.

“Mas quando a polícia prendeu a mulher do doutor por assassinato, vislumbrei a chance de ficar com tudo. Bastava que eu esperasse ela ser condenada. Daí a corte daria tudo para Edna.

“Eu tinha a única prova que libertaria a mulher do doutor: o bilhete que ele escreveu para mim. Mas mesmo que eu quisesse, não poderia divulgá-lo sem expor toda a trama. Quando leu a notícia falsa no jornal, ele a arrancou, escreveu o bilhete sobre ela e o enviou para mim. Portanto, o bilhete é uma revelação involuntária de um morto. Mas eu não tinha nenhuma intenção de divulgá-lo.

“Até aí tudo transcorria como num sonho. Bastava esperar até a hora de sacar a grana. E foi justo aí que o verdadeiro Humbert Estep apareceu para estragar tudo.

“Ele raspou o bigode, vestiu umas roupas velhas e veio nos espionar, para ver se eu e Edna não fugíamos dele. Como se pudesse evitar! Depois que você o denunciou, eu o trouxe até a minha casa.

“Pretendia mantê-lo aqui enquanto não encontrasse um lugar onde deixá-lo até terminarmos o serviço. Era esse o trabalho que eu ia pedir para você fazer: ficar de olho nele. Mas acabamos discutindo, brigando, e eu o derrubei. Ele não se levantou e descobri que estava morto. Quebrara o pescoço. Nada havia a fazer a não ser levá-lo até o parque e abandoná-lo por lá.

“Não contei para Edna. Aparentemente, ele não tinha muita utilidade para ela, mas a gente nunca sabe como as mulheres vão reagir. De qualquer forma, agora que está feito, ela não vai dizer nada. Tem sido leal todo o tempo. E, caso fale, não pode fazer muito estrago. Ela só sabe a parte dela na trama.

“Toda essa longa história é só para você ver contra o que está lutando. Talvez você ache que pode descobrir provas das coisas que eu lhe disse. E pode, até aqui. Pode provar que Edna não era esposa do doutor. Pode provar que eu o estava chantageando. Mas você não pode provar que a mulher do doutor não acreditava que Edna era a sua esposa de verdade! É a palavra dela contra a minha e a de Edna.

“Vamos jurar que nós a convencemos disso, o que lhe daria uma motivação para o crime. Você não pode provar que o artigo de jornal falso de fato existe. Tudo isso vai soar para o júri como conversa de drogado.

“Você não pode me incriminar pelo assassinato de ontem à noite. Tenho um álibi que vai deixá-lo de queixo caído! Posso provar que saí daqui com um amigo bêbado, e que o levei até o hotel e o deixei na cama com a ajuda de um vigia noturno e de um mensageiro. E o que você tem para rebater? A palavra de dois detetives. Quem vai acreditar?

“Talvez você possa me incriminar por tentativa de estelionato ou algo no gênero. Mas ainda assim não poderá libertar a sra. Step sem a minha ajuda. Me liberte e eu lhe darei a carta que o doutor escreveu com o próprio punho, sobre uma notícia falsa de jornal, e que vai se encaixar perfeitamente na parte que falta no pedaço de jornal que está com a polícia. Nela, o doutor escreveu que ia se matar em palavras quase tão explícitas quanto as que uso agora.”