Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 27 de 44

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Tiros na Noite

Uma hora

I

– Este é o senhor Chrostwaite – disse Vance Richmond.

Chrostwaite, entalado entre os braços de uma das grandes cadeiras do advogado, rosnou algo que valia por um agradecimento da apresentação. Resmungei também de volta para ele e procurei uma cadeira.

Esse tal Chrostwaite era um grande balão em forma de homem, metido num terno verde amarrotado que não o tornava menor do que era. Na sua gravata espalhafatosa o amarelo predominava, com um grande diamante bem no centro, e mais pedras preciosas cobriam suas mãos rechonchudas. A gordura esponjosa borrava suas feições, tornando impossível para o rosto redondo avermelhado expressar outra coisa que não o azedo descontentamento que lhe era habitual. Ele recendia a gim.

– O sr. Chrostwaite é o agente para a costa do Pacífico da Mutual Fire Extinguisher Manufacturing Company – começou Vance Richmond, tão logo me sentei. – Seu escritório é na Kearny Street, perto da California Street. Ontem, por volta de 2h45 da tarde, ele foi ao escritório e deixou o carro, um Hudson, na frente, com o motor ligado. Voltou minutos depois e o carro tinha sumido.

Olhei para Chrostwaite. Ele contemplava seus gordos joelhos, sem demonstrar qualquer interesse no que o advogado estava dizendo. Olhei rapidamente de volta para Vance Richmond; sua limpa face cinzenta e seu corpo magro pareciam francamente bonitos em comparação com seu inchado cliente.

– Um homem chamado Newhouse – o advogado estava dizendo –, proprietário de uma gráfica na California Street, bem na esquina do escritório do sr. Chrostwaite, foi atropelado e morto pelo carro do sr. Chrostwaite, na esquina da Clay com a Kearny Street, cinco minutos depois de o sr. Chrostwaite ter deixado o carro em frente ao escritório. A polícia encontrou o carro pouco depois, a uma quadra somente do local do acidente, na Montgomery Street, perto da Clay.

“As coisas parecem bastante óbvias. Alguém roubou o carro logo depois de o sr. Chrostwaite o ter deixado; ao fugir rapidamente, atropelou Newhouse; e então, assustado, abandonou o carro. Mas aqui surge uma outra complicação para o sr. Chrostwaite: três noites atrás, enquanto dirigia de maneira talvez um tanto descuidada...”

– Bêbado – disse Chrostwaite, sem tirar os olhos dos joelhos dobrados; e em sua voz áspera, rouca, com a rouquidão de uma garganta queimada pelo uísque, não havia qualquer emoção.

– Enquanto dirigia de maneira talvez um tanto descuidada pela Van Ness Avenue – continuou Vance Richmond, ignorando a interrupção –, o sr. Chrostwaite atropelou um pedestre. O homem não chegou a se machucar muito e está sendo generosamente recompensado por seus ferimentos. Mas nós devemos nos apresentar diante do tribunal na próxima segunda-feira, para fazer face à acusação de direção imprudente, e estou temeroso de que esse acidente de ontem, em que o gráfico morreu, possa nos prejudicar.

“Ninguém acha que o sr. Chrostwaite estava no carro quando este matou o gráfico; temos uma montanha de provas de que ele não estava. Mas tenho medo de que a morte do gráfico possa se tornar uma arma contra nós, quando enfrentarmos a acusação pelo caso da Van Ness Avenue. Como advogado, sei de quanto capital o promotor dispõe, se ele quiser se aproveitar do fato, na verdade insignificante, de que o mesmo carro que atropelou o homem da Van Ness Avenue matou um outro homem ontem. E como advogado, sei que o promotor com toda a probabilidade vai se valer disso. E pode utilizar isso de uma maneira tal que teremos pouca ou até nenhuma oportunidade de nos defendermos.

“O pior que pode acontecer, claro, é que, em lugar da tradicional multa, o sr. Chrostwaite seja mandado para a cadeia por trinta ou sessenta dias. Isso seria de fato muito ruim e o que nós queremos é...”

Chrostwaite falou outra vez, ainda olhando para os joelhos:

– Merda de aborrecimento! – exclamou.

– É o que queremos evitar – continuou o advogado. – Desejamos pagar uma multa pesada e é o que esperamos, pelo acidente da Van Ness Avenue, que foi claramente culpa do sr. Chrostwaite. Mas nós...

– Bêbado como um lorde! – disse Chrostwaite.

– Mas nós não queremos nos envolver com esse outro acidente, com o qual nada tivemos a ver mas que pode dar um peso falso, pela conexão, a um acidente mais leve. Queremos portanto encontrar o homem ou os homens que roubaram o carro e atropelaram John Newhouse. Se eles fossem presos antes de nossa ida ao tribunal, não correríamos o risco de sofrer por causa de seus atos. Você acredita que pode encontrá-los antes de segunda-feira?