Tiros na Noite
Tiros na noite
A casa, grande e quadrada, era de tijolos vermelhos, com um telhado de ardósia esverdeado cujo ressalto, largo, dava à construção um aspecto atarracado, apesar de seus dois andares. Ficava numa colina gramada, distante da estrada, de costas para esta e debruçada sobre o rio Mokelumne.
O Ford que eu alugara em Knownburg conduziu-me àqueles jardins atravessando um portão alto, de malhas de aço, trilhou a estradinha circular de cascalho e deixou-me a meio metro da varanda de tela, que circundava todo o primeiro andar da casa.
– Aquele ali é o genro de Exon – disse o motorista, guardando a gorjeta que eu acabara de lhe dar e preparando-se para ir embora.
Virei-me e vi um homem alto, meio desconjuntado, de trinta e poucos anos, vindo da varanda em minha direção – um homem vestido com displicência, com uma cabeleira castanha desgrenhada acima do rosto charmoso e queimado de sol. Havia um toque de crueldade em seus lábios, que agora sorriam preguiçosamente. E havia também um quê de imprudência nos olhos estreitos e acinzentados.
– Sr. Gallaway? – perguntei, enquanto ele descia as escadas.
– Eu mesmo. – A voz dele era um barítono arrastado. – E você é...
– Da filial de San Francisco da Agência de Detetives Continental – concluí.
Ele fez um cumprimento com a cabeça, mantendo a porta de tela aberta para que eu entrasse.
– Pode deixar a mala aqui. Vou mandar levá-la para seu quarto.
Acompanhou-me até dentro de casa e – depois de eu lhe assegurar que já tinha almoçado – apontou-me uma cadeira macia e me ofereceu um excelente charuto. Esticou a coluna numa poltrona bem em frente à minha – ângulos desconjuntados saindo dele em todas as direções – e soprou fumaça para cima.
– Em primeiro lugar – começou, após algum tempo, suas palavras saindo devagar –, acho que devo lhe dizer que não espero muita coisa em matéria de resultados. Mandei buscá-lo mais pelo efeito calmante que sua presença teria sobre a casa do que por esperar ações concretas. Acho que não há muito a fazer. Mas não sou detetive. Posso estar errado. Talvez você encontre todo tipo de coisas, importantes ou não. Se isso acontecer, ótimo! Mas não vou insistir nesse ponto.
Eu não disse nada, embora aquele começo não fosse muito do meu agrado. Ele fumou em silêncio por um tempo, depois continuou.
– Meu sogro, Talbert Exon, é um homem de 57 anos, normalmente muito ativo, durão, danado, um velho fogoso e brigão. Mas agora está se recuperando de uma pneumonia séria, que o deixou muito alquebrado. Ainda não conseguiu levantar-se da cama e o dr. Rench está querendo que fique de repouso por pelo menos mais uma semana.
“O quarto do velho fica no segundo andar, é de frente, no canto direito da casa, bem acima de onde estamos sentados agora. A enfermeira dele, srta. Caywood, fica no quarto ao lado, e há entre os dois aposentos uma porta de conexão. Meu quarto também fica de frente e minha porta dá para a do velho no corredor. O de minha mulher é ao lado do meu – em frente ao da enfermeira. Depois lhe mostro. Só quero que tudo fique muito claro.
“Na noite passada, na verdade de madrugada, uma e pouco da manhã, alguém deu um tiro em Exon enquanto ele dormia – e errou. A bala entrou na moldura da porta que dá no quarto da enfermeira, cerca de quinze centímetros acima de onde estava o velho, deitado na cama. A direção que a bala tomou ao alojar-se na madeira parece indicar que ela foi disparada de uma das janelas – ou através dela ou de junto a ela, do lado de dentro.
“Exon acordou, é claro, mas não viu ninguém. Nós todos, minha mulher, a srta. Caywood, os Figgs e eu, também fomos acordados pelo barulho do tiro. Todos corremos para o quarto, mas não vimos nada. Não há dúvida de que quem atirou saiu pela janela. Caso contrário, algum de nós o teria visto, porque viemos cada um de uma direção. Mas não encontramos ninguém no jardim, nem qualquer sinal dessa pessoa.”
– Quem são os Figgs, e quem mais vive aqui, além de você, sua mulher, o sr. Exon e a enfermeira?
– Os Figgs são o casal Adam e Emma. Ela é arrumadeira e ele uma espécie de faz-tudo. O quarto deles fica bem nos fundos, no segundo andar. Além deles, temos Gong Lim, o cozinheiro, que dorme num quartinho perto da cozinha, e os três lavradores. Joe Natara e Felipe Fadelia são italianos e estão aqui há mais de dois anos. Jesus Mesa é mexicano e está conosco há um ano ou um pouco mais. Esses trabalhadores dormem numa casinha perto dos celeiros. Acho, se é que minha opinião tem algum valor, que nenhuma dessas pessoas tem qualquer relação com o tiro que foi disparado.
– Você tirou a bala da moldura da porta?
– Tirei. Shand, o subxerife de Knownburg, se encarregou disso. Diz ele que a bala é de calibre 38.
– Tem alguma arma desse calibre na casa?
– Não. Uma 22 e a minha, uma 44, que eu guardo no carro, são as únicas pistolas por aqui. Há também duas espingardas e um rifle 30-30. Shand fez uma busca cuidadosa e não encontrou mais nada em matéria de armas de fogo.
– O que diz o sr. Exon?
– Não muito, apenas que, se botássemos uma arma em suas mãos na cama, ele cuidaria de tudo sozinho, sem precisarmos nos preocupar em chamar polícia ou detetives. Não sei se ele sabe quem atirou nele, porque o diabo do velho não abre o bico de jeito nenhum. Pelo que sei dele, imagino que haja alguns homens que se julguem com razões para matá-lo. Ele está longe de ter sido uma flor de pessoa quando jovem, e tampouco na idade madura.
– Existe alguma coisa categórica que você saiba, ou que esteja imaginando?
Gallaway sorriu para mim – um sorriso debochado, que eu veria muitas vezes antes de me ver livre daquele caso Exon.
– As duas coisas – respondeu, com voz arrastada. – Sei que a vida dele está cheia de sócios trapaceados e amigos traídos e que ele escapou da prisão pelo menos uma vez distorcendo as provas e incriminando os próprios sócios. Sei também que sua mulher morreu em circunstâncias estranhas, tendo um seguro altíssimo, e que ele foi tido como suspeito de tê-la assassinado, até finalmente ser liberado por falta de provas. Esses são exemplos claros, acredito, do comportamento habitual do rapaz, donde pode haver muita gente querendo vê-lo pelas costas.
–Você poderia me dar uma lista com os nomes de todos esses inimigos dele, para eu mandar investigar?
– Os nomes que eu poderia lhe dar seriam apenas uma pequena parte. Além disso, você levaria meses para investigar apenas alguns. Não tenho intenção de enfrentar a trabalheira que isso daria, nem as despesas que seriam necessárias. Como já disse, não estou fazendo questão de resultados. Minha mulher está muito nervosa e, por alguma razão muito dela, parece que gosta do velho. Por isso, apenas para acalmá-la, concordei quando ela pediu que eu contratasse um detetive particular. Minha idéia é mantê-lo por aqui por uns dois dias, até que as coisas se acalmem e ela se sinta segura outra vez. Enquanto isso, se calhar de você descobrir alguma coisa, melhor para você! Caso contrário... tudo bem.
Meu rosto deve ter deixado transparecer um pouco do que me passava pela cabeça, porque os olhos dele faiscaram e ele reprimiu um risinho.
– Por favor, não pense – disse, com sua voz arrastada – que não é para você descobrir o quase assassino do meu sogro. Eu lhe dou carta branca. Faça o que bem lhe aprouver, mas peço que fique por aqui o máximo de tempo possível, para que minha mulher o veja e sinta que está sendo protegida. Fora isso, pouco me importa o que você fizer. Pode prender bandidos aos magotes. Como já deve ter percebido, não sou exatamente um admirador do meu sogro, e a recíproca é verdadeira. Para ser franco, se odiar não desse tanto trabalho, acho que eu odiaria o diabo do velho. Mas se você quiser, e puder, apanhar o camarada que deu o tiro, isso vai me deixar satisfeito. Só que...
– Está bem – falei. – Não estou muito empolgado com a tarefa, mas, já que estou aqui, vou aceitar. E aí, fique sabendo, vou tentar até o fim.
– Sinceridade e perseverança – ele exibiu os dentes num sorriso sardônico, enquanto nos levantávamos – são características muito louváveis.
– É o que ouço falar – grunhi. – Agora, gostaria de dar uma olhada no quarto do sr. Exon.
A mulher de Gallaway e a enfermeira estavam ao lado do doente, mas eu examinei o quarto antes de dirigir-lhes qualquer pergunta.
Era um quarto grande, com três largas janelas dando para o telhado da varanda, e duas portas, uma das quais dava para o hall e a outra para o aposento ao lado, ocupado pela enfermeira. Esta última estava aberta, havendo na passagem uma cortina japonesa, de cor verde. Disseram-me que era assim que permanecia durante a noite, para que a enfermeira pudesse ouvir, caso o doente estivesse inquieto ou precisasse chamá-la.
Se um homem ficasse de pé sobre o telhado da varanda, poderia perfeitamente apoiar-se no peitoril de uma das janelas (caso não quisesse pular para dentro do quarto) e atirar no velho deitado na cama. Não precisaria de muito esforço para escalar o telhado, e descer seria ainda mais fácil – bastaria escorregar até a beirada com as pernas para baixo, controlando a velocidade da descida com as mãos e os braços apoiados na ardósia, para depois pular no chão de cascalho da estradinha. Coisa simples, tanto para chegar quanto para sair. Não havia cortinas nas janelas.
A cama do doente ficava ao lado da porta que ligava o quarto dele ao da enfermeira. Isso o deixava, quando estava deitado, bem no caminho entre a porta e a janela de onde partira o tiro. Do lado de fora, não havia nenhuma construção, árvore ou evidência de qualquer tipo que sugerisse que a bala retirada do portal tivesse partido de um rifle de longo alcance.
Do quarto, passei às pessoas que ali estavam, dirigindo as primeiras perguntas ao doente. Quando tinha saúde, com certeza fora um homem magro e de altura considerável, mas agora estava esquálido, muito desgastado e de uma palidez mortal. Seu rosto era cavado e fino; os olhos redondos prendiam-se à ponte estreita do nariz; e a boca sem cor era como um talho, acima do queixo ossudo que se projetava para a frente.
A fala dele foi um primor de concisão petulante.
– Eu acordei com o tiro. Não vi nada. Não sei de nada. Tenho um milhão de inimigos, mas da maioria não me lembro nem o nome.
Falou de um jato e, em seguida, virando o rosto, fechou os olhos e se recusou a falar outra vez.
A sra. Gallaway e a enfermeira me acompanharam até o quarto desta última, onde eu lhes fiz algumas perguntas. As duas eram o completo oposto uma da outra, e havia entre elas uma certa frieza, uma hostilidade inegável, da qual eu me certificaria ao longo do dia.
A sra. Gallaway devia ser uns cinco anos mais velha do que o marido. Morena, muito bonita, com um porte de estátua, guardava nos olhos escuros uma inquietação que se acentuava sempre que ela olhava para o marido. Não havia dúvida de que ela o amava muito, e a ansiedade que exibia no olhar – o cuidado com que procurava agradá-lo, nos mínimos detalhes, durante o tempo em que permaneci na casa dos Exon – me convenceram de que ela lutava com o temor permanente de perdê-lo.
A sra. Gallaway não acrescentou nada ao que seu marido me dissera. Ela fora acordada pelo barulho do tiro, correra até o quarto do pai e não vira nada. Não sabia de nada, nem de nada suspeitava.
A enfermeira, que se chamava Barbra Caywood, contou-me a mesma história, praticamente com as mesmas palavras. Tinha pulado da cama ao ser acordada pelo barulho do disparo, puxara a cortina da porta que ligava os dois aposentos e entrara correndo no quarto de seu paciente. Fora a primeira a chegar, mas só vira o velho sentado na cama, sacudindo o pulso trêmulo na direção da janela.
A tal Barbra Caywood era uma moça de 21, 22 anos, o tipo da garota que faria qualquer homem feliz – uma garota um pouco mais baixa do que a média, de porte ereto, elegante e torneada nos lugares certos, num contraste com seu uniforme branco e severo. Seus cabelos dourados e sedosos emolduravam um rosto que, sem dúvida, merecia ser admirado. Mas ela parecia extremamente profissional e tinha um ar eficiente, por trás de toda essa beleza.
Do quarto da enfermeira, Gallaway me levou até a cozinha, onde interroguei o cozinheiro chinês. Gong Lim era um oriental de rosto triste, cujo sorriso permanente tornava-o ainda mais melancólico. Durante nossa conversa, fez muitas mesuras, sorriu o tempo todo, disse sim, sim – e não me disse nada.
Adam e Emma Figg – magro e corpulenta, respectivamente, e ambos reumáticos – colecionavam uma imensa variedade de suspeitas, dirigidas contra o cozinheiro e os três lavradores, individual ou coletivamente, variando, a cada momento, de um para outro. Mas não tinham nada em que basear suas suspeitas, exceto a certeza inabalável de que todos os crimes são cometidos por estrangeiros.
Encontrei os três lavradores – dois italianos de meia-idade, sorridentes e de grossos bigodes, e um mexicano jovem, de olhos mansos – trabalhando numa das plantações. Conversei com eles por quase duas horas e saí de lá com uma boa dose de convicção de que nenhum dos três tinha nada a ver com a história do tiro.
O dr. Rench tinha acabado de descer do quarto de seu paciente quando eu e Gallaway entramos, vindos da plantação. Era um velho baixinho e mirrado, de olhos e maneiras brandos, com um crescimento fantástico de cabelos, que proliferavam por cabeça, sobrancelhas, rosto, boca, queixo e narinas.
Disse que a excitação tinha prejudicado um pouco a recuperação de Exon, embora não acreditasse que o problema fosse sério. O paciente apresentava temperatura ligeiramente alta, mas já estava melhorando.
Quando o dr. Rench saiu, fui com ele até o carro, a fim de lhe fazer algumas perguntas, mas poderia perfeitamente ter-me poupado esse trabalho, já que as respostas não me disseram nada. Nada do que ele me disse tinha algum valor. A enfermeira, Barbra Caywood, contou-me, tinha sido contratada em San Francisco, pelos canais habituais, o que afastava a hipótese de que ela se tivesse infiltrado na casa por algum motivo escuso, talvez relacionado com a tentativa de assassinato de Exon.
Voltando da conversa com o médico, dei com Hillary Gallaway e a enfermeira no hall, quase no pé da escada. O braço dele estava pousado sobre o ombro da enfermeira e ele sorria para ela. Assim que cruzei a porta, ela se desvencilhou, deu uma risada maliciosa olhando para ele e em seguida subiu as escadas.
Não sei se ela me vira chegando antes de se desvencilhar do abraço, nem sei há quanto tempo aquele braço estava ali. E as respostas para essas duas perguntas eram cruciais para estabelecer a posição dos dois.
Hillary Gallaway não me parecia um homem que deixasse uma garota bonita como aquela sem galanteios. E ele próprio era também atraente o suficiente para tornar seus avanços não de todo indesejáveis. Tampouco Barbra Caywood me parecera o tipo de garota que se ofenderia com a admiração dele. Mas, até aí, era mais do que provável que não houvesse nada de muito sério entre eles, não mais do que uma espécie de flerte, uma brincadeira.
Mas, fosse qual fosse a situação nessa área, a questão não tinha nenhuma relação com a história do tiro – pelo menos que eu soubesse. A única coisa é que agora eu percebia a razão das relações tensas entre a enfermeira e a mulher de Gallaway.
Enquanto tudo isso passava por minha cabeça, Gallaway sorria para mim, com ar interrogativo.
– Ninguém está seguro quando há um detetive por perto – reclamou.
Eu devolvi o sorriso. Era a única resposta para se dar a uma boa bisca como aquela.
Depois do jantar, Gallaway me levou até Knownburg em sua baratinha, deixando-me na porta da casa do subxerife. Ofereceu-se para me levar de volta à casa dos Exon quando eu terminasse minhas investigações na cidade, mas, como eu não sabia quanto tempo demorariam essas investigações, disse a ele que, ao terminar, pegaria um carro.
Shand, o subxerife, era um homem grande e louro, de trinta e poucos anos, que falava e pensava com lentidão – não exatamente o tipo ideal para a função de subxerife numa cidade do Condado de San Joaquin.
– Fui até Exon assim que Gallaway me ligou – disse ele. – Acho que eram mais ou menos quatro e meia da madrugada quando cheguei lá. Não achei nada. Não havia marcas no telhado da varanda, mas isso não quer dizer nada. Eu próprio tentei escalar o telhado, depois pular de volta, e vi que não deixei marca alguma. O chão em volta da casa é duro demais para que se possa seguir pegadas. Encontrei umas poucas, mas não levavam a lugar algum. Além do mais, antes que eu chegasse, todo mundo tinha corrido para lá e para cá, em volta da casa, portanto era impossível dizer a quem as pegadas pertenciam.
“Pelo que sei, não surgiu nenhum suspeito nas vizinhanças. Os únicos caras por aqui que têm alguma querela com o velho Exon são os Deemses. Exon ganhou uma causa na Justiça contra essa família há uns dois anos, mais ou menos. Mas todos eles, o pai e os dois filhos, estavam em casa quando houve o disparo.”
– Há quanto tempo Exon mora aqui?
– Quatro anos, acho.
– Nenhuma pista, então?
– Não que eu saiba.
– O que você sabe sobre a família Exon?
Shand coçou a cabeça, pensativo, e franziu a testa.
– Acho que você está se referindo a Hillary Gallaway – disse, devagar. – Já imaginava. Os Gallaways apareceram por aqui uns dois anos depois que o pai dela tinha comprado a casa. Hillary parece que passa a maior parte de suas noites no Ady’s, um salão de jogo, onde ele ensina a rapaziada a jogar pôquer. Parece que ensina a eles direitinho. Eu não sei dizer. Ady tem essa casa de jogo, mas sem baderna, e eu os deixo quietos. Mas claro que eu mesmo nunca dou as caras por lá.
“Além de ser chegado a uma jogatina, de beber demais e de vir toda hora para a cidade, onde parece que tem uma namorada, não sei de mais nada sobre Hillary. Mas não é segredo para ninguém que ele e o sogro não se cruzam. O quarto de Hillary é bem em frente ao de Exon, e a janela do quarto dele se abre para o telhado da varanda a poucos metros da do velho. Mas sei lá...”
Shand confirmou o que Gallaway me dissera sobre o calibre da bala ser 38, sobre não haver na casa nenhuma arma desse tipo e sobre a inexistência de razão para suspeitar dos criados ou dos empregados do campo.
Passei as duas horas seguintes conversando com todos que encontrei dispostos a falar em Knownburg, e não descobri nada que valesse a pena tomar nota. Em seguida, fui até a garagem e peguei um carro com motorista, para me levar de volta a Exon.
Gallaway ainda não voltara da cidade. Como a mulher dele e Barbra Caywood iam sentar-se para um jantar ligeiro, antes de irem se deitar, eu me sentei com elas. Exon começara a noite tranqüilo e estava dormindo, disse a enfermeira. Conversamos um pouco – até cerca de meia-noite e meia – e depois fomos para nossos quartos.
Meu quarto era ao lado do da enfermeira, na mesma parede do hall que dividia o segundo andar ao meio. Sentei-me e redigi meu relatório do dia, fumei um charuto e, em seguida, como a casa estava quieta, pus no bolso um revólver e uma lanterna, descendo as escadas e saindo pela porta dos fundos.
A lua estava nascendo, banhando os campos com sua luz difusa, exceto pela mancha sombria da casa, das construções em torno e dos vários montes de arbustos. Mantendo-me nessas sombras o maior tempo possível, eu explorei os campos, não encontrando nada de anormal.
Na falta de qualquer evidência em contrário, o tiro da noite anterior parecia ter sido disparado – por acidente ou com medo de algum movimento estouvado feito por Exon – por algum ladrão, que tivesse entrado no quarto do doente pela janela. Se isso fosse fato, não havia nem uma chance em mil de que alguma coisa acontecesse nessa noite. Mas eu me sentia inquieto e sobressaltado, apesar de tudo.
O carro de Gallaway não estava na garagem. Ele não voltara de Knownburg. Debaixo da janela dos lavradores, parei, até que o ruído de roncos em três tons diferentes me garantiu que os três estavam bem quietos, dormindo.
Depois de uma hora xeretando por ali, voltei para dentro de casa. O mostrador luminoso de meu relógio marcava 2h35 da madrugada quando parei do lado de fora da porta do cozinheiro chinês, para ouvir sua respiração pausada.
No andar de cima, encostei-me à porta do quarto dos Figgs, até meus ouvidos me garantirem que eles também dormiam. Na porta da sra. Gallaway, tive de esperar vários minutos, até ouvi-la suspirar e virar-se na cama. Barbra Caywood respirava forte e profundamente, com a serenidade de um animal jovem, cujo sono não é perturbado por pesadelos. A respiração do doente veio até mim com a regularidade do sono e a dissonância de uma pneumonia em convalescença.
Feita a ronda auditiva, voltei para meu quarto.
Ainda sentindo-me inquieto e completamente sem sono, botei uma cadeira junto da janela e sentei-me, admirando o luar sobre o rio, que serpenteava logo abaixo da casa, sendo visível daquele lado. Fumei outro charuto, pensando e repensando em tudo – sem chegar a lugar algum.
Lá fora, nenhum som.
De repente, uma detonação varreu o hall, o som de um tiro sendo disparado dentro de casa! Atravessei o quarto correndo e saí para o corredor.
O grito de uma mulher – estridente, frenético – encheu a casa.
A porta do quarto de Barbra Caywood estava destrancada quando a alcancei, escancarando-a. Na luz da lua que penetrava pela janela, vi a enfermeira sentada, no meio da cama. Não parecia bonita, agora. Seu rosto estava distorcido pelo terror. O grito morria em sua garganta.
Tudo isso aconteceu num mínimo lapso de tempo, o tempo que levei para atravessar a soleira da porta.
E então ouviu-se um segundo disparo – no quarto de Exon.
O rosto da moça se contraiu – de forma tão abrupta que parecia que seu pescoço ia se partir – e ela levou as duas mãos ao peito, caindo em seguida com o rosto enfiado nas cobertas.
Não sei se passei através, por cima, ou pelo lado da cortina que ficava na porta de ligação entre os dois quartos. Já rodeava a cama de Exon. Ele estava no chão, de lado, virado para uma das janelas. Pulei por cima dele e me debrucei no parapeito.
No jardim, iluminado pela luz da lua, nada se movia. Não havia qualquer som ou sinal de fuga. Pouco depois, quando meus olhos ainda perscrutavam os campos, os lavradores surgiram, em suas roupas de baixo, correndo descalços, vindo de seus quartos. Eu gritei para eles, dando ordens para que ficassem em pontos estratégicos.
Enquanto isso, atrás de mim, Gong Lim e Adam Figg tinham colocado Exon de volta na cama, enquanto a sra. Gallaway e Emma Figg tentavam estancar o sangue que espirrava do buraco de bala, na lateral do corpo de Barbra Caywood.
Mandei Adam Figg telefonar para acordar o médico e o subxerife, em seguida corri pelas escadas, para sair ao quintal.
Assim que cheguei do lado de fora, dei com Hillary Gallaway vindo da garagem. O rosto dele estava vermelho e o hálito denunciava os refrescos que tinham acompanhado a jogatina no salão dos fundos de Ady, mas seu passo era firme e o sorriso mais relaxado do que nunca.
– Por que a agitação? – perguntou.
– A mesma da noite passada. Você cruzou com alguém na estrada? Ou viu alguém saindo daqui?
– Não.
– Muito bem. Pegue o seu carango e corra pela estrada, na direção oposta. Se vir alguém fugindo daqui, ou alguém de aspecto estranho, pare. Você tem uma arma?
Ele girou nos calcanhares, bem esperto.
– Tenho uma no meu carro – gritou, enquanto saía correndo.
Enquanto os lavradores ficavam em seus postos, varri os campos de leste a oeste, de norte a sul. Sabia que estava perdendo a chance de procurar pegadas quando amanhecesse o dia, mas tinha o palpite de que o homem que procurava ainda estava por perto. Além disso, Shand me dissera que era difícil seguir pegadas naquela terra.
No caminho de cascalho em frente à casa, encontrei a arma da qual os tiros tinham sido disparados – um revólver 38 barato, meio enferrujado, ainda cheirando a pólvora recém-queimada, com três cápsulas deflagradas e três intactas.
Foi só o que encontrei. O assassino – era como já o chamava, depois de ter visto o buraco de bala na garota – tinha desaparecido.
Shand e o dr. Rench chegaram juntos, quando eu estava terminando minha busca infrutífera. Pouco depois, chegou Hillary Gallaway – também sem ter encontrado nada.
Na manhã seguinte, o café foi uma refeição melancólica, exceto para Hillary Gallaway. Ele se segurava para não fazer gracejos sobre a confusão da noite anterior, mas seus olhos faiscavam quando cruzavam com os meus, e eu sei que ele achava uma grande piada que os tiros tivessem acontecido bem debaixo do meu nariz. Enquanto sua mulher esteve sentada à mesa, porém, ele manteve uma certa gravidade, como se em respeito a ela.
A sra. Gallaway levantou-se logo da mesa, e o dr. Rench veio sentar-se conosco. Disse que seus dois pacientes estavam em boas condições, dentro das circunstâncias, e que esperava ver os dois recuperados.
No caso da garota, a bala pegara de raspão nas costelas e no osso do esterno, atravessando a carne e os músculos do torso, entrando pelo lado direito e saindo pelo esquerdo. Exceto pelo choque e pela perda de sangue, ela não corria perigo de vida, embora estivesse inconsciente.
Como o médico informou que Exon estava dormindo, eu e Shand subimos para examinar o quarto dele. A primeira bala entrara na moldura da porta, uns dez centímetros acima da que tinha sido disparada na noite anterior. A segunda bala perfurara a cortina japonesa e, depois de atravessar o corpo da garota, alojara-se na parede. Retiramos as duas – eram de calibre 38. Ambas pareciam ter sido disparadas de perto da janela, fosse do lado de dentro ou do lado de fora.
Shand e eu submetemos o cozinheiro chinês, os lavradores e os Figgs a um interrogatório severo naquele dia. Mas eles o enfrentaram sem tremer – não havia nada capaz de incriminá-los.
E, durante todo o dia, o maldito do Hillary Gallaway ficou andando atrás de mim, de um lado a outro, com aquele olhar debochado que era muito mais eloqüente do que palavras.
– Sou o suspeito lógico. Por que você não me enquadra num de seus artiguinhos?
Mas eu me limitava a sorrir de volta, sem lhe perguntar nada.
Shand precisou ir até a cidade à tarde. Algum tempo depois, me telefonou, dizendo que Gallaway tinha saído de Knownburg naquela madrugada a tempo de estar em casa pelo menos meia hora antes de os tiros serem disparados, caso tivesse voltado dirigindo a toda, sua velocidade normal.
Passou-se o dia – rápido demais – e eu me vi temendo a chegada da noite. Por duas noites seguidas, a casa dos Exon sofrera um ataque. E agora a terceira noite estava chegando.
Durante o jantar, Hillary Gallaway anunciou que ficaria em casa naquela noite. Knownburg era um tédio em comparação, disse. E deu um sorrisinho para mim.
O dr. Rench foi embora depois do jantar, dizendo que voltaria assim que possível, mas que tinha dois pacientes para visitar do outro lado da cidade. Barbra Caywood voltara a si, mas estava histérica, e o médico lhe dera um opiáceo. Ela estava dormindo. Exon descansava tranqüilamente, exceto pela temperatura alta.
Subi ao quarto de Exon por alguns minutos, depois do jantar, e tentei fazer-lhe uma ou duas perguntas, com todo o tato, mas ele se recusou a responder e eu não insisti, porque ele estava doente.
Perguntou-me como estava a garota.
– O médico me disse que ela não corre risco de vida. Foi só o choque e a perda de sangue. Se ela não arrancar os curativos e sangrar até morrer, em um de seus ataques histéricos, ele diz que estará de pé dentro de umas duas semanas.
Quando a sra. Gallaway entrou, eu desci, dando com Gallaway que, com um ar da mais falsa gravidade, insistiu para que eu lhe contasse todos os mistérios que já conseguira resolver. Ele se esbaldava até não poder mais com meu desconforto. Ficou debochando de mim durante cerca de uma hora, enquanto eu fervia por dentro. Mas consegui continuar sorrindo para ele, fingindo indiferença.
Quando afinal a mulher dele veio sentar-se conosco – dizendo que os dois doentes estavam dormindo –, aproveitei para escapar de seu maldito marido, alegando que precisava tomar umas notas. Mas não fui para o quarto.
Em vez disso, fui pé ante pé até o quarto da enfermeira, encaminhei-me para um guarda-roupa, no qual reparara durante o dia, e me enfiei dentro dele. Deixando uma pequena fresta aberta, eu podia ver perfeitamente a porta – da qual a cortina fora retirada – e a cama de Exon, assim como a janela de onde tinham partido os três tiros e de onde poderia vir sabe Deus mais o quê.
Passou-se o tempo. Eu já estava rígido de tanto ficar ali em pé, imóvel. Mas já esperava por isso.
Por duas vezes, a sra. Gallaway subiu para espiar o pai e a enfermeira. De cada vez, eu fechei completamente a porta do guarda-roupa assim que lhe ouvi os passos no corredor. Estava me escondendo de todo mundo.
Ela acabara de fazer sua segunda visita quando, antes que tivesse tempo de reabrir a porta do guarda-roupa, eu ouvi um murmúrio e pisadas leves no chão. Sem saber o que era, nem de onde vinham, tive medo de abrir a porta. No meu canto estreito, permaneci imóvel, à espera.
Agora eu reconhecia o ruído – eram de fato passos cuidadosos, chegando perto. Passaram a pouca distância da porta do armário.
Esperei.
Um murmúrio quase inaudível. Uma pausa. O som mais débil, mais suave, de algo sendo rasgado.
E eu saí do guarda-roupa – de arma na mão.
De pé junto à cama, debruçado sobre a garota inconsciente, estava o velho Talbert Exon, o rosto afogueado pela febre, o camisolão de dormir caindo frouxo em torno de suas pernas gastas. Uma das mãos estava sobre as cobertas, que ele puxara de cima da moça. A outra segurava uma tira fina de esparadrapo, com o qual tinham sido feitos os curativos que ele arrancara. Ele rosnou para mim, atirando-se com as duas mãos sobre os curativos da moça.
Seu olhar insano, febril, mostrou-me que o revólver que eu segurava nada significava para ele. Pulei para um lado, puxei-lhe as mãos, agarrei-o e carreguei-o – chutando, unhando e xingando – de volta para a cama.
E só então chamei os outros.
Hillary Gallaway, Shand – que mais uma vez viera da cidade – e eu tomávamos café e fumávamos na cozinha, enquanto o resto da casa ajudava o dr. Rench a salvar a vida de Exon. O velho enfrentara atribulações demais nos últimos três dias, suficientes para matar um homem saudável, quanto mais alguém convalescendo de pneumonia.
– Mas por que razão o demônio do velho ia querer matá-la? – perguntou-me Gallaway.
– Eu é que sei? – retruquei, talvez um pouco ríspido. – Não sei por que ele queria matá-la, mas que queria, queria. A arma foi encontrada bem no lugar onde ele poderia tê-la jogado ao me ouvir chegar. Eu estava no quarto da garota quando ela foi atingida e cheguei correndo à janela de Exon, sem que visse nada. Você, você mesmo, chegando de Knownburg pouco depois dos tiros, não viu ninguém na estrada. E eu posso jurar que ninguém conseguiria fugir em qualquer outra direção sem ser visto por mim ou pelos lavradores.
“E então, hoje à noite, eu digo a Exon que a garota ia se recuperar se não arrancasse os curativos. Assim, ele ficou sabendo, o que é verdade, que ela vinha tentando fazer isso. E bolou o plano de arrancar as bandagens ele mesmo – talvez sabendo que a moça estava dopada – na crença de que todos iriam pensar que ela própria as arrancara. Ele já estava executando o plano – tinha tirado o primeiro pedaço de esparadrapo – quando eu pulei em cima dele. Ele atirou nela de propósito, não tenho dúvida. Talvez eu não conseguisse provar isso na justiça, sem conhecer os motivos, mas sei que atirou. Mas o médico diz que ele dificilmente sobreviverá para enfrentar um processo. Ele se matou ao tentar matar a garota.”
– Talvez você esteja certo – o sorriso debochado de Gallaway brilhou para mim –, mas você é um detetive e tanto. Por que não suspeitou de mim?
– Eu suspeitei – respondi, sorrindo também –, mas não o suficiente.
– Por que não? Talvez você esteja cometendo um erro – disse ele, com voz arrastada. – Como você sabe, meu quarto fica em frente ao dele no corredor. Naquela primeira noite, eu poderia perfeitamente ter saído pela minha janela, engatinhado pelo telhado da varanda, atirado nele e voltado correndo para o meu quarto.
“E na segunda noite, quando você já estava aqui, fique sabendo que eu saí de Knownburg a tempo mais do que suficiente de chegar aqui, estacionar meu carro na estrada por um tempo, dar aqueles dois tiros, me esgueirar pelas sombras da casa, correr de volta até o carro e depois vir dirigindo, inocentemente, até a garagem. Você devia saber também que minha reputação não é lá essas coisas, que eu tenho fama de ser um mau-caráter. Além disso, você sabe muito bem que eu não gosto do velho. Como motivo, eu teria o fato de que minha mulher é a única herdeira de Exon. Espero que – ele ergueu a sobrancelha, num gesto cômico de contrariedade – você não pense que eu tenho escrúpulos morais e que sou contra um bom assassinato de vez em quando.”
Eu ri.
– Não penso, não.
– Bem... e então?
– Se Exon tivesse sido morto naquela primeira noite e eu tivesse sido chamado, você já estaria fazendo suas piadinhas atrás das grades há muito tempo. Mesmo se ele tivesse sido morto na segunda noite, talvez eu o tivesse prendido. Mas não acho que você seja o tipo do homem que faça as coisas tão malfeitas, pelo menos, não por duas vezes. Você não teria errado o alvo e fugido, deixando o velho vivo.
Ele me cumprimentou, com gravidade.
– É comovente a gente saber que tem algumas poucas virtudes apreciadas.
Antes de morrer, Talbert Exon mandou me chamar. E me disse que não queria morrer sem saciar sua curiosidade. Sendo assim, trocamos informações. Eu lhe contei como suspeitei dele e ele me disse por que tinha tentado matar Barbra Caywood.
Quatorze anos antes, ele havia matado a própria mulher, não para receber o seguro, como na época suspeitaram, mas numa crise de ciúmes. Mas apagara tão bem as provas que jamais fora levado a julgamento. Só que o assassinato se transformara num peso em sua consciência, numa obsessão.
Ele sabia que jamais se entregaria em sã consciência – era astuto demais para isso – e que as provas contra ele jamais seriam encontradas. Mas sempre havia a possibilidade de algum dia, num delírio, dormindo, ou bêbado, ele dizer alguma coisa capaz de levá-lo para a cadeia.
Pensava muito nisso, até que se tornou um pavor mórbido, que o perseguia, sempre. Tinha parado de beber – e isso fora fácil –, mas não havia meio de se precaver contra as outras possibilidades.
E uma delas, disse, finalmente acontecera. Ele pegara uma pneumonia, ficando durante uma semana inconsciente – e falando. Passada aquela semana de delírio, ele sondara a enfermeira. Ela lhe dera respostas vagas, não lhe dizendo nunca sobre o que ele falara em sonho, o que dissera. E então, em momentos de distração, ele flagrara a enfermeira olhando-o com desprezo – com intensa repulsa.
E teve a certeza de que tinha falado sobre o assassinato da mulher. Foi assim que começou a traçar o plano para acabar com ela, antes que dissesse o que tinha ouvido. Enquanto ela continuasse na casa, ele se sentiria seguro. A moça não contaria nada a estranhos. Podia ser até que, durante um tempo, não dissesse nada a ninguém. A ética profissional talvez a mantivesse calada. Mas ela não poderia nunca deixar aquela casa carregando o segredo.
Todos os dias, secretamente, ele testou a própria força, até convencer-se de que já estava recuperado o suficiente para dar alguns passos pelo quarto e segurar uma arma com firmeza. Felizmente, sua cama estava numa posição favorável – bem em frente a uma das janelas e também diante da porta e da cama da moça. Numa velha caixa onde guardava papéis, dentro do armário – ninguém conhecia o conteúdo daquela caixa –, ele mantinha um revólver. Um revólver que de forma alguma seria uma pista contra ele.
Naquela primeira noite, apanhara o revólver, afastara-se alguns passos da cama e dera um tiro na moldura da porta. Em seguida, pulara de volta para a cama, escondendo a arma entre as cobertas – onde ninguém pensaria em procurá-la – até poder colocá-la de volta na caixa.
Era a preparação de que precisava. Tinha criado uma tentativa de assassinato contra si próprio e mostrado que um tiro disparado na direção dele poderia passar perto da porta de conexão – e conseqüentemente atravessá-la.
Na segunda noite, esperou até que a casa estivesse quieta. Em seguida, espiou a garota através de uma fresta da cortina japonesa. Podia vê-la sob a luz da lua. Mas descobriu que, caso se distanciasse muito da cortina, para que ela não apresentasse marcas de pólvora, já não conseguiria enxergar a moça – não, se ela estivesse deitada. E, assim, atirou primeiro na moldura da porta – perto do outro buraco de bala –, para que a enfermeira acordasse.
Ela se sentara na cama imediatamente, gritando, e então ele atirara nela. Pretendia dar-lhe mais um tiro – para ter certeza de que morreria –, mas minha chegada atrapalhara o plano. Minha chegada impossibilitara também que ele escondesse a arma, o que fez com que, usando as forças que lhe restavam, jogasse o revólver pela janela.
Talbert Exon morreu naquela tarde, e eu voltei para San Francisco.
Mas a história não terminou aí.
Num procedimento corriqueiro, o departamento de contabilidade da Agência mandou a Gallaway a conta por meus serviços. Junto com o cheque que ele mandou pelo correio, Gallaway mandou uma carta, da qual extraio o primeiro parágrafo:
“Não podia deixar você perder o melhor de toda a história. A adorável Caywood, ao se recobrar, negou que Exon tivesse falado dormindo, em seu delírio, sobre assassinato ou sobre qualquer outro crime. A causa do desdém que ele pode ter percebido nos olhos dela, e a razão pela qual ela se recusara a contar a ele o que ouvira, é que a conversa dele, durante toda a semana que passou delirando, foi uma torrente ininterrupta de obscenidades e blasfêmias, que parecem ter chocado a moça tremendamente.”
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