Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 24 de 44

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Tiros na Noite

O anjo do segundo andar

Carter Brigham – Carter Webright Brigham, como aparecia nos sumários de diversas revistas populares – acordou sobressaltado, passando do estado inconsciente para a plena consciência com rapidez excessiva para duvidar que seu sono tivesse sido perturbado por algo exterior.

Não havia luar, e seu apartamento dava para o lado contrário das luzes da rua. A escuridão à sua volta era completa; ele sequer enxergava o pé da cama.

Prendendo a respiração, e não se movendo após aquele primeiro sobressalto, permaneceu deitado, de olhos e ouvidos bem abertos. No instante seguinte, sobreveio um barulho – talvez a repetição do som que o despertara – do aposento vizinho: um movimento furtivo de pés atravessando as tábuas corridas. Um momento de silêncio... e uma cadeira arrastando sobre o chão, como que deslocada pelo esbarrão de uma canela. Em seguida, silêncio novamente, e um leve ruge-ruge, como se um corpo roçasse contra o papel áspero da parede.

Carter Brigham não era nem herói, nem covarde, e não estava armado. Não havia nada mais letal em seu apartamento do que um par de candelabros, e mesmo estes – nada desprezíveis como armas em uma situação de emergência – estavam do outro lado do aposento de onde vinham os barulhos.

Tivesse sido acordado por ruídos muito leves e pouco repetitivos vindos do outro aposento – barulhos do tipo que nem o ladrão mais habilidoso consegue evitar – é provável que Carter se limitasse a permanecer na cama e a tentar afugentar o ladrão a brados. Ele não teria desconsiderado o fato de que, naquelas condições, o invasor possuiria todas as vantagens em um confronto corpo a corpo.

Porém, o invasor em questão fizera grande comoção, esbarrara até em uma cadeira, mostrara-se um incompetente no quesito sutileza. Não ocorreu ao homem na cama que um ladrão inexperiente pode ser tão perigoso quanto um profissional.

Talvez fosse porque, nas muitas histórias policiais que escrevera, a eficácia do matador sempre se aliasse a um certo grau de habilidade, e os trapalhões sempre fossem relativamente inócuos e fáceis de derrotar. Ele passara a encarar essa teoria como uma verdade absoluta. Afinal, mais cedo ou mais tarde, as pessoas acabam por acreditar naquilo que afirmam com freqüência.

De qualquer modo, Carter Brigham deslizou com cuidado seu corpo mais ou menos musculoso de entre os lençóis e avançou silenciosamente nas pontas dos pés descalços em direção à porta aberta do aposento de onde tinham vindo os sons. Passou de sua cama para dentro da sala ao lado, as costas contra a parede da porta, aproveitando um interlúdio de silêncio da parte do invasor.

O aposento em que Carter se encontrava estava tão escuro quanto aquele de onde viera; então permaneceu imóvel, aguardando algum movimento que indicasse a posição do invasor.

Não foi preciso muita paciência. Logo o ladrão se moveu de novo, audivelmente; e, em seguida, Carter distinguiu contra o retângulo da janela – um pouco mais claro apenas do que o resto do aposento – uma sombra humana, ligeiramente mais escura, que avançava em sua direção. A sombra passou a janela e se perdeu na escuridão que tudo envolvia.

Com o corpo retesado, Carter não se moveu até achar que o ladrão havia alcançado um ponto em que não havia móveis no caminho. Aí, lançou-se para a frente, com mãos em garra projetando-se de braços muito abertos.

Seu ombro atingiu o invasor, e ambos foram ao chão. Um antebraço ergueu-se contra o pescoço de Carter, apertando-o. Ele o arrancou e sentiu um golpe atingir-lhe a face. Enlaçando com um braço o corpo do ladrão, devolveu-lhe o golpe com o outro punho. Rolaram várias vezes pelo chão até pararem contra as pernas de uma mesa maciça, o ladrão por cima.

Tirando um prazer quase selvagem do exercício da própria força, que se mostrara amplamente superior à do outro na luta até então, Carter girou seu corpo, esmagando seu adversário contra a mesa pesada. Em seguida, enterrou o punho no corpo do qual acabara de se desvencilhar e apressou-se em ficar de joelhos, buscando um ponto para agarrar o pescoço do ladrão. Quando o encontrou, descobriu que o invasor jazia imóvel, sem esboçar reação. Rindo em triunfo, Carter ficou de pé e acendeu as luzes.

A moça no chão não se mexeu.

Permanecia inanimada, meio deitada, meio curvada, sobre o pé da mesa contra a qual ele a impelira. Parada e contorcida, trajava um terninho preto austero – uma manga se rasgara na altura do ombro –, com uma massa confusa de cabelos castanhos cortados curtos encimando um rosto branco como linho, a não ser nos locais avermelhados pelos golpes. Seus olhos estavam fechados. Um braço se projetava pelo chão, e o outro se pendurava molemente a seu lado. Uma perna sedosa encontrava-se estendida; a outra, dobrada sob seu corpo.

Para o canto da sala rolara seu chapéu, um pequeno toque preto. Não longe do chapéu, encontrava-se um pé-de-cabra mínimo, que ela usara para forçar sua entrada.

A janela que dava para a escada de emergência – à noite, sempre travada – estava escancarada, seu fecho dependurado torto.

De modo metódico, quase mecânico – pois até pouco tempo antes fora repórter em um jornal matutino, e o aprendizado de anos não se desaprende em algumas semanas –, os olhos de Carter registraram esses detalhes e os comunicaram a seu cérebro, enquanto ele se esforçava para vencer o espanto.

Após algum tempo, os neurônios retomaram suas funções, e ele foi se ajoelhar ao lado da moça. O pulso estava regular, mas, fora isso, não havia sinais de vida. Ergueu-a do chão e carregou-a até o sofá de couro do outro lado da sala. Em seguida, trouxe água fria do banheiro e pegou conhaque na estante. Generosas doses da primeira aplicadas às suas têmporas e ao seu rosto e do segundo por entre seus lábios surtiram finalmente um tremor na sua boca e uma ligeira agitação de suas pálpebras.

Na seqüência, abriu os olhos, examinou confusa a sala a seu redor e tentou se erguer. Ele pressionou sua cabeça levemente contra o sofá.

– Fique quieta mais um pouquinho, até você se sentir melhor.

Parecia que ela o via então pela primeira vez, e que se dava conta de onde se encontrava. Desvencilhou sua cabeça da mão repressora e sentou-se, impelindo os pés de encontro ao chão.

– Então, perdi de novo – disse, afetando uma indiferença que traía um leve resquício de amargura, seus olhos encontrando os dele.

Eram olhos verdes, muito compridos, e iluminavam seu rosto que antes, desprovido de sua luz, parecera severo demais para ser belo, apesar da regularidade polida de suas feições.

O olhar de Carter fixou a bochecha manchada dela, no lugar em que seu punho deixara marcas lívidas.

– Sinto muito ter batido em você – se desculpou. – No escuro, imaginei naturalmente que se tratasse de um homem. Não teria...

– Deixa para lá – ela ordenou friamente. – Faz parte do jogo.

– Mas, eu...

– Ai, pára com isso! – Impaciente. – Não é nada. Estou bem.

– Folgo em saber.

Os dedões do pé desnudos insinuaram-se em seu campo de visão, e ele foi ao quarto buscar chinelos e roupão. Quando voltou, a moça o observava em silêncio, o rosto calmo e desafiante.

– Agora – sugeriu ele, aproximando a cadeira –, por que você não me conta o que está acontecendo?

Ela deu uma risadinha.

– É uma longa história, e os homens devem estar chegando a qualquer momento; então não dá tempo de contar.

– A polícia?

– É.

– Mas eu não os chamei. Por que haveria de fazer isso?

– Sabe-se lá! – Ela deu uma olhadela pelo quarto e, abruptamente, fitou-lhe olho no olho. – Se você acha que vou negociar minha liberdade, companheiro – sua voz desdenhosamente gélida –, está muito enganado!

Ele rechaçou a idéia. Em seguida:

– Então me diz do que se trata.

– Prontinho para ouvir uma história triste? – zombou. – Bem, vamos lá: deu uns contratempos nos últimos serviços que fiz e tive que dar uma desaparecida, tão desaparecida que passei uns dois dias sem comer nada. Calculei que teria que fazer mais um servicinho para conseguir grana para me mandar, dar um tempo longe da cidade. E o serviço era este aqui. Estava meio zonza por causa da fome e fiz barulho demais. Mesmo assim – risada desdenhosa –, você nunca teria me agarrado se eu estivesse armada.

Carter estava de pé.

– Tem um pouco de comida na geladeira. A gente come antes de continuar a conversa.

Ouviu-se um grunhido da janela aberta pela qual entrara a moça. Ambos se viraram em sua direção. Estava enquadrado nela um homem rubro e corpulento vestindo um terno reluzente de sarja azul e um chapéu-coco preto. Ele atravessou uma perna grossa por cima do peitoril e entrou na sala, com a agilidade pesada de um urso.

– Ora, ora – as palavras surgiam com satisfação de seus lábios grossos, sombreados por um bigode cinza tosquiado –, não é que é a minha velha amiguinha Angel Grace!

– Cassidy! – exclamou debilmente a moça, e em seguida recaiu na impassibilidade obstinada de antes.

Carter deu um passo para a frente.

– Pode ficar tranqüilo! – assegurou-lhe o recém-chegado, ostentando o distintivo reluzente. – Detetive-sargento Cassidy. Estava passando por aqui e percebi alguém subindo a sua escada de incêndio. Resolvi esperar e flagrar o elemento na saída. Mas cansei de ficar esperando e subi para dar uma olhada.

Voltou-se jovial para a moça.

– E acabou que é a Angel em pessoa! Vamos embora, menina, vamos dar uma voltinha.

Carter estendeu a mão para impedir a moça, que já se encaminhava submissa em direção ao detetive.

– Espera aí um minutinho. Não podemos dar um jeito? Eu não quero registrar queixa.

Cassidy olhou maliciosamente para a moça, para Carter, de novo para a moça, e meneou a cabeça em negativa.

– Sem chance! O anjinho aqui está sendo procurado por meia dúzia de serviços. Não faz diferença se o senhor dá queixa ou não... de qualquer jeito, ela vai responder por muita coisa.

Ela assentiu com um movimento da cabeça.

– Obrigado, meu caro – disse ela a Carter, com menos displicência do que pretendia –, mas eles me querem muito.

Mas Carter não iria ceder tão facilmente assim. Os deuses não enviam uma ladra em carne e osso para o apartamento de um escritor todas as noites da semana. Valia a pena brigar para manter uma dádiva daquelas. Dentro dessa moça, imaginou, deveria haver matéria-prima para milhares ou dezenas de milhares de palavras de ficção. Era possível entregar de bandeja um prêmio assim? Sem falar que era atraente, o que por si só já era alguma coisa. Outro motivo ainda mais forte – embora talvez fosse o mais difícil de explicar – exigia que ele a ajudasse: a mancha colorida deixada por seus punhos na carne lisa da sua bochecha.

– Não dá para a gente chegar a alguma espécie de acordo? – perguntou. – Será que não tem um jeito... hum... extra-oficial de contornar as acusações por enquanto?

As sobrancelhas pesadas de Cassidy se contraíram e a vermelhidão natural de suas faces se fez mais escura.

– O senhor está tentando...

Parou no meio da frase, e seus pequenos olhos azuis se estreitaram ao ponto de quase desaparecerem por completo.

– Pode continuar. Quem manda é o senhor.

Carter sabia que suborno era um assunto sério, principalmente em se tratando de um policial. A lei não pode ser desviada de forma leviana, pervertida por um indivíduo. Jogar alguns pedacinhos de papel-moeda na direção desse instrumento poderoso, na expectativa de desviá-lo do seu propósito, seria, no mínimo, um procedimento temeroso.

Porém, a lei que se lhe apresentava na pessoa desse Cassidy gordo, em trajes mal-ajambrados e nada impecáveis, embora fosse sem dúvida a mesma lei, parecia menos intimidante, menos inacessível. Tomava quase uma dimensão humana... a dimensão de um homem não inteiramente desprovido de falhas e fraquezas. Para dizer a verdade, a lei nesse momento o encarava através de pequenos olhos azuis que traíam claramente a ganância, apesar da indiferença com que o rosto em que se situavam tentava dissimular esse fato.

Carter hesitou, buscando as palavras mais atraentes para envolver sua proposta, mas o detetive lhe livrou da incumbência de abordar o assunto.

– Olha só, doutor – disse com franqueza –, já captei a proposta! Mas, numa boa, duvido que valha o que vai lhe custar.

– E quanto custaria?

– Bem, só de recompensa pela captura são quatrocentos, que eu saiba... talvez seja até mais.

Quatrocentos dólares! Era bem mais do que Carter imaginara pagar. Mesmo assim, as informações que ele conseguiria com ela valeriam muitas vezes mais.

– Fechado! – respondeu. – Quatrocentos, então.

– Pera lá! – murmurou Cassidy. – Isso não me adianta nada! O senhor está achando que sou otário? Se eu entrego ela, não só me dão os quatrocentos, como ganho pontos, para ser promovido. Por que cargas d’água eu vou soltar ela para ganhar o mesmo valor e ainda correr o risco de me danar se alguma coisa vaza?

Carter teve de reconhecer a justeza do raciocínio do detetive.

– Quinhentos – ofereceu.

Cassidy meneou a cabeça enfaticamente.

– Na boa, não dá para deixar por menos de mil... e o senhor seria trouxa se pagasse isso. Ela é uma garota bacana, eu sei, mas o mundo está cheio de garotas tão bacanas quanto ela, e muito mais baratas.

– Não posso pagar mil – afirmou Carter lentamente. Ele só tinha alguns dólares a mais do que isso na conta bancária.

O bom senso aconselhava-o a não gastar tudo que tinha para ajudar a moça; rezava que mesmo o pagamento de quinhentos dólares por sua liberdade seria romper com os limites da conduta racional.

Erguia a cabeça para reconhecer a derrota e para autorizar Cassidy a levá-la embora, quando seus olhos fixaram a moça. Embora ela ainda se esforçasse para manter sua postura de indiferença irônica para com o seu destino – e conseguiu, de fato, estampar no rosto um sorriso estouvado –, seu queixo tremia e já não posicionava os ombros com tanta empáfia.

Os ditames da razão contavam por quase nada diante de tais indícios de desespero.

Independentemente da vontade consciente, Carter ouviu-se dizer:

– O máximo que posso oferecer são setecentos e cinqüenta.

Cassidy meneou a cabeça vigorosamente, mas prendeu um canto do lábio inferior entre os dentes, o que esvaziou o gesto de seu teor definitivo.

Encorajada pela indecisão do detetive-sargento, a moça colocou uma impulsiva mão sobre o seu braço e acresceu à tentação do dinheiro o peso da sua personalidade.

– Ah, vamos lá, Cassidy – implorou. – Seja um cara legal... quebra esse galho para mim! Pega aí os setecentos e cinqüenta! Você já tem a reputação ótima; não precisa me entregar!

Cassidy se voltou abruptamente para Carter.

– Estou dando uma de otário, mas vai lá, passa logo a grana.

Quando viu Carter retirar o talão de cheques da gaveta da escrivaninha, Cassidy quis voltar atrás, exigindo pagamento em espécie. Conseguiram convencê-lo finalmente a aceitar um cheque ao portador.

Chegando à porta, ele se virou e balançou um dedo gordo para Carter.

– Não se esqueça – ameaçou –, se tentar aprontar alguma coisa com esse cheque, eu acabo com você, nem que para isso eu tenha que forjar as provas!

– Não vou aprontar nada – assegurou Carter.

Ninguém poderia duvidar que a moça tinha fome. Ela devorou o rosbife frio, salada, pão, doces e café que Carter lhe ofereceu. Nenhum dos dois falou muito enquanto ela comia. A comida monopolizava sua atenção, enquanto o cérebro de Carter se ocupava em planejar como tirar o máximo proveito da oportunidade que se lhe apresentava.

Quando chegaram aos cigarros, o humor da moça suavizou um pouco, e Carter conseguiu persuadi-la a falar de si. Permaneceu claro, no entanto, que ela o aceitara com muitas reservas, e não deu nenhum sinal de baixar a guarda.

Contou-lhe sua história sucintamente, sem entrar em maiores detalhes.

– Meu velho se chamava John Cardigan, porém era mais conhecido como “John Caixa de Papelão” por causa do truque que tinha de carregar suas ferramentas numa caixa de sapatos, o que não levantava suspeitas. Sem querer puxar a brasa demais, ele era um dos ladrões mais habilidosos que já vi no crime! Não me lembro muito bem de minha mãe. Ela morreu ou se mandou ou alguma coisa assim quando eu era garotinha, e o velho não gostava de falar dela.

“Mas eu tive uma criação das melhores, do ponto de vista do crime. O velho era um gênio na sua área, e meu irmão mais velho, Frank – ele está cumprindo pena de um a quatorze anos em Deer Lodge –, não era nenhum amador com o abridor de latas... arrombamento de cofres, entendeu? Juntando eles com as gangues que freqüentavam, eu tive uma formação muito boa, num certo sentido.

“Tudo estava indo muito bem, eu cuidando da casa para o velho e Frank, e eles me dando tudo que eu queria, até uma noite em que o velho foi apagado por um vigia noturno na Filadélfia. Algumas semanas depois, eles apanharam Frank em algum cafundó lá de Montana... uma tal de Great Falls. Aí fiquei na dureza. Não tínhamos muito dinheiro guardado – o que entra fácil, sai fácil –, e o pouco que tinha, eu mandei para o advogado de Frank, para que tentasse soltar ele. Mas não deu em nada; pegaram ele de jeito e não teve senão.

“Depois disso, tive que me virar. Ou eu aproveitava os conhecimentos que Frank e o velho tinham me passado, ou eu virava mulher da vida. É claro que eu não teria que ir parar na rua mesmo; tinha vários caras dispostos a me bancar. Acontece que é uma maneira canalha de ganhar a vida. Não quero pertencer a ninguém!

“Vai ver você acha que eu devia ter conseguido um emprego numa loja ou numa fábrica ou alguma coisa assim. Mas, para começo de conversa, não é fácil uma garota sem experiência ganhar o suficiente para se sustentar. Além do mais, metade dos tiras da cidade sabiam que eu era filha do velho, e não iam guardar segredo se me encontrasse trabalhando em algum lugar... no mínimo iam achar que eu estava estudando o local para preparar algum golpe.

“Então, pesando as opções, resolvi me arriscar no ofício do velho. Foi moleza desde o começo. Eu sabia todos os truques e não era difícil colocá-los em prática. O fato de eu ser garota até ajudou. Mais de uma vez, quando me pegaram com a boca na botija, as pessoas acreditaram que eu tinha entrado no lugar errado por engano.

“Mas ser garota também tinha suas desvantagens. Como só tinha eu de mulher no ramo, meu trabalho logo ficou conhecido. Não demorou para os tiras pegarem o meu rastro. Me apanharam umas duas ou três vezes, mas eu tinha um bom advogado, que conseguia me livrar das acusações. Eles acabavam me soltando, mas não me esqueciam.

“Aí teve uns trabalhos que deram errado. Fiz uns serviços dos quais sabiam que eu não ia conseguir me safar, e passaram a me procurar direto. Para piorar, eu dispensei vários caras que tentaram me cantar uma ou outra vez, e esses aí passaram a falar mal de mim. Diziam para todo mundo que eu era metida, e isso me sujou com gente que podia ter me dado uma força na hora do aperto.

“Então, além de me esconder dos tiras, eu tinha que driblar metade dos bandidos da cidade também, com medo que me dedurassem. Essa história de ladrão com ética não funciona muito em Nova York!

“No final, a coisa ficou tão difícil que eu não conseguia nem voltar para o meu quarto, onde guardava minhas roupas e a pouca grana que tinha. Fiquei num esconderijo do outro lado da cidade, só prestando atenção nos tiras que estavam vigiando o lugar e sabendo que, se mostrasse a cara, eles me pegavam.

“Chegou uma hora que não dava mais para ficar lá. Não tinha comida, e eu não conseguia encontrar ninguém de confiança; então apostei tudo e fugi pelo telhado, com a idéia de dar uma investida no primeiro lugar que encontrasse, para ver se conseguia um mínimo para comer e para dar no pé da cidade.

“E foi este aqui o lugar que escolhi, e cá estamos, no fim da minha historinha.”

Ficaram em silêncio durante um momento, ela observando Carter de esguelha para tentar adivinhar seus pensamentos, ele contemplando o relato e admirando seu potencial literário.

Ela começou a falar de novo, a voz recuperando o tom ligeiramente metálico que possuíra antes que ela se descuidasse um pouco de sua postura desconfiada, na ânsia de contar a história.

– Olha só, meu camarada, não sei qual é o seu jogo, mas já te avisei que não estou a fim de conversa.

Carter riu.

– Angel Grace... é um bom nome, pois você foi enviada por inspiração divina – comentou, acrescentando com leve acanhamento: – Meu nome é Brigham, Carter Webright Brigham.

Pausou, traindo certa expectativa, que logo se concretizou.

– O que, o escritor?

O reconhecimento imediato da moça o deixou radiante. Ainda não havia alcançado o patamar de sucesso em que esperava que todos o conhecessem.

– Você já leu alguma coisa minha? – indagou.

– Claro! “Veneno para um” e “O acordo” na Warner’s Magazine, “Vingança S.A.” na revista National e todos os seus contos na Cody’s!

O tom da voz não deixava dúvida de que havia gostado de suas histórias, mesmo sem levar em consideração o testemunho adicional dado pela admiração que substituíra em seus olhos o cálculo.

– Pois está aí a sua resposta – disse ele. – O dinheiro que dei para Cassidy é um investimento em uma mina de ouro. Seus relatos darão grandes contos, e as revistas vão adorar!

Curiosamente, não pareceu lhe dar prazer a descoberta de que o interesse dele era de ordem estritamente profissional. Ao contrário, surgiram pequenas sombras nos límpidos campos verdes de seus olhos.

Percebendo-as, Carter logo acrescentou, por alguma apreensão intuitiva:

– Mas creio que teria feito a mesma coisa, mesmo que não houvesse histórias. Não podia deixar que ele a levasse para a prisão.

Ela sorriu um tanto descrente, mas seus olhos se desanuviaram.

– Está muito bem – observou ela –, até onde vai. Mas não esqueça que Cassidy não é o único detetive da cidade na minha cola. E não se esqueça que vai sobrar para você se me ajudar.

Carter aterrissou.

– É verdade! Vamos ter que pensar no que fazer.

A moça falou:

– Na certa vou ter que sair da cidade! Tem muita gente me procurando, e sou conhecida demais. E tem mais uma coisa: você só pode confiar no Cassidy enquanto ele não gastar todo o dinheiro, o que não vai demorar. Se vacilar, ele está perdendo tudo no carteado agorinha mesmo. Assim que ele estiver duro, volta a procurar você. Você está seguro, porque ele teria que se incriminar para provar qualquer coisa contra você; mas se eu estiver por perto, ele me prende no ato, a não ser que você ofereça mais grana. E ele vai tentar usar você para me encontrar. A única solução para mim é fugir.

– É isso que faremos – exclamou Carter. – Escolheremos um lugar seguro, não muito longe, para onde você possa ir ainda hoje. Eu encontro você lá amanhã, e faremos planos mais definitivos.

Quando concluíram sua combinação, já era o meio da manhã.

Carter foi ao banco assim que abriu e sacou tudo que tinha, deixando apenas o valor dos cheques que estavam na praça, incluindo o do detetive-sargento. A moça precisaria de dinheiro para comida e hospedagem, e também para comprar roupas, pois tinha certeza de que seu quarto continuava a ser vigiado pela polícia.

Ela deixou o apartamento de Carter em um táxi, com instruções para comprar roupas de cor e estilo diferentes das que usava, para destoar da descrição que estava nas mãos da polícia. Em seguida, devia pegar um outro táxi e seguir até uma estação ferroviária distante da cidade, evitando a possibilidade de ser reconhecida, apesar das roupas novas, por policiais nas estações de trem e balsa. Na estação distante, apanharia um trem para uma cidade do interior do estado, onde haviam marcado encontro.

Carter iria no dia seguinte.

Ele não a acompanhou até a porta da rua, mas despediu-se dela dentro do apartamento. Na hora de partir, ela deixou de lado o jeito cínico, durão, e tentou manifestar sua gratidão.

Mas ele a impediu, arremedando desajeitadamente a recomendação feita por ela na noite anterior:

– Ai, pára com isso!

Carter Brigham não trabalhou naquele dia. O conto que escrevia lhe pareceu duro e sem vida e inteiramente sem relação com a realidade. O dia e a noite se arrastaram mas, embora devagar, acabaram passando, e finalmente ele se viu descendo de um trem sujo na cidadezinha onde ela devia estar à sua espera.

Ao registrar-se no hotel que haviam escolhido, deu uma olhadela na página em que estavam os registros do dia anterior. Não constava o nome que ela deveria usar, “sra. H.H. Moore”. Indagando discretamente, descobriu que ela não havia chegado.

Carter enviou suas malas para o quarto e saiu para verificar os dois outros hotéis da cidade. Ela não estava em nenhum dos dois. Comprou no jornaleiro um monte de jornais de Nova York. Não havia nada sobre a prisão dela. Não havia sido apanhada na saída da cidade, senão os jornais teriam dado destaque à história.

Durante três dias ele se agarrou à esperança de que ela não tivesse fugido. Passou três dias em seu apartamento de Nova York, os ouvidos em alerta para escutar o tilintar do telefone, checando obsessivamente sua correspondência, sempre a esperar o mensageiro, que não veio. De vez em quando, mandava telegramas para o hotel do interior, telegramas inúteis.

Acabou aceitando a verdade incontestável: ela decidira – talvez sempre tivesse tido esta intenção – não correr o risco de reencontrá-lo e escolhera um outro esconderijo. Não tivera intenção de cumprir suas obrigações para com ele, apenas recebera sua ajuda e partira.

Passou mais um dia ocioso enquanto se acostumava com a amarga consciência do fato. Em seguida, decidiu resgatar o que podia da situação. Felizmente, parecia ser bastante. O enredo simples que a moça lhe havia relatado podia ser transformado com facilidade em uma novela, para a qual haveria mercado certo. As histórias de ladrão estavam sempre em demanda, em especial uma que tivesse uma legítima ladra-donzela, retratada do modelo vivo.

Ao debruçar-se sobre a máquina de escrever, a atenção voltada para seu ofício, sua decepção começou a se desfazer. A moça havia partido. Ela o havia tratado de modo ingrato, mas talvez fosse melhor assim. O dinheiro que ela lhe havia custado seria reposto com juros pela venda dos direitos de veiculação da história como folhetim. Quanto à questão pessoal: ela era de fato linda, fascinante e até simpática, mas não deixava de ser uma criminosa...

Durante vários dias, só saiu de frente da máquina de escrever para comer e dormir, e mesmo assim pouco.

Finalmente o manuscrito ficou pronto, e ele o colocou no correio. Durante os dois dias seguintes, descansou com a mesma intensidade com que havia trabalhado, ficando na cama até tarde, passando o dia sem fazer nada, repondo o desgaste de energia nervosa que o trabalho sempre lhe custava.

No terceiro dia veio um bilhete do editor da revista à qual havia enviado a história, pedindo que comparecesse à redação no dia seguinte às duas e meia.

Havia quatro homens com o editor na hora em que ele entrou no escritório. Dois deles, ele conhecia: Gerald Fulton e Harry Mack, também escritores. Ele foi apresentado aos outros dois: John Deitch e Walton Dohlman. Embora não os conhecesse pessoalmente, conhecia o seu trabalho; eles escreviam para algumas das mesmas revistas que publicavam seus contos.

Quando todos estavam sentados, com cigarros e charutos acesos, o editor sorriu para os rostos que o encaravam com franca curiosidade.

– Agora, vamos ao assunto. De início, vocês vão pensar que é um assunto bastante esdrúxulo, mas vou tentar não me alongar mais do que o necessário.

Voltou-se para Carter:

– Sr. Brigham, o senhor se importaria de nos contar como obteve a idéia para a sua história “O anjo do segundo andar”?

– Claro que não – principiou Carter. – Foi até bastante curioso. Acordei certa noite com o barulho de um ladrão no meu apartamento e me levantei para investigar a situação. Derrubei-o e lutamos no escuro por algum tempo. Aí acendi as luzes e...

– Era uma mulher, uma moça! – interrompeu Gerald Fulton, quase sem voz.

Carter deu um salto.

– Como sabia? – exigiu ele.

Percebeu então que Fulton, Mack, Deitch e Dohlman estavam todos eretos em suas cadeiras e que seus rostos tão heterogêneos traziam todos a mesma expressão estupefata.

– E após algum tempo, entrou um detetive?

Era a voz de Mack, mas rouca e amortecida.

– Seu nome era Cassidy!

– E por um preço, ajeitava as coisas – arrematou Deitch.

Depois disso, houve um longo silêncio, enquanto o editor fingia interessar-se pelos contornos de um peso de papel redondo, de vidro, que se encontrava sobre a mesa, e os quatro escritores profissionais fitavam intensamente o nada, os rostos acanhados e ruborizados como beterrabas.

O editor abriu a gaveta e retirou uma pilha de manuscritos.

– Aqui estão – disse ele. – Eu sabia que havia algo de errado quando recebi cinco histórias em dez dias que, embora diferentes no tratamento, eram sem dúvida todas sobre a mesma garota!

– Joga a minha no lixo – instruiu Mack, com delicadeza, e os outros menearam a cabeça concordando com a idéia. Todos, menos Dohlman, que parecia estar relutando com uma idéia. Finalmente, ele se dirigiu ao editor.

– É uma boa história, não é, em todas as suas cinco versões?

O editor assentiu.

– Sim, eu teria comprado uma, mas cinco...

– Por que não comprar uma? A gente tira na sorte...

– Tudo bem, acho justo – disse o editor.

Assim foi feito. Ganhou Mack.

Os olhos azuis de Gerald Fulton ficaram mais redondos do que nunca, olhando atônito para o grupo. Afinal, encontrou palavras:

– Meu Deus! Quantos outros estarão a escrever agora mesmo essa mesma história?

Mas transitava pela cabeça de Carter uma dúvida de ordem inteiramente diversa.

Diacho! Será que ela beijou também o resto desse bando de marmanjos?

 

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