Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 16 de 44

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Tiros na Noite

Capítulo X

Novamente, deixei Vance Richmond abruptamente. Este advogado estava determinado a me pressionar. E eu gosto que os meus trabalhos sejam apenas trabalhos. As emoções são um aborrecimento na hora do serviço.

X

Naquela noite, às quinze para as sete, enquanto O’Gar esperava no fim da rua, toquei a campainha de Jacob Ledwich. Como dormira no apartamento de Bob Teal na noite anterior, eu ainda trajava as roupas que vestira quando me apresentei a Ledwich como Shine Wisher.

Ledwich abriu a porta.

– Olá, Wisher – disse ele sem o menor entusiasmo. E me conduziu escada acima.

O apartamento ocupava uma exata metade do segundo andar, tinha quatro cômodos, portas de frente e de fundos, e era mobiliado com móveis ordinários, característicos de qualquer apartamento mobiliado de preço médio em qualquer parte do mundo.

Sentamos no salão da frente, fumamos e conversamos enquanto nos medíamos um ao outro. Parecia nervoso. E acho que teria ficado muito agradecido se eu não tivesse aparecido.

– Sobre aquele serviço que você mencionou – perguntei em dado momento.

– Desculpe – disse ele, umedecendo a boquinha saliente –, mas está tudo acabado. – E, obviamente após ter pensado melhor, acrescentou: – Por enquanto, pelo menos.

Imaginei que o meu trabalho seria cuidar de Boyd. Mas Boyd já havia sido muito bem cuidado.

Ele trouxe uísque e conversamos sobre coisa nenhuma durante algum tempo. Estava tentando não parecer tão ansioso para se ver livre de mim enquanto eu o observava cuidadosamente.

Juntando as coisas que ele deixava escapar aqui e ali, concluí que era um ex-presidiário fazendo um servicinho mais manso em sua idade madura. Isso batia com o que Porco Grout dissera a Bob Teal.

Falei de mim do modo evasivo peculiar a qualquer vigarista numa situação como aquela, e deixei escapar propositalmente duas pistas que o levariam a crer que eu fora companheiro de prisão de assaltantes do bando de Jimmy, o Rebitador, que então cumpriam longas penas em Walla Walla.

Ledwich se ofereceu para me emprestar algum dinheiro até eu me erguer novamente. Disse-lhe que o que eu mais precisava no momento era de uma boa oportunidade, e não de ninharias.

A noite passava e não chegávamos a lugar algum.

– Jake – disse eu, aparentemente casual –, você se arriscou muito ao tirar aquele cara do seu caminho ontem à noite.

Pretendia agitar as coisas. Consegui.

Seu rosto se encolerizou.

Ele sacou um revólver.

Disparando de dentro do bolso, arranquei a arma da mão dele.

– Agora, comporte-se! – ordenei.

Ledwich se sentou esfregando a mão dormente e olhando com olhos arregalados para o orifício em brasas no bolso do meu paletó. Parece ser uma proeza fora do comum arrancar a arma da mão de outra pessoa com um tiro, mas acontece de vez em quando. Alguém que atire bem – e eu atiro muito bem, obrigado –, natural e automaticamente, acerta próximo ao lugar para onde está olhando. De fato, quando um sujeito saca uma arma, você atira nele, sem mirar em nenhum lugar específico. Não há tempo para isso. Você atira nele, e pronto. Porém, numa situação como essa, é muito provável que você esteja olhando para a arma que ele está empunhando, e aí, nesse caso, não será surpreendente se a sua bala acabar atingindo a arma dele, exatamente como aconteceu comigo. Mesmo assim, parece impressionante.

Bati as brasas ao redor do buraco no bolso do meu paletó e caminhei até onde fora parar o revólver de Ledwich. Tomei-o em mãos e comecei a descarregá-lo. Mas logo mudei de idéia, fechei-o e meti-o no bolso. Em seguida, sentei-me numa cadeira diante da dele.

– Você não deveria agir assim – zombei. – Pode acabar ferindo alguém.

A boquinha fez beicinho para mim.

– Um “fuçador”, hein? – disse ele, imprimindo à voz todo o desprezo que podia. Por algum motivo, qualquer sinônimo para detetive parece carregar um bocado de desdém.

Eu podia ter voltado a fazer o papel de Wisher. Podia ser feito, mas não valeria a pena. Por isso, confirmei com um movimento de cabeça.

Seu cérebro pôs-se a trabalhar e a paixão abandonou seu rosto. Sentado, massageava a mão direita enquanto os olhos e a boquinha espremiam-se em conjecturas.

Fiquei quieto, esperando o resultado do raciocínio. Sabia que ele estava tentando descobrir onde eu me encaixava na história. Uma vez que, para ele, eu havia aparecido na noite anterior, então não estava ali por causa do assassinato de Boyd. Essa constatação certamente o levaria a me associar ao caso Estep, a não ser que ele estivesse enrolado com outras patifarias que não fossem do meu conhecimento.

– Você não é um detetive da polícia, é? – perguntou por fim. Sua voz estava quase amistosa, a voz de alguém que deseja persuadi-lo ou vender-lhe alguma coisa.

A verdade, pensei, não vai doer.

– Não – respondi. – Sou da Continental.

Ele arrastou a cadeira para perto do cano de minha automática.

– Então, o que você quer? Onde se encaixa nisso tudo?

Tentei a verdade novamente.

– A segunda sra. Estep. Ela não matou o marido.

– E você está tentando levantar provas suficientes para libertá-la?

– Sim.

Sinalizei para que retrocedesse quando ele fez menção de arrastar a cadeira para ainda mais perto.

– E como pretende fazer isso? – prosseguiu, a voz cada vez mais baixa e em tom confidencial.

Novamente lancei mão da verdade.

– Ele escreveu uma carta antes de morrer.

– E daí?

Era o suficiente, por enquanto.

– Só isso.

Ele se recostou na cadeira e seus olhos e a sua boquinha voltaram a se espremer em conjecturas.

– Qual o seu interesse no homem que morreu ontem à noite? – perguntou muito suavemente.

– O interesse é em você – disse eu, novamente sincero. – Talvez isso não beneficie a segunda sra. Estep diretamente. Mas você e a primeira esposa estão unidos contra ela. Daí que qualquer coisa que os atinja vai beneficiá-la de algum modo. Estou tateando no escuro, admito. Mas vou adiante sempre que vejo um ponto de luz. E vou acabar chegando à verdade no fim de tudo. Prender você pelo assassinato de Boyd é um ponto de luz.

Ele se inclinou para a frente subitamente, abrindo os olhos e a boca o mais que podia.

– Você vai chegar à verdade, com certeza – disse ele com calma –, desde que tenha um pouco de discernimento.

– O que quer dizer com isso?

– Você tem certeza de que pode me acusar pela morte de Boyd? – perguntou, ainda muito suavemente. – De que pode me condenar por assassinato?

– Sim.

Mas eu não estava assim tão certo. Para começo de conversa, embora estivéssemos moralmente certos disso, nem eu e nem Bob Teal poderíamos jurar que o homem que entrou com Ledwich no carro era John Boyd.

Nós sabíamos que era Boyd, claro. Mas o problema é que estava muito escuro para que pudéssemos ver o seu rosto. Também pensamos que estivesse vivo. Somente depois descobrimos que ele já estava morto quando saiu de casa.

Miudezas, é verdade, mas o problema é que, a não ser que esteja absolutamente certo de todos os detalhes, um detetive particular no banco das testemunhas costuma ter um efeito desagradável e ineficaz.

– Sim – repeti, enquanto pensava em tudo isso. – E estou pronto a testemunhar a respeito do que tenho contra você e daquilo que eu possa descobrir entre agora e a hora em que você e a sua cúmplice forem a julgamento.

– Cúmplice? – disse ele, não muito surpreso. – Suponho que esteja se referindo à Edna. Você já a prendeu?

– Sim.

Ele riu.

– Você vai se divertir um bocado tentando tirar alguma coisa dali. Em primeiro lugar, ela não sabe muito. Em segundo, bem... suponho que você tenha tentado e já tenha descoberto que criatura prestativa ela é. Portanto, não tente me aplicar aquele velho truque de dizer que ela já deu o serviço!

– Não estou tentando nada.

Houve silêncio entre nós e ele veio com a proposta:

– É pegar ou largar. O bilhete que o dr. Estep escreveu antes de morrer foi endereçado a mim, e é prova positiva de que ele cometeu suicídio. Me dê uma chance, apenas uma dianteira de meia hora, e lhe dou a minha palavra de honra de que eu envio o bilhete por correio.