Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 19 de 44

Páginas do PDF

Tiros na Noite

O assassino assistente

Em dourado, com bordas negras, estava escrito na porta: ALEXANDER RUSH , DETETIVE PARTICULAR. Lá dentro, um sujeito feioso reclinava-se na cadeira, pés pousados sobre uma escrivaninha amarela.

O escritório nada tinha de encantador. Os móveis, poucos e velhos, exibiam o aspecto gasto de objetos de segunda mão. Um quadrado de pano encardido e desfiado cobria o chão à guisa de tapete. Em uma parede amarela um alvará emoldurado autorizava Alexander Rush a exercer a atividade de detetive particular na cidade de Baltimore, desde que seguisse regras bem determinadas. Havia um mapa da cidade em outra parede. Sob o mapa, uma estante frágil, pequena, com poucos objetos: um velho roteiro de estradas de ferro, um pequeno guia de hotéis e as listas de telefones e de endereços de Baltimore, Washington e Filadélfia. Num canto junto à pia, um instável cabide de carvalho sustentava um chapéu-coco e um sobretudo negro. As quatro cadeiras da sala nada tinham uma com a outra, a não ser a idade. Além dos pés do proprietário, o tampo esfolado da escrivaninha abrigava um telefone, um tinteiro com tinta preta coagulada, uma confusão de recortes de jornais, a maioria a respeito de criminosos que escaparam desta ou daquela prisão, e um cinzeiro gris que continha mais cinzas e mais pontas de charutos do que poderia comportar.

Escritório feio. Proprietário ainda mais feio.

A cabeça era atarracada e em forma de pêra. Excessivamente pesada, larga, rombuda nos maxilares, estreitava-se até alcançar o cabelo rente e eriçado que brotava de uma testa baixa e oblíqua. Sua pele era vermelho-escura, rija, e cobria largos pneus de gordura. Mas essas deselegâncias fundamentais de modo algum compreendiam toda a sua feiúra. Outras coisas haviam alterado as suas feições.

Se você olhasse para o nariz dele de um determinado ângulo, diria que estava quebrado. De outro, diria que não; que simplesmente não tinha forma alguma. Contudo, fosse qual fosse a sua opinião quanto à forma, não restariam dúvidas quanto à cor. Naquele nariz, já naturalmente avermelhado, havia veias estouradas em forma de estrelas, espirais e misteriosos arabescos que pareciam ter algum significado secreto. Os lábios eram largos e grosseiros. Entre eles, brilhavam duas sólidas fileiras de dentes de ouro, a de baixo ultrapassando a de cima, de modo que a mandíbula era alongada e proeminente. Os olhos – pequenos, profundos e de íris azul-clara – tinham tantos vasos rompidos que levariam qualquer um a pensar que o sujeito estava com uma tremenda gripe. As orelhas davam conta de sua juventude: eram as orelhas grosseiras, torcidas e em forma de couve-flor de um pugilista.

Um homem de quarenta e poucos anos de idade, feio, recostado à cadeira, pés sobre a escrivaninha.

A porta com inscrições em dourado se abriu e outro homem entrou. Talvez dez anos mais novo, era, de modo geral, tudo o que o homem na escrivaninha deixava de ser. Alto, esbelto, pele clara, olhos castanhos, passaria despercebido tanto numa casa de jogos quanto numa galeria de arte. As roupas – terno e chapéu cinza – eram novas e bem passadas a ferro, e até elegantes em sua sobriedade. O rosto também nada tinha de marcante, o que era uma surpresa se considerarmos quão perto escapou de ser bonito devido à boca excessivamente fina, marca dos homens cautelosos.

Ele deu dois passos no interior do escritório e hesitou, olhos castanhos entre móveis surrados voltados para um proprietário de maus bofes. Tanta feiúra parecia desconcertar o homem de cinza. Um sorriso de desculpas começou a despontar em seus lábios, como se estivesse a ponto de murmurar: “Perdão, entrei no escritório errado”.

Mas não foi o que disse. Deu outro passo adiante e perguntou, indeciso:

– Você é o sr. Rush?

– É, sou. – A voz do detetive era rouca, de uma aspereza sufocada que parecia corroborar a idéia de que estava muito gripado. Pôs os pés no chão e empurrou uma cadeira com a mão gorda e vermelha. – Sente-se, cavalheiro.

O homem de cinza sentou-se, tentando manter-se ereto à beira da cadeira.

– O que posso fazer por você? – grasnou Alec Rush amistosamente.

– Queria... desejo... gostaria de... – e o homem de cinza nada mais disse.

– Talvez você prefira só me dizer o que está errado – sugeriu o detetive, sorridente. – Então saberei o que quer de mim.

Havia gentileza no sorriso de Alec Rush, e essa gentileza era envolvente. De fato, o seu sorriso era um horroroso esgar de pesadelo, daí o seu charme. Quando uma pessoa bonita sorri, não há grande lucro: o sorriso não diz muito mais do que o rosto em repouso. Mas quando Alec Rush distorcia a sua máscara de ogro e, incoerentemente, fazia despontar amizade jovial daqueles olhos vermelhos e selvagens, daquela boca brutal e metalizada – era comovente e cativante.

– Sim, acho que seria melhor – disse o homem de cinza, que se recostou na cadeira mais confortavelmente, menos apressado. – Ontem, em Fayette Street, encontrei uma... uma jovem que conheço. Não nos víamos havia meses. Mas isso agora não vem ao caso. Depois que nos despedimos, após falarmos durante alguns minutos, vi um homem. Ou seja, ele saiu de uma porta e desceu a rua na mesma direção que ela, e achei que ele a estivesse seguindo. Ela dobrou a Liberty Street e ele fez o mesmo. Um número incontável de pessoas segue o mesmo trajeto, e a idéia de que ele a estivesse seguindo me pareceu tão fantástica que acabei esquecendo do assunto e fui cuidar da minha vida.

“Mas não conseguia tirar aquilo da cabeça. Parecia que havia alguma intenção peculiar no modo como ele agia, e não importava o quanto eu me dissesse que era absurda, a idéia insistia em me preocupar. Daí que ontem à noite, sem ter nada de especial para fazer, fui de carro até a vizinhança da... da casa da jovem. E vi o mesmo homem novamente. Estava de pé, a duas quadras da casa dela. Era o mesmo homem, estou certo disso. Tentei vigiá-lo, mas, enquanto eu procurava vaga para o meu carro, ele desapareceu e não mais o vi. Essas são as circunstâncias. Você é capaz de descobrir se ele realmente a está seguindo, e por quê?”

– Claro! – concordou o detetive com a voz rouca. – Mas você nada disse à jovem ou para a família dela?

O homem de cinza se remexeu na cadeira e olhou para o tapete desfiado.

– Não. Não quero incomodá-la nem assustá-la. No fim das contas, terá sido nada mais do que uma coincidência sem importância e... bem... eu não... isso é impossível! O que eu tinha em mente era você descobrir o que está errado, se é que há algo de errado, e consertar tudo sem que eu apareça na história.

– Talvez. Mas veja bem: não estou dizendo que farei o serviço. Preciso saber mais primeiro.

– Mais? Você quer dizer mais...

– Mais a respeito de você e dela.

– Mas nada há a nosso respeito! – protestou o homem de cinza. – É exatamente como eu lhe disse. Deveria ter acrescentado que essa jovem é... é casada e que eu não a via desde o seu casamento.

– Então o seu interesse nela é?... – o detetive deixou a rouca interrogação no ar.

– Amizade. Antiga amizade.

– É. E quem é essa mulher?

O homem de cinza se remexeu novamente.

– Veja, Rush – disse ele, corando –, pretendo lhe dizer o nome dela e o direi, é claro, mas não gostaria de dizê-lo a não ser que você realmente vá trabalhar para mim. Quer dizer, não quero trazer o nome dela à baila se... se você não for. Você vai?

Alec Rush coçou a cabeça grisalha com a ponta do indicador.

– Não sei – resmungou. – É isso o que eu quero saber. Não posso aceitar um caso que pode ser qualquer coisa. Tenho que ter certeza de que você é confiável.

Os olhos do jovem encheram-se de confusão.

– Mas eu não pensei que você fosse ser tão... – e virou o rosto em outra direção.

– Claro que não – disse o detetive com o riso engasgado na garganta, o riso típico de um homem tocado em um lugar outrora machucado e que hoje já não é mais sensível à dor. Ele usou a manzorra para impedir que o futuro cliente se levantasse da cadeira e prosseguiu: – Primeiro você foi a uma grande agência de detetives e contou a sua história. E eles não quiseram fazer nada a não ser que você esclarecesse os pontos podres. Daí você veio até aqui, lembrando-se de que eu fora expulso do departamento há alguns anos. “Aí está o meu homem”, disse para si mesmo, “um cara que não vai ser tão exigente.”

O homem de cinza protestou com a cabeça, com gestos e com a própria voz, indicando que não era nada disso. Mas os olhos mostravam que ele estava envergonhado.

Alec Rush ria gostosamente.

– Não se preocupe. Não me aborreço com isso. Poderia falar de politicagem, e de ter sido feito de bode expiatório e tudo o mais, mas os registros dizem que a Junta de Comissários de Polícia me exonerou por uma lista de crimes que vai daqui até Canton Hollow. Tudo bem, cavalheiro! Vou pegar o seu caso. Parece uma impostura, mas talvez não seja. Custará quinze por dia, mais despesas.

– Sei que tudo o que eu disse pode parecer estranho – assegurou o outro. – Mas verá que não é. Vai querer um depósito, é claro.

– Sim. Digamos, cinqüenta.

O homem de cinza tirou cinco notas de dez dólares de uma carteira de pele de porco e as colocou sobre a mesa. Com uma caneta grossa, Alec Rush pôs-se a garatujar um recibo.

– Seu nome? – perguntou.

– Preferia não dizê-lo. Não quero aparecer, você sabe. Meu nome não seria importante, seria?

Alec Rush largou a caneta e cerrou as sobrancelhas para o cliente.

– Ora, ora! – resmungou, bem-humorado. – Como posso fazer negócio com alguém como você?

O homem de cinza parecia embaraçado, quase apologético, mas era teimoso em sua reticência. Ele não daria o nome. Alec Rush resmungou, reclamou, mas meteu os cinqüenta dólares no bolso.

– Talvez seja para o seu bem – admitiu o detetive, rendendo-se. – Mas não é bom para a minha opinião a seu respeito. Contudo, se estivesse de má-fé, creio que você seria esperto o bastante para inventar um nome. E essa jovem... quem é ela?

– sra. Humbert Landow.

– Ora, ora, finalmente temos um nome! E onde mora a sra. Landow?

– Na Charles-Street Avenue – disse o homem de cinza. E deu um número.

– Como a descreve?

– Tem 22 ou 23 anos, é bem alta, esbelta, ruiva, olhos azuis e pele muito branca.

– E o marido, você o conhece?

– Já o vi. Tem aproximadamente a minha idade, trinta anos, porém é mais corpulento. É um homem alto, de ombros largos, louro da gema.

– E o seu homem misterioso, como é ele?

– É jovem, 22 anos no máximo. Tem a pele bem morena, zigomas salientes e nariz grande. É esguio e atlético, ombros retos. Anda em passinhos miúdos.

– Roupas?

– Usava um terno cinza e um boné castanho-amarelado quando eu o vi na Fayette Street ontem à tarde. Creio que vestia a mesma roupa à noite, mas não tenho certeza.

– Suponho que você apareça de vez em quando para ouvir os meus relatórios – atalhou o detetive –, uma vez que não saberei para onde enviá-los?

– Sim – disse o homem de cinza enquanto se levantava e estendia a mão para o detetive. – Sou-lhe muito grato por aceitar o meu caso, sr. Rush.

Alec Rush disse que estava tudo bem. Eles se cumprimentaram e o homem de cinza saiu.

O feioso esperou que o cliente tivesse tempo de dobrar a esquina do corredor que levava aos elevadores e disse: “Vejamos, sr. Homem!”. Em seguida, levantou-se, pegou o chapéu-coco pendurado no mancebo e desceu as escadas às carreiras.

Correu com a agilidade ilusoriamente pesada de um urso. De fato havia algo nele que o fazia parecer um urso, talvez a frouxidão com que o terno azul se acomodava ao corpo robusto e sobre os ombros pesados – ombros de juntas flexíveis e cuja acentuada inclinação ocultava muito de sua corpulência.

Chegou ao térreo ainda a tempo de ver as costas do terno cinza do cliente subindo a rua. Alec Rush saiu atrás dele. Dois quarteirões, uma volta à esquerda, outro quarteirão, uma volta à direita. O homem de cinza entrou no escritório de uma empresa de seguros que ocupava o primeiro piso de um grande prédio comercial.

Bastou dar meio dólar ao porteiro para descobrir que o homem de cinza era Ralph Millar, assistente de caixa.

Caía a noite na Charles-Street Avenue quando Alec Rush, a bordo de um modesto cupê preto, passou em frente ao endereço que lhe dera Ralph Millar. Em meio ao lusco-fusco da tarde, viu que a casa era grande, separada das outras, bem como da rua, por um gramado cercado.

Alec Rush continuou a dirigir, virou à esquerda no primeiro cruzamento, esquerda novamente no cruzamento seguinte, e no seguinte, e no seguinte. Durante meia hora guiou numa rota tortuosa de muitas voltas e retornos, até que finalmente parou junto ao meio-fio, a alguma distância, mas dentro do campo de visão da casa dos Landows. Àquela altura, já havia dirigido por cada pedaço de via pública nas cercanias da casa.

Não vira o homem moreno e de ombros largos que Millar mencionara.

As luzes já estavam acesas na Charles-Street Avenue e o tráfego noturno começava a fluir para o sul, em direção à cidade. O corpo pesado de Alec Rush apoiou-se contra o volante e ele preencheu o interior do cupê com a fumaça pungente de um charuto, enquanto esperava pacientemente, olhos vermelhos voltados para a residência dos Landows.

Três quartos de hora se passaram até que houvesse movimento na casa. Uma limusine deixou a garagem dos fundos em direção ao portão da frente. Um casal, que mal se podia distinguir daquela distância, deixou a casa e entrou na limusine. A limusine ingressou no tráfego que fluía em direção à cidade. O terceiro carro atrás da limusine era o modesto cupê de Alec Rush.

Exceto por um momento perigoso, quando quase perdeu a limusine de vista, atrapalhado pelo tráfego de uma transversal que invadia a North Avenue, Alec Rush seguiu-a sem dificuldade. Em frente a um teatro na Howard Street, a limusine parou e um casal de jovens saltou, ambos altos, vestidos para a noite e que se encaixavam perfeitamente na descrição dada por seu cliente.

Os Landows entravam no teatro já às escuras enquanto Alec Rush comprava o seu ingresso. No primeiro intervalo, quando as luzes se acenderam, ele os descobriu novamente e, abandonando a cadeira no fundo do auditório, encontrou um ângulo do qual poderia estudá-los durante os cinco minutos de luz.

A cabeça de Hubert Landow era muito pequena para a sua estatura. E o cabelo louro que a cobria ameaçava fugir todo o tempo do forçado alisamento que lhe era imposto. O rosto, saudavelmente corado, era belo de um modo muito masculino, muscular, e que não denunciava grande agilidade mental. Já a esposa tinha aquele tipo de beleza que não pede classificação. Contudo, o cabelo era ruivo, os olhos azuis, a pele branca, e ela parecia um ou dois anos mais velha do que o máximo de 23 anos que Millar lhe atribuíra.

Enquanto durou o intervalo, Hubert Landow falou animadamente com a esposa, e seus olhos claros eram os olhos de um apaixonado. Alec Rush não podia ver os olhos da sra. Landow. Mas a viu responder ao marido vez ou outra. Seu perfil não demonstrava nem tédio, nem ansiedade.

Na metade do último ato, Alec Rush saiu para manobrar o cupê e deixá-lo numa posição favorável para cobrir a retirada dos Landows. Mas eles não entraram na limusine quando saíram do teatro. Em vez disso, desceram a Howard Street a pé, até um restaurante barato de segunda categoria, onde uma pequena orquestra ocultava a própria pequenez com a barulheira que fazia.

Alec Rush estacionou o cupê e encontrou uma mesa de onde podia observar o casal sem dar muito na vista. O marido ainda adulava a esposa com uma conversa longa e ansiosa. A esposa estava distante, formal, seca. Nenhum dos dois tocou na comida à sua frente. Dançaram uma vez, o rosto da mulher tão apático como quando ouvia as palavras do marido. Um belo rosto, embora vazio.

O ponteiro dos minutos do relógio niquelado de Alec Rush mal havia começado a última escalada do dia quando os Landows deixaram o restaurante. Duas portas mais adiante, um jovem negro vestindo um jaquetão de Norfolk fumava encostado à limusine, esperando para levá-los para casa.

Ao vê-los em casa, limusine na garagem, o detetive deu mais algumas voltas pela vizinhança e não viu o rapaz moreno do qual falara Millar.

Então Alec Rush foi dormir.

Às oito da manhã do dia seguinte, o feioso e o seu modesto cupê estavam novamente estacionados na Charles-Street. Com o sol à esquerda, os homens dirigiam-se para os seus escritórios. À medida que a manhã passava e as sombras ficavam menores e mais densas, ocorria o mesmo com os integrantes daquela procissão matinal. Geralmente, as oito horas eram dos homens jovens, esbeltos, enérgicos. Oito e meia, um pouco menos. Nove, menos ainda. E a retaguarda das dez não era de jovens, nem de esbeltos e, de modo geral, os homens que a integravam eram mais indolentes do que enérgicos.

Embora fisicamente pertencesse a um período não superior ao das oito e meia, Hubert Landow dirigia uma baratinha azul em meio a essa retaguarda. Os ombros largos envergavam um terno anil e os cabelos louros estavam protegidos por um boné cinza. Vinha só no veículo. Após dar uma olhada ao redor para ter certeza de que o moreno de Millar não estava por perto, Alec Rush e o seu cupê puseram-se na perseguição do carro azul.

Dirigiram rapidamente até o centro financeiro da cidade. Ali, Hubert Landow estacionou a baratinha em frente a um escritório de corretores da Bolsa na Redwood Street, onde ficou até o meio-dia. Depois, voltou à rua e seguiu para o norte.

Quando pararam novamente, já estavam na Mount Royal Avenue, onde Landow estacionou e entrou em um prédio de apartamentos. Parado a um quarteirão dali, Alec Rush acendeu um charuto e ficou quieto em seu cupê. Meia hora depois, Alec Rush olhou para trás e cravou profundamente os dentes de ouro no charuto.

A uns meros seis metros do cupê, na portaria de uma garagem, flanava um rapaz moreno com zigomas salientes, alto, de ombros largos e retos. O nariz era grande. A roupa, marrom. Os olhos também eram marrons e pareciam não estar prestando atenção a coisa alguma através do fio de fumaça azul que se desprendia do cigarro dependurado em seus lábios.

Alec Rush retirou o charuto da boca, pegou uma faca no bolso para cortar a extremidade mordida, devolveu o charuto à boca e a faca ao bolso e demonstrou estar tão indiferente ao que ocorria na Mount Royal Avenue quanto o jovem moreno atrás dele. Um cochilava na portaria. Outro no carro. E a tarde passava: uma hora, uma e meia...

Hubert Landow saiu do edifício de apartamentos e partiu rapidamente em sua baratinha azul. A retirada de Landow em nada abalou os dois homens imóveis, que mal olharam para ele. Passariam mais quinze minutos até finalmente se moverem.

Então o jovem moreno deixou a portaria. Seguiu sem pressa rua acima com passinhos miúdos. Alec Rush estava de costas quando ele passou ao longo do cupê. Ninguém poderia dizer que o detetive sequer tivesse olhado para o rapaz desde que o vira pela primeira vez. Os olhos do rapaz vagaram desinteressadamente pelas costas do detetive. Depois, ele caminhou em direção ao prédio de apartamentos que Landow visitara, subiu os degraus da portaria e desapareceu lá dentro.

Quando o jovem moreno sumiu de vista, Alec Rush jogou fora o charuto, espreguiçou-se, bocejou, ligou o motor do cupê, dirigiu quatro quadras e dois retornos e deixou o carro trancado e vazio em frente a uma igreja de fachada cinza. Em seguida, voltou à Mount Royal Avenue e postou-se numa esquina, duas quadras acima de sua posição anterior.

Esperou outra meia hora até o rapaz moreno reaparecer. Alec Rush estava comprando charutos em uma loja com vitrina quando ele passou. O jovem embarcou num bonde na North Avenue e se sentou. O detetive tomou o mesmo carro na esquina seguinte e ficou em pé na plataforma traseira. Alertado por um movimento de corpo do rapaz, Alec Rush foi o primeiro passageiro a descer do bonde na Madison Avenue e o primeiro a embarcar num outro carro que ia para o sul da cidade. E foi novamente o primeiro a desembarcar na Franklin Street.

Nessa rua, o jovem moreno entrou em uma casa de cômodos, enquanto o detetive se encostou ao lado da vitrine de uma loja especializada em maquiagem teatral. Às três e meia, o jovem moreno voltou à rua – Alec Rush atrás dele – e caminhou até a Eutaw Street, onde embarcou num carro de bonde que o levou até Camden Station.

No saguão da estação, o jovem moreno encontrou-se com uma jovem que lhe perguntou, aborrecida:

– Onde diabos você esteve?

Ao passar por eles, o detetive escutou o cumprimento petulante, mas a resposta do rapaz foi muito baixa para que pudesse entender alguma coisa. Tampouco ouviu o que a jovem disse a seguir. Falaram cerca de dez minutos, ambos de pé em um canto deserto do saguão, de modo que Alec Rush não podia se aproximar sem dar na vista. A jovem parecia estar impaciente, apressada. O jovem parecia explicar, assegurar, e gesticulava com as mãos feias e hábeis de um mecânico. Sua companheira mostrou-se então mais agradável. Ela era pequena, quadrada, como se tivesse sido economicamente esculpida em um cubo. De forma coerente, o nariz também era curto e o queixo, reto. Agora que o seu aborrecimento estava passando, notava-se que tinha um rosto alegre, atrevido, combativo, corado, que indicava inesgotável vitalidade. Essa vitalidade estava em cada traço, do cabelo castanho aos pés que pareciam cravados ao chão de cimento. As roupas eram escuras, pouco chamativas e caras, mas vestidas sem muita elegância, apoiando-se desgraciosamente naquele corpo robusto.

A certa altura, o rapaz meneou a cabeça várias vezes, bateu na aba do boné com dois dedos descuidados e saiu à rua. Alec Rush deixou que partisse. Mas quando a jovem saiu da estação, afastando-se lentamente em direção aos portões cobertos, dali para o guichê de bagagem e, depois, para a porta da rua, o feioso estava atrás dela. Ele ainda a seguia quando ela se juntou à multidão de consumidores das quatro da tarde que enxameavam a Lexington Street.

A jovem fez compras com o ar despreocupado de quem não tem outra coisa em mente. Na segunda loja de departamentos que visitou, Alec Rush deixou-a admirando um mostruário de passamanaria e caminhou o mais rápido e diretamente que lhe permitiam os clientes da loja, em direção a uma mulher alta, de ombros largos, cabelos acinzentados, vestida de negro, que parecia estar esperando alguém ao pé de uma escadaria.

– Olá, Alec! – disse ela quando o detetive a tocou no braço. E seus olhos bem-humorados realmente demonstraram prazer ao darem com aquele rosto insólito. – O que faz no meu território?

– Tenho uma gatuna para você – murmurou. – A garota robusta de azul na seção de rendas. Conhece?

A detetive da loja olhou e assentiu.

– Sim. Obrigada, Alec. Tem certeza de que ela está roubando?

– Ora, Minnie! – reclamou, a voz áspera reduzindo-se a um murmúrio metálico. – Você acha que eu ia lhe meter em confusão? Ela foi para lá com algumas peças de seda, e é muito provável que já tenha roubado alguma renda.

– Ahã – disse Minnie. – Bom, quando ela puser os pés na calçada eu a pego.

Alec Rush voltou a pousar a mão no braço da detetive da loja.

– Estou de olho nela – disse ele. – O que me diz se a seguirmos e vermos o que pretende antes de a prendermos?

– Se não levar o dia inteiro... – concordou a mulher.

E quando a garota robusta de azul saiu à rua, o detetive a seguiu até outra loja, longe demais para poder ver se roubava qualquer coisa, satisfeito apenas em mantê-la sob vigilância. Dessa última loja, a presa desceu até o ponto mais sombrio da Pratt Street e entrou numa casa sombria de três andares.

A duas quadras dali, um policial dobrava a esquina.

– Fique de olho no edifício enquanto eu chamo o tira – pediu Alec Rush.

Quando ele voltou com o policial, a detetive da loja já os aguardava no vestíbulo.

– Segundo andar – disse ela.

Através da porta entreaberta via-se um corredor escuro e a base de uma escadaria com um tapete esfarrapado. Nesse sinistro corredor surgiu uma mulher magra e desmazelada, vestindo roupas de algodão sujas e amarrotadas.

– O que querem? – queixou-se. – Esta é uma casa de respeito, vocês têm que entender, e eu...

– Garota robusta, olhos castanhos. Mora aqui – rosnou Alec Rush. – Segundo andar. Leve-nos até lá.

O rosto esquelético da mulher sobressaltou-se e os olhos mortiços se arregalaram, como se atribuísse a aspereza da voz do detetive à aspereza de uma grande emoção.

– Por que... por que... – gaguejou. E então, lembrando-se do primeiro princípio da administração de casas sombrias, “nunca fique no caminho da polícia”, disse: – Vou levá-los até lá – e, suspendendo o vestido amarrotado com uma das mãos, seguiu escada acima.

Seus dedos afilados golpearam uma porta junto ao topo da escada.

– Quem é? – perguntou uma lacônica voz feminina.

– A senhoria.

Já sem chapéu, a garota robusta de azul abriu a porta. Alec Rush esticou o pezinho para manter a porta aberta enquanto a senhoria dizia:

– É ela.

– Você deve nos acompanhar – disse o policial.

E Minnie:

– Queridinha, queremos entrar e falar com você.

– Meu Deus! – exclamou a garota. – Faria mais sentido se vocês todos pulassem ao mesmo tempo e gritassem “Buuu!”.

– Em vez disso – disse Alec Rush, avançando e sorrindo o seu sorriso hediondamente amistoso –, vamos entrar e conversar.

O detetive moveu o vulto desconjuntado e, com um único olhar, despachou a senhoria e convidou os outros a entrarem no apartamento da garota.

– Lembrem-se de que não tenho idéia do que se trata – disse ela já na sala de visitas, uma sala estreita na qual brigavam o azul e o vermelho sem jamais se conciliarem em púrpura. – Sou uma pessoa fácil de lidar, e se vocês acham que aqui é um bom lugar para conversarmos, vão em frente! Mas se estão esperando que eu também fale, é bom me avisarem sobre o quê.

– Roubo de loja, queridinha – disse Minnie, inclinando-se à frente para tocar o braço da garota. – Sou da Goodbody’s.

– Vocês acham que eu roubei a sua loja? Essa é a idéia?

– Sim. Exato. Ahã. É isso – disse Alec Rush, sem deixar dúvida quanto à questão.

A garota apertou os olhos, franziu a boca vermelha e olhou de esguelha para o feioso.

– Por mim tudo bem – disse ela. – Afinal, é a Goodbody’s que está tentando me incriminar, uma loja que eu posso processar por um milhão no fim das contas. Nada tenho a dizer. Me levem para passear.

– Você vai ter o seu passeio, irmã – disse o feioso bondosamente. – Ninguém vai tirá-lo de você. Mas se incomoda se eu der uma olhada no seu apartamento primeiro?

– Tem alguma coisa com o nome de um juiz dizendo que você pode fazer isso?

– Não.

– Então não pode bisbilhotar.

Alec Rush sorriu, meteu as mãos nos bolsos da calça e pôs-se a vagar pelos três cômodos do apartamento. Em dado momento, saiu de um quarto trazendo em mãos um retrato em uma moldura de prata.

– Quem é? – perguntou à garota.

– Tente e descubra!

– Estou tentando – mentiu.

– Seu desocupado! – disse ela. – Você não saberia encontrar água no oceano!

Alec Rush sorriu com gosto. Tinha motivos para isso. A fotografia em sua mão era de Hubert Landow.

Entardecia perto da igreja de fachada cinza quando o proprietário do cupê voltou. A garota robusta – Polly Vanness, foi o nome que forneceu – acabou fichada e metida em uma cela na Delegacia Sudoeste. Em seu apartamento foi encontrada uma grande quantidade de objetos roubados. A colheita daquela tarde ainda estava em seu poder quando Minnie e uma matrona da polícia a revistaram. Recusou-se a falar. O detetive não disse para ela que sabia a identidade do sujeito na foto nem que testemunhara o encontro dela com o jovem moreno na estação de trem. Nada do que foi encontrado em seu quarto lançava qualquer luz sobre esses fatos.

Alec Rush jantou, pegou o carro novamente e foi até a Charles-Street Avenue. As luzes estavam acesas na casa dos Landows quando ele passou. Mais adiante, estacionou o cupê à sombra de uma árvore, ao longo do meio-fio, com a frente voltada para a cidade e dentro do raio de visão da casa.

A noite passava mas ninguém entrava ou saía da residência dos Landows.

Ouviu-se o tamborilar de unhas contra o vidro da porta do cupê.

Havia um homem parado ao lado do carro. No escuro, nada se podia dizer a respeito dele a não ser que não era grande e que, para ter escapado da atenção do detetive, deve ter se aproximado do carro furtivamente pela traseira.

Alec Rush esticou a mão e a porta se abriu.

– Tem fósforo? – perguntou o homem.

O detetive hesitou, disse “É” e estendeu-lhe uma caixa.

Um fósforo brilhou na escuridão iluminando um rosto jovem e moreno: nariz grande, zigomas salientes. Era o jovem que Alec Rush seguira naquela tarde.

Mas o reconhecimento foi expresso pelo jovem moreno.

– Achei que fosse você – disse ele enquanto levava a chama à ponta do cigarro. – Talvez não se lembre de mim. Mas eu o conheci quando você era da polícia.

O ex-sargento-detetive nada disse além de um rouco “É”.

– Achei que fosse você no cupê essa tarde na Mount Royal, mas não tinha certeza – prosseguiu o rapaz, entrando no carro, sentando-se ao lado do detetive e fechando a porta. – Sou Zeipp “Passinho”. Não sou tão conhecido quanto Napoleão, de modo que se você nunca ouviu falar a meu respeito, tudo bem, sem problemas.

– É.

– Isso aí, irmão! Quando tiver uma boa resposta, aferre-se a ela! – O rosto de Zeipp Passinho era uma máscara de bronze sob o brilho da brasa do cigarro. – A mesma resposta caberia à minha próxima pergunta. Você está interessado nesses Landows? “É” – acrescentou, imitando a voz rouca do detetive.

Outra tragada iluminou o rosto moreno e as palavras seguintes vieram em meio a baforadas de fumaça.

– Você deve querer saber o que eu quero com eles, não é mesmo? Tudo bem, não sou jogo duro. Vou lhe dizer. Me deram quinhentos dólares para matar a garota... duas vezes. Que tal?

– Estou ouvindo – disse Alec Rush. – Mas qualquer um pode vir com uma conversa dessas.

– Conversa? Claro que é conversa – admitiu Zeipp jovialmente. – Mas também é conversa quando o juiz diz “Pendurado pelo pescoço até a morte e que Deus tenha piedade de sua alma!”. Um bando de coisas é só conversa, o que não impede que sejam reais.

– É?

– É, irmão. É! Agora escuta. Esta é por conta da casa: uma pessoa me procurou alguns dias atrás, mandada por uma outra pessoa que me conhece. Essa pessoa perguntou quanto eu cobrava para matar uma garota. Achei que mil dólares seria um bom preço. Muito caro, contestou. Entramos em acordo por quinhentos. Peguei 250 adiantados e vou ter o resto quando a Landow bater as botas. Nada mal para um truquezinho tão simples quanto meter uma azeitona na lateral de um carro, hein?

– Bem, o que está esperando? – perguntou o detetive. – Ou quer fazer o serviço com estilo, matando-a no próprio aniversário ou em algum feriado nacional?

Zeipp Passinho estalou os lábios e tocou o peito do detetive com o dedo.

– Nada disso, irmão! Estou pensando adiante de você! Escuta só: embolsei os meus 250 e vim até aqui dar uma olhada no terreno, para não ser surpreendido por algo inesperado. Enquanto eu bisbilhotava, encontrei outra pessoa que também estava bisbilhotando. Eu e essa mulher entramos em acordo, fui esperto, e bingo! Me fez uma proposta. Adivinha? Ela queria saber quanto eu cobrava para matar uma garota. A mesma garota, acredita nisso? Não sou bobo. Pus as mãos em outros 250, esperando receber o restante quando terminar o trabalho. Agora, você acha que eu vou fazer alguma coisa com essa Landow? Nem pensar! Ela é o meu tíquete-refeição. Dependendo de mim, morre de velha. Vou ficar pelas redondezas e esperar outros clientes que não gostem dela. Se dois a querem fora deste mundo, por que outros não vão querer também? A resposta é: “É!”. Em meio a tudo isso, eis que aparece você atrás dela! É isso aí, irmão, essa é toda a história.

Na escuridão do cupê, o silêncio se prolongou durante vários minutos antes que a voz áspera do detetive levantasse a pergunta:

– E quem são as pessoas que a querem morta?

– Cai na real! – advertiu Zeipp Passinho. – Estou jogando com eles, mas não vou dedurá-los para você.

– E por que está me dizendo tudo isso?

– Por quê? Por que você está no negócio de algum modo. Se brigarmos, não vamos a lugar algum. Se não nos unirmos, só vamos estragar o plano um do outro. Já consegui quinhentos dólares. São meus, porém há mais a ser recolhido por dois sujeitos que sabem o que estão fazendo. Tudo bem: estou oferecendo meio a meio de tudo o que conseguirmos. Mas a identidade dos meus parceiros está fora de questão. Não me incomodo de enganá-los, mas não sou trapaceiro o bastante para dedurá-los para você.

Alec Rush grunhiu outra pergunta dúbia:

– Como é possível que você confie tanto em mim, Passinho?

O assassino de aluguel riu astuciosamente.

– E por que não? Você é um cara legal, alguém capaz de identificar um bom negócio quando lhe é proposto. Certamente não o expulsaram da polícia por que você não sabia pendurar as suas meias. Além do mais, suponha que tente me trair. O que faria? Nada pode provar. Eu lhe disse que não quero fazer mal à mulher. Nem mesmo tenho um revólver. Você é inteligente. Você sabe das coisas. Eu e você, Alec, podemos ganhar uma boa grana!

Silêncio novamente até o detetive falar com calma e seriedade:

– O primeiro passo seria descobrir por que os seus cúmplices querem a moça morta. Sabe algo a respeito?

– Nada.

– Ambas são mulheres, percebi.

Zeipp Passinho hesitou.

– Sim – admitiu. – Mas não me pergunte sobre elas. Em primeiro lugar, nada sei e, em segundo, não abriria o bico se soubesse.

– É – grasnou o detetive como se de fato compreendesse a idéia corrompida de lealdade que tinha o rapaz. – Mas, se são mulheres, há chances de o motivo ser um homem. Que tal Landow? É um cara atraente.

Zeipp Passinho se inclinou e pôs novamente o dedo no peito do detetive.

– É isso aí, Alec! Isso é possível, claro que é!

– É – concordou Alec Rush, mexendo nas alavancas do carro. – Vamos embora. Seria bom ficarmos longe daqui até eu dar uma verificada nesse cara.

Na Franklin Street, a meia quadra da casa de cômodos até onde seguira o jovem naquela tarde, o detetive parou o cupê.

– Quer saltar aqui? – perguntou.

Surpreso, Zeipp Passinho olhou de esguelha para o feioso.

– Está bem – disse. – Mas você é um tremendo adivinho. – E, com a mão ainda na porta, acrescentou: – Então, Alec? Fechado? Meio a meio?

– Não diria isso. – Alec Rush sorriu o seu sorriso hediondamente amistoso. – Você não é mau rapaz, Passinho. E havendo algum dinheiro fácil, terá a sua parte. Mas não espere que eu ande com você por aí.

Os olhos de Zeipp se estreitaram e os lábios se entreabriram, mostrando uma fileira de dentes amarelados.

– Se você me trair, maldito gorila, eu... – ameaçou o rapaz de brincadeira, o rosto novamente jovial e descuidado. – Seja como quiser, Alec. Sei que não fiz mau negócio ao contar tudo para você. Confio em sua palavra.

– É – concordou o feioso. – Deixe de vigiar a casa até segunda ordem. Venha me ver amanhã. Procure o endereço de meu escritório na lista telefônica. Até logo, garoto.

– Até logo, Alec.

Na manhã seguinte, Alec Rush decidiu investigar Hubert Landow. Primeiro foi à prefeitura consultar os livros cinza onde são guardadas as certidões de casamento. Ali, descobriu que Hubert Britman Landow e Sara Falsoner estavam casados havia seis meses.

O nome de solteira da noiva encheu os olhos avermelhados do detetive. O ar escapou com força por entre as suas narinas achatadas. “É! É!”, disse com os seus botões, e tão bruscamente que um assistente de advogado magricela que consultava outros registros assustou-se e afastou-se dali.

Da prefeitura, Alec Rush foi a duas redações de jornal onde, após visitar os arquivos, selecionou um punhado de exemplares, velhos de seis meses. Levou os jornais para o escritório, espalhou-os pela mesa e atacou-os com uma tesoura. Quando o último pedaço de papel foi selecionado, havia uma grossa camada de recortes sobre a escrivaninha.

Enquanto organizava os recortes em ordem cronológica, Alec Rush acendeu um charuto, apoiou os cotovelos na escrivaninha, a cabeça feiosa entre as palmas das mãos, e começou a ler uma história que os leitores de jornal de Baltimore acompanharam seis meses antes.

Saneada de irrelevâncias e digressões preliminares, a história era essencialmente a seguinte:

Jerome Falsoner, 45 anos, solteiro, vivia em um apartamento na Cathedral Street e tinha uma renda mais do que suficiente para o seu conforto. Era alto, mas de psique delicada, resultado talvez de excessiva indulgência para com os prazeres da vida, o que certamente abalou sua fraca constituição. Era bem conhecido, pelo menos de vista, por todos os noctívagos de Baltimore e pelos freqüentadores de pistas de corrida, de casas de jogos e de rinhas furtivas que se materializavam de uma hora para outra nos 75 quilômetros que separavam Baltimore de Washington.

Um dia, certa Fanny Kidd, moça que costumava arrumar o quarto de Jerome Falsoner toda manhã, encontrou-o deitado de costas, no chão da sala de estar, os olhos mortos voltados para um ponto no teto, um ponto luminoso que era o reflexo de um raio de sol na empunhadura de metal da faca de papel cravada em seu peito.

As investigações da polícia chegaram a quatro conclusões:

Primeira: Jerome Falsoner já estava morto havia quatorze horas quando Fanny Kidd o encontrou, o que situa a sua morte por volta das vinte horas da véspera.

Segunda: as últimas pessoas que o viram com vida foram uma mulher chamada Madeline Boudin, de quem era íntimo, e três amigos dela. Eles o viram vivo entre sete e meia e oito da noite, ou seja, menos de meia hora antes do crime. Os quatro estavam indo de carro até uma casa de campo no rio Severn, e ela disse aos outros que gostaria de ver Falsoner antes de partir. Enquanto os outros esperavam no carro, Madeline Boudin tocou a campainha, Jerome Falsoner abriu a porta e ela entrou. Dez minutos depois, voltou a se juntar aos amigos. Jerome Falsoner a acompanhou até a porta e acenou para um dos homens no carro – certo Frederick Stoner, que conhecia Falsoner de vista e que tinha ligações com o gabinete da promotoria. Duas mulheres que conversavam na escada de uma casa do outro lado da rua também viram Falsoner, bem como viram Madeline Boudin e seus amigos irem embora.

Terceira: a herdeira e única parente próxima de Jerome Falsoner era sua sobrinha, Sara Falsoner, a qual, por uma incrível coincidência, estava se casando com Hubert Landow no exato momento em que Fanny Kidd encontrava o cadáver do patrão no chão da sala. Sobrinha e tio pouco se viam. Estava definitivamente provado que a sobrinha – sobre quem a polícia concentrou as suspeitas durante algum tempo – esteve em sua casa, em Carey Street, das seis da tarde até oito e meia da manhã seguinte ao assassinato. O marido, então seu noivo, esteve com ela das seis até as onze naquela noite. Antes de se casarem, a garota trabalhara como estenógrafa na mesma empresa de seguros que empregava Ralph Millar.

Quarta: Jerome Falsoner, que não era um sujeito dos mais ponderados, havia discutido com um islandês chamado Einar Jokumsson em uma casa de jogos alguns dias antes de ser assassinado. Jokumsson – um sujeito baixo, pesado, cabelos e olhos escuros – ameaçou Falsoner e, no dia do assassinato, sumiu do hotel onde estava hospedado, deixando toda a bagagem. Nunca mais foi visto.

Após ler cuidadosamente o último desses recortes, Alec Rush reclinou-se na cadeira e, pensativo, lançou uma careta de monstro para o teto. Depois, debruçou-se na escrivaninha para consultar o catálogo de telefones e encontrar o número da empresa de seguros para a qual trabalhava Ralph Millar. Mas assim que conseguiu o número, mudou de idéia.

– Deixa pra lá – disse ele. E discou o número da Goodbody’s.

No outro lado da linha, Minnie disse que Polly Vanness fora reconhecida como certa Polly Bangs, presa em Milwaukee havia dois anos por roubo de loja, crime pelo qual ficara dois anos na cadeia. Minnie disse também que Polly Bangs fora libertada sob fiança cedo pela manhã.

Alec Rush desligou o telefone e consultou os seus recortes até encontrar o endereço de Madeline Boudin, a mulher que visitara Falsoner pouco antes de ele morrer. Era um número da Madison Avenue. Para lá o cupê levou o detetive.

Não, a srta. Boudin não morava mais lá. Havia morado, sim, mas mudara-se quatro meses antes. Talvez a sra. Blender do terceiro andar soubesse onde ela vivia agora. A sra. Blender não sabia. Soubera que a srta. Boudin se mudara para uma casa de apartamentos na Garrison Avenue, mas que achava que ela também não morava mais lá. Na casa da Garrison Avenue disseram-lhe que a srta. Boudin havia se mudado havia um mês e meio para algum lugar na Mount Royal Avenue, talvez. O número ninguém sabia.

O cupê levou o feioso até Mount Royal Avenue, até o prédio de apartamentos no qual, na véspera, entraram Hubert Landow e, depois, Zeipp Passinho. No escritório da gerência, perguntou por certo Walter Boyden, que supostamente morava ali. Walter Boyden não era conhecido do gerente. Havia uma srta. Boudin no 604, mas o nome era B-o-u-d-i-n, e morava só.

Alec Rush deixou o edifício e entrou no carro novamente. Esfregou os olhos selvagens, balançou a cabeça, satisfeito, e com um dedo descreveu um pequeno círculo no ar. Daí voltou ao escritório.

Discando novamente o número da empresa de seguros, deu o nome de Ralph Millar e logo estava falando com o assistente de caixa.

– Aqui é Rush. Pode vir ao meu escritório agora mesmo?

– O quê? Certamente. Mas como?... Como?... Sim. Estarei aí em um minuto.

A surpresa na voz de Millar durante o telefonema já havia desaparecido quando ele chegou ao escritório do detetive. Também não fez perguntas para descobrir como este sabia sua identidade. Então de marrom, foi tão discreto quanto vestido de cinza, na véspera.

– Entre – convidou o feioso. – Sente-se. Preciso de mais fatos, sr. Millar.

A boca fina de Millar se estreitou e as sobrancelhas juntaram-se com renitência obstinada.

– Pensava que já tínhamos conversado a esse respeito, Rush. Eu lhe disse que...

Alec Rush franziu as sobrancelhas com exasperação jovial, embora não menos assustadora.

– Eu sei o que conversamos – atalhou. – Mas isso foi antes. As coisas mudaram. A situação está ficando enrolada e eu posso me enrolar nela se não me cuidar. Encontrei o seu homem misterioso, falei com ele. Sim, estava seguindo a sra. Landow. Segundo me disse, foi contratado para matá-la.

Millar pulou da cadeira para se debruçar na escrivaninha amarela, o rosto próximo ao do detetive.

– Meu Deus, Rush! O que está dizendo? Matá-la?

– Ora, ora, acalme-se! Ele não vai matá-la. Creio que nunca pretendeu matá-la. Mas diz que foi contratado para isso.

– Você o prendeu? Encontrou o homem que o contratou?

O detetive voltou os olhos para o rapaz, estudando-lhe o rosto apaixonado.

– Em verdade – grasnou calmamente ao terminar de examiná- lo –, não fiz nem uma coisa nem outra. Ela não corre perigo imediato. Talvez o sujeito estivesse me enganando, talvez não. De um modo ou de outro, não me diria tudo isso se realmente fosse fazer alguma coisa. Quando ele estiver a ponto de fazer alguma coisa, você o quer preso, sr. Millar?

– Sim. Quero dizer... – Millar afastou-se da mesa, recostou-se na cadeira e, com as mãos trêmulas cobrindo o rosto, disse: – Meu Deus, Rush! Não sei!

– Exato – disse Alec Rush. – Então aí vai: a sra. Landow era sobrinha e herdeira de Jerome Falsoner. Trabalhava na empresa onde você trabalha. Casou-se com Landow na manhã em que o tio foi encontrado morto. Ontem, Landow visitou o prédio onde mora Madeline Boudin, a última pessoa a estar na sala de Falsoner antes de ele ser assassinado. Mas o álibi dela parece ser tão impecável quanto o dos Landows. O homem que diz ter sido contratado para matar a sra. Landow também visitou o prédio de Madeline Boudin ontem à tarde. Eu o vi entrar. Eu o vi se encontrar com outra mulher, uma ladra de loja. Em um dos quartos da casa dessa ladra encontrei uma fotografia de Hubert Landow. O moreno diz ter sido contratado duas vezes para matar a sra. Landow, por duas mulheres diferentes que não sabem da existência uma da outra. Ele não quis me dizer quem eram, mas não é necessário.

A voz áspera de Alec Rush fez uma pausa, à espera de que Millar falasse. Mas Millar estava afônico. Seus olhos estavam arregalados e desesperadamente vazios. Alec Rush estendeu a mão, fechou-a num punho que era quase perfeitamente esférico e bateu de leve sobre o tampo da escrivaninha.

– E é isso, sr. Millar – arranhou o detetive. – Um tremendo rolo. Se me disser o que sabe, ajeitamos tudo, sem dúvida. Se não... estou fora!

Millar finalmente encontrou palavras, embora confusas:

– Não pode, Rush! Você não pode me abandonar... nós... ela! Não é... Você não é...

Mas Alec Rush balançou a horrenda cabeça piriforme e disse lentamente:

– Há um assassinato nessa história e Deus sabe o que mais. Não gosto de brincar de cabra-cega. Como saber o que você pretende? Ou me diz o que sabe, tudo o que sabe, ou pode ir arrumando outro detetive. É isso aí.

Os dedos de Ralph Millar se contorceram nervosamente, os dentes chocaram-se contra os lábios e os olhos voltaram-se para o detetive com ar de súplica.

– Não pode, Rush! – implorou. – Ela ainda está em perigo. Mesmo você estando certo quanto àquele homem não querer atacá-la, ainda assim ela não está segura. As mulheres que o contrataram podem contratar outro assassino. Você tem que protegê-la, Rush.

– É? Então você tem que falar.

– Tenho o quê?... Sim, eu falo, Rush. Respondo a tudo o que me perguntar. Mas nada sei, ou quase nada, além do que você já descobriu.

– Ela trabalhou na sua empresa?

– Sim, no meu departamento.

– Deixou o emprego para casar?

– Sim. Quer dizer... Não, Rush, a verdade é que foi demitida. Foi ultrajante, mas...

– Quando foi isso?

– Foi no dia anterior à... antes de se casar.

– Fale a respeito.

– Ela... terei que explicar a situação dela primeiro, Rush. Ela é órfã. O pai dela, Ben Falsoner, foi um sujeito irrequieto na juventude e, talvez, não apenas na juventude, como acredito que foram todos os Falsoners. Entretanto, ele brigou com o pai, o velho Howard Falsoner, que o deserdou. Mas não completamente. O velho tinha esperança de que o filho se emendasse com o tempo e, nesse caso, não pretendia deixá-lo sem nada. Infelizmente, escolheu o outro filho, Jerome, para cuidar disso.

“O velho Howard Falsoner deixou um testamento no qual os seus bens deveriam ficar com Jerome enquanto este vivesse. Jerome fora encarregado de prover o irmão, Ben, como achasse mais justo. Ou seja, tinha controle absoluto da situação. Podia dividir a renda igualmente com o irmão, podia dar-lhe apenas uma ninharia, ou nada, a depender da conduta de Ben. No caso da morte de Jerome, a herança deveria ser dividida igualmente entre os netos e netas do velho.

“Teoricamente, era um arranjo inteligente, mas não na prática. Não nas mãos de Jerome Falsoner. Você não o conheceu? Bem, ele seria a última pessoa a quem confiar um assunto dessa natureza, alguém que exercia o próprio poder sempre que possível. Ben Falsoner nunca recebeu um centavo do irmão. Há três anos, Ben morreu, e daí a garota, sua única filha, passou a ocupar a posição do pai no que dizia respeito ao dinheiro do avô. Sua mãe já havia morrido. Jerome Falsoner nunca deu um centavo para ela.

“Essa era a situação da garota quando veio trabalhar na minha empresa de seguros há dois anos. Não era uma situação das melhores. Tinha ao menos um toque da imprudência e da extravagância dos Falsoners. Ali estava ela, herdeira de cerca de dois milhões de dólares (Jerome nunca se casara e ela era a única neta), mas sem outra renda além do próprio salário, que estava longe de ser bom.

“Endividou-se. Suponho que tenha tentado economizar a certa altura, mas sempre havia aqueles dois milhões de dólares esperando por ela, o que tornava o ato de poupar duplamente desagradável. Finalmente, os diretores da empresa de seguro souberam de suas dívidas. Alguns cobradores chegaram a vir até o escritório onde ela trabalhava. Uma vez que estava empregada no meu departamento, eu tinha a desagradável função de adverti-la. Ela prometeu pagar as dívidas antigas e não contrair novas, e suponho que de fato tenha tentado, embora sem muito sucesso. Nossos diretores são antiquados e ultraconservadores. Fiz tudo o que podia para poupá-la, mas não adiantou. Eles simplesmente não aceitam um funcionário muito endividado.”

Millar fez uma pausa, olhou miseravelmente para o chão e prosseguiu:

– Tive a triste incumbência de informá-la que os serviços dela já não eram mais requisitados pela empresa. Tentei... foi terrivelmente desagradável. Isso foi no dia anterior ao de seu casamento com Landow. Foi... – fez uma pausa e, como se nada mais tivesse a dizer, repetiu: – Sim, foi no dia anterior ao de seu casamento com Landow.

E voltou a olhar miseravelmente para o chão.

Alec Rush, que se mantivera quieto durante toda a história, impassível como um monstro entalhado em uma igreja antiga, debruçou-se sobre a escrivaninha e fez a seguinte pergunta:

– E quem é esse Hubert Landow? O que ele é?

Ralph Millar balançou a cabeça desolado.

– Só o conheço de vista. Nada sei a respeito dele.

– A sra. Landow falou sobre ele alguma vez? Quero dizer, quando trabalhava na empresa de seguros?

– É provável, mas não me recordo.

– Portanto foi uma grande surpresa quando soube que ela se casara com ele?

O jovem olhou para cima com olhos temerosos.

– Aonde quer chegar, Rush? Você não pensa que... Sim, como você disse, fiquei surpreso. Aonde quer chegar?

– A certidão de casamento – disse o detetive, ignorando a pergunta repetida do cliente – foi lavrada para Landow quatro dias antes do dia do casamento, quatro dias antes de o corpo de Jerome Falsoner ser encontrado.

Millar roía a unha de um dedo e balançava a cabeça de um lado a outro desesperançado.

– Não vejo aonde quer chegar – murmurou com o dedo na boca. – É tudo muito confuso.

– É verdade, sr. Millar – a rouca voz do detetive preencheu o escritório –, que você era mais amigo de Sara Falsoner do que qualquer um na empresa de seguros?

O jovem levantou a cabeça e olhou dentro dos olhos de Alec Rush com olhos marrons obstinadamente sinceros.

– A verdade – disse ele calmamente – é que pedi Sara Falsoner em casamento no dia em que ela foi embora.

– É. E ela?...

– E ela... acho que foi minha culpa. Fui desajeitado, rude, o que preferir. Deus sabe o que ela pensou... que eu a estava pedindo em casamento por piedade; que a estava tentando forçar a se casar demitindo-a, mesmo sabendo que estava até o pescoço de dívidas! Deve ter pensado qualquer coisa. De qualquer forma foi... foi desagradável.

– Quer dizer que ela não apenas recusou mas ficou, digamos, desagradada com a proposta?

– Sim.

Alec Rush recostou-se na cadeira e fez uma careta grotesca, os olhos vermelhos voltados para o teto e um bico de profunda reflexão repuxando os lábios grosseiros para o lado.

– O que nos resta a fazer – disse por fim – é ir a Landow e dizer o que sabemos.

– Tem certeza?... – objetou Millar sem muita convicção.

– A não ser que seja um tremendo ator, ele ama a esposa – disse o detetive, categórico. – Nada mais justo do que levar a história até ele.

Millar não estava convencido.

– Tem certeza que seria o melhor a fazer?

– É. Ou vamos a ele, ou vamos a ela, ou vamos à polícia. Acho que ele é a melhor alternativa. Mas você é quem decide.

O jovem assentiu com relutância.

– Tudo bem. Mas não precisa me meter nessa, precisa? – disse ele, subitamente alarmado. – Você cuida disso. Eu não quero me envolver. Entende o que eu disse? Ela é esposa dele e seria...

– Claro – prometeu Alec Rush. – Vou mantê-lo fora disso.

Rodando o cartão do detetive entre os dedos, Hubert Landow recebeu Alec Rush em uma sala luxuosamente mobiliada no segundo andar da casa em Charles-Street Avenue. Lá estava ele – alto, louro, belo e jovial – no meio da sala, olhando para a porta, quando o detetive – gordo, grisalho, abatido e feio – entrou.

– Queria me ver? Aqui, sente-se.

Os modos de Hubert Landow não eram bruscos nem cordiais. Eram exatamente os modos que se esperariam de um jovem que recebesse a visita inesperada de um detetive tão feio.

– É – disse Alec Rush quando se sentaram um defronte ao outro. – Tenho algo a dizer. Não vai demorar muito, mas é meio sério. Talvez seja uma surpresa para você, talvez não. Mas é honesto. Não quero que pense que estou de brincadeira.

Hubert Landow inclinou-se para a frente, vivamente interessado.

– Não pensarei – prometeu. – Vá em frente.

– Alguns dias atrás investiguei um homem que talvez esteja envolvido num negócio meu. Ele é um vigarista. Seguindo-o, descobri que estava interessado na sua vida, em sua esposa. Ele tem seguido vocês. Ele estava rondando o prédio de apartamentos onde você esteve ontem, na Mount Royal Avenue. Depois que você foi embora, ele entrou no prédio.

– Mas que diabos ele quer? – exclamou Landow. – Você acha que ele...

– Espere – aconselhou o feioso. – Espere até ouvir tudo e depois me diga o que acha. Depois que saiu de lá, ele foi até Camden Station, onde se encontrou com uma jovem. Conversaram um pouco e depois, naquela mesma tarde, ela foi presa por roubo numa loja de departamentos. O nome dela é Polly Bangs, e pagou uma pena em Wisconsin pelo mesmo crime. Sua fotografia estava na penteadeira dela.

– Minha fotografia?

Alec Rush assentiu calmamente. O jovem levantou-se.

– Sim, a sua. Conhece essa Polly Bangs? Garota robusta, quadrada, perto dos 26, olhos e cabelos castanhos... jeito atrevido?

Hubert Landow estava atônito.

– Não! O que diabos fazia ela com a minha foto? – perguntou. – Tem certeza de que era uma foto minha?

– Não a ponto de pôr a mão no fogo. Mas estou certo disso a ponto de precisar que me provem do contrário. Talvez seja alguém que você esqueceu, ou talvez ela tenha encontrado a foto em algum lugar, tenha gostado e guardado.

– Não faz sentido! – disse o jovem louro, embaraçado diante desse tributo à beleza de seu rosto. E corou, um vermelho tão vívido que Alec Rush pareceu pálido ao lado dele. – Tem que haver um motivo racional. Ela foi presa, você disse?

– É, mas já foi libertada sob fiança. Mas deixe-me prosseguir com a história. Na noite passada, conversei com esse vigarista de que lhe falei. Alega que foi contratado para matar a sua esposa.

Hubert Landow, que havia voltado a se sentar, moveu-se bruscamente, fazendo ranger todas as juntas da cadeira. Seu rosto, púrpura havia um segundo, tornou-se branco como uma folha de papel. Ouvia-se outro som na sala além do ranger da cadeira: o ruído abafado de uma respiração entrecortada. Aparentemente o jovem louro não estava ouvindo, mas os olhos avermelhados de Alec Rush moveram-se ligeiramente para o lado e fitaram brevemente uma porta fechada no outro lado da sala.

Landow levantara-se novamente, inclinando-se para o detetive, os dedos apoiados nos ombros ágeis e musculosos do feioso.

– Isso é horrível! – gritava. – Temos que...

A porta para a qual o detetive olhara pouco antes se abriu. Uma mulher alta e muito bonita entrou na sala. Era Sarah Landow. O cabelo revolto pairava como uma nuvem castanho-avermelhada ao redor de seu rosto pálido. Os olhos eram mortos. Caminhou lentamente em direção aos dois, o corpo ligeiramente inclinado para a frente, como se lutasse contra um vento forte.

– Não adianta, Hubert – a voz era mortiça como os olhos. – É hora de encarar os fatos. É Madeline Boudin. Ela descobriu que eu matei o meu tio.

– Cale-se, querida. Cale-se! – Landow tomou a mulher entre os braços e tentou acalmá-la acariciando o seu ombro. – Você não sabe o que está dizendo.

– Ah, mas eu sei – ela se esquivou de seus braços com indiferença e sentou-se na cadeira que Alec Rush acabava de vagar. – É Madeline Boudin. Ela sabe que eu matei o tio Jerome.

Landow voltou-se e agarrou o braço do detetive com ambas as mãos.

– Por favor, não dê atenção ao que ela diz, Rush – pediu. – Ela não tem estado bem. Ela não sabe o que diz.

Sarah Landow sorriu com amargura enfastiada.

– Não tenho estado bem? – disse ela. – É verdade, não ando nada bem. Não desde que o matei. Como poderia?

Os olhos vazios voltaram-se para Alec Rush.

– Você é um detetive. Prenda-me. Eu matei Jerome Falsoner.

Com as mãos nos quadris, pernas afastadas uma da outra, Alec Rush lançou um olhar severo para a mulher. Mas nada disse.

– Você não pode, Rush! – Landow voltou a puxar o braço do detetive. – Não pode, cara. Isso é ridículo! Você...

– Onde se encaixa essa Madeline Boudin? – perguntou a voz rouca de Alec Rush. – Eu sei que ela era íntima de Jerome, mas por que ela desejaria matar a sua esposa?

Landow hesitou, trançou os pés e respondeu com relutância:

– Era amante de Jerome, tem um filho dele. Quando minha mulher descobriu isso, insistiu em fazer um acordo quanto à herança. Foi por isso que fui vê-la ontem.

– É. Mas voltando a Jerome. Se bem me lembro, você e sua esposa estavam no apartamento dela quando ele foi morto.

Sarah Landow suspirou com impaciência desalentada.

– Por que toda essa discussão? – disse com a voz baixa e cansada. – Eu o matei. Ninguém mais o matou. Ninguém mais estava lá quando eu o matei. Eu o esfaqueei com a faca de papel quando ele me atacou. Ele disse: “Não! Não!” e começou a gritar, de joelhos. Daí eu fugi.

Alec Rush voltou os olhos da garota para o homem. O rosto de Landow estava suado, as mãos estavam pálidas e alguma coisa se revolvia em seu peito. Quando falou, a voz estava mais rouca que a do detetive, se não tão alta.

– Sara, você me esperaria aqui até eu voltar? Vou sair um pouquinho, talvez uma hora. Você me esperaria aqui, sem fazer nada, até eu voltar?

– Sim – disse ela sem interesse nem curiosidade na voz. – Mas não adianta, Hubert. Eu deveria ter dito antes. Não adianta.

– Apenas espere por mim, Sara – implorou. Depois, voltando-se para o detetive, murmurou em seu ouvido deformado: – Fique com ela, Rush, por favor!

E saiu apressadamente da sala.

Ouviu-se a porta da frente bater. Um automóvel afastou-se da casa.

– Onde é o telefone? – perguntou Alec Rush para a garota.

– Na sala ao lado – disse ela, sem tirar os olhos do lenço que tinha em mãos.

O detetive atravessou a porta pela qual a mulher entrara na sala e descobriu que se abria para uma biblioteca, com um telefone em um canto. No outro lado da biblioteca um relógio marcava 3h35. O detetive foi até o telefone, ligou para o escritório de Ralph Millar, chamou-o e disse:

– É Rush. Estou na casa dos Landows. Venha até aqui imediatamente.

– Mas eu não posso, Rush. Você não entende a minha...

– Não pode o diabo! – grasnou Rush. – Venha rápido!

A jovem de olhos mortiços ainda brincava com a bainha do lenço e não levantou o rosto quando o feioso voltou. Nenhum dos dois disse uma palavra. Sentado de costas para a janela, Alec Rush tirou o relógio do bolso duas vezes para consultá-lo com impaciência.

Ouviu-se o tilintar da campainha lá embaixo. O detetive cruzou o corredor e desceu as escadas com pesada agilidade. Ralph Millar – o rosto um campo de batalha onde lutavam o medo e o embaraço – estava no vestíbulo, murmurando qualquer coisa ininteligível para a empregada que abrira a porta. Alec Rush afastou a moça bruscamente e guiou Millar escada acima.

– Ela diz que matou Jerome – murmurou no ouvido do cliente enquanto subiam.

O rosto de Ralph Millar empalideceu, mas não demostrou surpresa com o que acabara de ouvir.

– Você sabia que ela o tinha matado? – rosnou Alec Rush.

Millar tentou falar duas vezes, mas não conseguiu emitir som algum. As palavras só vieram quando chegaram ao segundo andar.

– Eu a vi na rua naquela noite, indo para o apartamento dele!

Alec Rush sorriu com malícia e levou o jovem à sala onde estava Sara Landow.

– Landow saiu – sussurrou apressadamente. – Vou sair também. Fique com ela. Está birutinha, capaz de fazer qualquer coisa se a deixarmos só. Se Landow voltar antes, diga para me esperar.

Antes que Millar pudesse externar em palavras a confusão que tomara conta de seu rosto, já estavam na sala. Sara Landow levantou a cabeça. Seu corpo ergueu-se da cadeira como se movido por um poder invisível. Levantou-se, alta e ereta, sobre os próprios pés. Millar ficou parado diante da porta. Olharam-se, olhos nos olhos, agindo como se houvesse uma força que os unia e outra que os mantinha separados.

Silencioso, desgracioso, Alec Rush saiu à rua.

Na Mount Royal Avenue, viu a baratinha azul imediatamente. Estava vazia, parada em frente ao prédio de apartamentos onde morava Madeline Boudin. O detetive passou diante do prédio e estacionou o cupê junto ao meio-fio três quarteirões adiante. Mal havia feito isso quando Landow saiu do prédio, pulou dentro do carro e foi até um hotel na Charles Street. Atrás dele seguiu o detetive.

No hotel, Landow dirigiu-se à sala de leitura. Durante meia hora ficou ali, debruçado sobre uma escrivaninha, preenchendo apressadamente diversas folhas de papel, enquanto o detetive se ocultava por trás de um jornal num canto escondido do saguão, de olho na porta da sala de leitura. Landow saiu dali metendo um grosso envelope no bolso, deixou o hotel, entrou no carro e dirigiu até o escritório de um serviço de mensageiros, na St. Paul Street.

Esteve nesse escritório durante cinco minutos. Quando saiu, deixou a baratinha estacionada e foi a pé até a Calvert Street, onde embarcou num bonde que ia para o norte. O cupê de Alec Rush seguiu atrás do bonde. Landow saltou do bonde em Union Station e foi até o guichê de passagens. Havia acabado de pedir uma passagem só de ida para a Filadélfia quando Alec Rush deu-lhe um tapinha no ombro.

Hubert Landow voltou-se lentamente, o dinheiro da passagem ainda nas mãos. Não esboçou expressão em seu belo rosto ao reconhecer o detetive.

– Sim – disse com frieza. – O que é?

Alec Rush apontou para o guichê e para o dinheiro na mão de Landow.

– Você não devia estar aqui – grunhiu o detetive.

– Aí está – disse o bilheteiro através da grade. Nenhum dos dois homens deu-lhe atenção. Uma mulher alta, vestindo rosa, vermelho e violeta, acotovelou Landow, pisou no pé dele e passou à sua frente. Landow se afastou do guichê, o detetive o seguiu.

– Não devia ter deixado Sara sozinha – disse Landow. – Ela está...

– Ela não está só. Deixei alguém tomando conta dela.

– Não a...

– Não a polícia, se é o que está pensando.

Landow pôs-se a caminhar devagar ao longo do pátio da estação, o feioso ao lado dele. Mais adiante parou e olhou diretamente nos olhos do detetive.

– É o tal de Millar que está com ela? – perguntou.

– É.

– É o homem para quem está trabalhando?

– É.

Landow voltou a caminhar. Quando atingiram a extremidade norte do pátio da estação, ele falou novamente.

– O que quer esse Millar?

Alec Rush deu de ombros e nada disse.

– Bem, e o que quer você? – perguntou o jovem com certa veemência, olhando diretamente para o detetive.

– Quero que não saia da cidade.

Landow franziu as sobrancelhas enquanto pensava.

– Suponha que eu insista em sair – perguntou. – Como vai me impedir?

– Posso acusá-lo de cumplicidade no assassinato de Jerome.

Novo silêncio, quebrado por Landow.

– Veja, Rush. Você trabalha para Millar. Ele está em minha casa. Acabo de enviar uma carta para Sara através de um mensageiro. Dê-lhes tempo para lerem a carta e depois ligue para lá e pergunte a Millar se ele me quer preso.

Alec Rush moveu a cabeça de um lado a outro, decidido.

– Nada disso – arranhou. – Millar é muito leviano e eu não posso levá-lo a sério por telefone, em se tratando de um assunto como esse. Vamos voltar lá e conversar.

Foi a vez de Landow torcer o nariz.

– Não – rebateu. – Não vou! – E olhando com frieza calculada para o rosto do detetive disse: – Posso comprá-lo, Rush?

– Não, Landow. Não deixe que a minha aparência e a minha ficha o enganem.

– Achei que não. – Landow olhou para o teto e depois para os próprios pés, suspirou profundamente e disse: – Não podemos falar aqui. Vamos procurar um lugar mais tranqüilo.

– Minha carroça está lá fora – disse Alec Rush. – Podemos ir até lá.

Sentados no cupê de Alec Rush, Hubert Landow acendeu um cigarro e o detetive acendeu um charuto.

– Essa Polly Bangs, de quem você falou, Rush, é minha mulher – disse o louro, sem preâmbulos. – Meu nome é Henry Bangs. Você não vai encontrar as minhas impressões em lugar algum. Nos dois anos em que Polly ficou presa em Milwaukee, vim para o Leste e conheci Madeline Boudin. Formamos um bom time. Ela era inteligente, e se eu tiver alguém para pensar por mim acabo me revelando um ótimo operário.

Ele sorriu para o detetive, chamando atenção para o próprio rosto com a ponta do cigarro. O detetive olhou. O rosto do louro foi tomado de um rubor semelhante ao de uma menina em idade escolar. Depois, riu novamente, e o rubor desvaneceu.

– É o meu melhor truque. Fácil se você tem o dom e mantém a prática. Encha o pulmão e tente expulsar o ar enquanto o prende com a laringe. É uma mina de ouro para um vigarista! Você ficaria surpreso como as pessoas acreditavam em mim após eu corar uma ou duas vezes. Portanto, eu e Madeline estávamos nos dando bem. Ela tinha miolos, sangue-frio e uma bela fachada. Eu tinha tudo, menos miolos. Fizemos dois golpes juntos, um estelionato e uma chantagem, e daí ela conheceu Jerome Falsoner. Íamos dar um suadouro nele. Mas quando Madeline descobriu que Sara era a sua herdeira, que devia dinheiro, e que ela e seu tio não se davam bem, decidimos desistir do primeiro plano e preparar outro muito mais lucrativo. Madeline deu um jeito de me apresentar a Sara. Me fiz de agradável, bancando o tolo, o jovem tímido embora virtuoso.

“Madeline tinha miolos, como já disse. E os usava todo o tempo. Cortejei Sara enviando-lhe doces, livros, flores, levando-a a peças de teatro e para jantar fora. Os livros e as peças eram parte do trabalho de Madeline. Dois dos livros mencionavam o fato de um cônjuge não poder testemunhar contra o outro em corte. Uma das peças tratava do mesmo assunto. Assim, plantamos as sementes. Plantamos outra com o meu ruborescer e o meu tartamudear, persuadindo Sara ou, melhor, deixando-a descobrir por si mesma que eu era o pior mentiroso do mundo.

“Feita a semeadura, levamos o jogo adiante. Madeline estava bem com Jerome. Sara se endividava cada vez mais. Demos uma força para piorar as coisas. Certa noite, mandamos um ladrão fazer a limpa no apartamento dela, um tal de Roby Sweeger, talvez você o conheça. Está no xilindró agora por outra extravagância. Levou o dinheiro que ela tinha e tudo o mais que podia pôr no prego. Então, instigamos algumas das pessoas para as quais ela devia, enviando-lhes cartas anônimas e avisando-os para não se fiarem demais no fato de ela ser herdeira de Jerome Falsoner. Cartas tolas, mas que funcionaram. Alguns credores enviaram cobradores à empresa de seguros onde ela trabalhava.

“Jerome recolhia a renda da herança a cada quatro meses. Tanto Sara quanto Madeline sabiam a data. No dia anterior a uma dessas coletas, Madeline voltou à carga sobre os credores de Sara. Eu não sei o que ela disse para eles, mas foi o bastante. Acorreram à empresa de seguros em bando. No dia seguinte, Sara recebeu o salário equivalente a duas semanas de trabalho e foi demitida. Quando ela saiu eu a encontrei... por acaso... sim, eu a estava vigiando desde a manhã. Eu a levei para um passeio e voltamos para o apartamento dela às seis. Lá encontramos mais credores frenéticos esperando para saltar sobre ela. Expulsei-os e banquei o rapaz de bom coração, propondo-lhe, envergonhado, todo tipo de ajuda. Ela recusou, é claro, e vi a idéia formando-se em seu rosto. Ela sabia que aquele era o dia em que Jerome recebia o cheque quadrimestral e decidiu visitá-lo para pedir que, pelo menos, quitasse as suas dívidas. Não me disse aonde ia, mas eu já sabia, uma vez que estava esperando por isso.

“Fui embora e esperei defronte do prédio de Sarah, na Franklin Square, até ela sair. Encontrei um telefone, liguei para Madeline e disse que Sara estava a caminho do apartamento do tio.”

O cigarro de Landow queimava-lhe os dedos. Ele o jogou fora, amassou-o com o pé e acendeu outro.

– É uma história comprida, Rush – desculpou-se. – Mas já está acabando.

– Continue, filho – disse Alec Rush.

– Havia algumas pessoas na casa de Madeline quando liguei, gente que tentava persuadi-la a ir a uma festa no interior. Daí ela concordou em ir. Seria um álibi ainda melhor do que o que ela estava preparando. Madeline disse-lhes que iria, mas que tinha que ver Jerome antes. Então eles a levaram até lá e esperaram no carro enquanto ela o visitava.

“Madeline havia trazido uma garrafa de conhaque devidamente batizado. Serviu uma dose para Jerome e falou do novo contrabandista de bebidas alcoólicas que ela havia encontrado, sujeito que tinha uma dúzia ou mais de caixas do mesmo conhaque e que pretendia vendê-las a um preço bem razoável. O conhaque era bom e o preço melhor ainda, o que o fez pensar que ela de fato havia aparecido ali para lhe oferecer algo de bom. Jerome fez um pedido que ela se encarregaria de entregar ao contrabandista. Após certificar-se de que a faca de papel estava bem visível sobre a mesa, Madeline levou Jerome até a porta, de modo que todos vissem que ele estava vivo, e foi embora com os amigos.

“Eu não sei o que Madeline pôs no conhaque. Se me disse, esqueci. Era uma droga poderosa... não era veneno, era um excitante. Saberá o que quero dizer quando ouvir o resto. Sara deve ter chegado ao apartamento do tio cerca de dez ou quinze minutos depois da partida de Madeline. Segundo me disse, quando o tio abriu a porta, estava com o rosto vermelho, nervoso. Mas Jerome era um homem frágil e ela era forte, e naquele momento ela não teria medo do próprio demônio. Sara entrou e pediu que ele pagasse as suas dívidas, mesmo que não concordasse em dar-lhe uma parte da renda.

“Eram dois Falsoners e a briga deve ter ficado séria. Ao mesmo tempo, a droga estava fazendo efeito, e ele acabou atacando a sobrinha. A faca de papel estava em cima da mesa, como vira Madeline. Jerome estava histérico, e Sara não é dessas garotinhas amedrontadas que se espremem num canto e berram por socorro. Ela pegou a faca de papel e o golpeou. Quando ele caiu, ela se foi.

“Tendo seguido Sara tão logo acabei de telefonar para Madeline, eu estava em frente à casa de Jerome quando ela saiu. Eu a parei e ela me disse que matara o tio. Pedi-lhe que esperasse ali mesmo e entrei para ver se ele estava realmente morto. Daí, levei-a para casa, explicando a minha presença à porta de Jerome dizendo em meu modo tolo e canhestro que ficara com medo que ela fizesse algo impensado e que, por isso, decidi ficar de olho nela.

“Quando voltou para casa, Sara estava disposta a se entregar para a polícia. Mostrei-lhe o perigo que correria fazendo isso, argumentando que, estando endividada e tendo ido pedir dinheiro ao tio, de quem era herdeira, ela certamente seria condenada. A história sobre o ataque sofrido, eu a persuadi, seria desprezada pela polícia como uma lorota insignificante. Atônita como estava, não foi difícil convencê-la. O próximo passo foi fácil. A polícia iria investigá- la mesmo que não suspeitasse dela diretamente. Até então, eu era a única pessoa cujo testemunho poderia incriminá-la. Eu era leal. Mas também era o pior mentiroso do mundo. Então não era verdade que a mentira mais tola me fazia corar como uma bandeira de leiloeiro? O único modo de superar essa dificuldade estava nos dois livros que eu lhe dera e numa das peças que víramos: se eu me casasse com Sara não poderia ser chamado a testemunhar contra ela. Casamos na manhã seguinte, com uma licença que eu carregava havia quase uma semana.

“Bem, ali estávamos nós. Eu estava casado com ela. Sara receberia dois milhões de dólares quando saísse a herança do tio, mas, ao que tudo indicava, não poderia escapar da prisão e da condenação. Mesmo que ninguém a tivesse visto entrar ou sair do apartamento, a sua culpa ainda era evidente. E o caminho tolo que eu a obrigara a seguir apenas arruinaria sua alternativa de alegar legítima defesa. Se a enforcassem, os dois milhões seriam meus. Se pegasse uma longa pena, eu pelo menos administraria o dinheiro.”

Landow jogou fora e amassou o segundo cigarro e olhou durante um momento para um ponto indefinido ao longe.

– Você acredita em Deus ou na Providência Divina, ou no destino, ou em alguma dessas coisas, Rush? – perguntou. – Uns acreditam numa coisa, outros em outra, mas ouça. Sara nunca foi presa e nem chegou a ser suspeita do crime. Parece que tinha um finlandês ou sueco, sei lá, que teve uma briga com Jerome, e que o ameaçara. Suponho que esse cara não pudesse provar onde estava na noite do assassinato. Daí que ele se escondeu quando soube da morte de Jerome, e a suspeita da polícia recaiu sobre ele. Investigaram Sara, é claro, mas apenas superficialmente. Ninguém parecia tê-la visto na rua, e as pessoas no prédio onde morava, que a viram chegar comigo às seis horas da tarde, não a viram ou não se lembraram de tê-la visto sair novamente, e disseram à polícia que ela ficara lá a noite inteira. A polícia estava muito interessada no finlandês desaparecido, ou seja lá qual a nacionalidade dele, para continuar investigando Sara.

“E aí estávamos nós novamente. Eu estava casado com o dinheiro, mas não podia dar a parte de Madeline. Esta, por sua vez, sugeriu que podíamos deixar as coisas como estavam por enquanto, até ser resolvido o assunto da herança, e depois denunciar Sara para a polícia. Mas quando o dinheiro saiu, houve outro impedimento. Esse por minha conta. Eu... eu... bem, eu queria que a coisa continuasse como estava. Nada tinha a ver com o racional, compreende? Era só isso... bem... viver com Sara era tudo o que eu mais desejava. Eu nem mesmo estava arrependido do que fizera por que, de outro modo, nunca a teria.

“Não sei se posso explicar isso para você, Rush, mas mesmo agora não me arrependo de nada. Se pudesse ter sido diferente... mas não pôde. Seria assim ou não seria de modo algum. E eu tive esses seis meses. Vejo que fui um idiota. Sara não era para o meu bico. Eu a conquistara com um crime e com um truque, e embora eu me agarrasse à tola esperança de que algum dia ela me olharia... me olharia como eu olho para ela, no fundo eu sabia que isso jamais iria acontecer. Há um sujeito, esse Millar. Ela está livre, agora que sabe do meu casamento com Polly, e espero que ela... espero... bem, Madeline começou a exigir a parte dela. Eu disse que Madeline havia tido um filho de Jerome e Sara concordou em dar algum dinheiro para ela. Mas isso não satisfez Madeline. Não por ciúme de mim. Só pelo dinheiro. Queria cada centavo que pudesse conseguir, e ela não teria o bastante num acordo do tipo que Sara lhe propusera.

“Com Polly era isso também, mas talvez um pouco mais. Ela gostava de mim, acho. Não sei como ela me encontrou aqui depois que foi libertada em Wisconsin, mas imagino o que ela pensou. Eu estava casado com uma mulher rica. Se a mulher morresse – assassinada por um bandido numa tentativa de assalto, por exemplo –, então eu teria todo o dinheiro e Polly teria tanto o dinheiro quanto a mim. Eu não a vi e nem saberia que ela estava em Baltimore se você não tivesse me dito, mas foi assim que ela raciocinou. A idéia do assassinato deve ter ocorrido tão facilmente quanto ocorreu a Madeline.

“Eu dissera a Madeline que não continuaria a fazer o jogo com Sara. Madeline sabia que se fosse adiante por conta própria e denunciasse Sara pela morte de Falsoner eu abriria o jogo e a incriminaria. Mas se Sara morresse, então eu teria o dinheiro e Madeline poderia ficar com a parte dela.

“Eu não sabia de nada disso até você me dizer, Rush. Não dou a mínima para a sua opinião ao meu respeito, entretanto é a mais pura verdade que eu não sabia que Polly e Madeline estavam tentando matar Sara. Bem, isso é quase tudo. Você estava me seguindo quando fui ao hotel?”

– É.

– Achei que sim. A carta que escrevi e mandei para casa diz exatamente o que eu lhe disse agora, dá conta de toda a história. Eu ia fugir, deixando Sara livre. Ela está livre, com certeza, e agora eu tenho que encarar os fatos. Mas não quero revê-la, Rush.

– Não creio que queira – concordou o detetive. – Não depois de tê-la transformado numa assassina.

– Mas eu não fiz isso – protestou Landow. – Ela não é assassina. Esqueci-me de lhe dizer, mas está na carta. Jerome Falsoner não estava morto, nem mesmo morrendo, quando eu cheguei ao seu apartamento. A faca entrou muito alta no peito. Eu o matei enfiando a faca no mesmo ferimento, mas forçando-a para baixo. Foi por isso que fui até lá, para ter certeza de que ele estava acabado!

Alec Rush ergueu os olhos selvagens e vermelhos e olhou longamente para o rosto do assassino confesso.

– Isso é mentira – grasnou por fim. – Mas é das boas. Tem certeza de que quer mantê-la? A verdade seria suficiente para libertar a garota e talvez nem o atinja.

– Que diferença isso faz? – perguntou o jovem. – Estou muito comprometido de qualquer modo. Assim, deixo Sara quite com a lei e com a própria consciência. Outro crime não fará diferença. Eu lhe disse que Madeline tinha miolos. E eu estava com medo deles. Talvez ela tivesse alguma carta na manga para lançar contra nós... e arruinar Sara. Ela podia me enganar quando quisesse. Eu não podia dar-lhe essa chance.

Ele riu para o rosto feioso de Alec Rush e com um gesto quase teatral tirou o punho da camisa alguns centímetros para fora da manga do terno. O punho ainda estava úmido de uma mancha castanho-avermelhada.

– Matei Madeline há uma hora – disse Henry Bangs, ou Hubert Landow.

 

OceanofPDF.com