Tiros na Noite
Capítulo V
– Como é ele fisicamente?
– Grande. Um metro e oitenta ou mais, cerca de noventa quilos. Tem uma cara engraçada. A boca parece ter sido moldada para outra pessoa. É pequena demais se comparada ao rosto e à mandíbula. Não é jovem, e sim um homem de meia-idade.
– Siga-o um ou dois dias, Bob, e veja o que pretende. Tente alugar um quarto ou apartamento na vizinhança, um lugar de onde possa vigiar a porta dele.
V
O rosto magro de Vance Richmond iluminou-se tão logo mencionei o nome de Ledwich.
– Sim! – exclamou. – Ele era amigo ou, ao menos, conhecido do dr. Estep. Eu o encontrei certa vez: um homem enorme com uma boca pequena peculiarmente desproporcional. Certo dia, passei para visitar o doutor e Ledwich estava no consultório. O dr. Estep nos apresentou.
– O que sabe sobre ele?
– Nada.
– Não sabe se ele era íntimo ou apenas um conhecido do doutor?
– Não. Poderia ser um amigo, paciente ou qualquer outra coisa. O doutor nunca falou dele para mim e nada aconteceu entre eles enquanto eu estive lá naquela tarde. Apenas transmiti ao doutor algumas informações que ele me pedira e fui embora. Por quê?
– Após ter certeza de que não estava sendo seguida, a primeira esposa do dr. Estep encontrou-se com Ledwich ontem à tarde. E tudo indica que ele é algum tipo de trapaceiro.
– E o que isso quer dizer?
– Não estou bem certo, mas dá para especular um bocado. Ledwich tanto conhecia o dr. Estep quanto a sua primeira esposa; daí, não é má idéia supor que ela sempre soube onde estava o marido. Se sabia, também não é má idéia supor que estava tirando dinheiro dele. Você poderia verificar as contas do doutor e identificar alguma movimentação de valores inexplicável?
O advogado balançou a cabeça negativamente.
– Não. O doutor era muito negligente com a própria contabilidade. E deve ter tido muitos problemas para fazer as suas declarações de imposto de renda.
– Compreendo. Mas, voltando às minhas especulações: se ela sabia todo o tempo do paradeiro do marido e estava tirando dinheiro dele, então por que veio vê-lo desta vez? Talvez porque...
– Acho que essa eu posso responder – interrompeu Richmond. – Um feliz investimento em madeira de construção quase dobrou o patrimônio do dr. Estep há uns dois ou três meses.
– Então é isso! Ela soube por meio de Ledwich. E, seja por meio de Ledwich, seja por carta, exigiu uma boa parte desse dinheiro, mais do que o doutor estava disposto a pagar. Quando ele se recusou, ela veio exigir pessoalmente sob ameaça, digamos, de desmascará-lo. Ele a levou a sério. Ou não podia levantar o dinheiro exigido ou estava cansado de viver uma vida dupla. De qualquer modo, pensou que estava tudo acabado e decidiu cometer suicídio. Isso é apenas especulação ou uma série de especulações, mas me parece razoável.
– Para mim também – disse o advogado. – O que você vai fazer agora?
– Mantenho os dois sob vigilância. Não há outro modo de lidar com eles no momento. Mandei investigar a mulher em Louisville, mas, como você deve compreender, eu posso descobrir um monte de coisas a respeito deles e ainda assim não encontrar a carta que o dr. Estep escreveu antes de morrer.
“É bem provável que a mulher tenha destruído a carta, o que teria sido muito esperto da parte dela. Mas, se eu conseguir descobrir mais sobre ela, talvez possa forçá-la ao menos a admitir que a carta foi escrita e que dizia algo a respeito de suicídio, se é que dizia. E isso seria o bastante para liberar a sua cliente. A propósito, como vai ela hoje? Alguma melhora?”
O rosto magro perdeu a animação que o acometera durante a nossa conversa sobre Ledwich e se tornou subitamente taciturno.
– Desmoronou completamente ontem à noite e foi removida para o hospital, para onde deveria ter sido levada desde o início. Para falar a verdade, se ela não for liberada logo, não vai mais precisar de nossa ajuda. Fiz o possível para que fosse liberada sob fiança, mexi todos os pauzinhos que conheço, mas há pouca chance de sucesso nesse sentido. Saber que está presa, acusada de ter assassinado o marido, a está matando. Ela não é jovem e sempre foi sujeita a distúrbios nervosos. O mero choque da morte do marido foi suficiente para prostrá-la... Mas agora... Você tem que conseguir tirá-la de lá, e rápido!