Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 2 de 44 · parte 1/2

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Tiros na Noite

Cidade pesadelo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Um Ford – branco de poeira do deserto, a tal ponto que parecia fundir-se às nuvens de pó que rodopiavam à sua volta – descia pela rua principal de Izzard. Assim como a poeira, o carro vinha ligeiro, errático, ziguezagueando de um lado a outro da avenida.

Uma mulher baixa – moça de seus vinte anos, com uma roupa de flanela bege – começou a atravessar a rua. Foi por pouco que o Ford não a pegou, só não a atropelando porque o salto que ela deu para trás foi ágil como o de um pássaro. A moça mordeu o lábio inferior com seus dentes muito brancos, enquanto os olhos escuros dardejavam o carro que se afastava. E recomeçou a atravessar a rua.

Quando já se aproximava do meio-fio, do outro lado, o Ford veio de novo em sua direção, embora a manobra para retornar o tivesse feito perder velocidade. Dessa vez, ela só escapou porque atravessou correndo o trecho que faltava e subiu a calçada.

Um homem saltou do carro em movimento. Conseguiu equilibrar-se por milagre, oscilando e tropeçando até que seu braço agarrou-se a um pilar de ferro, que o pôs de pé, de forma abrupta. Era um sujeito grande, com uma roupa cáqui esbranquiçada, alto, forte e com braços musculosos. Seus olhos cinzentos estavam injetados. Tanto o rosto quanto a roupa, pesados de poeira. Numa das mãos, trazia uma bengala preta e grossa. Com a outra, tirou o chapéu, fazendo uma mesura exagerada diante do olhar zangado da moça.

Terminado o cumprimento, jogou o chapéu no meio da rua e deu um sorriso grotesco através da poeira que fazia de seu rosto uma máscara – um sorriso que acentuou o peso de seu maxilar sombreado pela barba por fazer.

– Perdão, por... favor – disse. – Acho que, se não tomasse cuidado, teria batido em você. A culpa é do carro. Peguei de um eng... engenheiro. Nunca peça nada emprestado de um engenheiro... Não se pode confiar neles...

A garota olhou na direção do homem como se ele não estivesse ali, como se nunca ninguém tivesse estado ali. Em seguida, virou-lhe as costas magras e se afastou com firmeza.

Ele ficou olhando para ela, surpreso, com um ar de estupidez estampado nos olhos, até que a moça desapareceu por uma porta no meio do quarteirão. Então, coçou a cabeça, deu de ombros e virou-se para observar a rua. Foi quando viu que seu carro, em cima da calçada, com a frente enfiada nos tijolos vermelhos do Banco de Izzard, tremia em estertores, como se estivesse em pânico ao se ver sem motorista.

– Olha só para esse filho-da-mãe – exclamou.

Alguém agarrou seu braço. Ele se virou e, ao fazê-lo, embora fosse um homem de mais de um metro e oitenta, teve de erguer o rosto para olhar nos olhos do gigante que o segurava.

– Vamos dar uma voltinha – disse o gigante.

O homem com a roupa cáqui desbotada olhou o outro de cima a baixo, da ponta dos sapatos largos até o alto do chapéu preto, examinando-o com sincera admiração, transparente em seus olhos avermelhados. Seu interlocutor era uma massa de mais de um e noventa de altura. As pernas pareciam pilares sustentando o barril enorme do corpo, com ombros largos ligeiramente inclinados, como se curvados por seu próprio e imenso peso. Era um homem de seus 45 anos, de feições grosseiras, fleumáticas, e rugas em torno dos olhos pequenos e claros – o rosto de um homem decidido.

– Deus do céu, como você é grande! – disse o homem de cáqui, assim que terminou de examiná-lo. E então seus olhos se iluminaram. – Proponho uma luta. Aposto dez pratas contra quinze que consigo jogar você no chão. Vamos lá!

O gigante deu uma risada abafada pelo peito largo e, agarrando o homem pela parte de trás do colarinho e por um braço, seguiu com ele rua abaixo.

Steve Threefall acordou sem surpreender-se muito com a estranheza à sua volta, pois não era a primeira vez que despertava em locais desconhecidos. Antes de abrir completamente os olhos já sabia alguns dados essenciais sobre o lugar onde estava. Sentindo a dureza da cama de parede e o cheiro forte de desinfetante nas narinas, teve certeza de que estava preso. A cabeça e a boca lhe diziam que estivera bêbado. E a barba de três dias lhe dizia que estivera muito bêbado.

À medida que se levantava, virando-se para pôr os pés no chão, começou a se lembrar dos detalhes. Os dois dias de bebedeira em Whitetufts, do outro lado da divisa entre Nevada e a Califórnia, junto com o proprietário do hotel, Harris, e com um engenheiro de irrigação chamado Whiting. A discussão acirrada sobre travessias no deserto, ele contrapondo sua própria experiência em Gobi com a experiência americana dos outros dois. E a aposta de que ele não conseguiria dirigir de Whitetufts até Izzard em pleno dia, com nada para ingerir além da birita amarga que estavam bebendo enquanto conversavam. A partida, no lusco-fusco do dia que nascia, no Ford de Whiting, com Whiting e Harris, cambaleantes, tentando segui-lo pela rua e acordando a cidade inteira com sua gritaria de bêbados, com seus conselhos debochados, até a chegada ao ponto onde o deserto começava. E então a travessia do deserto, pela estrada que era ainda mais quente do que o resto do deserto, além de... E ele achou melhor não pensar mais na travessia. O importante é que tinha conseguido – tinha ganho a aposta. Só não conseguia se lembrar quanto tinha apostado.

– Acordou, finalmente? – trovejou uma voz.

A porta gradeada de aço se abriu e um homem apareceu na entrada da cela. Steve deu um sorriso. Era o gigante que não quis brigar. Agora estava sem o sobretudo e sem o colete, o que o fazia parecer ainda maior. No suspensório, uma plaquinha brilhante trazia escrito XERIFE.

– Fome? – perguntou.

– Eu faria alguma coisa com uma xícara de café preto – admitiu Steve.

– Muito bem. Mas vai ter de engolir rápido. O juiz Denvir está esperando para o acerto de contas, e quanto mais ele esperar, pior para você.

O lugar onde o juiz Tobin Denvir fazia justiça era uma sala grande no terceiro andar de uma construção de madeira. Parcamente mobiliada, tinha apenas uma mesa, uma velha escrivaninha, uma gravura em aço do político Daniel Webster, uma estante de livros soterrados por poeira de várias semanas, uma dúzia de cadeiras desconfortáveis e meia dúzia de escarradeiras de louça, rachadas e sujas.

O juiz estava sentado entre a escrivaninha e a mesa, com os pés sobre esta última. Eram pés pequenos, e ele era um homem baixo. Tinha o rosto congestionado por pequenas linhas de irritação, os lábios finos e apertados, os olhos sem pálpebras, como os de um pássaro.

– Bem, qual é a acusação? – perguntou, com sua voz fina e metálica. Continuava com os pés em cima da mesa.

O xerife deu um longo suspiro e disse:

– Dirigindo na pista errada, ultrapassando o limite de velocidade, dirigindo embriagado e sem carteira de motorista, pondo em perigo a vida de pedestres ao tirar as mãos do volante e estacionando em local proibido... em cima da calçada, em frente ao banco.

O xerife tomou fôlego e em seguida, visivelmente lamentando, completou:

– Havia também uma acusação de tentativa de agressão, mas a srta. Vallance não apareceu. Então, ela foi retirada.

Os olhos da Justiça se voltaram para Steve.

– Como é seu nome? – grunhiu.

– Steve Threefall.

– É seu nome verdadeiro? – perguntou o xerife.

– Claro que é – interveio o juiz. – Você acha que alguém seria tolo o suficiente para dar um nome desses se não fosse verdadeiro? – E virando-se outra vez para Steve: – E então... você é culpado ou inocente?

– Eu estava um pouco...

– Culpado ou inocente?

– Bem, acho que, de fato, eu fiz...

– Isso basta. Vai ter de pagar uma fiança de 150 dólares, mais as custas. As custas são quinze dólares e oitenta centavos, o que dá um total de 165 dólares e oitenta centavos. Vai pagar ou vai para a cadeia?

– Se tiver, vou pagar – respondeu Steve, virando-se para o xerife. – Meu dinheiro está com você. Eu tenho tudo isso?

O xerife balançou a cabeça.

– Tem – disse –, exatamente isso, contando cada centavo. Não é engraçado?

– É... muito engraçado – repetiu Steve.

Enquanto o juiz de paz fazia o recibo da fiança, o xerife devolveu a Steve seu relógio, cigarro, fósforos, um canivete, chaves e, finalmente, a bengala preta. O homenzarrão segurou-a na mão, examinando-a antes de dá-la a Steve. Era grossa, feita de ébano, muito pesada – mesmo para esse tipo de madeira – e com um peso equilibrado, evidenciando que havia chumbo embutido tanto no castão quanto na ponteira. Exceto por um pedaço do tamanho da mão de um homem, bem no meio, a bengala estava marcada com cortes e amassados, como se tivesse sido muito usada – marcas que nem um polimento cuidadoso tinha sido capaz de remover ou encobrir. No pedaço do tamanho de uma mão, sua cor preta era mais suave – tão suave quanto o preto do castão –, como se tivesse tido muito contato com a palma da mão humana.

– Como arma, num assalto, não é nada má – disse o xerife, com um olhar significativo, ao entregar a bengala ao dono.

Steve tomou-a, agarrando-a com a mesma convicção que um homem reserva a uma companhia favorita e constante.

– Nada má – concordou. – E onde está o calhambeque?

– Na garagem da rua principal, depois da esquina. Pete falou que não está totalmente destruído e que pode dar uma consertada, se você quiser.

O juiz entregou o recibo.

– É só isso, então? – perguntou Steve.

– Espero que sim – respondeu o juiz Denvir, amargo.

– Esperamos – concordou Steve. Em seguida, pôs o chapéu, ajeitou a bengala preta debaixo do braço, fez um cumprimento com a cabeça na direção do xerife e saiu da sala.

Steve Threefall estava contente quando desceu as escadas de madeira em direção à rua, pelo menos à medida que o estado de seu corpo – ardendo por dentro, por causa da maldita birita, e por fora, por conta da travessia causticante no deserto – permitia. O fato de a Justiça ter esvaziado seu bolso até o último centavo pouco lhe importava. Era assim mesmo que a Justiça tratava os forasteiros e, além do mais, tinha deixado a maior parte do seu dinheiro com o dono do hotel em Whitetufts. Escapara da cadeia e podia se considerar sortudo. Ia telegrafar para Harris e pedir que lhe mandasse dinheiro, esperar na cidade enquanto o Ford estivesse sendo consertado e depois voltar para Whitetufts – só que dessa vez sem uísque como ração.

– Não vai, não! – gritou uma voz em seu ouvido.

Steve deu um pulo, mas em seguida riu de seus nervos afetados pelo álcool. As palavras não tinham sido dirigidas a ele. Numa curva da escada, bem atrás dele, havia uma janela aberta e, em frente a ela, do outro lado de uma passagem estreita, havia outra, em outro prédio, também aberta. Era a janela de um escritório, onde dois homens discutiam cara a cara, diante de uma mesa de tampo achatado.

Um deles, de meia-idade, era robusto e usava um casacão preto, do qual surgia a barriga protuberante, num colete branco. Estava vermelho de raiva. O homem do outro lado da mesa era mais jovem – tinha talvez seus trinta anos, com um bigodinho preto, feições finas e um cabelo castanho e brilhante como cetim. Seu corpo de atleta estava impecavelmente vestido com um terno cinza, uma camisa cinza e uma gravata cinza e prateada. Na mesa, junto dele, estava um chapéu-panamá com a faixa cinza. Ao contrário do outro, tinha o rosto pálido.

O homem gordo falou – uma dúzia de palavras, só que muito baixo. Não deu para ouvir.

Por cima da mesa, o mais jovem espalmou-lhe uma bofetada no rosto – com a mesma mão que, num segundo, se enfiaria no bolso do paletó, de lá saindo com uma pistola automática já de nariz empinado.

– Sua lata de banha! – gritou o mais jovem, com a voz sibilante. – Você manda suspender ou então vou ser obrigado a estragar a sua roupa!

Espetou a barriga protuberante com a pistola e riu da cara de medo do gordo – riu com um brilho ameaçador, tanto nos dentes certos quanto nos olhos escuros e rasgados. Em seguida, apanhou o chapéu, guardou a pistola e desapareceu de vista. O gordo se sentou.

E Steve desceu em direção à rua.

Steve descobriu a garagem para onde o Ford tinha sido levado e encontrou o mecânico sujo de graxa que atendia pelo nome de Pete. Ficou então sabendo que o automóvel de Whiting estaria pronto para se mover pelas próprias rodas dentro de dois dias.

– Que confusão que você arrumou ontem, hein? – disse Pete, rindo.

Steve riu também e saiu. Foi em direção ao posto telegráfico, ao lado do Izzard Hotel, parando por um instante na calçada para apreciar um carrão Vauxhall-Velox, com sua cor creme brilhante, parado junto ao meio-fio. Naquela cidade industrial, imunda, ele parecia tão deslocado quanto uma opala multicor na vitrine de uma mercearia.

Na porta do posto de telégrafo, Steve parou de novo, de súbito.

Atrás do balcão estava uma garota com um vestido de flanela bege – a garota que ele quase atropelara duas vezes na tarde anterior –, a “srta. Vallance”, que deixara de fazer mais uma acusação contra Steve Threefall perante a Justiça. Diante do balcão, debruçado, conversando como se tivesse grande intimidade com a moça, estava um dos dois homens que ele vira da janela da escada meia hora antes – o dandy elegante vestido de cinza, que dera um tapa na cara do outro, ameaçando-o com uma automática.

A garota ergueu o rosto, reconheceu Steve e empertigou-se. Steve tirou o chapéu e deu um passo à frente, sorrindo.

– Sinto muito pelo que aconteceu ontem – disse. – Viro um bobalhão quando...

– O senhor quer mandar um telegrama? – perguntou ela, com frieza.

– Quero – disse Steve. – E também gostaria de...

– Os formulários e o lápis estão na escrivaninha, perto da janela. – Ela lhe virou as costas.

Steve sentiu-se corar, mas como era um desses homens que riem quando estão por baixo, deu uma risadinha e se viu encarando os olhos escuros do homem de cinza.

Ele sorriu por baixo do bigodinho castanho e disse:

– A coisa foi boa ontem.

– Foi – concordou Steve, dirigindo-se à mesa indicada pela garota. Lá, redigiu o telegrama:

Henry Harris

Harris Hotel, Whitetufts:

Cheguei bem, porém duro. Favor mandar duzentos dólares. Volto

sábado.

Threefall

Mas não saiu logo da escrivaninha. Ficou ali sentado, com o pedaço de papel entre os dedos, observando o homem e a garota, que tinham voltado a conversar baixinho, debruçados sobre o balcão. Steve observou mais a moça.

Era uma garota baixinha, de não mais de um metro e meio, se tanto. E tinha aquela magreza torneada que dá uma falsa aparência de fragilidade. Seu rosto era oval, e a pele branca já mostrava sinais de vir enfrentando o ar poluído de Izzard. O nariz era quase arrebitado, e os olhos escuros, com um matiz violeta, eram quase grandes e teatrais demais. O cabelo castanho-escuro também era um pouco volumoso demais para uma cabeça tão pequena. Mas nem por isso ela deixava de se parecer com uma bela figura saída de um quadro de Monticelli.

Tudo isso Steve Threefall observou enquanto manuseava o telegrama entre os dedos bronzeados. E, ao fazê-lo, percebeu o quanto era importante que a moça aceitasse suas desculpas. Fosse qual fosse a razão para isso – ele próprio não procurou explicar nada –, o fato é que era assim. Num primeiro momento, não havia nada, em nenhum dos quatro continentes que ele conhecia, capaz de sensibilizar Steve Threefall. No momento seguinte, lá estava ele, movido pela necessidade incontrolável de cair nas graças daquela pessoinha de vestido de flanela amarrado nos pulsos e no pescoço.

A essa altura o homem de cinza se debruçou ainda mais sobre o balcão, para cochichar alguma coisa para a garota. Ela ficou vermelha e moveu os olhos. O lápis que trazia na mão caiu sobre o balcão e ela o apanhou entre os dedos pequenos, que pareciam estranhamente pouco à vontade, de repente. Deu um sorriso em resposta, depois continuou escrevendo. Mas o sorriso pareceu forçado.

Steve amassou o telegrama e escreveu outro:

Consegui, passei a noite na cadeia e vou ficar por aqui por um

tempo. Gosto de algumas coisas neste lugar. Telegrafe a ordem do

dinheiro e mande minhas roupas para o hotel daqui. Compre, o mais

barato que puder, o Ford de Whiting para mim.

Steve levou o formulário e colocou-o sobre o balcão.

A garota conferiu o texto com o lápis, contando o número de palavras.

– Quarenta e cinco – disse, num tom que involuntariamente criticava a falta de capacidade de síntese telegráfica.

– É grande, mas está bem assim – garantiu Steve. – Vou mandar a cobrar.

Ela o olhou com frieza.

– Não aceitamos mensagens a cobrar, a não ser que eu tenha garantias de que o remetente vai poder pagar, caso o destinatário recuse. É contra as regras.

– Acho bom você abrir uma exceção desta vez – disse Steve, solene –, caso contrário, vai ter de me emprestar o dinheiro.

– Eu... o quê?

– É isso mesmo – insistiu Steve. – Foi você quem me meteu nessa embrulhada, e agora vai ter de me ajudar a sair dela. Deus sabe o quanto você já custou caro para mim... quase duzentos dólares! Foi tudo culpa sua!

– Minha culpa?

– Foi! E estou dando uma chance para que você se recupere. Vamos logo com isso, por favor, porque estou morrendo de fome e preciso fazer a barba. Vou esperar naquele banco lá fora. – E, girando nos calcanhares, saiu do posto.

Tinha alguém sentado na ponta do banco do lado de fora do posto telegráfico, mas Steve sentou-se na outra ponta, sem prestar atenção ao homem que estava ali. Pôs a bengala preta entre as pernas e começou a enrolar um cigarro, pensativo, refletindo sobre a cena que acabara de desempenhar.

Por que será, pensava, que toda vez em que a ocasião exigia uma certa gravidade, ele acabava sendo irreverente? Por que sempre que se via diante de uma situação importante, de algo que tinha um significado especial, ele acabava fazendo papel de palhaço? Acendeu o cigarro e, com certo desdém, decidiu – como já decidira dezenas de vezes antes – que aquilo provinha de uma tentativa infantil de esconder a própria vaidade. Que ao longo de seus 33 anos de vida, dezoito dos quais ombro a ombro com o mundo – por suas esquinas mais polidas e também pelas mais cruéis –, ele, no fundo, ainda se sentia um menino. Um menino grande.

– Foi uma confusão e tanto, aquela em que você se meteu ontem – disse o homem na outra ponta do banco.

– É – admitiu Steve, sem se virar. Já estava conformado em ouvir comentários desse tipo enquanto estivesse em Izzard.

– Aposto que o velho Denvir limpou você, como costuma fazer.

– Hum-hum – resmungou Steve, agora virando-se e olhando para o homem.

Era alto e muito magro, vestido de marrom-escuro, arriado no banco e com as pernas esticadas para a frente, na calçada. Um homem de mais de quarenta anos, cujo rosto, melancólico e descarnado, era marcado por linhas tão profundas que pareciam mais rachaduras do que rugas. Os olhos tinham o castanho triste de um basset hound e o nariz era tão grande que parecia uma faca de cortar papel. Fumava um charuto preto, que fazia uma quantidade surpreendente de fumaça, expelida para cima por suas narinas, como duas plumas acinzentadas.

– Já tinha vindo a esta nossa cidadezinha agradável? – perguntou o sujeito melancólico. A voz dele tinha um ritmo monótono que não era desagradável de ouvir.

– Não. É a primeira vez.

O homem magro assentiu, com ironia.

– Vai gostar, se ficar por aqui – disse. – É muito interessante.

– Como assim? – indagou Steve, já um pouco intrigado com seu companheiro de banco.

– Nitrato de sódio. Você retira do deserto, ferve ou cozinha e depois vende para os fabricantes de fertilizantes ou de ácido nítrico. Ou para qualquer outro fabricante de alguma coisa feita com nitrato de sódio. A fábrica na qual, para a qual e da qual você faz isso fica lá mais adiante, depois da linha do trem.

Ele apontou o braço preguiçoso na direção de um conjunto de prédios quadrados, de concreto, que tapavam a visão do deserto, ao final da via pública.

– E se você não trabalhar com sódio? – perguntou Steve, mais pela vontade de manter o homem falando do que por interesse pela vida da cidade. – O que é que se faz, então?

O homem magro deu de ombros.

– Depende – disse – de quem você é. Se você for Dave Brackett – e ele apontou o dedo para o banco, com sua parede de tijolos vermelhos, do outro lado da rua –, você vive cuidando de suas hipotecas, ou seja lá o que for que faz um banqueiro. Se você for Grant Fernie, grande demais para um homem, mas nem tanto para ser um cavalo, você pendura um distintivo no peito e se distrai enfiando forasteiros na jaula, até que eles fiquem sóbrios. Ou, se você for Larry Ormsby, e seu velho for o dono do negócio do sódio, então você pinta e borda com seu carrão – apontou para o Vauxhall de cor creme –, passando os dias atrás das beldades do posto telegráfico. Mas, pelo que sei, você está quebrado, mandou um telegrama pedindo dinheiro e vai ficar esperando para ver no que dá. Não é isso?

– É – respondeu Steve, meio desligado. Quer dizer então que o dandy vestido de cinza se chama Larry Ormsby e é o filho do dono da fábrica.

O homem magro recolheu os pés e se levantou.

– Nesse caso, está na hora do almoço e meu nome é Roy Kamp. Estou com fome e não gosto de comer sozinho. Ficaria contente se você quisesse enfrentar junto comigo os perigos grudentos de uma refeição no Finn’s.

Steve levantou-se e estendeu a mão.

– Será um prazer – disse. – O café que tomei de manhã já está pedindo companhia. Meu nome é Steve Threefall.

Trocaram um aperto de mãos e saíram juntos pela rua. Na direção deles vinham dois homens, concentrados numa conversa. Um deles era o homem gordo, que tinha levado uma bofetada de Larry Ormsby. Steve esperou até que passassem, em seguida perguntou casualmente a Kamp:

– E esses dois caras com jeito de bacana, quem são?

– O baixinho vestido com o terno xadrez de colegial é Conan Elder, que trabalha com imóveis, seguros e segurança. O que tem pinta de personagem de Wallingford, que estava com ele, é o próprio W.W., o fundador, dono e sei lá mais o que, da cidade, W.W. Ormsby, o honorável papai de Larry.

A cena no escritório, com o tapa na cara e a pistola, havia sido então um caso de família. Um problema entre pai e filho, com o filho fazendo o papel mais pesado. Steve, que agora caminhava prestando mais atenção ao que Kamp, com sua voz de barítono, dizia, pensou com desagrado crescente na cena entre Larry Ormsby e a garota do telégrafo, conversando juntinhos por cima do balcão.

A lanchonete Finn’s era pouco mais do que um corredor estreito, entre um salão de bilhar e uma loja de ferramentas, com largura suficiente para conter somente um balcão e uma fila de bancos giratórios. Só havia um freguês lá dentro quando os dois entraram.

– Oi, sr. Rymer – disse Kamp.

– Como vai, sr. Kamp? – respondeu o homem no balcão, virando-se na direção deles.

E, quando ele se virou, Steve notou que era cego. Tinha os grandes olhos azuis recobertos por uma película acinzentada, dando a impressão de que havia buracos escuros no lugar dos olhos.

Era um homem de estatura média, que aparentava uns setenta anos, mas suas mãos, brancas e esguias, eram ágeis, sugerindo menos idade. Uma mecha de cabelos brancos lhe caía na testa, toda marcada por rugas, mas seu rosto era sereno, o rosto de um homem em paz com o mundo. Estava acabando de comer e logo em seguida levantou-se calmamente, indo em direção à porta com a lenta destreza com que um cego circula num ambiente familiar.

– O velho Rymer – disse Kamp para Steve – vive sozinho numa cabana, atrás de onde vai ser construído o novo quartel dos bombeiros. Dizem que ele tem toneladas de moedas de ouro enterradas no chão. É a fofoca local. Um dia, vamos encontrá-lo mumificado. Mas ele não quer nem saber de conselhos. Diz que ninguém lhe faria mal. Dizer isso de uma cidade como esta, cheia de bandidos!

– É uma cidade barra-pesada, então? – perguntou Steve.

– E como poderia deixar de ser? Esta cidade existe há apenas três anos, e uma cidade nova, que floresce no deserto, sempre atrai caras durões.

Quando acabaram de comer, Kamp foi embora, dizendo a Steve que provavelmente voltariam a se encontrar mais tarde e sugerindo que havia muito o que se jogar no salão de bilhar, ao lado.

– Encontro você lá, então – disse Steve, entrando outra vez no posto telegráfico. A garota estava sozinha. – Tem alguma coisa para mim? – perguntou ele.

Ela depôs no balcão um cheque verde e um telegrama, voltando para a escrivaninha. O telegrama dizia:

Segue aposta. Paguei a Whiting duzentos pelo Ford. Mando balanço

total de 640. Roupas vão por correio. Cuide-se.

Harris

– Você mandou o telegrama a cobrar ou eu preciso...

– A cobrar. – Ela nem ergueu o rosto.

Steve pôs os cotovelos no balcão e inclinou-se. Seu queixo, que parecia maior por causa da barba crescida, embora ele tivesse lavado o rosto, apontava ainda mais para a frente, graças à sua determinação em manter-se sério, a fim de fazer o que precisava ser feito.

– Agora, ouça uma coisa, srta. Vallance – disse, com firmeza. – Eu fui um grande tolo ontem e lamento muito mais do que você pode imaginar. Mas, afinal, nada de tão grave aconteceu e eu...

– Nada de grave! – explodiu a moça. – Não é nada de grave ser humilhada e perseguida em plena rua, como se fosse um coelho, por um bêbado com a cara cheia de poeira e o carro pior ainda?

– Eu não persegui você. Da segunda vez, eu voltei para pedir desculpas. Mas, de qualquer maneira. – Diante do desconforto provocado pela expressão pouco amistosa da moça, ele desistiu de ficar sério e acabou caindo mais uma vez no deboche, que era sua defensiva –, por mais que você estivesse com medo de mim, devia agora aceitar minhas desculpas e deixar ficar o dito pelo não dito.

– Medo? De você?!

– Eu prefiro que você pare de repetir o que digo – reclamou. – Fez isso hoje de manhã e agora está fazendo de novo. Será que você nunca se expressa por suas próprias palavras?

Ela o olhou, abriu a boca, mas voltou a fechá-la, com um estalo. Seu rosto zangado inclinou-se por cima dos papéis, na escrivaninha, e ela começou a anotar uns números.

Steve fez com a cabeça um sinal de aprovação fingida e saiu com o cheque, em direção ao banco.

Quando entrou, o único homem à vista no banco era um sujeito gorducho, com bigodes grisalhos bem aparados que lhe tomavam quase todo o rosto, redondo e jovial, só deixando de fora os olhos – sagazes e simpáticos.

O homem veio até a boca do caixa e, junto à grade, disse:

– Boa tarde. Posso ajudar?

Steve apresentou o cheque da empresa de telégrafos.

– Quero abrir uma conta.

O banqueiro pegou o pedaço de papel verde, manuseando-o entre seus dedos gordos.

– Você não é o sujeito que bateu com o carro na minha parede ontem?

Steve riu. Os olhos do banqueiro faiscaram e um sorriso repuxou seus bigodes.

– Você vai ficar em Izzard?

– Por um tempo.

– Pode me dar alguma referência? – perguntou o banqueiro.

– Talvez o juiz Denvir ou o xerife Fernie possam dizer alguma coisa sobre mim – respondeu Steve. – Mas se você escrever para o Banco Seaman’s, de San Francisco, eles vão lhe dizer que está tudo bem comigo.

O banqueiro enfiou a mão gorducha através da abertura do caixa.

– Muito prazer em conhecê-lo. Meu nome é David Brackett e, se precisar de alguma coisa para se estabelecer na cidade, é só me procurar.

Dez minutos depois, já fora do banco, Steve encontrou o xerife grandalhão, que parou diante dele.

– Ainda por aqui? – perguntou Fernie.

– Agora, sou um izzardense – disse Steve. – Pelo menos por enquanto. Estou gostando da hospitalidade de vocês.

– Não deixe que o velho Denvir o veja saindo de um banco – aconselhou Fernie –, caso contrário, ele mete você na cadeia de vez.

– Não vai haver uma próxima vez.

– Há sempre uma próxima vez... em Izzard – retrucou o xerife com ar enigmático, pondo o corpanzil novamente em movimento.

Naquela noite, barbeado e de banho tomado, mas ainda usando a mesma roupa cáqui desbotada, Steve, com sua inseparável bengala preta, jogava pôquer com Roy Kamp e quatro operários da fábrica. Estavam no salão de bilhar, ao lado da lanchonete Finn’s. Izzard era, ao que parecia, uma cidade liberal. Metade do salão era ocupada por uma dúzia de mesas para jogos de dados, pôquer, red dog e vinte-e-um. Para conseguir um trago, só se precisava de cinqüenta centavos e um dedo levantado. Não havia nada de sub-reptício no estabelecimento. Obviamente, o dono – um italiano cabeça-de-ovo que os fregueses chamavam de “Gyp” – tinha toda a proteção dos poderes legais de Izzard.

A roda de jogo de que Steve participava seguia sem percalços, como acontece sempre que os jogadores são verdadeiros adeptos. E, embora houvesse, como em quase todos os jogos, alguma roubalheira em potencial, na prática, era honesto. Os seis homens à mesa eram, sem exceção, pessoas do ramo – homens que jogavam calados e atentos, ganhando ou perdendo sem exclamações ou desatenção. Nenhum dos seis – exceto Steve e talvez Kamp – hesitaria em fazer alguma falcatrua, caso tivesse oportunidade. Mas, quando todos à mesa conhecem os truques, geralmente a honestidade prevalece.

Larry Ormsby entrou no salão de bilhar pouco depois das onze e sentou-se numa mesa longe de Steve. Através da fumaça, Steve reconhecia rostos que vira durante o dia. Quando faltavam cinco minutos para a meia-noite, os quatro operários na mesa de Steve foram embora para o trabalho – estavam no turno “dos vampiros” – e o jogo acabou. Steve, que conseguira se manter equilibrado durante o jogo, constatou que tinha ganho pouco menos de dez dólares. Kamp tinha ganho cinqüenta e poucos.

Recusando convites para sentar em outras mesas, Steve e Kamp deixaram juntos o lugar e saíram para a rua escura e fresca, onde o ar parecia doce depois de tanta fumaça e de tanto cheiro de bebida dentro do salão. Caminharam devagar pela rua escura, em direção ao Izzard Hotel. Nenhum dos dois parecia ter pressa em pôr um ponto final naquela primeira noitada juntos. Já sabiam que aquele banco descascado na frente do posto telegráfico tinha dado, a cada um deles, um camarada. Não haviam dito nem mil palavras um para o outro, mas com certeza se tinham tornado irmãos-em-armas, como se tivessem percorrido juntos um continente inteiro.

Iam assim, passeando, quando de repente uma porta escura vomitou homens sobre eles.

Steve deu um salto para trás e se encostou na parede de um prédio, desviando de um soco na cara, enquanto alguém tentava dominá-lo. O calor de uma lâmina riscou seu braço esquerdo e ele empurrou um corpo com a bengala, evitando assim ser agarrado. Aproveitou a brevíssima trégua para trocar a bengala de posição. Agora, ele a segurava na horizontal, a mão direita agarrando-a pelo meio, com a metade de baixo grudada no braço e a metade de cima projetada para a esquerda.

Encostou o lado esquerdo do corpo na parede e a bengala preta transformou-se numa poderosa arma, girando na noite. O castão bateu com força na cabeça de um homem. O homem levantou um braço para aparar o golpe. Girando no próprio eixo, a bengala mudou de lado – e a ponteira bateu de baixo para cima no braço de guarda, atingindo o queixo com um ruído seco. E, assim que o atingiu, foi em frente, penetrando fundo na garganta. O dono daquele queixo e daquela garganta virou a cara larga, de feições grossas, em direção ao céu, recuou e caiu fora da briga, disparando em direção à rua.

Kamp, que lutava com dois homens no meio da calçada, livrou-se deles e sacou de uma arma. Mas, antes que pudesse usá-la, agarraram-no de novo.

Com a parte de baixo da bengala outra vez grudada no braço, Steve virou-a a tempo de aparar o golpe de um braço que girava uma maça. A bengala rodopiou de lado, com o castão atingindo uma têmpora – e girou de volta, a ponteira só não atingindo a outra têmpora porque a primeira pancada fizera a vítima cair de joelhos. Foi quando Steve viu que Kamp estava caído. Sacudiu e rodou a bengala, abrindo passagem até o homem magro, chutou uma cabeça que estava debruçada sobre ele e montou no atacante. Agora, a bengala de ébano volteava mais rápido em sua mão, como brandiam os cajados na Floresta de Sherwood. Girava até que se ouvisse o som de madeira chocando-se com osso, com armas de metal. Ou o som mais surdo de madeira batendo na carne. Girava, mas nunca em círculos completos, e sim em pequenos arcos – uma ponta, recobrando-se de um golpe, dando mais velocidade para o golpe seguinte. Se um instante antes o castão se movia da esquerda para a direita, agora a ponteira batia da direita para a esquerda – e batia sob braços erguidos, sobre braços abaixados –, formando no ar uma esfera de um metro, cujo raio era como malhas negras em rodopio.

Por trás da bengala, que se tornara quase um pedaço vivo de seu corpo, Steve Threefall estava feliz – aquela felicidade que só o especialista sente, a alegria de fazer aquilo que conhece extremamente bem. As pancadas que levava – socos que o faziam estremecer, balançar –, ele mal notava. Toda sua consciência se concentrava no braço direito e na bengala que brandia. Um tiro de revólver, sacado por uma destroçada mão, disparou três metros acima de sua cabeça, uma faca retiniu como um sino sobre a calçada de tijolos, um homem urrou como um cavalo ferido.

De repente, tão de repente quanto começara, a luta terminou. Ruídos de passos se afastando, formas desaparecendo na escuridão de uma ruela. E Steve se viu de pé, sozinho – sozinho, exceto por um homem, estendido no chão a seus pés, e outro, imóvel na sarjeta.

Kamp arrastou-se de entre as pernas de Steve e ficou de pé, de um pulo.

– Sua habilidade com uma bengala é o que eu chamaria de razoável – disse, com a fala arrastada.

Steve olhou para o magrelo. Era esse o homem que tinha aceito por uma noite como seu camarada! Um homem que ficava caído no chão e deixava o companheiro lutar por dois. Furioso, abriu a boca:

– Seu...

O rosto do magro se contorceu num sorriso estranho, como se ele estivesse prestando atenção em algum som distante, falhado. Levou as mãos ao peito, apertando de um lado e outro. Em seguida, deu meia-volta, caiu sobre um joelho e desabou para trás, com uma das pernas dobradas sobre o corpo.

– Vá... avisar... a...

A quarta palavra foi ininteligível. Steve debruçou-se junto a Kamp, ergueu sua cabeça do chão e viu que o corpo magro tinha sido aberto a faca, da garganta até a linha da cintura.

– Vá... avisar... a... – O homem magro tentava a todo custo tornar a última palavra audível.

Alguém segurou Steve pelo ombro.

– O que diabos está acontecendo aqui? – a voz trovejante do xerife Grant Fernie abafou as palavras de Kamp.

– Cale a boca, por favor! – disparou Steve, aproximando o ouvido da boca de Kamp.

Mas agora o homem moribundo já não articulava mais nenhum som. O esforço o fizera esbugalhar os olhos. De repente, estremeceu de um jeito horrível, tossiu, fazendo esgarçar-se ainda mais o corte em seu peito. E morreu.

– O que está acontecendo? – repetiu o xerife.

– Mais um comitê de recepção – disse Steve, com amargura na voz, pousando o corpo no chão e levantando-se. – Um deles está aqui. Os outros fugiram por aquela esquina.

Começou a apontar com a mão esquerda, mas parou no meio do gesto. Olhando o próprio braço, viu que a manga estava encharcada de sangue.

O xerife agachou-se para examinar Kamp e resmungou:

– Está morto, sem dúvida – erguendo-se e indo até o lugar onde estava caído o homem que Steve pusera a nocaute, na sarjeta.

– Nocaute – confirmou o xerife, levantando-se. – Mas logo vai voltar a si. Como é que você está?

– Sofri um corte no braço e estou meio doído, mas vou sobreviver.

Fernie examinou o braço ferido.

– Não está sangrando muito – decretou. – Mas é melhor ir fazer um curativo. O doutor MacPhail fica logo ali, rua acima. Você consegue ir até lá ou quer uma carona?

– Consigo. E como é que eu encontro o lugar?

– Siga por esta rua e, daqui a duas quadras, vire à esquerda. É a quarta rua. Não tem como errar, é a única casa em toda a cidade com flores na frente. Quando for a hora, entro em contato com você.

Steve Threefall encontrou a casa do dr. MacPhail sem dificuldade – uma construção de dois andares, recuada, com um jardim que se esforçava para ser uma profusão de flores ante a aridez geral de Izzard. A cerca estava escondida atrás de duas trepadeiras barba-branca, cheias de botões alvos, e o caminho até a porta era cercado de rosas, triliáceas, papoulas, tulipas e gerânios, que pareciam fantasmas na luz tênue da noite. O ar era doce e pesado, com a fragrância das margaridas do tamanho de pires, cujos pés cobriam a varanda do médico.

A dois passos da casa, Steve parou, sua mão deslizando até o centro da bengala. De um canto da varanda, viera um sussurro quase inaudível, mas que não era do vento. Um segundo antes um ponto escuro entre as trepadeiras estivera um pouco mais claro, como se ali houvesse surgido um rosto.

– Quem está... – começou a dizer Steve, dando um passo atrás.

Saindo da varanda, escurecida pelas folhagens, surgiu uma figura, que se atirou em cima de Threefall.

– Sr. Threefall – disse a figura. A voz era a da garota do telégrafo. – Tem alguém dentro da casa!

– Um ladrão? – perguntou ele, meio abobado, diante daquele rostinho pálido que o olhava, bem abaixo do seu queixo.

– É! Está lá em cima! No quarto do dr. MacPhail!

– E o médico está lá?

– Não! O dr. MacPhail e a mulher dele ainda não voltaram para casa!

Steve deu-lhe um tapinha no ombro, sentindo um tecido aveludado, mas fez isso no ombro que estava mais longe, para poder passar o braço por trás das costas da moça.

– Vamos resolver isto – prometeu. – Fique aqui escondida. Assim que cuidar de nosso amigo, eu volto.

– Não! – ela se pendurou no ombro dele com os dois braços. – Eu vou com você. Não quero ficar aqui sozinha. Junto de você, não tenho medo.

Steve baixou o rosto para olhá-la nos olhos e seu queixo esbarrou em algo de metal, fazendo-o trincar os dentes. O algo de metal era a ponta de um enorme revólver niquelado que a moça segurava em uma das mãos, na altura do ombro dele.

– Passe essa arma – disse Steve –, que eu deixo você vir comigo. Ela lhe deu o revólver e ele o enfiou no bolso.

– Fique grudada em mim – mandou –, o mais perto que puder, e quando eu disser Abaixe-se!, jogue-se no chão e fique quieta.

E, assim, com a moça guiando-o aos sussurros, atravessaram a porta que ela deixara entreaberta e entraram na casa, subindo ao segundo andar. Quando chegaram ao alto da escada, ouviram ruídos furtivos, vindos da direita.

Steve baixou o rosto, seus lábios tocando os cabelos dela.

– Como é que se chega àquele quarto? – sussurrou.

– Pelo corredor, até o fundo. Ele acaba ali.

E foram, pé ante pé, pelo corredor. Steve esticou a mão e tocou na porta.

– Abaixe-se! – disse baixinho.

Os dedos dela soltaram-se do casaco de Steve. Ele escancarou a porta, pulou para dentro e fechou-a atrás de si. Uma forma oval do tamanho de uma cabeça estava recortada contra o cinza da janela. Steve brandiu a bengala naquela direção. Alguma coisa agarrou a bengala no alto. Um vidro se espatifou, estilhaços atingiram Steve. A forma oval contra a janela havia desaparecido. Steve girou para a esquerda e estendeu o braço na direção de alguma coisa que se movia. Seus dedos deram com um pescoço – um pescoço fino, com a pele seca e quebradiça como papel.

Sentiu um pontapé na canela, bem abaixo do joelho. A nuca de papel escapuliu de suas mãos. Seus dedos foram atrás dela num frenesi, mas, enfraquecidos pelo ferimento no braço, falharam. Baixando a bengala, Steve esticou a mão direita, para ajudar a esquerda. Mas era tarde. A mão enfraquecida tinha soltado a nuca de papel e não havia mais nada para a direita agarrar.

Uma sombra fugidia escureceu a parte central da janela, para em seguida desaparecer, com um som de passos, pelo telhado da varanda dos fundos. Steve correu até a janela a tempo de ver o ladrão levantar-se do chão, depois de pular do telhado da varanda, correndo em direção ao muro dos fundos. Steve já havia posto uma perna por cima do peitoril da janela quando a garota o agarrou por trás.

– Não! Não! – pediu. – Não me deixe aqui sozinha. Deixe ele ir!

– Está bem – disse Steve, relutante. Mas em seguida seu rosto se abriu.

Acabara de se lembrar do revólver que tinha tomado da garota. Tirou-o do bolso no momento em que a sombra chegava ao muro dos fundos. Quando o vulto, apoiando uma das mãos no alto do muro, deu o pulo, Steve apertou o gatilho. O revólver deu um estalo – depois mais outro. Seis estalos, e o ladrão desapareceu no meio da noite.

Steve abriu o revólver no escuro e seus dedos percorreram o fundo do cilindro – seis câmaras vazias.

– Acenda a luz – disse, num tom brusco.

Quando a garota obedeceu, Steve deu um passo atrás e primeiro procurou pela bengala de ébano. Só depois, com ela nas mãos, encarou a moça. Os olhos dela estavam ainda mais escuros, tal sua excitação. Em volta da boca, havia linhas de tensão. Naquele instante em que se olharam, frente a frente, ele viu surgir nos olhos dela, por trás do medo, um encantamento. Steve virou o rosto e olhou em torno.

O quarto tinha sido todo revirado, meticulosamente. As gavetas estavam puxadas para fora, seu conteúdo jogado no chão. A roupa de cama fora arrancada, os travesseiros tirados das fronhas. Perto da porta, um aplique quebrado – o objeto atingido pela bengala de Steve – jazia, pendurado. No chão, no meio do quarto, havia um relógio de ouro e um pedaço de uma corrente de ouro. Steve apanhou-os e mostrou à garota.

– Isto é do dr. MacPhail?

Ela fez que não com a cabeça antes de pegar o relógio e, em seguida, olhando-o com mais atenção, deu um suspiro.

– É do sr. Rymer!

– Rymer? – repetiu Steve, lembrando-se em seguida. Rymer era o homem cego que estivera lanchando na Finn’s e que, segundo Kamp, ia acabar tendo que enfrentar encrenca.

– É. Ah, meu Deus, tenho certeza de que aconteceu alguma coisa com ele!

E ela agarrou o braço esquerdo de Steve.

– Temos de ir lá ver! Ele mora sozinho, se lhe fizerem algum mal...

Ela se calou de repente, olhando para o braço que estava segurando.

– Seu braço! Você está ferido!

– Não é nada grave – disse Steve. – Foi por isso que vim até aqui. Mas já parou de sangrar. Quando voltarmos da casa de Rymer talvez o médico já esteja aqui.

E saíram da casa pela porta dos fundos, a garota guiando-o pelas ruas escuras, rumo a locais ainda mais sombrios. Durante os cinco minutos que durou a caminhada, nenhum dos dois falou. A garota andava rápido, sobrando-lhe pouco fôlego para conversa, enquanto Steve mergulhava em pensamentos soturnos.

A cabana do homem cego estava apagada quando chegaram lá, mas a porta da frente estava entreaberta. Steve bateu com a bengala no portal, mas não houve resposta. Ele acendeu um fósforo. Rymer estava caído no chão, de barriga para cima, com os braços abertos.

O único aposento da cabana estava de cabeça para baixo. A mobília fora toda revirada, as roupas estavam espalhadas aqui e ali, e tábuas do chão tinham sido arrancadas. A moça ajoelhou-se junto ao homem, que jazia inconsciente, enquanto Steve procurava luz. Finalmente, ele achou um lampião a óleo que estava intacto e acendeu-o, no mesmo instante em que Rymer abria os olhos anuviados e se erguia do chão, sentando-se. Steve endireitou uma cadeira de balanço emborcada e, com ajuda da garota, apanhou o cego, ofegante, fazendo-o sentar-se. Ele reconhecera de imediato a voz da garota e sorriu para ela com bravura.

– Eu estou bem, Nova – disse –, não me feri, não. Alguém bateu na porta, eu abri e eu ouvi um chiado no ouvido. Não sei de mais nada. Só sei que voltei a mim e encontrei vocês aqui.

De repente, ele franziu o rosto, parecendo ansioso, levantou-se e atravessou a sala. Steve tirou do caminho uma cadeira e uma mesa que estavam caídas. O homem cego caiu de joelhos num canto da sala, remexendo nas tábuas soltas do chão. Suas mãos voltaram vazias. Ele se pôs de pé, com os ombros caídos.

– Foi-se – disse, baixinho.

Steve lembrou-se do relógio e tirou-o do bolso, pondo-o na mão do cego.

– Tinha um ladrão lá em casa – explicou a garota. – Depois que ele saiu, encontramos isso caído no chão. Este é o sr. Threefall.

O homem cego estendeu a mão para Steve, cumprimentando-o. Em seguida, seus dedos ágeis examinaram o relógio e seu rosto se iluminou.

– Fico contente – disse – em ter meu relógio de volta. Muito mesmo. O dinheiro nem era tanto – menos de trezentos dólares. Eu não sou Midas, como dizem. Mas este relógio pertenceu a meu pai.

Guardou-o com cuidado no bolso do colete e, quando a garota começou a arrumar a sala, protestou.

– É melhor você ir para casa, Nova. Já está tarde e eu estou bem. Vou me deitar e deixo para arrumar isso amanhã.

A moça hesitou, mas logo ela e Steve estavam atravessando as ruas escuras, a caminho da casa de MacPhail. Agora, não tinham pressa. Andaram em silêncio por dois quarteirões, Steve olhando a escuridão à frente, grave e pensativo, a garota espiando-o com o canto dos olhos.

– O que há? – perguntou ela, de repente.

Steve sorriu para ela.

– Nada. Por quê?

– Há, sim – insistiu a moça. – Você está pensando em alguma coisa ruim, algo que tem a ver comigo.

Ele balançou a cabeça.

– Nada disso... Coisa ruim e você são duas coisas que não combinam. Mas a moça não aceitou o galanteio.

– Está, sim. Está... – ela parou, na penumbra da rua, tentando encontrar a palavra certa. – Você está na defensiva... Não confia em mim. É isso!

Steve sorriu de novo, dessa vez estreitando os olhos. Ler os pensamentos dele talvez tivesse sido intuitivo, ou talvez significasse algo mais.

Tentou falar a verdade, em parte:

– Não é que eu não confie, estou só refletindo. Pense bem: você me deu um revólver descarregado para enfrentar o ladrão. E não deixou que eu fosse atrás dele.

Os olhos dela faiscaram e ela se empertigou, até o último centímetro de seu metro e meio.

– Quer dizer então que você pensa... – começou a dizer, mostrando indignação. Em seguida encostou-se nele, agarrando-o pela lapela do casaco. – Por favor, sr. Threefall, você precisa acreditar que eu não sabia que o revólver estava descarregado. É do dr. MacPhail. Eu o peguei quando saí correndo da casa, sem nem imaginar que estava vazio. Quanto a não deixá-lo ir atrás do ladrão, é que... eu estava com medo de ficar sozinha. Sou meio covarde. Eu... eu... por favor, acredite em mim, sr. Threefall. Seja meu amigo. Eu preciso de amigos, eu...

Toda sua feminilidade vinha à flor da pele. Ela implorava, seu rostinho como o de uma menina de doze anos – uma menina sozinha e assustada. E Steve se sentia péssimo, porque a verdade é que aquele apelo não o convencia de todo. Sentia vergonha de si mesmo, como se lhe faltasse alguma qualidade que deveria ter.

Ela continuou falando, com a voz mansa, tão baixinho que ele precisou inclinar-se para entender o que dizia. Falava de si mesma, como se fosse uma criança.

– Tem sido terrível! Vim para cá há três meses porque havia uma vaga no posto telegráfico. Tinha ficado sozinha no mundo, com pouco dinheiro, e trabalhar com telégrafo era a única coisa que sabia fazer para ganhar a vida. Este lugar é horrível! A cidade... não consigo me acostumar. É tão desolada. Não há crianças nas ruas. As pessoas são diferentes daquelas que eu conhecia, são mais cruéis, mais rudes. Até mesmo as casas, rua após rua de casas sem cortinas nas janelas, sem flores. Sem grama nos jardins, nem árvores.

“Mas eu precisava ficar aqui, não tinha para onde ir. Pensei em ficar pelo menos até juntar algum dinheiro, o suficiente para poder ir embora. Mas juntar dinheiro demora muito. O jardim do dr. MacPhail tem sido um pedaço de paraíso para mim. Se não fosse por isso, acho que não teria agüentado... teria enlouquecido! O médico e a mulher dele têm sido bons para mim. Algumas pessoas têm sido boas para mim, mas a maioria eu não consigo entender direito. E nem todas são gentis. No início, foi horrível. Os homens diziam coisas, as mulheres também e, se eu mostrava ter receio deles, diziam que eu era convencida. Larry, quero dizer, o sr. Ormsby, foi quem me ajudou. Ele fez com que me deixassem em paz e convenceu o dr. MacPhail a me deixar ir morar na casa dele. O sr. Rymer também tem me ajudado muito, me encorajando. Mas, assim que me vejo longe dele, de seu rosto e do som de sua voz, perco a coragem outra vez.

“Estou apavorada... com medo de tudo! E principalmente de Larry Ormsby. E olhe que ele me ajudou muito. Mas não posso evitar. Agora, estou com medo dele – da maneira como ele me olha às vezes, das coisas que diz quando bebe. É como se, dentro dele, houvesse algo esperando por sei lá o quê. Talvez eu não devesse dizer isso – afinal, devo ser grata a ele –, mas estou morrendo de medo! Tenho medo de todo mundo, de cada casa, de cada porta por onde passo. É um pesadelo!”

Continuar: parte 2 de 2