Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 37 de 44

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Tiros na Noite

Capítulo III

Guild afastou o lápis e o envelope.

– O pessoal das impressões digitais já examinou aqui?

– Não, eu...

– Isso poderia ajudar, para o caso de ele ser apanhado em algum lugar e nós termos dúvidas. Acho que podemos conseguir amostras da letra dele. De qualquer modo, poderemos consegui-las no banco. Vamos tentar...

Alguém bateu na porta.

– Entre – disse Boyer.

A porta se abriu e surgiu a cabeça de um homem. Ele disse:

– Querem falar com o senhor no telefone.

O promotor seguiu o homem até o andar de baixo. Durante sua ausência, Guild fumou e olhou gravemente o quarto em volta.

O promotor voltou dizendo:

– O carro pertence a Charles Fremont, mora na Guerrero Street, em San Francisco.

– Que número? – Guild pegou o lápis e o envelope de novo. Boyer lhe disse o número e ele anotou. – Acho que vou voltar agora e vê-lo.

O promotor olhou para o relógio.

– Estou pensando se eu não conseguiria ir com você.

Guild franziu os lábios.

– Acho que não deveria. Um de nós precisa ficar aqui para examinar as coisas dele, juntar as pontas soltas. Eu não vi mais ninguém em quem pudéssemos confiar para isso.

Apesar de parecer desapontado, Boyer falou prontamente:

– Certo. Você vai manter contato comigo?

– Claro. Dê-me aquele cartão que eu lhe entreguei, vou colocar nele o endereço da minha casa e o número do telefone. – Os olhos de Guild ficaram modorrentos. – O que você acha de eu ir no carro de Fremont?

O promotor franziu a testa.

– Não sei – disse devagar. – Isso poderia... ah, claro, se você quiser. Telefone para mim logo que se encontrar com ele. Vai me manter a par?

– Hum-hum.

III

Uma jovem ruiva, vestida de branco, abriu a porta.

– Quero falar com o sr. Charles Fremont – disse Guild.

– Sim, senhor – disse a garota amavelmente, numa voz gutural e ressonante. – Entre.

Ela o levou a uma sala de estar, mobiliada com conforto, à direita da entrada.

– Sente-se. Vou chamar o meu irmão. – A jovem passou por outra porta e sua voz pôde ser ouvida cantarolando: – Charley, um cavalheiro quer vê-lo.

No andar de cima uma voz dura, masculina, respondeu:

– Já vou descer.

A jovem ruiva voltou à sala onde Guild estava.

– Ele vai descer num minuto – falou.

Guild agradeceu.

– Pode se sentar – disse ela, sentando na extremidade de um sofá. Suas pernas eram notavelmente bonitas.

Ele se sentou numa cadeira diante dela, do outro lado da sala, mas imediatamente se levantou de novo para oferecer um cigarro e estender o isqueiro para o dela.

– Eu queria ver o seu irmão para perguntar se ele conhece uma tal de srta. Columbia Forrest.

A jovem riu.

– Provavelmente conhece. Ela... eles vão se casar amanhã.

– Bom, isso... – Guild parou quando ouviu passos correndo pela escada, vindos do segundo andar.

Um homem entrou na sala. Tinha uns 35 anos, estatura um pouco acima da média, boa constituição, vestido um tanto alegremente de cinza com camisa lavanda, gravata e lenço se projetando do bolso. Seu rosto era magro e bem-apessoado, com um ar sagaz e lábios finos.

– Este é o meu irmão – disse a jovem.

Guild se levantou.

– Estou tentando obter algumas informações sobre a srta. Columbia Forrest – disse ele, e deu um de seus cartões a Charles Fremont.

A curiosidade que viera ao rosto de Fremont com as palavras de Guild se tornaram um espanto gélido quando leu o cartão de Guild.

– O quê...?

Guild estava dizendo:

– Houve um problema lá em Hell Bend.

Os olhos de Fremont se arregalaram no rosto que ia empalidecendo.

– Wynant...?

Guild assentiu.

– Ele atirou na srta. Forrest esta tarde.

Os Fremont se encararam com rostos vazios, horrorizados. Ela falou por entre os dedos de uma das mãos, tremendo enquanto gaguejava:

– Eu d-d-disse a você, Charley!

Charles Fremont virou-se violentamente para Guild.

– Como ela está! Diga!

– Ela está morta – disse o homem moreno.

Fremont soluçou e se sentou com o rosto apoiado nas mãos. Sua irmã se ajoelhou ao lado, envolvendo-o com os braços. Guild ficou parado, olhando.

Por fim Fremont levantou a cabeça.

– E Wynant? – perguntou.

– Desapareceu.

Fremont soltou o ar num gemido baixo. Sentou-se empertigado, dando um tapinha na mão da irmã, livrando-se dos braços dela.

– Vou para lá agora – falou, levantando-se.

Guild tinha terminado de acender um cigarro. Disse:

– Tudo bem, mas você ajudaria mais contando algumas coisas antes de ir.

– Tudo que eu puder – prometeu Fremont imediatamente.

– Vocês iam se casar amanhã?

– Sim. Ela veio aqui ontem à noite e ficou conosco, e eu a convenci. Íamos sair daqui amanhã cedo e iríamos de carro a Portland, onde não teríamos de esperar durante dias pela licença, e depois subiríamos a Banff. Eu acabei de telegrafar para o hotel de lá, fazendo as reservas. Então ela apanhou o carro, o novo no qual nós iríamos, para ir a Hell Bend e pegar suas coisas, mas... mas nós nunca pensamos que ele faria alguma coisa assim.

– Você o conhecia bem?

– Não, eu só o vi uma vez, há cerca de três semanas, quando ele veio me procurar.

– Por que ele veio procurá-lo?

– Para discutir comigo por causa dela, dizer para eu ficar longe dela.

Guild parecia em vias de sorrir.

– O que você disse?

Fremont apertou os lábios finos contra os dentes.

– Eu pareço ter dito alguma coisa além de vá para o inferno?

O homem moreno assentiu.

– Certo. O que você sabe sobre ele?

– Nada.

Guild franziu a testa.

– Você deve saber alguma coisa. Ela deve ter falado dele.

A raiva saiu do rosto magro de Fremont, deixando-o triste.

– Eu não gostava de que ela falasse, por isso ela não falava.

– Por quê?

– Meu Deus! Ela estava morando lá. Eu era louco por ela. Eu sabia que ele também era. Que diabo! – Fremont mordeu o lábio. – Você acha que eu gostava de falar disso?

Guild olhou pensativo para ele durante um momento e depois se dirigiu à jovem:

– O que ela contou a você?

– Nada. Ela não gostava de falar sobre ele, assim como Charley não gostava de que ela falasse.

Guild juntou as sobrancelhas.

– Então, por que ela ficava com ele?

– Ela ia partir – disse Fremont dolorosamente. – Foi por isso que ele a matou.

O homem moreno pôs as mãos nos bolsos, foi até a janela e voltou, apertando os olhos um pouco devido à fumaça que subia do cigarro.

– Você não sabe aonde ele poderia ter ido? Com quem ele pode ter alguma ligação? Como poderíamos encontrá-lo?

Fremont balançou a cabeça.

– Você não acha que eu diria, se soubesse? – perguntou amargamente.

Guild não respondeu. Perguntou:

– Onde está a família dela?

– Não sei. Acho que o pai dela ainda está vivo em algum lugar do Texas. Sei que é filha única e que a mãe morreu.

– Há quanto tempo você a conhece?

– Quatro... quase cinco meses.

– Onde a conheceu?

– Num bar da Powell Street, dois quarteirões depois da Fairmont. Ela estava numa festa com umas pessoas que eu conheço: Helen Robier – acho que ela mora na Cathedral – e um sujeito chamado MacWilliams.

Guild foi de novo até a janela e voltou.

– Eu não gosto disso – falou em voz alta, mas aparentemente não para os Fremont. – Não faz sentido. É... Olhe aqui. – Ele parou na frente dos outros e pegou umas fotografias no bolso. – Estas fotos dela são boas? – Ele as abriu em leque. – Eu só a vi morta.

Os Fremont se entreolharam e assentiram juntos.

– Especialmente a do meio – disse a jovem. – Você tem uma dessas, Charley.

Guild guardou as fotos da garota morta e mostrou duas de um homem barbudo.

– São boas fotos dele?

– Eu nunca o vi – disse a garota. Mas seu irmão assentiu e disse:

– Parecem com ele.

Guild pareceu insatisfeito com as respostas. Pôs as fotos de novo no bolso.

– Então não é isso – falou –, mas há alguma coisa esquisita em algum lugar. – Olhou para o chão e ergueu a cabeça rapidamente. – Vocês não estão armando algum tipo de jogo para cima de mim, estão?

– Não seja idiota – disse Charles Fremont.

– Certo, mas há alguma coisa errada em algum lugar.

– O quê? – perguntou a jovem. – Talvez se o senhor disser o que acha que está errado...

Guild balançou a cabeça.

– Se eu soubesse o que está errado, poderia descobrir sozinho o que tornou isso errado. Não importa, vou descobrir. Quero o nome e o endereço de todos os amigos dela, das pessoas que ela conhecia, pelo que vocês sabem.

– Eu lhe disse que Helen Robier mora, tenho quase certeza, na Cathedral – disse Fremont. – MacWilliams trabalha no Edifício Russ, numa corretora de ações, eu acho. É só isso que sei sobre ele, e não creio que Columbia o conheça... – engoliu em seco –, o conhecia muito bem. São os únicos de que eu sei.