Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 41 de 44

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Tiros na Noite

Capítulo VII

O homem de cabelos brancos consultou um cartão que estava segurando.

– Ela abriu a conta no dia 8 de novembro do ano passado. As referências que deu foram Francis X. Kearny, proprietário do restaurante Manchu, da Grant Avenue, e Walter Irving Wynant.

VII

– O Manchu fica a apenas seis quarteirões daqui – disse Guild a Boyer quando saíram da Golden Gate Trust Company. – Poderíamos dar uma passada e ver o que descobrimos com Francis Xavier Kearny.

– Você o conhece?

– Não, a não ser de reputação. Ele tem fortes ligações com a polícia e parece que é durão.

O promotor assentiu. Em seguida mordeu os lábios em silêncio, franzindo a testa, até chegarem ao automóvel. Depois disse:

– O que ficamos sabendo hoje parece juntar ele, ela, os Fremont e Wynant numa coisa só.

– Sim, parece.

– Ou você acha que ela pode ter dado o nome de Wynant porque sabia, sendo secretária dele, que poderia pegar a carta do banco pedindo informações e respondê-la sem que ele soubesse?

– Parece bastante razoável, mas há a visita de Wynant ao Manchu ontem.

A testa do promotor se franziu mais ainda.

– O que você acha que Wynant queria, se estava junto com eles?

– Não sei. Sei que alguém está com os doze mil que ela sacou ontem. Eu sei que quero seis desses doze para o Seaman’s National. Vire à esquerda na próxima esquina.

Entraram juntos no restaurante Manchu. Um sorridente garçom chinês disse que o sr. Kearny não estava, que só viria às nove da noite. Eles não puderam saber onde ele poderia ser achado antes das nove. Saíram do restaurante e entraram de novo no automóvel de Boyer.

– Guerrero Street – disse Guild –, mas vamos parar primeiro numa cabine telefônica, quero ligar para a polícia falando do apartamento na Leavenworth Street e para o escritório, para pegarem os cheques cancelados dos dois bancos, de modo a sabermos se algum é falsificado. – Ele pôs as mãos em concha em volta do cigarro que estava acendendo. – Aqui está bem. Pare.

O promotor parou o automóvel perto da Mark Hopkins.

Guild, saltou, falando:

– Vai ser rápido. – E entrou. Quando saiu dez minutos depois seu rosto estava pensativo. – A polícia não encontrou nenhuma impressão no carro de Wynant. Por que será?

– Ele poderia ter se dado ao trabalho de...

– É – concordou o homem moreno –, mas estou me perguntando por que fez isso. Bom, para a Guerrero Street. Se Fremont não tiver voltado de Hell Bend, veremos o que podemos descobrir com a garota. Ela deve saber onde Kearny fica durante o dia.

Uma empregada filipina abriu a porta dos Fremont.

– O sr. Charles Fremont está? – perguntou Guild.

– Não, senhor.

– A srta. Fremont?

– Vou ver se já levantou.

A empregada levou-os até a sala e subiu.

Guild apontou para o vidro quebrado na janela.

– Foi dali que o tiro foi disparado. – E apontou para o buraco na parede verde. – Foi ali que acertou. – Em seguida pegou no bolso do colete uma bala deflagrada e mostrou a Boyer. – Esta.

O rosto de Boyer havia se animado. Ele se aproximou de Guild e começou a falar numa voz baixa, empolgada.

– Você acha que poderiam estar todos no mesmo jogo e Wynant descobriu que a secretária o estava trapaceando além de se preparar para ir embora com...

Guild sacudiu o dedo para a porta do corredor.

– Sh-h-h.

Passos leves desceram a escada e Elsa Fremont entrou na sala, usando um roupão haori azul estampado sobre o pijama de seda verde-claro.

– Bom dia – falou, estendendo a mão para Guild. – Pelo menos para mim é. – E usou a outra mão para cobrir parcialmente um bocejo. – Nós só fechamos a boate quase às oito da manhã.

Guild apresentou o promotor e depois perguntou:

– Seu irmão foi a Hell Bend?

– Sim. Ele estava saindo quando eu cheguei em casa. – Ela se deixou cair no sofá com um pé debaixo do corpo. Estava sem meias, com sandálias azuis bordadas. – Sentem-se.

O promotor sentou-se numa poltrona diante dela. O homem moreno foi até o sofá e se acomodou ao lado.

– Acabamos de chegar do Manchu – disse ele.

Os olhos lanceolados da jovem se estreitaram um pouco.

– Almoçaram bem?

Guild sorriu e disse:

– Nós não fomos lá para isso.

– Ah. – Os olhos dela estavam limpos e despreocupados.

– Fomos procurar Frank Kearny – disse Guild.

– E vocês...?

– Se o vimos? Não.

– Não há muita chance de encontrá-lo lá durante o dia – disse ela, descuidada –, mas ele fica lá todas as noites.

– Foi o que disseram. – Guild pegou o maço de cigarros no bolso e estendeu para ela. – Onde você acha que nós poderíamos encontrá-lo agora?

A garota balançou a cabeça enquanto pegava um cigarro.

– Podem me revistar. Ele morava em Sea Cliff, mas não sei para onde se mudou. – Ela se inclinou para a frente enquanto Guild aproximava o isqueiro do cigarro. – Vocês não podem esperar até a noite? – perguntou quando o cigarro começou a se queimar.

Guild ofereceu cigarro ao promotor, que balançou a cabeça e murmurou:

– Não, obrigado.

O homem moreno pôs um entre os lábios e acendeu antes de responder à pergunta da jovem.

– Nós queríamos saber o que ele sabe sobre Columbia Forrest.

– Não creio que Frank a conhecesse – disse tranqüilamente Elsa Fremont.

– Sim, conhecia, pelo menos como Laura Porter.

A surpresa dela pareceu genuína. Elsa se inclinou para Guild.

– Repita isso.

– Columbia Forrest – disse Guild numa voz deliberadamente monótona – tinha um apartamento na Leavenworth Street, onde era conhecida como Laura Porter, e Frank Kearny a conhecia.

Franzindo a testa, a jovem disse, séria:

– Se você não parecesse saber o que está dizendo, eu não acreditaria.

– Mas acredita?

Ela hesitou, e finalmente disse:

– Bom, conhecendo Frank, eu diria que é possível.

– Você não sabia do apartamento na Leavenworth Street?

Ela balançou a cabeça, encontrando o olhar dele com olhos cândidos.

– Não.

– Sabia que ela usava o nome de Laura Porter?

– Não.

– Nunca ouviu falar de Laura Porter?

– Não.

Guild tragou fumaça e em seguida soltou.

– Acho que acredito – disse em tom casual. – Mas seu irmão devia saber.

Ela franziu a testa olhando para o cigarro em sua mão, para o pé sobre o qual não estava sentada, e depois para o rosto moreno de Guild.

– Você não precisa acreditar em mim – disse devagar –, mas honestamente não creio que ele soubesse.

Guild sorriu educado:

– Posso acreditar em você e achar que está errada.

– Eu gostaria de que pudesse acreditar, e achar que estou certa – disse ela ingenuamente.

Guild movimentou o cigarro num gesto vago.

– O que o seu irmão faz, srta. Fremont? Em que trabalha?

– Agora ele está empresariando dois lutadores, só que um deles não é grande coisa. O outro é Sammy Deep.

Guild assentiu.

– O chinês peso-galo.

– É. Charley acha que ele é um campeão.

– Ele é um bom garoto. Quem é o outro?

– Um trapalhão chamado Terry Moore. Se você freqüenta lutas, certamente já o viu ser nocauteado.

Boyer falou pela primeira vez desde que tinha recusado o cigarro:

– Srta. Fremont, onde a senhorita nasceu?

– Aqui mesmo em San Francisco, lá na Pacific Avenue.

Boyer pareceu desapontado. Perguntou:

– E o seu irmão?

– Aqui em San Francisco também.

O desapontamento se aprofundou no rosto jovem do promotor, e havia pouca esperança em sua voz quando perguntou:

– Sua mãe também era atriz, cantora?

A garota balançou a cabeça com ênfase.

– Era professora. Por quê?

A explicação de Boyer foi dada mais diretamente a Guild.

– Eu estava pensando no casamento de Wynant em Paris.

O homem moreno assentiu.

– Fremont é velho demais. Só é dez ou doze anos mais novo do que Wynant. – Em seguida deu um sorriso sincero. – Quer outra idéia para brincar? Fremont e a garota morta têm as mesmas iniciais: C. F.

Elsa Fremont gargalhou.

– Mais do que isso, eles faziam aniversário no mesmo dia, 27 de maio, apesar de Charley ser mais velho, claro.

Guild deu um sorriso descuidado diante dessa informação, enquanto os olhos do promotor ficavam perturbados.

O homem moreno olhou para o relógio.

– O seu irmão disse quanto tempo ia ficar em Hell Bend?

– Não.

Guild falou a Boyer:

– Por que não telefona para ver se ele está lá? Se estiver, peça que nos espere. Se tiver saído, esperamos por ele aqui.

O promotor se levantou da poltrona, mas antes que pudesse falar a garota estava perguntando ansiosa:

– Há algum motivo especial para vocês quererem ver Charley? Alguma coisa que eu possa contar?

– Você disse que não sabia – disse Guild. – É sobre Laura Porter que queremos descobrir.

– Ah! – Parte da ansiedade dela desapareceu.

– Seu irmão conhece Frank Kearny, não conhece? – perguntou Guild.

– Ah, sim. Foi assim que eu acabei trabalhando lá.

– Há um telefone que possamos usar?

– Certamente. – Ela se levantou e dizendo “Aqui atrás” abriu uma porta para uma sala adjacente. Quando o promotor havia passado ela fechou a porta e voltou ao lugar no sofá, junto de Guild. – Vocês ficaram sabendo de mais alguma coisa? Alguma coisa além de ela ser conhecida como Laura Porter e ter o apartamento?

– Algumas coisinhas, mas é cedo demais para dizer o que podem acrescentar. Eu não perguntei a você se Kearny e Wynant se conheciam, perguntei?

Ela balançou a cabeça de um lado para o outro.

– Se se conheciam, eu não sei. Não sei. Estou dizendo a verdade, sr. Guild.

– Certo, mas Wynant foi visto entrando no Manchu.

– Eu sei, mas... – Ela terminou a frase com uma sacudida dos ombros. Aproximou-se de Guild no sofá. – Você não acha que Charley fez alguma coisa que não devia ter feito, acha?

O rosto de Guild estava plácido.

– Eu não mentiria. Acho que todo mundo ligado ao caso fez coisas que não deveria ter feito.

Ela fez uma careta impaciente.

– Acho que você só está tentando confundir as coisas para facilitar o seu trabalho, de modo a parecer que está fazendo alguma coisa mesmo que não encontre Wynant. Por que não o encontra? – A voz dela estava subindo de volume. – É isso que deveria fazer. Por que não o encontra em vez de tentar criar confusão para todo mundo? Ele é o único que fez alguma coisa. Ele a matou e tentou matar Charley, e é ele que você quer; não Charley, não eu, não Frank. É Wynant que você quer.

Guild deu um riso indulgente.

– Você faz com que pareça tremendamente simples. Gostaria que estivesse certa.

A indignação da jovem desapareceu. Ela pôs uma das mãos sobre a dele. Seus olhos tinham um brilho amedrontado.

– Não há mais nada, há? Alguma coisa que nós não sabemos?

Guild deu um tapinha nas costas da mão dela.

– Há – garantiu em tom agradável. – Há muita coisa que nenhum de nós sabe, e o que sabemos não faz sentido.