Tiros na Noite
Capítulo II
– Vou tentar – prometi –, mas não é...
O balão humano me interrompeu ao erguer-se e procurar com seus gordos dedos cobertos de jóias pelo relógio.
– Três horas – disse. – Tenho um jogo de golfe às três e meia.
Apanhou o chapéu e as luvas de cima da escrivaninha.
– Você vai encontrá-los, não? Ir pra cadeia é uma merda de um tremendo aborrecimento!
E saiu.
II
Do escritório do advogado dirigi-me ao Palácio de Justiça e, depois de alguns minutos de procura, encontrei um policial que havia chegado à esquina da Clay com a Kearny Street segundos depois do atropelamento de Newhouse.
– Eu estava acabando de sair do Palácio quando vi uma banheira dobrando à toda a esquina da Clay Street – disse o policial, um grandalhão de cabelos cor de areia chamado Coffee. – Em seguida vi pessoas se juntando, de modo que fui até lá e encontrei esse tal de John Newhouse esticado no chão. Já estava morto. Meia dúzia de pessoas presenciou o acidente e uma delas pegou a placa do carro. Encontramos o carro vazio na esquina da Montgomery Street, voltado para a direção norte. Havia dois homens no carro, quando ele atingiu Newhouse, mas ninguém chegou a ver como eles eram. Não havia ninguém dentro do carro, quando o achamos.
– Em que direção Newhouse estava caminhando?
– Direção norte, pela Kearny Street, e estava a cerca de três quartos de distância da Clay quando foi derrubado. O carro também ia pela Kearny no rumo norte e virou para leste na Clay. A culpa não podia ter sido toda só dos sujeitos do carro, segundo os que viram o acidente. Newhouse estava atravessando a rua olhando para um pedaço de papel que tinha na mão. Encontrei um pedaço de dinheiro estrangeiro na sua mão e acho que era para isso que ele estava olhando. O tenente me contou que era dinheiro holandês; uma nota de cem florins, segundo ele.
– Descobriu alguma coisa sobre os homens no carro?
– Nada. Alinhamos todos os caras que encontramos nas proximidades da Kearny e da California Street, onde o carro fora roubado, e da Clay e da Montgomery Street, onde foi abandonado. Mas ninguém se lembrava de ter visto os sujeitos entrando ou saindo dele. O proprietário do carro não o estava dirigindo; ele foi roubado, eu acho. A princípio achei que havia alguma coisa esquisita com o acidente. O tal John Newhouse tinha um olho preto de dois ou três dias. Mas investigamos e descobrimos que ele sofrera um ataque de coração ou algo assim uns dias antes e caíra, machucando o olho contra uma cadeira. Ficara doente em casa durante uns três dias. Saíra de casa cerca de meia hora antes do acidente.