Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 26 de 44

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Tiros na Noite

Tom, Dick ou Harry

Não sei se Frank Toplin era alto ou baixo. A única coisa dele que cheguei a ver foi a cabeça redonda – o escalpo nu e a cara enrugada, tudo da cor e textura de papel manilha – apoiada em travesseiros brancos, numa grande cama de dossel. Uma montanha de roupa de cama sepultava o resto do corpo.

Também no quarto, naquela primeira vez, achavam-se sua esposa, uma mulher gorducha, com umas rugas no rosto rechonchudo que pareciam arranhões em marfim; a filha Phyllis, uma dessas integrantes da turma elegante e popular da nova geração; e a criada que me abrira a porta, uma loura grandona, de avental e touca.

Apresentara-me como representante do escritório de San Francisco da Companhia de Seguros Norte-americana, o que eu era mesmo, de certa forma. Não havia vantagem imediata em receber um detetive da Agência de Detetives Continental, no momento contratado pela companhia de seguros, por isso omiti essa parte.

– Quero uma relação do material que vocês perderam – disse a Toplin –, mas primeiro...

– Material? – A esfera amarela do crânio de Toplin saltou dos travesseiros, e ele choramingou para o teto. – Cem mil dólares, no mínimo, e ele chama de material!

A sra. Toplin empurrou a cabeça do marido de volta aos travesseiros, com a mão de dedos gordos.

– Vamos, Frank, não fique excitado – acalmou-o.

Os olhos negros de Phyllis Toplin faiscaram, e ela me deu uma piscadela.

O homem na cama tornou a voltar o rosto para mim, sorriu meio envergonhado e deu uma risadinha.

– Bem, se vocês querem chamar de material sua perda de 75 mil dólares, eu acho que agüento pelos meus 25 mil.

– Quer dizer então que soma cem mil dólares? – perguntei.

– É. Nada estava segurado pelo valor total, e uma parte nem seguro tinha.

Isso era muito comum. Não me lembro de ninguém jamais haver admitido que alguma coisa roubada fora segurada pelo valor total – a apólice sempre cobria a metade ou, no máximo, três quartos.

– Que tal me contar exatamente o que aconteceu? – sugeri, e acrescentei, para fugir de outro discurso que em geral vem a seguir: – Sei que já contou tudo à polícia, mas preciso ouvir do senhor.

– Bem, nós estávamos nos vestindo para ir à casa dos Bauers ontem à noite. Eu trouxe as jóias de minha esposa e minha filha, as peças valiosas, comigo, do cofre do banco. Tinha acabado de vestir o paletó e gritado para que elas se apressassem, quando a campainha da porta tocou.

– Que horas foi isso?

– Pouco depois das oito e meia. Eu saí deste quarto para a sala de visita do outro lado do corredor, e punha alguns charutos no estojo quando Hilda – indicou com a cabeça a criada loura – entrou no quarto, andando de costas. Comecei a perguntar a ela se tinha ficado maluca, andando de costas daquele jeito, quando vi o ladrão. Ele...

– Só um momento. – Voltei-me para a criada: – O que aconteceu quando a senhorita atendeu à campainha?

– Ora, eu abri, claro, e lá estava aquele homem parado, com um revólver na mão, e enfiou na minha... minha barriga, e me empurrou de costas para o quarto onde estava o sr. Toplin, e atirou no sr. Toplin e...

– Quando eu o vi, e o revólver na mão dele – Toplin reassumiu a história –, aquilo me deu uma espécie de susto, e o estojo de charutos me escorregou da mão. Quando tentei pegá-lo – não há sentido em estragar bons charutos, mesmo que estejamos sendo assaltados –, ele deve ter pensado que eu ia pegar uma arma ou alguma coisa assim. Seja como for, me deu um tiro na perna. Minha esposa e Phyllis entraram correndo quando ouviram o tiro, e ele apontou o revólver para elas, pegou todas as jóias delas e me fez esvaziar os bolsos. Depois mandou que elas me arrastassem para o quarto de Phyllis, que entrássemos no armário, e nos trancou a todos lá dentro. E veja bem, não disse uma palavra o tempo todo, nem uma palavra... só fez gestos com a arma e a mão esquerda.

– Qual a gravidade do ferimento em sua perna?

– Depende de se o senhor quer acreditar em mim ou no médico. Ele diz que não é nada demais. Diz que é só um arranhão, mas foi minha perna que levou o tiro, não a dele!

– Ele disse alguma coisa quando a senhorita abriu a porta? – perguntei à criada.

– Não, senhor.

– Algum de vocês o ouviu dizer alguma coisa enquanto esteve aqui?

Nenhum deles ouvira.

– O que aconteceu depois que ele trancou vocês no armário?

– Nada que soubéssemos – disse Toplin – até que McBirney e um policial vieram nos soltar.

– Quem é McBirney?

– O zelador.

– Por que ele apareceu com um policial?

– Ouviu o tiro e subiu, no momento em que o ladrão começava a descer, depois de sair daqui. O ladrão se virou e correu para cima, entrou num apartamento do sétimo andar e ficou lá, mantendo a mulher que mora lá, uma certa srta. Eveleth, calada com o revólver, até ter uma oportunidade de escapulir para fora e fugir. Deixou-a inconsciente antes de ir embora... e é só isso. McBirney chamou a polícia logo depois de ver o ladrão, mas eles chegaram tarde demais para fazer alguma coisa.

– Quanto tempo vocês ficaram no armário?

– Dez minutos... talvez quinze.

– Que aparência tinha o ladrão?

– Baixo, magro e...

– Da sua altura, talvez, ou talvez mais baixo.

– Um metro e sessenta e cinco, sessenta e sete, digamos? Qual seria o peso?

– Oh, eu não sei... talvez 55, sessenta. Era meio fracote.

– Idade?

– Não mais de 22 ou 23.

– Oh, papai – protestou Phyllis. – Tinha uns trinta, ou perto disso.

– Que acha a senhora? – perguntei à sra. Toplin.

– Vinte e cinco, eu diria.

– E a senhorita? – perguntei à criada.

– Não sei ao certo, senhor, mas não era muito velho.

– Louro ou moreno?

– Era louro – disse Toplin. – Não tinha se barbeado e a barba era amarelada.

– Mais castanho-clara – corrigiu Phyllis.

– Pode ser, mas era amarela.

– Cor dos olhos?

– Eu não sei. Ele tinha o boné puxado sobre eles. Pareciam negros, mas pode ser porque estavam na sombra.

– Como descreveria a parte do rosto que pôde ver?

– Pálido, e com uma aparência meio fraca... queixo pequeno. Mas não se podia ver muita coisa do rosto dele, tinha a gola erguida e o boné abaixado.

– Como estava vestido?

– Um boné azul puxado sobre os olhos, terno azul, sapatos pretos e luvas pretas... de seda.

– Maltrapilho ou arrumado?

– Umas roupas baratas, horrivelmente amassadas.

– Que tipo de arma?

Phyllis Toplin falou antes do pai.

– Papai e Hilda ficam chamando de revólver, mas era uma automática... uma 38.

– Vocês o reconheceriam se o vissem de novo?

– Sim – todos concordaram.

Abri um espaço na mesa-de-cabeceira e peguei lápis e papel.

– Quero uma relação do que ele pegou, com uma descrição tão detalhada de cada peça quanto possível, o preço que pagaram e quando.

Obtive a lista uma hora depois.

– Sabem o número do apartamento da srta. Eveleth? – perguntei.

– É o 702, dois andares acima.

Subi até lá e toquei a campainha. A porta foi aberta por uma jovem de vinte e poucos anos, o nariz oculto por esparadrapo. Tinha belos e claros olhos de avelã, cabelos escuros e aparência atlética.

– Srta. Eveleth?

– Sim.

– Eu sou da companhia de seguros que segurou as jóias dos Toplins e estou procurando informações sobre o roubo.

Ela tocou o nariz bandado e deu um sorriso dolorido.

– Isto é parte da minha informação.

– Como foi que aconteceu?

– Castigo por feminilidade. Esqueci de não me meter onde não era chamada. Mas o que o senhor deseja, suponho, é saber o que eu sei sobre o vagabundo. A campainha tocou alguns minutos antes das nove ontem à noite e, quando abri a porta, lá estava ele. Assim que abri, ele me encostou a pistola e disse:

“‘– Pra dentro, menina!’

“Eu o deixei entrar sem nenhuma hesitação; fui muito espontânea e ele fechou a porta atrás com o pé.

“‘– Onde fica a escada de incêndio?’, perguntou.

“A escada de incêndio não chega a nenhuma das minhas janelas, e eu disse isso, mas ele não quis acreditar em mim. Me empurrou na frente até cada uma das janelas: mas claro que não encontrou nenhuma escada de incêndio, e ficou bravo, como se fosse minha culpa. Não gostei de algumas coisas que ele me disse, e era tão fracote que tentei pegá-lo na mão. Mas... bem, o homem ainda é o animal dominante no que me diz respeito. Em resumo, ele me estourou o nariz e me deixou no lugar onde caí. Então eu corri para o corredor lá fora e encontrei alguns policiais na escada. Contei soluçando minha historinha patética e eles me falaram do assalto aos Toplins. Dois deles me acompanharam de volta e revistaram o apartamento. Eu não o tinha visto partir mesmo, e acharam que ele era astuto ou desesperado o bastante para se enfiar num armário e ficar lá até que a costa estivesse limpa. Mas não o encontraram.”

– Quanto tempo acha que passou desde que ele a derrubou até quando a senhorita correu para o corredor?

– Oh, talvez uns cinco minutos. Talvez só metade disso.

– Que aparência tinha o sr. Ladrão?

– Era baixo, menor que eu; com uma barba de uns dois dias; vestia roupas azuis surradas, com luvas de pano pretas.

– Idade?

– Não muita. Tinha a barba rala e uma cara meio de menino.

– Notou os olhos?

– Azuis; os cabelos, onde apareciam por baixo do boné, eram louros muito claros, quase brancos.

– Que tipo de voz?

– Um baixo muito profundo, embora ele pudesse estar forçando.

– A senhorita o reconheceria se o visse de novo?

– Sim, sem dúvida! – Ela levou o dedo delicadamente ao nariz bandado. – De qualquer modo, meu nariz reconheceria, como diz o anúncio!

Do apartamento da srta. Eveleth desci para o escritório no primeiro andar, onde encontrei o zelador, sr. McBirney, e sua esposa, que cuidavam do prédio. Ela era uma mulherzinha magrela, com a boca e o nariz angulosos de uma megera; ele era alto, ombros largos, cabelos e bigode grisalhos, um rosto bem-humorado e irrequieto, e olhos joviais, de um azul aguado e claro.

McBirney contou com voz arrastada o que sabia do assalto.

– Eu estava consertando a carrapeta de uma torneira quando ouvi o tiro. Subi para ver o que se passava, e quando já tinha chegado a uma distância de onde, na escada, podia ver a porta dos Toplins, o sujeito saiu. A gente viu um ao outro ao mesmo tempo, e ele me apontou o revólver. Eu podia ter feito muitas coisas, mas o que fiz foi me abaixar e tirar a cabeça da linha de tiro. Ouvi o sujeito correr para cima e subi bem a tempo de ver ele dobrar a volta entre o quinto e o sexto andares.

“Não fui atrás dele. Não tinha arma nem nada, e imaginei que ele estava acuado. Um homem pode sair deste prédio para o telhado do vizinho pelo quarto andar, e talvez pelo quinto, mas não de nenhum lugar acima; e o apartamento dos Toplins fica no quinto. Imaginei que a gente tinha o sujeito. Eu podia ficar parado diante do elevador e vigiar as escadas da frente e dos fundos, e chamei o elevador e disse a Ambrose, o ascensorista, que desse o alarme e corresse para fora, para ficar de olho na escada de incêndio, até a polícia chegar.

“A patroa subiu com minha arma um ou dois minutos depois e me disse que Martínez – o irmão de Ambrose, que cuida da central telefônica e da porta da frente – tinha ido chamar a polícia. Eu podia ver bem as duas escadas, e o sujeito não desceu por elas; e só demorou alguns minutos até a polícia, um monte deles, chegar da delegacia de Richmond. Aí a gente tirou os Toplins de dentro do armário e começou a vasculhar o prédio. E então a srta. Eveleth desceu correndo a escada, o rosto coberto de sangue, e disse que ele estava no apartamento dela; por isso a gente teve toda certeza de que tinha fisgado o sujeito. Mas não tinha. Revistamos cada apartamento do prédio, mas nem sinal dele.”

– Claro que não encontraram! – disse a sra. McBirney, de um modo desagradável. – Mas se você tivesse...

– Eu sei – disse o zelador, com o ar tolerante de alguém que aprendeu a aceitar as críticas como parte normal da vida de casado –, se eu fosse um herói, tinha pegado ele eu mesmo, e me esbagaçado todo. Bem, eu não sou tolo como o velho Toplin, que levou um tiro no pé, nem Blanche Eveleth, que teve o nariz rebentado. Eu sou um homem de juízo, que sabe quando está por baixo... não vou saltar em cima de arma nenhuma!

– Não! Não vai fazer nada que...

Essa briga não ia me levar a parte alguma, por isso cortei com uma pergunta à mulher.

– Quem é o inquilino mais recente aqui?

– O sr. e a sra. Jerald... chegaram anteontem.

– Que apartamento?

– O 704... junto do da srta. Eveleth.

– Quem são esses Jeralds?

– Vieram de Boston. Ele me contou que veio para cá abrir uma filial de uma empresa industrial. É um homem de pelo menos cinqüenta anos, magro e com ar de quem não tem boa digestão.

– Só ele e a esposa?

– É. Ela também é doente... passou um ou dois anos num sanatório.

– Quem é o mais novo inquilino depois deles?

– O sr. Heaton, do 535. Mora aqui há duas semanas, mas no momento está em Los Angeles. Viajou há três dias e ia ficar dez ou doze dias fora.

– Como é ele e o que faz?

– Trabalha com uma agência teatral e é meio gordo e vermelho.

– O mais novo seguinte?

– A srta. Eveleth.

– E o seguinte?

– Os Wageners, do 923. Estão aqui já há dois meses.

– Quem são?

– Ele é corretor imobiliário aposentado. Os outros são a esposa e o filho Jack... um rapaz, de uns dezenove anos. Anda muito com Phyllis Toplin.

– Há quanto tempo os Toplins estão aqui?

– Vai fazer dois anos no mês que vem.

Eu me voltei da sra. McBirney para o marido.

– A polícia revistou os apartamentos de todas essas pessoas?

– É – disse. – A gente entrou em tudo que é quarto, tudo que é vão, tudo que é armário, do porão ao telhado.

– O senhor deu uma boa olhada no ladrão?

– É. Tem uma luz no corredor diante da porta dos Toplins, e bateu direto na cara dele quando eu o vi.

– Podia ser um dos inquilinos?

– Não, não podia, não.

– Reconhece o sujeito se vir de novo?

– Pode apostar.

– Como era ele?

– Meio enfezado, um rapaz de cara branca, 23 ou 24 anos, com um terno azul velho.

– Posso falar com Ambrose e Martínez, os rapazes do elevador e da portaria, agora?

O zelador olhou o seu relógio.

– É. Eles já devem estar de serviço. Chegam às duas.

Fui até o saguão e encontrei-os juntos, contando moedas. Eram irmãos, rapazes filipinos esbeltos, olhos brilhantes. Não acrescentaram grande coisa.

Ambrose descera ao saguão e mandara o irmão chamar a polícia assim que McBirney lhe dera a ordem, depois saíra pela porta dos fundos para vigiar a escada de incêndio. As escadas de incêndio desciam no fundo por um dos lados do prédio. Postando-se um pouco recuado da quina das paredes, o filipino podia manter um olho nas duas, e também na porta dos fundos.

Disse que havia muita iluminação, ele podia ver as duas escadas até o telhado, e não vira ninguém.

Martínez chamara a polícia pelo telefone e depois vigiara a porta da frente e o pé da escada da frente. Não vira nada.

Eu acabava de interrogar os filipinos, quando a porta da rua se abriu e entraram dois homens. Um deles eu conhecia: Bill Garren, detetive de polícia do Esquadrão de Lojas de Penhores. O outro era um rapaz louro baixinho, muito vistoso numas calças pregueadas, paletó curto de ombros quadrados e sapatos de couro com manchas amarelas combinando com o chapéu e as luvas. Fazia um biquinho de mau humor. Parecia não gostar de estar com Garren.

– Que está fazendo por aqui? – o detetive me saudou.

– O material de Toplin, para a companhia de seguros – expliquei.

– Está conseguindo alguma coisa? – perguntou.

– Estou quase para fazer uma prisão – disse eu, não inteiramente a sério nem inteiramente brincando.

– Quanto mais alegres somos, mais alegres ficamos – sorriu ele. – Eu já fiz a minha. – Indicou com a cabeça o rapaz embonecado. – Suba com a gente.

Entramos os três no elevador e Ambrose nos levou ao quinto andar. Antes de apertar a campainha dos Toplins, Garren me contou o que sabia.

– Esse garoto tentou empenhar um anel numa loja da Third Street ainda há pouco... um anel de esmeralda e diamante que parece ser um dos roubados dos Toplins. Está bancando o mudo agora; não falou uma palavra... ainda. Vou mostrá-lo a essas pessoas e depois levá-lo para o Tribunal de Justiça e arrancar palavras dele... palavras arrumadinhas em boas frases e tudo!

O preso olhava casmurro para o chão e não deu atenção a essa ameaça. Garren tocou a campainha e a criada Hilda abriu a porta. Ela arregalou os olhos quando viu o rapaz, mas não disse nada ao nos deixar entrar na sala de visitas, onde estavam a sra. Toplin e a filha. Elas ergueram o olhar para nós.

– Olá, Jack! – Phyllis cumprimentou o preso.

– Olá, Phyl – resmungou ele, sem olhar para ela.

– Entre amigos, hein? Bem, qual é a resposta? – perguntou Garren à moça.

Ela empinou o queixo, e embora enrubescesse, olhou altiva para o detetive.

– Se importa de tirar o chapéu? – perguntou.

Bill não é um sujeito mau, mas não tem nada de manso. Respondeu a ela quebrando o chapéu para cima de um olho e voltando-se para a mãe.

– Já viu esse rapaz antes?

– Ora, certamente! – exclamou a sra. Toplin. – É o sr. Wagener, que mora aí em cima.

– Bem – disse Bill. – O sr. Wagener foi apanhado numa loja de penhores tentando se livrar deste anel. – Tirou um vistoso anel verde e branco do bolso. – Conhece?

– Certamente! – disse a sra. Toplin, olhando o anel. – É de Phyllis, e o ladrão... – Deixou cair o queixo, ao começar a entender. – Como pode o sr. Wagener...

– É, como? – repetiu Bill.

A moça meteu-se entre mim e Garren, dando as costas a ele para me olhar.

– Eu posso explicar tudo – anunciou.

Isso pareceu demais uma legenda de filme para ser muito promissor, mas...

– Vá em frente – encorajei-a.

– Eu encontrei esse anel no corredor, perto da porta, quando acabou o barulho. O ladrão deve tê-lo deixado cair. Eu não disse nada a papai e mamãe, porque achei que ninguém ia nunca saber a diferença, e não estava no seguro, logo achei que era melhor vendê-lo e ficar com o dinheiro. Perguntei a Jack ontem de noite se podia vendê-lo para mim e ele disse que sabia exatamente como resolver o problema. Ele não teve nada a ver com o anel fora isso, mas achei que tivesse juízo suficiente para não empenhá-lo imediatamente.

Olhou com desprezo para o cúmplice.

– Está vendo o que você fez? – acusou-o.

Ele se mexeu e fez biquinho para os pés.

– Ha! Ha! Ha! – fez Bill de cara fechada. – Essa é ótima! Já ouviu a dos dois irlandeses que entraram por engano na Associação Judaica de Moços?

Ela não respondeu se ouvira ou não.

– Sra. Toplin – perguntei –, tirando as roupas diferentes e a cara não-barbeada, esse rapaz podia ser o ladrão?

Ela balançou a cabeça com ênfase.

– Não! Não podia!

– Largue seu preso, Bill – sugeri –, e vamos para um canto ter uma conferência só entre nós.

– Certo!

Arrastou uma pesada cadeira para o centro da sala, sentou Wagener nela, ancorou-o ali com algemas – não exatamente necessárias, mas Bill estava furioso por não ter seu preso identificado como o ladrão – e saiu comigo para o corredor. Podíamos ficar de olho na sala de visita dali, sem que ouvissem nossa conversa.

– É muito simples – sussurrei na orelhona vermelha dele. – Só há cinco maneiras de imaginar a coisa. Primeiro: Wagener roubou o material para os Toplins. Segundo: os Toplins arranjaram o roubo sozinhos e mandaram Wagener vender. Terceiro: Wagener e a moça fizeram um trato sem os velhos saberem. Quarto: Wagener agiu por conta própria e a moça lhe deu cobertura. Quinto: ela nos contou a verdade. Nenhuma explica por que o companheirinho dela seria burro o suficiente para aparecer com o anel no centro hoje de manhã, mas isso nenhum sistema explica. Qual das cinco você prefere?

– Eu gosto de todas – resmungou. – Porém o que mais gosto é que peguei esse boneco... peguei ele tentando passar o anel. Isso me basta.Você cuida dos palpites. Não quero mais do que já consegui.

– Também não me aborrece – concordei. – Do jeito que a coisa está, a companhia de seguros pode dar um calote nas apólices... mas eu gostaria que a coisa ardesse mais um pouco, o bastante para pôr em cana todos que tentaram dar um golpe na Norte-americana. Vamos arrancar tudo que pudermos do garoto, jogá-lo no xilindró e depois ver que outros danos podemos causar.

– Tudo bem – disse Garren. – Que tal ir buscar o zelador e a tal Eveleth, enquanto eu mostro o rapaz ao velho Toplin e peço a opinião da criada?

Fiz que sim com a cabeça e segui pelo corredor, deixando a porta aberta atrás. Tomei o elevador até o sétimo andar e disse a Ambrose que chamasse McBirney e o mandasse ao apartamento dos Toplins. Depois toquei a campainha de Blanche Eveleth.

– Pode descer por um ou dois minutos? – perguntei-lhe. – Temos um preso que pode ser o seu amiguinho de ontem à noite.

– Se posso? – Ela dirigiu-se à escada comigo. – E se for ele, posso retribuir-lhe minha beleza arruinada?

– Pode – prometi. – Faça o que quiser, contanto que não o estropie demais para impedi-lo de ir a julgamento.

Levei-a ao apartamento dos Toplins sem tocar a campainha e encontrei todo mundo no quarto de Frank. Uma olhada à cara amarrada de Garren me disse que nem o velho nem a criada haviam identificado o preso.

Apontei Jack Wagener. A decepção tomou os olhos de Blanche Eveleth.

– Você se enganou – disse ela. – Não é ele.

Garren armou-lhe uma carranca. Era claro que, se os Toplins estivessem mancomunados com o jovem Wagener, não iriam identificá-lo como o ladrão. Bill contava que essa identificação viesse dos dois de fora – Blanche Eveleth e o zelador –, e agora um deles falhara.

O outro tocou a campainha nesse momento e a criada o introduziu.

Apontei para Jack Wagener, parado carrancudo ao lado de Garren, de olhos baixos.

– Conhece, sr. McBirney?

– É, o filho do sr. Wagener, Jack.

– É o homem que o ameaçou com um revólver ontem de noite?

Os olhos aguados do sr. McBirney saltaram de surpresa.

– Não – disse, com decisão, e começou a parecer em dúvida.

– Com um terno velho, boné puxado para os olhos e a barba crescida... podia ser ele?

– Não – disse o zelador, arrastando a voz. – Acho que não, embora... Sabe, agora que penso nisso, tinha alguma coisa conhecida naquele sujeito, e talvez... Diabos, acho que talvez o senhor tenha razão... embora eu não possa dizer bem com certeza.

– Chega! – grunhiu Garren enojado.

Uma identificação como a feita pelo zelador não vale nada num sentido ou noutro. Mesmo as identificações positivas e imediatas nem sempre são as boas. Muita gente sem juízo – e algumas que o têm, ou deviam ter – deu má fama à prova circunstancial. É enganosa às vezes. Mas quanto à inconfiabilidade autêntica, integral, do pré-guerra, não chega à distância de um tiro do testemunho humano. Peguem qualquer um que queiram – a menos que seja aquele um em cem mil com a mente treinada para manter tudo nos seus lugares –, façam-no ficar excitado, mostrem-lhe alguma coisa, dêem-lhe algumas horas para pensar e discutir bem, e depois perguntem a respeito. Dez a um como vão ter problema para descobrir qualquer ligação entre o que ele viu e o que diz ter visto. Como aquele McBirney – mais uma hora, e estaria disposto a apostar a vida em que Jack Wagener era o ladrão.

Garren pegou o rapaz pelo braço e dirigiu-se à porta.

– Para onde, Bill? – perguntei.

– Lá pra cima, conversar com os pais dele. Você vem?

– Fique um pouco por aqui – convidei. – Vou dar uma festinha. Mas primeiro, me diga, os tiras que vieram aqui quando disparou o alarme fizeram um bom serviço?

– Eu não vi – disse o detetive de polícia. – Só cheguei depois que os fogos de artifício já haviam acabado, mas pelo que sei o pessoal fez tudo que se podia esperar deles.

Virei-me para Frank Toplin. Falava com ele porque nós – sua esposa, a filha, a criada, o zelador, Blanche Eveleth, Garren e seu preso, e eu – nos reuníamos em torno da cama do velho, e olhando para ele eu via a todos com um dos olhos.

– Alguém andou me fazendo de bobo em algum ponto – comecei meu discurso. – Se tudo o que me disseram sobre este caso está certo, então a Lei Seca também está. As histórias de vocês não se encaixam, nem chegam perto disso. Vejam o sujeito que assaltou vocês. Parece que conhecia muito bem seus movimentos. Talvez fosse sorte ter atacado o apartamento numa hora em que todas as jóias estavam à mão, em vez de outro apartamento, ou este mesmo em outra hora. Mas eu não acredito em sorte. Prefiro imaginar que ele sabia o que fazia. Saqueou vocês, depois correu para o apartamento da srta. Eveleth. Talvez fosse descer quando deu com o sr. Birney, talvez não. De qualquer modo, subiu e entrou no apartamento da srta. Eveleth, procurando uma escada de incêndio. Engraçado, hum? Ele sabia o bastante sobre a casa para fazer um assalto lucrativo, mas não sabia que não havia escadas de incêndio no lado da srta. Eveleth do prédio.

“Ele não falou com vocês nem com o sr. McBirney, mas falou com a srta. Eveleth, numa voz grave. Muito, muito profunda. Engraçado, hum? Do apartamento da srta. Eveleth, sumiu, com todas as saídas vigiadas. Os policiais devem ter chegado antes que ele deixasse o apartamento da srta. Eveleth, e a primeira coisa que fizeram foi bloquear as saídas, quer McBirney e Ambrose já tivessem feito isso ou não. Mas ele fugiu. Engraçado, hum? Ele usava um terno amassado, que podia ter sido tirado de uma trouxa pouco antes do serviço, e era baixinho. A srta. Eveleth não é uma mulher pequena, mas seria um homem pequeno. Um sujeito de espírito desconfiado quase pensaria que Blanche Eveleth era o ladrão.”

Frank Toplin, sua esposa, o jovem Wagener, o zelador e a criada me olhavam boquiabertos. Garren media com os olhos entrecerrados a tal Eveleth, que me fuzilava com o olhar. Phyllis Toplin me olhava com uma espécie de desprezo piedoso por meu retardamento.

Bill Garren concluiu o exame da moça e balançou a cabeça, devagar.

– Ela podia conseguir – deu sua opinião –, dentro do prédio e de bico calado.

– Exatamente – disse eu.

– Exatamente uma ova! – explodiu Phyllis Toplin. – Vocês dois, detetives formados por curso de correspondência, acham que nós não íamos saber a diferença entre um homem e uma mulher em trajes de homem? Ele tinha uma barba de um ou dois dias na cara... pêlos de verdade, se entendem o que eu digo. Acha que ele podia nos enganar com pêlos falsos? Isto aqui aconteceu mesmo, vocês sabem, não está numa peça!

Os outros fecharam a boca e balançaram a cabeça.

– Phyllis tem razão. – Frank Toplin apoiou seu rebento. – Era um homem... não uma mulher vestida de homem.

A esposa, a criada e o zelador balançaram a cabeça em vigoroso endosso.

Mas eu sou um sujeito teimoso quando se trata de seguir os indícios até o fim. Virei-me e olhei para Blanche Eveleth.

– Pode dar alguma contribuição? – perguntei-lhe.

Ela deu um sorriso muito meigo e balançou a cabeça.

– Tudo bem, sua vagabunda – disse eu. – Está presa. Vamos.

Então pareceu que ela podia dar uma contribuição. Tinha alguma coisa a dizer, muitas coisinhas a dizer, e todas sobre mim. Não eram coisas bonitas. Com raiva, sua voz tornava-se estridente, e no momento estava mais furiosa do que se pensaria que alguém podia ficar com tão breve aviso prévio. Senti por isso. Aquele serviço tinha corrido de maneira pacífica e delicada até então, não fora arranhado por nada desagradável, fora quase elegante em cada detalhe; e eu esperava que assim fosse até o fim. Porém quanto mais ela gritava comigo, mais desbocada ficava. Não disse nenhuma palavra que eu não tivesse ouvido antes, mas as arrumava em combinações novas para mim.

Então a derrubei com um soco na boca.

– Vamos! Vamos! – berrou Bill Garren, agarrando meu braço.

– Poupe sua força, Bill – aconselhei-o, sacudindo a mão dele e abaixando-me para levantar a tal Eveleth do chão. – Seu cavalheirismo lhe faz honra, mas acho que vai descobrir que o verdadeiro nome de Blanche é Tom, Dick ou Harry.

Levantei-a (ou levantei-o, como preferirem) e perguntei-lhe:

– Quer nos contar?

Como resposta, recebi um rosnado.

– Tudo bem – disse eu aos outros –, na ausência de informação autorizada, vou dar meu serviço. Se Blanche Eveleth podia ser o ladrão, a não ser pela barba e o problema de uma mulher se passar por homem, por que não poderia o ladrão ser Blanche Eveleth antes e depois do assalto, usando um, como é que se chama, forte depilatório na cara? É difícil uma mulher se fantasiar de homem, mas muitos homens convencem num papel feminino. Não podia esse sujeito, após alugar o apartamento como Blanche Eveleth e arrumar tudo, se trancar lá uns dois dias, deixando a barba crescer? Descer e liquidar o serviço? Correr para cima, tirar os pêlos da cara e entrar no papel feminino em, digamos, quinze minutos? Meu palpite é que podia. E ele teve quinze minutos. Não sei do nariz quebrado. Talvez tenha tropeçado ao subir a escada, e mudou os planos para explicar isso... ou talvez o tenha quebrado intencionalmente.

Meus palpites não estavam longe da verdade, embora ele se chamasse Fred – Frederick Agnew Rudd. Era conhecido em Toronto, e cumprira pena no Reformatório de Ontário aos dezenove anos, depois de apanhado por roubo em uma loja vestido de mulher. Não confessou, e jamais encontramos a arma nem o terno azul, o boné e as luvas pretas, embora descobríssemos um buraco no colchão onde ele os escondeu da polícia até mais tarde naquela noite, quando pôde livrar-se deles. Mas as jóias dos Toplins vieram à luz peça por peça quando mandamos os bombeiros desmontarem os canos e radiadores do apartamento 702.

 

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