Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 43 de 44

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Tiros na Noite

Capítulo IX

Callaghan, rugindo com palavrões ininteligíveis, saltou para cima de Guild.

Lane e o agente funerário pularam entre os dois, lutando com o subdelegado. Lane virou a cabeça para dar um comando para aquietar o cão que estava rosnando no canto. O pai de Callaghan não se levantou, mas se inclinou sobre a mesa gemendo censuras para as costas do filho. A sra. Callaghan entrou e começou a ralhar com o filho.

Boyer falou nervosamente para Guild:

– Acho que é melhor nós irmos.

Guild deu de ombros.

– Tudo bem, mas eu gostaria de saber onde ele passou o início da tarde de ontem. – Em seguida olhou em volta com toda a calma e acompanhou Boyer até a porta da frente.

Do lado de fora, o promotor exclamou:

– Santo Deus! Você não acha que Ray a matou!

– Por que não? – Guild jogou o resto do cigarro no meio da estrada, num longo arco vermelho. – Não sei. Alguém fez isso, e eu vou contar um segredo: que eu me dane se acho que Wynant fez isso.

IX

Hopkins e um homem jovem e alto com bigode ruivo saíram da casa de Wynant quando Boyer parou o automóvel diante dela.

O promotor desceu, dizendo:

– Bom dia, senhores. – Indicando o homem de bigode ruivo, falou a Guild: – Este é o subdelegado King, sr. Guild. O sr. Guild está trabalhando comigo – explicou.

O subdelegado assentiu, olhando o homem moreno de cima a baixo.

– Sim, eu ouvi falar dele. Como vai, sr. Guild?

O cumprimento de Guild incluiu Hopkins e King.

– Nenhum sinal de Fremont ainda? – perguntou Boyer.

– Não.

– A sra. Hopkins ainda está acordada? – perguntou Guild.

– Sim, senhor – disse o marido dela –, está costurando.

Os quatro entraram.

A sra. Hopkins, sentada numa cadeira de balanço e fazendo bainha num lenço de linho cru, começou a se levantar, mas se deixou afundar na cadeira dizendo:

– Como vão?

E Boyer falou:

– Não se levante. Nós pegamos as cadeiras.

Guild não se sentou. Parado junto à porta, acendeu um cigarro enquanto os outros se sentavam. Depois se dirigiu ao casal Hopkins:

– Vocês disseram que foi por volta das três da tarde de ontem que Columbia Forrest voltou da cidade.

– Ah, não, senhor! – A mulher largou a costura sobre os joelhos. – Ou pelo menos nós não quisemos dizer isso. Quisemos dizer que foi por volta das três horas que nós ouvimos os dois, ele, discutindo. Pode perguntar ao sr. Callaghan que horas eram quando eu telefonei para ele e...

– Eu estou perguntando à senhora – disse Guild num tom agradável. – Ela estava aqui quando vocês voltaram do povoado às duas e vinte, depois de comprar o terno?

A mulher olhou nervosamente para ele, através dos óculos.

– Bom, sim, senhor, ela estava, se essa era a hora. Eu achava que era mais cedo, sr. Gould, mas se o senhor diz que a hora era essa, acho que o senhor sabe, mas ela havia acabado de chegar em casa.

– Como sabe disso?

– Ela disse. Ela gritou para o andar de baixo, para saber se éramos nós que estávamos chegando, e disse que tinha acabado de chegar naquele minuto.

– Havia um telegrama debaixo da porta quando vocês chegaram?

Os Hopkins se entreolharam surpresos e balançaram a cabeça.

– Não, não havia – disse o homem.

– Ele estava aqui?

– O sr. Wynant?

– Sim. Ele estava em casa quando vocês chegaram?

– Sim. Eu... eu acho que estava.

– A senhora sabe?

– Bom... – ela olhou para o marido com um apelo –, ele estava aqui quando ouvimos a briga pouco depois, de modo que devia estar...

– Ou será que chegou depois de vocês terem voltado?

– Não. Nós não o vimos entrar.

– Ouviram?

Ela balançou a cabeça com certeza.

– Não, senhor.

– O carro dele estava aí quando vocês voltaram?

A mulher começou a dizer que sim, parou no meio do caminho e olhou com expressão de dúvida para o marido. O rosto redondo dele estava desconfortavelmente confuso.

– Nós... nós não notamos – gaguejou ela.

– Vocês teriam ouvido se ele tivesse chegado de carro enquanto estavam aqui?

– Não sei, sr. Gould. Eu acho... não sei. Se eu estivesse na cozinha com a torneira aberta e Willie, isto é, o sr. Hopkins, não escuta muito bem. Talvez nós...

Guild virou as costas para ela e falou com o promotor:

– Não há sentido na história deles. Se eu fosse você jogaria os dois na cadeia e os acusaria de assassinato.

Boyer ficou boquiaberto. O rosto de Hopkins ficou amarelo. A mulher dele se curvou sobre a costura e começou a chorar. King olhou para o homem moreno como se para alguma curiosidade vista pela primeira vez.

O promotor foi o primeiro a falar.

– Mas... mas por quê?

– Você não acredita neles, não é? – perguntou Guild num tom divertido.

– Não sei. Eu...

– Se fosse eu, faria isso – disse Guild bem-humorado –, mas se você quiser esperar até nós localizarmos Wynant, tudo bem. Eu quero pegar mais amostras da letra de Wynant e da garota. – Ele se virou de novo para os Hopkins e perguntou casualmente: – Quem era Laura Porter?

O nome nada pareceu significar para eles. Hopkins balançou a cabeça atordoado. Sua mulher não parou de chorar.

– Eu não achava que vocês soubessem – disse Guild. – Vamos subir e pegar aquelas amostras, Boyer.

O rosto do promotor, enquanto ele subia a escada com Guild, era um teatro onde a ansiedade representava. Encarava o homem moreno com olhos perturbados, implorantes.

– Eu... eu gostaria de que você me dissesse por que acha que Wynant não fez isso – falou numa voz chorosa – e por que acha que Ray e os Hopkins estão metidos no caso. – Ele fez um gesto desesperado com as mãos. – O que você realmente pensa, Guild? Realmente suspeita dessas pessoas ou...? – Seu rosto se ruborizou sob o olhar firme, ilegível, do homem moreno, e ele baixou os olhos.

– Eu suspeito de todo mundo – disse Guild numa voz vazia de sentimento. – Onde vocês dois estavam entre duas e três horas da tarde de ontem?

Boyer estremeceu e um olhar de medo surgiu em seu rosto jovem. Em seguida deu um riso sem graça e disse:

– Bom, acho que você está certo. Quero que entenda, Guild, que fico perguntando coisas não porque acho que você esteja na pista errada, mas porque acho que sabe muito mais do que eu sobre esse tipo de coisa.

Às duas horas da manhã, Guild estava em San Francisco. Foi direto ao Manchu.

Elsa Fremont estava cantando quando ele saiu do elevador. Usava um vestido de tafetá – com o corpete justo, saia ampla –, onde havia grandes rosas vermelhas estampadas contra um fundo azul-claro, com dois broches de cristal prendendo uma faixa na cintura. A canção que ela cantava tinha um verso recorrente: “Bum, falsidade, falsidade!”

Quando terminou o segundo ato, foi na direção da mesa de Guild, mas dois homens e uma mulher numa outra mesa a interromperam, e passaram-se dez minutos ou mais antes que ela se juntasse a ele. Seus olhos estavam sombrios, o rosto e a voz nervosos.

– Você encontrou Charley?

Guild, de pé, falou:

– Não. Ele não subiu a Hell Bend.

Ela se sentou retorcendo o lenço amarrado no pulso, mordendo o lábio, franzindo a testa.

O homem moreno sentou-se, perguntando:

– Você achava que ele tinha ido para lá?

Ela levantou a cabeça bruscamente, indignada.

– Eu disse que sim. Você nunca acredita em nada que as pessoas falam?

– Algumas vezes acredito, e estou errado. – Guild bateu com um cigarro sobre a mesa. – Para onde quer que ele tenha ido, está com um carro novo e um dia de dianteira.

Ela pôs as mãos subitamente sobre a mesa, com as palmas para cima num gesto suplicante.

– Mas por que ele iria querer ir para outro lugar?

Guild estava olhando as mãos dela.

– Não sei, mas foi. – Ele curvou a cabeça mais ainda sobre as mãos de Elsa, como se estudasse as linhas. – Frank Kearny está aqui agora? Será que eu posso falar com ele?

Ela emitiu um breve riso gutural.

– Está. – Deixando as mãos paradas como estavam sobre a mesa, virou a cabeça e chamou a atenção de um garçom que passava. – Lee, peça ao Frank para vir aqui. – Ela olhou de novo para o homem moreno, um tanto curiosamente. – Eu falei com ele que você queria vê-lo. Tudo bem?

Ele ainda estava examinando suas palmas.

– Ah, sim, claro – disse bem-humorado. – Isso lhe daria tempo para pensar.

Ela riu de novo e tirou as mãos de cima da mesa.

Um homem se aproximou. Media bem mais de um metro e oitenta, mas a largura de seus ombros o fazia parecer ter menos do que isso. O rosto era largo e chato, os olhos pequenos, os lábios largos e grossos, e quando sorria revelava dentes tortos e separados. Sua idade poderia ser qualquer coisa entre 35 e 45 anos.

– Frank, este é o sr. Guild – disse Elsa Fremont.

Kearny estendeu a mão com cordialidade ensaiada.

– Prazer em conhecê-lo, Guild.

Os dois se cumprimentaram e Kearny sentou-se. A orquestra estava tocando “Love Is Like That” para os dançarinos.

– Você conhece Laura Porter? – perguntou Guild.

O proprietário balançou a cabeça feia.

– Nunca ouvi falar. Elsa me perguntou.

– Conhecia Columbia Forrest?

– Não. Só sei que é a garota que foi apagada lá no condado de Whitfield, e só sei disso pelos jornais e por Elsa.

– Conhecia Wynant?

– Não, e se alguém o viu entrando aqui, só posso dizer que, se um monte de gente que não conheço não viesse aqui, eu não poderia permanecer no negócio.

– Tudo bem – disse Guild em tom agradável –, mas veja bem: quando Columbia Forrest abriu uma conta num banco há sete meses, usando o nome de Laura Porter, você foi uma das referências que ela deu ao banco.

O riso de Kearny não se abalou.

– Pode ser, tudo bem, mas isso não significa que eu a conheço. – Ele estendeu o braço comprido e parou um garçom. – Diga a Sing para lhe dar aquela garrafa e traga mais ginger ale. – Em seguida voltou a atenção de novo para Guild. – Olhe, Guild. Eu cuido de um estabelecimento. Suponha que algum sujeito da prefeitura ou da câmara que possa me fazer algum mal, ou algum sujeito que gaste comigo, venha e diga que tem um amigo – ou uma mulher – que está procurando trabalho ou quer abrir algum tipo de conta ou receber um bônus, e pergunte se pode usar meu nome. Bom, que diabo! Isso acontece o tempo todo.

Guild assentiu.

– Claro. Bem, quem pediu a você para dar o ok a Laura Porter?

– Há sete meses? – zombou Kearny. – Há uma tremenda chance de eu lembrar! Talvez eu nem tenha ouvido o nome dela na ocasião.

– Talvez tenha. Tente lembrar.

– Não adianta – insistiu Kearny. – Eu tentei quando Elsa disse pela primeira vez que você queria me ver.

– O outro nome que ela deu foi o de Wynant – disse Guild. – Isso ajuda?

– Não. Eu não o conheço, não conheço ninguém que o conheça.

– Charles Fremont o conhece.

Kearny moveu descuidadamente os ombros largos.

– Eu não sabia disso.

O garçom veio, deu ao proprietário uma garrafa escura, colocou sobre a mesa copos com gelo picado e começou a abrir garrafas de ginger ale.

Elsa Fremont falou:

– Eu lhe disse que não achava que Frank soubesse alguma coisa sobre qualquer dessas pessoas.

– Disse – confirmou o homem moreno – e agora ele me disse. – Seu rosto ficou solenemente pensativo. – Fico satisfeito por ele não contradizê-la.

Elsa o encarou enquanto Kearny servia uísque e o garçom servia o ginger ale nos copos.

O proprietário, recolocando a tampa na garrafa, perguntou:

– Você acha que esse tal de Wynant ainda está em San Francisco?

Elsa falou numa voz baixa, rouca:

– Eu estou apavorada! Ele tentou atirar em Charley. Onde – ela pôs uma das mãos sobre o pulso do homem moreno –, onde está Charley?

Antes que Guild pudesse responder, Kearny estava dizendo-lhe:

– Poderia ajudar se você cantasse um pouco agora em troca de toda a grana que está ganhando. – Ele a observou andando para a pista de dança e disse a Guild: – A garota está preocupada. Você acha que aconteceu alguma coisa com Charley? Ou será que ele tinha motivos para dar no pé?

– Vocês me perguntam muitas coisas – disse Guild, e bebeu.

O proprietário pegou seu copo.

– As pessoas podem desperdiçar muito tempo – disse em tom reflexivo – quando imaginam que pessoas que não sabem de nada sabem alguma coisa. – Ele inclinou o copo abruptamente, esvaziando a maior parte do conteúdo na garganta, depois pousou o copo e enxugou a boca com as costas da mão. – Você encanou um amigo meu há dois meses: Deep Ying.

– Eu lembro – disse Guild. – Ele era o mais gordo dos três boo how doy

que tentaram ampliar a guerra de 3 tongs para incluir o roubo de um banco japonês.

– Havia provavelmente alguma ligação com um tong, armas guardadas lá, ou coisa do tipo.

– Talvez – disse o homem moreno, indiferente, e bebeu de novo.

– O irmão dele está aqui agora.

Parte da indiferença de Guild desapareceu.

– Ele estava no serviço também?

O proprietário gargalhou.

– Não, mas nunca se pode dizer até que ponto os irmãos são ligados, e eu achei que você gostaria de saber.

O homem moreno pareceu pesar cuidadosamente essa afirmação. Em seguida disse:

– Nesse caso talvez você devesse apontá-lo para mim.

– Claro. – Kearny se levantou rindo, ergueu uma das mãos e se sentou.

Elsa Fremont estava cantando Kitty From Kansas City.

Um chinês gorducho com rosto redondo, liso e alegre veio por entre as mesas até a deles. Tinha uns quarenta anos, estatura abaixo da média, e apesar de seu terno cinza ser de boa qualidade, não lhe caía bem. Ele parou junto de Kearny e disse:

– Como vai, Frank?

– Sr. Guild – disse o proprietário –, quero que conheça um amigo, Deep Kee.

– Eu sou seu amigo, pode apostar. – Dando um sorriso largo, o chinês balançou a cabeça vigorosamente para os dois homens.

– Kearny disse que você é irmão de Deep Ying – disse Guild.

– Pode apostar. – Os olhos de Deep Kee brilharam alegres. – Ouvi falar você, sr. Guild. Detetive número um. Você pega meu irmão. Arma algum truque para cima ele. Pode apostar.

Guild assentiu e disse solenemente:

– Não arma nenhum truque para cima ele, não pega ele, pode apostar.

O chinês deu um riso caloroso. Kearny falou:

– Sente-se e tome uma bebida.

Deep Kee sentou-se, rindo para Guild que estava acendendo um cigarro, enquanto o proprietário pegava sua garrafa debaixo da mesa.

Uma mulher na mesa ao lado, atrás de Guild, estava dizendo em tom oratório:

– Eu sempre posso dizer quando estou ficando de pileque porque a pele da minha testa fica tensa, mas isso não adianta nada porque nessa hora eu já estou de pileque demais para me importar se estou de pileque ou não.

Elsa Fremont estava terminando sua música.

Guild perguntou a Deep Kee:

– Você conhece Wynant?

– Por favor, não.

– Um homem magro, alto, tinha costeletas antes de cortar. Matou uma mulher lá em Hell Bend.

O chinês, sorrindo, balançou a cabeça de um lado para o outro.

– Já esteve em Hell Bend?

A cabeça sorridente do chinês continuou a se mover de um lado para o outro.

– Ele é um assassino de alta classe, Guild – disse Kearny. – Não pegaria um serviço no interior.

Deep Kee riu deliciado.

Elsa Fremont veio à mesa e se sentou. Parecia cansada e bebeu sedenta em seu copo.

O chinês se afastou sorrindo, baixando a cabeça repetidamente, deixando a bebida quase intocada. Olhando-o, Kearny falou para Guild:

– É um bom sujeito para ter a seu favor.

– Pistoleiro de algum tong?

– Não sei. Eu o conheço bastante bem, mas não sei disso. Você sabe como eles são.

– Não sei – disse Guild.

Uma discussão havia começado no outro lado da sala. Dois homens estavam de pé, xingando-se por cima da mesa. Kearny se espremeu em volta de sua cadeira para olhá-los por um momento. Depois, grunhindo:

– O que aqueles idiotas acham que são? – Levantou-se e foi até eles.

Elsa Fremont estava olhando pensativa para o copo. Guild observou Kearny indo até a mesa onde os dois homens discutiam, aquietando-os e sentando-se com eles.

A mulher que tinha falado sobre a pele da testa ficando tensa estava agora dizendo no mesmo tom:

– Atriz característica, é a velha desculpa. Ela é exatamente o mesmo tipo de atriz característica que eu era. Está fazendo pontas, quando consegue.

Elsa Fremont, ainda olhando para o copo, sussurrou:

– Eu estou apavorada.

– Com o quê? – perguntou Guild, como se estivesse apenas moderadamente interessado.

– Com Wynant, com o que ele poderia... – Ela ergueu os olhos, sombrios e preocupados. – Ele fez alguma coisa com Charley, sr. Guild?

– Não sei.

Ela pôs o punho apertado sobre a mesa e perguntou furiosa:

– Por que não faz alguma coisa? Por que não encontra Wynant? Por que não encontra Charley? Você não tem sangue, coração, entranhas? Não pode fazer nada além de sentar aqui como um... – Ela se interrompeu com um soluço. A raiva saiu de seu rosto e os dedos que tinham estado apertados se abriram num apelo. – Eu... eu sinto muito. Não queria... Mas, ah, sr. Guild, eu estou tão... – Ela baixou a cabeça e mordeu o lábio inferior.

– Está tudo bem – disse Guild, impassível.

Um homem se levantou bêbado de uma mesa próxima e surgiu atrás da cadeira de Elsa. Pôs a mão gorda sobre seu ombro e disse: