Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 9 de 44

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Tiros na Noite

Capítulo III

“Segue horários regulares. Geralmente sai às dez da manhã e volta antes da meia-noite. Não parece ter conhecidos e nem amigos na cidade.”

– Você poderia ficar de olho na correspondência dela e me dizer tudo sobre os carimbos e os remetentes das cartas?

– Claro.

– Também poderia pedir para a telefonista ficar atenta às ligações dela?

– Sim.

– A sra. Estep está no quarto, agora?

– Não. Saiu há pouco.

– Bom! Vou subir e dar uma olhada nas coisas dela.

Stacey olhou-me fixamente, pigarreou e disse:

– Seria assim tão... ãhn... importante? Quero dar toda a ajuda possível, mas...

– É importante – assegurei. – A vida de outra mulher depende do que eu puder descobrir sobre esta aqui.

– Tudo bem – disse ele. – Pedirei à recepção que nos avise caso ela volte antes de terminarmos. Subimos logo a seguir.

No quarto da mulher havia duas malas e um baú, todos sem tranca, contendo coisas absolutamente desimportantes. Nenhuma carta. Nada. Havia tão pouco, de fato, que eu estava quase convencido de que ela sabia que as suas coisas seriam revistadas.

De volta ao saguão, sentei-me numa confortável cadeira com vista para o escaninho das chaves e esperei para ver a primeira sra. Estep.

Chegou às 23h15. Era uma mulher robusta, entre 45 e cinqüenta anos de idade, bem-vestida, e caminhava com um grande ar de autoconfiança. O rosto tinha traços um tanto duros, especialmente no que dizia respeito ao queixo e à boca, mas não o bastante para ser considerada uma mulher feia. Era uma mulher capaz. Uma mulher que parecia conseguir o que queria.

III

Na manhã seguinte, exatamente às oito horas, voltei ao saguão do Hotel Montgomery e sentei-me em uma cadeira, dessa vez com vista para os elevadores.

Às 10h30, a sra. Estep deixou o hotel, e eu a segui. Sua negativa quanto a ter recebido uma carta escrita pelo marido pouco antes de ele morrer não se encaixava na maneira como eu via as coisas. E um bom lema para um detetive é: “Quando em dúvida, siga-os”.

Após fazer o desjejum em um restaurante na O’Farrell Street, ela se dirigiu ao bairro comercial e durante um longo, longo tempo – embora eu pense que tenha sido bem mais breve do que de fato me pareceu – fui levado através dos lugares mais lotados das lojas de departamento mais repletas de gente que ela pôde encontrar.

Não comprou nada mas olhou um bocado, enquanto eu a seguia atabalhoadamente, tentando parecer um baixinho rechonchudo em busca de uma encomenda para a esposa, enquanto as gordas me atropelavam, as magras me acotovelavam e as demais estorvavam o caminho ou pisavam no meu pé.

Finalmente, quando eu já tinha suado alguns quilos, ela deixou o bairro comercial e subiu a Union Square, caminhando despreocupadamente, como se estivesse passeando.

Três quarteirões depois, voltou-se de repente e retornou pelo mesmo caminho, olhando fixamente para todos com quem cruzava. Eu estava sentado num banco, lendo uma página extraviada de um jornal de véspera quando ela passou.

Desceu a Post Street até a Kearney, parando aqui e ali para olhar – ou fingir que olhava – as vitrines das lojas, enquanto eu caminhava a furta-passo, às vezes atrás, às vezes ao lado e outras vezes à frente dela.

Ela olhava para os circunstantes como se tentasse verificar se estava sendo seguida, mas ali, na parte mais movimentada da cidade, isso não me preocupou. Numa rua mais vazia talvez preocupasse, embora não necessariamente.

Existem quatro regras para seguir alguém: mantenha-se atrás do objeto de sua perseguição o mais que puder; nunca tente se esconder dele; aja naturalmente não importando o que aconteça; e nunca o encare. Obedeça essas regras e, a não ser em circunstâncias muito incomuns, a perseguição será a coisa mais fácil que um detetive pode fazer.

Após algum tempo, certa de que ninguém a seguia, a sra. Estep voltou até a Powell Street e entrou num táxi no ponto de St. Francis. Embarquei num modesto carro de passeio, daqueles que fazem ponto na Gery Street, em Union Square, e segui atrás dela.

Seguimos a Post até a Laguna Street, onde o táxi encostou e parou. A mulher saiu, pagou o motorista e subiu as escadarias de um prédio de apartamentos. Com o motor em marcha lenta, o meu carro estacionou na calçada oposta, um quarteirão adiante.