Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 23 de 44

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Tiros na Noite

Morte na pine street

Uma empregada roliça de olhos verdes atrevidos e lábios grossos folgados me fez subir dois lances de escada e me introduziu num quarto faustosamente mobiliado, onde uma mulher de preto sentava-se à janela. Era uma mulher magra de trinta e poucos anos, a viúva do homem assassinado, e seu rosto estava branco e encovado.

– O senhor é da Agência de Detetives Continental? – perguntou, antes mesmo que eu desse dois passos no quarto.

– Sou.

– Quero que encontre o assassino de meu marido. – Sua voz era estridente, e faiscava uma luz selvagem de seus olhos escuros. – A polícia nada faz. Quatro dias, e ainda não fizeram nada. Dizem que foi um ladrão, mas não o encontraram. Não encontraram nada!

– Mas, sra. Gilmore – comecei, nada animado com a irrupção –, a senhora precisa...

– Eu sei! Eu sei! – interrompeu. – Mas não fizeram nada. Nada, está me ouvindo? Não creio que tenham feito o menor esforço. Acho que não querem achar... e-ele.

– Ele? – indaguei, porque parecia que iria dizer ela. – A senhora acha que foi um homem?

Mordeu o lábio e voltou o olhar pela janela, para a baía de San Francisco, azul no sol de início de tarde, com seus barcos como de brinquedo na distância.

– Não sei – hesitou. – Pode ser que tenha...

Seu rosto girou em minha direção – um rosto cheio de contrações – e parecia impossível que alguém fosse capaz de falar tão depressa, jorrar palavras tão rapidamente uma após a outra.

– Eu lhe conto, e o senhor pode julgar por si mesmo. Bernard não era fiel a mim. Havia uma mulher, que se chamava Cara Kenbrook. Não foi a primeira. Mas só fiquei sabendo dela no mês passado. Brigamos. Bernard prometeu desistir dela. O que talvez não tenha feito. Mas, caso tenha, não duvido de que ela fosse capaz... uma mulher assim faria qualquer coisa... qualquer coisa. E no fundo do meu coração, acredito que foi mesmo ela!

– E a senhora acha que a polícia não quer prendê-la?

– Não queria dizer isso, exatamente. Estou muito agitada, e acabo dizendo qualquer coisa. O senhor sabe, Bernard estava envolvido em política; e se a polícia descobrisse, ou imaginasse, que sua morte teve algo a ver com política, eles poderiam... não sei exatamente o que quero dizer. Sou uma mulher nervosa, quebrantada, e estou cheia de idéias malucas. – Estendeu-me uma mão esguia. – Desvende esse mistério para mim! Encontre a pessoa que matou Bernard!

Meneei afirmativamente a cabeça, com falsa certeza, ainda não muito entusiasmado com minha cliente.

– A senhora conhece essa tal srta. Kenbrook? – perguntei.

– Já a vi na rua, o que basta para saber o tipo de pessoa de que se trata!

– A senhora a mencionou à polícia?

– Na-não. – Ela olhou pela janela novamente e, como continuei aguardando, acrescentou em seguida, em tom defensivo: – Os detetives da polícia que me interrogaram deram a impressão de achar que eu poderia ter matado Bernard. Tive medo de dizer a eles que existiam motivos para ciúmes. Talvez eu não devesse ter me silenciado a respeito daquela mulher, mas só passei a desconfiar dela depois, quando a polícia não encontrou o assassino. Aí comecei a achar que foi ela, sim; mas não consegui encontrar a coragem para procurar a polícia e explicar que eu havia suprimido essa informação. Eu sabia o que eles iriam pensar. Por isso, eu... o senhor pode ajeitar as coisas para parecer que eu não sabia nada sobre a mulher, não pode?

– Talvez. Agora, conforme entendi, seu marido levou um tiro na Pine Street, entre as esquinas da Leavenworth com a Jones, por volta das três horas da manhã de terça-feira. Está correto?

– Está.

– Para onde ele ia?

– Vinha para casa, suponho, mas não tenho a menor idéia de onde estava vindo. A polícia ainda não descobriu, se é que tentou saber. Na segunda à noite, ele me disse que tinha um encontro de negócios. O senhor sabe, ele trabalhava com empreendimentos imobiliários. Ele saiu de casa por volta de onze e meia da noite, dizendo que voltaria dali a quatro ou cinco horas.

– Não é um horário meio estranho para um encontro de negócios?

– Não para Bernard. Era muito comum virem pessoas para cá à meia-noite.

– A senhora não tem nenhum palpite com relação ao rumo dele naquela noite?

Ela meneou a cabeça com insistência.

– Não. Eu não sabia nada sobre seus negócios, e nem os funcionários do seu escritório parecem saber aonde ele foi naquela noite.

Não era nada improvável. A maioria das empreitadas da Construtora B.F. Gilmore eram obras públicas, e a realização de reuniões secretas não é inteiramente inédita nesse ramo. O político-empreiteiro nem sempre atua de maneira aberta.

– E quanto a inimigos? – indaguei.

– Não conheço ninguém que o odiasse o suficiente para matá-lo.

– Onde mora a tal da srta. Kenbrook, a senhora sabe?

– Sei... no Edifício Garford, na Bush Street.

– A senhora não esqueceu de dizer nada para mim, esqueceu? – perguntei, dando um pouco de ênfase ao mim.

– Não, disse tudo o que sei... tudinho.

Caminhando em direção à California Street, vasculhei minha memória em busca de qualquer coisa que houvesse escutado a respeito de Bernard Gilmore. Vieram-me algumas lembranças – os jornais de oposição costumavam denunciá-lo a cada ano eleitoral –, mas nada que me fosse útil. Conhecia o sujeito de vista: um homem corado e tempestuoso que começara como servente de pedreiro e subira na marra à posição de figurão político e dono de um negócio de meio milhão de dólares. “Um casca-grossa que fazia as mãos na manicure”, assim tinha sido descrito por alguém; um homem de muitos inimigos e um número de amigos ainda maior; um grande brigão, bem-humorado e duro na queda.

Enquanto rumava para o centro equilibrando-me sobre o diminuto banco lateral do bonde, borboletearam por minha cabeça detalhes esquecidos de uma dezena de escândalos de corrupção em que ele estivera envolvido, sem que ninguém conseguisse incriminá-lo de fato. Depois, houve aquela história de uma organização para a venda clandestina de bebidas alcoólicas, da qual ele teria sido o chefe...

Saltei do carro na Kearny Street e caminhei até o Palácio de Justiça. Encontrei O’Gar, o detetive-sargento encarregado do plantão de homicídios, na sala de reuniões dos detetives. Era um cinqüentão atarracado com uma queda para chapéus de aba larga, do tipo xerife de cinema, mas esse adorno excêntrico em nada interferia com sua cabeça em forma de bala e seus olhinhos azuis espertos.

– Qual é o babado sobre a morte do Gilmore? – perguntei.

– Eu bem que queria saber – retorquiu ele. – Mas vem comigo enquanto eu como alguma coisa, e eu lhe passo o pouco que sei. Ainda não almocei.

Fomos a um boteco barulhento na Sutter Street onde ninguém nos ouviria, e o detetive me contou o que sabia sobre o assassinato, o que não chegava a ser muita coisa.

– Um dos rapazes, o Kelly, estava fazendo sua ronda na madrugada de terça-feira, descendo a ladeira da Jones Street, da California Street até a Pine. Eram umas três horas da manhã, sem névoa nem nada, uma noite limpa. Kelly estava a uns seis, sete metros da Pine Street, quando ouviu um tiro. Ele dobrava a esquina correndo e encontrou um homem morrendo na calçada norte da Pine Street, entre a Jones e a Leavenworth. Mais ninguém à vista. Kelly foi até o homem e descobriu que era Gilmore. Gilmore morreu sem conseguir dizer uma palavra. Os médicos disseram que ele foi derrubado antes de levar o tiro, porque tem um hematoma na testa e porque a trajetória da bala no seu peito foi ascendente. Deu para entender? Ele estava deitado, de costas, quando a bala o atingiu, com os pés voltados na direção da arma. Era uma arma calibre 38.

– Tinha algum dinheiro com ele?

O’Gar tomou duas colheres de sopa e meneou a cabeça afirmativamente.

– Seiscentas pratas, alguns diamantes e um relógio. Não levaram nada.

– O que ele fazia na Pine Street nessa hora da madrugada?

– Sei lá, meu irmão. Vai ver ele estava indo para casa, mas não conseguimos descobrir onde ele esteve antes. Nem sabemos para que lado estava caminhando quando foi derrubado. Ele estava deitado na calçada com os pés virados para a sarjeta, mas isso não quer dizer nada. O corpo dele pode ter girado até três ou quatro vezes depois de ser baleado.

– Naquele quarteirão, é tudo prédio residencial, não é?

– É, sim. Tem uns becos partindo do lado sul, mas Kelly afirma que já conseguia enxergar a entrada dos dois becos no momento em que ouviu o tiro, antes de dobrar a esquina, e que ninguém fugiu por eles.

– Você acha que foi alguém que mora naquele quarteirão? – indaguei.

– Pode ser. Mas nada indica que Gilmore conhecia alguém ali.

– Juntou muita gente depois do tiro?

– Algumas pessoas. Sempre tem gente na rua que vem correndo assim que acontece alguma coisa. Mas Kelly disse que não havia ninguém estranho, só os notívagos de sempre. Os rapazes deram uma busca na área, mas não encontraram nada.

– Algum carro na vizinhança?

– Kelly disse que não tinha, que não viu nenhum, e que não poderia deixar de ver se tivesse.

– O que você acha que aconteceu? – perguntei.

Ele ficou de pé e me fitou penetrante.

– Eu não acho nada – disse mal-humorado. – Sou um detetive de polícia.

Intuí, por esse comentário, que alguém andava fazendo cobranças pelo fato de não terem encontrado o assassino.

– Tenho uma pista, uma mulher – confidenciei. – Quer vir comigo para conversarmos com ela?

– Querer, quero – rosnou –, mas não posso. Tenho uma audiência no fórum hoje à tarde.

Na portaria do Edifício Garford, apertei várias vezes a campainha ao lado do nome srta. Cara Kenbrook, até abrirem a porta. Em seguida, subi um lance de escadas e desci o corredor até a porta dela. Não demorou para que fosse aberta por uma moça alta, de uns 23 ou 24 anos, em um vestido de crepe preto e branco.

– Srta. Cara Kenbrook?

– Sim.

Dei-lhe um cartão de visita... daqueles que dizem a verdade sobre mim.

– Gostaria de lhe fazer algumas perguntas. Posso entrar?

– Por favor.

Lânguida, deu um passo para o lado, para que eu passasse, fechou a porta e me conduziu a uma sala de estar salpicada de jornais, cigarros nos mais variados estágios de uso – do frescor de nunca ter sido aceso até a cinza fria – e diversos artigos de vestuário feminino. Ela desocupou uma cadeira para que eu sentasse, despejando no chão um par de meias cor-de-rosa de seda e um chapéu, e sentou-se sobre algumas revistas que ocupavam outra cadeira.

– Estou interessado na morte de Bernard Gilmore – disse eu, observando seu rosto.

Não era um rosto lindo, embora devesse ser. Estava tudo ali – feições perfeitas, pele branca lisa, grandes olhos castanhos, enormes quase, mas os olhos eram baços como os de um morto, e o rosto tão vazio de expressão quanto uma maçaneta de louça, e o que eu dizia não o alterava em nada.

– Bernard Gilmore – disse ela, sem interesse. – Ah, sim.

– Você e ele eram bastante íntimos, não eram? – indaguei, desconcertado pela sua indiferença.

– Havíamos sido... sim.

– O que você quer dizer, havíamos sido?

Uma preguiçosa mão afastou da testa um cacho de seu cabelo castanho curto.

– Eu o mandei passear na semana passada – disse displicentemente, como se falasse de algo ocorrido há muitos anos.

– Qual foi a última vez em que o viu?

– Semana passada... acho que foi segunda... uma semana antes de ele ser morto.

– Foi quando você rompeu com ele?

– Foi.

– Brigaram, ou ficaram amigos?

– Na verdade, nem uma coisa, nem a outra. Apenas disse a ele que estava tudo terminado.

– E como ele reagiu?

– Não foi nenhum fim de mundo para ele. Acho que não foi a primeira vez que ele ouviu isso.

– Onde você estava na noite em que ele foi morto?

– No Coffee Cup, jantando e dançando com uns amigos, até mais ou menos uma da manhã. Depois vim para casa e dormi.

– Por que você rompeu com Gilmore?

– Não suportava a mulher dele.

– Como?

– Ela era muito chata. – Isso foi dito sem o menor sinal de aborrecimento ou de humor. – Ela veio até aqui uma noite e fez o maior berreiro, então eu disse para Bernie que ou ele mantinha ela longe de mim, ou achava outra amiguinha.

– Você tem alguma idéia de quem poderia ter matado ele?

– Só se foi a mulher dele... essas esposas histéricas sempre acabam fazendo bobagem.

– Já que você desistiu do marido dela, que razão você imagina que ela teria para matá-lo?

– E eu vou saber? – respondeu com indiferença total. – Mas não sou a única moça pela qual Bernie se interessou na vida.

– Então você acha que havia outras, é? Você sabe de alguma coisa, ou isso é apenas palpite?

– Não sei nenhum nome – disse –, mas palpite não é.

Deixei essa questão de lado e voltei à sra. Gilmore, só para sentir se a moça podia estar me enrolando.

– O que aconteceu na noite em que a esposa dele veio aqui?

– Nada, só isso. Ela seguiu Bernie até aqui, tocou a campainha, foi entrando na hora em que abri a porta e desandou a chorar e a xingar Bernie. Aí, ela começou a encrencar comigo, e eu disse a ele que se não a levasse embora, eu iria machucá-la. Então ele a levou para casa.

Levantei-me e comecei a me encaminhar para a porta, reconhecendo que estava vencido, por enquanto. Não achava que ela estivesse contando toda a verdade, mas, por outro lado, não fazia sentido imaginar que alguém pudesse mentir de forma tão inexpressiva, com tão pouco esforço para parecer plausível.

– Pode ser que eu volte depois – anunciei, enquanto ela abria a porta para eu sair.

– Tudo bem.

Seu jeito sequer traía uma esperança de que eu não o fizesse.

Dessa entrevista pouquíssimo satisfatória dirigi-me à cena do crime, que ficava a alguns quarteirões dali, para dar uma olhada na vizinhança. Encontrei o quarteirão, exatamente como dele me lembrara e como O’Gar o havia descrito: com prédios residenciais dos dois lados e com dois becos sem saída – um agraciado com um nome, Touchard Street – partindo do seu lado sul.

Tinham transcorrido quatro dias desde o assassinato, e não perdi tempo bisbilhotando o local. Depois de caminhar a extensão toda do quarteirão, peguei um bonde para a Hyde Street, fiz baldeação na California Street e fui visitar a sra. Gilmore novamente. Estava curioso para saber por que ela não havia mencionado a visitinha a Cara Kenbrook.

A mesma empregada roliça que me recebera mais cedo abriu a porta.

– A sra. Gilmore não se encontra – disse ela. – Mas acho que estará de volta dentro de meia hora.

– Espero por ela – decidi.

A empregada me levou até a biblioteca, um cômodo imenso no segundo andar, quase desprovido de um número suficiente de livros para justificar o nome. Ela acendeu uma luz – as cortinas eram pesadas demais para entrar luz das janelas –, voltou até a porta, parou, arrumou uns livros sobre uma estante, me fitou com um olhar meio duvidoso, meio convidativo, em seus olhos verdes, partiu para a porta de novo e estacou.

Nesse ínterim ficou claro que ela queria dizer algo e precisava de um estímulo. Recostei-me para trás na cadeira e sorri para ela, decidindo logo em seguida que fora um erro... o sorriso formado pela curva de seus lábios moles era mais de faceirice do que de qualquer outra coisa. Ela caminhou em minha direção, rebolando com exagero, e se postou à minha frente.

– Em que você está pensando? – indaguei.

– Vamos supor... vamos supor que alguém sabe alguma coisa que mais ninguém sabe; quanto daria para ganhar com isso?

– Isso depende – disse, protelando – do valor da informação.

– E se eu souber quem matou o patrão? – Ela aproximou o rosto do meu e sussurrou, rouca. – Quanto dá para ganhar com isso?

– Segundo os jornais, um dos clubes onde Gilmore era sócio ofereceu uma recompensa de mil dólares. Você ganharia essa quantia.

Seus olhos verdes se encheram de ganância e depois de desconfiança.

– Se não ficar para você, não é?

Encolhi os ombros. Sabia que ela abriria o jogo – fosse lá o que fosse – agora; então nem me dei ao trabalho de explicar a ela que a Continental não aceita recompensas e que não permite aos seus empregados aceitá-las.

– Dou a minha palavra para você – afirmei. – Mas vai depender de você se vai confiar em mim ou não.

Ela lambeu os beiços.

– Acho que você é um cara legal. Não contaria à polícia, porque sei que eles ficariam com o dinheiro. Mas acho que dá para confiar em você. – Ela olhou lascivamente para mim. – Eu tinha um namorado que era a sua cara, e ele era o mais...

– É melhor dar logo o seu texto antes que chegue alguém – propus.

Ela lançou uma olhada para a porta, pigarreou, lambeu novamente a boca flácida e postou-se sobre um joelho, ao lado da minha cadeira.

– Estava chegando em casa bem tarde na noite de segunda-feira, a noite em que morreu o patrão, e estava me despedindo de um amigo, no escurinho, quando o patrão saiu de casa e foi descendo a rua. Ele não estava nem na esquina quando ela, a sra. Gilmore, saiu também e o seguiu pela rua. Não tentando alcançá-lo, sabe, mas seguindo mesmo. O que você acha disso?

– O que você acha?

– Eu acho que ela finalmente sacou que todos aqueles encontros do seu Bernie não tinham nada a ver com o negócio de construção.

– Você sabe algo de concreto?

– Se eu sei? Eu conhecia o homem! Ele gostava de mulher... de todas as mulheres. – Ela sorriu um sorriso maldoso para mim. – Isso eu descobri logo que vim trabalhar aqui.

– Você sabe a que horas a sra. Gilmore voltou para casa naquela noite?

– Sei – disse ela –, às três e meia da madrugada.

– Tem certeza?

– Toda! Depois que me vesti para dormir, peguei um cobertor e sentei no alto da escada da frente. Meu quarto fica no andar de cima, nos fundos. Queria ver se eles voltavam juntos, e se iam ter uma briga. Depois que ela chegou sozinha, fui para o meu quarto, e faltavam 25 minutos para as quatro. Eu vi no despertador.

– Você viu a sra. Gilmore quando ela entrou?

– Só o topo da cabeça e os ombros, quando ela dobrou a escada para ir para o quarto.

– Qual é o seu nome? – perguntei.

– Lina Best.

– Tudo bem, Lina – eu disse. – Se a parada for essa mesmo, eu garanto que você vai receber o seu. Fica de olho aberto, e se aparecer mais alguma coisa, entra em contato comigo no escritório da Continental. Agora é melhor você se mandar, para ninguém ficar sabendo dessa nossa conversinha.

A sós na biblioteca, fitei o teto e contemplei a informação dada por Lina Best. Mas logo desisti; de nada adianta ficar tentando adivinhar coisas que o tempo irá resolver. Encontrei um livro e passei a meia hora seguinte lendo sobre uma jovem meiga e imbecil e um imbecil grande e forte e todos os seus problemas.

Em seguida entrou a sra. Gilmore, vindo diretamente da rua, pelo jeito.

Ergui-me e fechei a porta, enquanto ela me vigiava com os olhos muito abertos.

– Sra. Gilmore – disse, assim que fiquei de frente para ela –, por que a senhora não me contou que havia seguido seu marido na noite em que ele foi morto?

– É mentira! – exclamou, mas não havia um pingo de verdade em sua voz. – É mentira!

– A senhora não acha que está cometendo um engano? – instei. – Não acha que seria melhor me contar tudo?

Ela abriu a boca mas saiu apenas um soluço seco; e ela começou a balançar o corpo para a frente e para trás de modo histérico, os dedos de uma luva preta puxando e retorcendo o lábio inferior.

Aproximei-me dela e a fiz sentar na cadeira em que antes eu estivera, emitindo com a língua ridículos estalidos pretensamente com a intenção de consolá-la. Após dez minutos bastante desagradáveis, ela se recompôs aos poucos: seus olhos foram ficando menos esgazeados e parou de ferir a boca.

– Eu o segui mesmo. – Era um sussurro rouco, apenas audível.

Logo estava fora da cadeira, ajoelhada, os braços erguidos para mim, e a voz um grito agudo.

– Mas não o matei! Não o matei! Por favor, acredite em mim!

Eu a ergui e a coloquei de volta na cadeira.

– Não falei que a senhora o matou. Apenas me diga o que aconteceu.

– Não acreditei quando ele disse que tinha um encontro de negócios – lamentou. – Não confiava nele. Ele já havia mentido antes. Eu o segui para ver se ia para o apartamento daquela mulher.

– E ele foi?

– Não. Entrou num edifício na Pine Street, no quarteirão onde foi morto. Não sei qual edifício exatamente... estava muito longe. Mas vi que ele subiu os degraus e entrou num edifício, mais ou menos no meio do quarteirão.

– E aí, a senhora fez o quê?

– Esperei, escondida numa portaria escura do outro lado da rua. Sabia que o apartamento dela é na Bush Street, mas imaginei que talvez tivesse se mudado, ou que tivessem marcado um encontro ali. Esperei durante muito tempo, tremendo e sentindo calafrios. Estava frio e eu estava com medo... medo que alguém aparecesse na portaria onde eu estava. Mas me obriguei a ficar. Queria ver se ele saía sozinho, ou se saía aquela mulher. Eu tinha todo o direito... ele me enganara antes.

“Foi horrível, terrível... agachada ali no escuro... com frio e medo. Aí, deve ter sido por volta das duas e meia, não agüentei mais. Resolvi telefonar para o apartamento dela e ver se estava em casa. Caminhei até uma lanchonete 24 horas na Ellis Street e liguei para ela.”

– Estava em casa?

– Não! Tentei durante quinze minutos, talvez mais, mas ninguém atendeu. Aí tive certeza de que ela estava no edifício da Pine Street.

– E o que a senhora fez?

– Voltei para lá, decidida a esperar até que ele saísse. Subi a Jones Street. Quando estava entre a Bush e a Pine, ouvi um tiro. Na hora, pensei que fosse um barulho de cano de descarga, mas agora sei que foi o tiro que matou Bernie.

“Quando cheguei na esquina de Pine com Jones, vi um policial agachado na calçada junto de Bernie e vi pessoas começando a se juntar. Naquele momento eu nem sabia que era Bernie ali estendido. No escuro e àquela distância, não dava nem para distinguir se era homem ou mulher.

“Fiquei temerosa que Bernie saísse para ver a confusão, ou que olhasse pela janela e me visse; então não fui para aquele lado. Nem quis ficar na vizinhança, com medo que a polícia me perguntasse o que fazia vagando pela rua às três da manhã... e viesse à tona que seguia o meu marido. Por isso, segui pela Jones Street, até a California, e voltei para casa.”

– E aí? – instiguei.

– Aí fui para a cama. Não consegui dormir... fiquei pensando em Bernie, mas ainda não atinara que era ele que eu havia visto estendido na rua. Às nove horas da manhã, dois detetives da polícia vieram me dizer que Bernie havia sido morto. Eles me interrogaram de forma tão ríspida que fiquei com medo de contar toda a verdade. Se soubessem que havia motivos para ciúmes e que eu havia seguido meu marido na noite anterior, teriam me acusado de tê-lo matado. E o que eu poderia ter feito? Todos me achariam culpada.

“Por isso não disse nada sobre aquela mulher. Imaginei que encontrariam o assassino e que tudo ficaria bem. Naquela hora, não pensei que fosse ela a assassina, senão eu teria lhe contado tudo da primeira vez em que o senhor esteve aqui. Mas quatro dias se passaram sem que a polícia encontrasse o assassino, e comecei a desconfiar que eles suspeitavam de mim! Foi horrível! Eu não podia procurá-los para confessar que havia mentido, e tinha certeza de que a mulher o havia matado e que a polícia não suspeitava dela porque eu não a havia mencionado.

“Por isso contratei o senhor. Mas tive medo de contar toda a verdade. Imaginei que se eu lhe contasse apenas que havia outra mulher e quem era ela, o senhor poderia fazer o resto sem saber que eu o havia seguido naquela noite. Fiquei com medo que o senhor pensasse que eu o havia matado e que me entregasse para a polícia se lhe contasse tudo. E agora o senhor acha isso mesmo! E vai mandar me prender! E serei enforcada! Tenho certeza! Tenho certeza!

Ela começou a se agitar como louca para um lado e outro na cadeira.

– Calma – pronunciei suavemente. – Você não está presa ainda. Calma.

Não sabia como reagir à sua história. A dificuldade com essas mulheres nervosas, histéricas, é que, sem outras provas, não dá para sentir quando estão mentindo e quando estão falando a verdade... metade do tempo, nem elas mesmas sabem.

– Quando a senhora ouviu o tiro – continuei, assim que ela se acalmou um pouco –, estava caminhando no sentido norte na Jones, entre Bush e Pine? Dava para enxergar a esquina da Pine com a Jones?

– Sim... claramente.

– A senhora viu alguém?

– Não... só quando cheguei à esquina e olhei pela Pine Street. Aí vi o policial agachado junto a Bernie e dois homens andando em sua direção.

– Onde estavam os dois homens?

– Na Pine Street, ao leste da Jones. Não vestiam chapéus... como se tivessem saído de casa quando ouviram o tiro.

– Algum automóvel na área antes ou depois do tiro?

– Nenhum que eu tenha visto ou ouvido.

– Tenho mais algumas perguntas, sra. Gilmore – disse –, mas estou com pressa agora. Por favor, não saia de casa antes de eu entrar em contato com a senhora.

– Não vou sair – prometeu –, mas...

Não tinha nenhuma resposta para ninguém, então baixei a cabeça e saí da biblioteca.

Perto da porta da rua, Lina Best apareceu de um canto sombrio, seus olhos vivos e curiosos.

– Fica por aí – eu disse, sem nenhum sentido, e contornei-a, ganhando a rua.

Voltei ao Edifício Garford a pé, porque tinha muito para organizar na minha cabeça antes de enfrentar Cara Kenbrook novamente. E, mesmo andando devagar, nem tudo estava arquivado em ordem alfabética até a hora em que cheguei lá. Ela havia trocado o vestido preto e branco por um longo aveludado de cor verde viva, mas seu rosto vazio de boneca continuava igual.

– Mais algumas perguntas – expliquei, quando a porta se abriu.

Ela me fez entrar sem uma única palavra ou gesto e me conduziu à mesma sala em que conversáramos anteriormente.

– Srta. Kenbrook – disse, em pé do lado da cadeira que ela me havia oferecido –, por que me contou que estava em casa, na cama, na hora em que Gilmore foi morto?

– Por que estava. – Sem nem piscar o olho.

– E não atendeu a campainha da porta?

Fui obrigado a distorcer os fatos para chegar onde queria. A sra. Gilmore havia telefonado, e não podia dar a essa moça qualquer brecha para se esquivar da culpa de não ter atendido.

Ela hesitou por meio segundo.

– Não atendi... porque não ouvi.

Sangue-frio, o da garota! Não conseguia entendê-la. Não sabia naquela hora, e até hoje não sei, se ela tinha a maior cara-de-pau do mundo ou se era burra mesmo. Seja lá o que for, ela era uma amostra pura e genuína da coisa!

Parei de tentar adivinhar e continuei a fuçar.

– E você também não ouviu o telefone tocar?

– Não tocou, pelo menos não o suficiente para que me acordasse.

Dei uma pequena risada... uma risada artificial... já que a telefonista podia estar ligando para o número errado. Porém...

– Srta. Kenbrook – menti –, seu telefone tocou às duas e meia e às duas e quarenta naquela madrugada. E a campainha de sua porta foi tocada de modo quase contínuo das duas e cinqüenta até depois das três.

– Pode ser – disse ela –, mas quem estaria me procurando numa hora dessas?

– Você também não ouviu?

– Não.

– Mas estava aqui?

– Sim... quem era? – sem esforço.

– Pegue o seu chapéu – blefei –, e eu lhe mostro lá no distrito.

Ela deu uma olhada no vestido longo verde e se encaminhou para a porta aberta do quarto de dormir.

– Acho que vou precisar de um agasalho também – disse ela.

– Sim – aconselhei –, e leve a sua escova de dentes.

Virou-se para mim naquele instante e me fitou, e por um momento pareceu que algum tipo de sentimento – talvez surpresa – estivesse prestes a aflorar em seus grandes olhos castanhos; mas no fim não veio nada. Os olhos permaneceram baços e vazios.

– Quer dizer que está me prendendo?

– Não exatamente. Mas se você continuar a contar essa história de que estava em casa na cama às três da manhã da terça-feira passada, posso prometer que você vai ser presa. Se fosse você, pensaria em outra história.

Ela se distanciou da porta e voltou para o meio da sala, parando junto de uma cadeira que nos separava. Apoiando as mãos no encosto da cadeira, debruçou-se para me fitar melhor. Durante cerca de um minuto, nenhum dos dois falou; apenas olhamos fixamente um para o outro, eu tentando manter o meu semblante tão vazio de expressão quanto o dela.

– Você acha mesmo – ela perguntou afinal – que eu não estava aqui quando Bernie foi morto?

– Sou um homem bastante ocupado, srta. Kenbrook. – Enchi minha voz de toda a falsa certeza que consegui evocar. – Se você quiser continuar contando a sua historinha engraçada, tudo bem. Mas não espere que eu fique aqui discutindo com você. Pegue o seu chapéu e o seu agasalho.

Ela encolheu os ombros e deu a volta na cadeira sobre a qual se apoiava.

– Parece que você sabe mesmo alguma coisa – disse, sentando-se. – Bem, pior para o Stan, mas mulheres e crianças primeiro.

Minhas orelhas se contraíram ao ouvir o nome Stan, mas não a interrompi.

– Estava no Coffee Cup até uma da manhã – dizia ela, a voz ainda monótona e sem emoção. – E de fato vim para casa depois. Eu tinha bebido viño a noite toda, o que sempre me deixa triste. Então, quando cheguei em casa, fiquei pensando nos problemas. Desde que terminei com Bernie, a grana anda apertada. Fiquei fazendo as contas naquela noite, ou madrugada, e descobri que só tinha quatro dólares na bolsa. Estava chegando a hora de pagar o aluguel, e as coisas estavam ficando pretas.

“Como eu estava meio tocada de vinho espanhol, resolvi dar um pulinho no Stan, contar meus problemas para ele e ver se conseguia uma grana. Stan é gente fina, está sempre disposto a me dar uma força. Se eu estivesse sóbria, nunca teria ido lá às três da madrugada; mas do jeito que estava, na hora me pareceu uma boa idéia.

“São só alguns minutos daqui até a casa de Stan. Desci a Bush Street até a Leavenworth e subi a Leavenworth até a Pine. Estava no meio daquele quarteirão quando Bernie foi atingido... cheguei a ouvir o tiro. E quando dobrei a esquina da Pine Street, vi um tira se debruçando sobre o corpo de um homem na calçada, bem em frente ao edifício de Stan. Fiquei alguns minutos na sombra de um poste, hesitando, até que uns três ou quatro homens se juntaram em torno do homem na calçada. Aí me aproximei.

“Era Bernie. E assim que eu cheguei perto, ouvi o tira dizer para um dos homens que ele havia sido baleado. Foi um choque terrível. Você sabe o impacto dessas coisas!”

Meneei afirmativamente a cabeça, embora – meu Deus! – nada no rosto, no jeito ou na voz da moça indicasse qualquer abalo emocional.

– Aturdida, sem saber o que fazer – continuou ela –, nem parei. Fui passando direto, chegando tão perto de Bernie quanto estou de você agora, e toquei a campainha de Stan. Ele abriu a porta, vestido apenas pela metade. O apartamento dele fica nos fundos do prédio, e ele disse que não tinha ouvido o tiro. Ele só ficou sabendo que Bernie tinha sido morto na hora em que eu contei. Ele ficou meio sem reação, desnorteado. Ele disse que Bernie havia estado lá, no apartamento de Stan, desde meia-noite, e que tinha acabado de sair.

“Stan me perguntou o que eu estava fazendo por lá, e eu contei a minha triste história para ele. Foi a primeira vez que Stan se deu conta de que havia algo entre mim e Bernie. Foi o próprio Stan quem nos apresentou, mas ele não sabia que a gente tinha ficado tão íntimo.

“Stan ficou preocupado que as pessoas ficassem sabendo que Bernie esteve lá com ele naquela noite, porque podia dar problema para ele... acho que eles estavam armando alguma jogada. Por isso, ele nem saiu para ver Bernie. Acho que isso é tudo. Consegui uma graninha de Stan e fiquei no apartamento dele até a polícia ir embora, porque nenhum dos dois queria se envolver na história. Aí vim para casa. É verdade... pode acreditar.”

– Por que você não entregou tudo isso antes? – exigi, já sabendo qual seria a resposta.

E ela veio.

– Tinha medo. Imagina se eu falasse que Bernie me dispensou e que eu estava pertinho dele, a um quarteirão de distância, mais ou menos, na hora em que morreu e que eu estava meio de fogo? A primeira coisa que iriam dizer é que eu tinha atirado nele! Eu continuaria a mentir se achasse que você acreditaria.

– Então foi Bernie quem rompeu com você, e não você com ele?

– É, foi – disse ela, levemente.

Acendi um charuto Fátima e aspirei a fumaça em silêncio por alguns instantes, enquanto a moça ficou a me observar, plácida.

Havia duas mulheres, nenhuma das duas normal. A sra. Gilmore era histérica, nervosa ao extremo. Essa moça daqui era entorpecida, inerte demais. Uma era a esposa do morto; a outra era a amante; ambas tinham razões para acreditar que tinham sido abandonadas em função da outra. Ambas mentirosas; e ambas confessando afinal que estiveram perto do local do crime na hora em que ele ocorreu, embora nenhuma das duas afirmasse ter visto a outra. Ambas, por admissão própria, estavam naquela hora ainda mais distantes da normalidade do que de costume... a sra. Gilmore cheia de ciúmes; Cara Kenbrook, meio bêbada.

Qual seria a resposta? Qualquer uma das duas poderia ter matado Gilmore; mas as duas juntas, nem pensar... a menos que tivessem combinado algum conchavo maluco, e nesse caso...

De repente, todos os dados que eu colhera – verdadeiros e falsos – se encaixaram na minha cabeça. Tinha achado a resposta – a única resposta simples e satisfatória!

Sorri para a moça e comecei a preencher as falhas na minha solução.

– Quem é Stan? – perguntei.

– Stanley Tennant... ele é alguma coisa da prefeitura.

Stanley Tennant. Conhecia de nome, um...

Um barulho de chave na porta do corredor.

A porta do corredor abriu, e passos masculinos se aproximaram da porta aberta da sala em que nos encontrávamos. Um homem alto, de ombros largos, vestido em tweed, ocupou o vão da porta... tratava-se de um homem de faces rubras, de uns 35 anos, cuja aparência de salubridade loura e musculosa era perturbada por olhos excessivamente avizinhados, de um azul indistinto.

Ao me ver, estacou... um passo para dentro da sala.

– Olá, Stan! – disse a moça, com leveza. – Esse moço é da Agência de Detetives Continental. Acabei de contar tudo para ele sobre Bernie. Tentei desconversar de início, mas não deu.

Os olhos incertos do homem iam e vinham entre mim e a moça. Em volta das íris pálidas, o globo ocular estava cor-de-rosa.

Ele endireitou os ombros e sorriu com jovialidade excessiva.

– E qual é a sua conclusão? – indagou ele.

A moça respondeu por mim.

– Eu já fui convidada para dar um passeio.

Tennant se curvou para a frente. Com um movimento contínuo dos braços, apanhou uma cadeira e impeliu-a contra meu rosto. Sem muita força, mas com rapidez.

Recuei até a parede, desviando a cadeira com os dois braços; joguei-a para o lado; e defrontei-me com o cano de um revólver niquelado.

A gaveta da mesa estava aberta... a gaveta de onde ele havia sacado a arma enquanto eu me debatia com a cadeira. Percebi que o revólver era calibre 38.

– Agora – sua voz era pastosa, que nem de bêbado –, vira.

Fiquei de costas para ele; senti uma mão apalpando meu corpo; e minha arma foi retirada.

– Tá legal – disse ele, e voltei a encará-lo de frente.

Ele recuou até ficar ao lado da moça, o revólver niquelado sempre na minha mira. Minha arma não estava à vista... talvez no bolso dele. Ele respirava audivelmente, e os globos oculares haviam passado de cor-de-rosa para vermelho. O rosto também estava vermelho, com veias pulsando em sua testa.

– Você me conhece? – vociferou.

– Sim, conheço. Você é Stanley Tennant, diretor-assistente de engenharia do município, e sua ficha não é nada limpa. – Desandei a falar, partindo da premissa que qualquer conversa é sempre vantajosa para quem está na mira de uma arma. – Você tem fama de ser o cara que reuniu aquela tropa de testemunhas muito bem ensaiadas que transformaram em farsa a investigação de corrupção na secretaria de obras no ano passado. Sim, sr. Tennant, conheço você. Você é o motivo por que Gilmore tinha tanta sorte para ganhar concorrências municipais com orçamentos inferiores em apenas alguns dólares aos de seus concorrentes. Sim, sr. Tennant, conheço você. Você é o garoto esperto que...

Eu tinha muito mais a dizer, mas ele me interrompeu.

– Chega! – gritou ele. – A menos que você queira que eu tire um pedaço da sua cabeça com essa arma.

Em seguida, dirigiu-se à moça, sem desviar os olhos de mim.

– Levanta, Cara.

Ela se ergueu da cadeira e se postou do lado dele. A arma estava na sua mão direita, o lado que estava junto dela. Ele deu a volta e se colocou do outro lado.

Os dedos de sua mão esquerda se engancharam no vestido verde da moça, bem dentro do decote generoso que cobria a curva dos seios. A arma não se desviou nem por um instante. Ele deu um puxão com a mão esquerda, rasgando o vestido até a cintura.

– Ele fez isso, Cara – disse Tennant.

Ela assentiu com a cabeça.

Seus dedos se insinuaram dentro da combinação encarnada agora exposta, e ele rasgou esta como havia rasgado o vestido.

– Ele fez isso.

Ela assentiu de novo.

Seus olhos injetados lançavam pequenos golpes de vista avaliadores para o rosto dela... golpes de relance que nunca afastavam seu olhar de mim durante o tempo mínimo que seria preciso para eu me atirar contra ele.

Em seguida – olhos e arma me mirando –, golpeou o rosto branco e vazio dela com seu punho esquerdo.

Um único soluço – baixinho e curto – partiu dela enquanto desmoronava agachada contra a parede. Seu rosto... bem, não havia muita mudança nele. Olhou estupidamente para Tennant, do lugar onde se encontrava caída.

– Ele fez isso – dizia Tennant.

Ela assentiu com a cabeça, ergueu-se do chão e voltou para a cadeira.

– A gente vai dizer o seguinte. – O homem falava com rapidez, seus olhos vivos sobre mim. – Gilmore nunca esteve no meu apartamento na vida, Cara, nem você. Na noite em que ele foi morto, você chegou em casa logo depois de uma hora da manhã, e ficou aqui direto. Você passou mal, provavelmente por causa do vinho que andou bebendo, e chamou um médico. O nome dele é Howard. Vou providenciar isso com ele. Ele chegou às duas e meia e ficou até as três e meia.

“Hoje, este investigador enxerido veio aqui questionar você, sabendo que você teve um envolvimento íntimo com Gilmore. Ele sabia que você não tinha matado Gilmore, mas fez certas propostas indecorosas a você; aí, você pode acrescentar os detalhes que quiser, pode dizer talvez que ele estava assediando você há meses, e quando você recusou, ele ameaçou incriminar você.

“Você se recusou a ter qualquer coisa com ele; ele agarrou você, rasgou suas roupas e agrediu você no rosto quando você resistiu. Naquele exato momento, eu apareci, porque a gente tinha marcado um encontro, e ouvi você gritar. A porta da frente estava aberta, então eu entrei, tirei o cara de cima de você e desarmei ele. Aí nós o prendemos até que viesse a polícia, que vamos chamar agora. Entendeu?”

– Entendi, Stan.

– Ótimo! Agora, presta atenção: quando a polícia chegar, é claro que esse daí vai entregar tudo que sabe, e é bem provável que eles levem os três para o distrito. Por isso, quero que você saiba tudo direitinho agora. Eu devo ter poder de fogo suficiente para conseguir sursis para nós dois hoje à noite mesmo ou, na pior das hipóteses, para conseguir que o meu advogado chegue até mim hoje à noite, para a gente arrumar as testemunhas que vamos precisar. Também devo conseguir que o nosso amiguinho gorducho aí fique preso um ou dois dias e que não consiga ver ninguém até o final do dia de amanhã, o que nos dará um bom tempo para adiantar as coisas. Não sei o quanto ele sabe, mas com o seu depoimento e mais o depoimento de algumas outras moças espertas que eu conheço, a gente cola uma fama nele que vai sujar ele com qualquer júri do mundo, para depor sobre qualquer assunto. O que você acha disso? – ele me perguntou, triunfante.

– Seu palhaço – disse eu rindo –, estou achando a maior graça!

Mas, na verdade, eu não achava não. Apesar do que eu pensava que sabia sobre o assassinato de Gilmore – apesar da minha solução simples e satisfatória –, alguma coisa me subia pela espinha, meus joelhos estavam bambos e minhas mãos molhadas de suor. Não era a primeira vez que alguém tentava me incriminar falsamente – nenhum detetive fica muito tempo na profissão sem que isso aconteça –, mas nunca me havia acostumado. Existe uma mortalidade peculiar nessas coisas – em especial, para quem sabe como são imprevisíveis os júris populares – que provoca arrepios, mesmo quando você se julga seguro.

– Liga para a polícia – disse Tennant à moça –, e pelo amor de Deus, não vai embaralhar a história!

Enquanto se empenhava em reforçar esta última instrução, seus olhos se desviaram de mim.

Eu estava a cerca de um metro e meio dele e da arma apontada.

Um salto – não diretamente em sua direção, mas desviando para um lado – me colocou bem perto.

Senti o estrondo da arma debaixo do meu braço. Surpreendeu-me não sentir a bala. Parecia que teria de me atingir.

Não houve um segundo tiro.

Soltei meu punho direito em curva enquanto pulava. Atingiu o alvo no momento em que aterrissei. O golpe pegou um pouco alto – na maçã do rosto –, mas deslocou-o para trás alguns passos.

Não sabia o que havia acontecido com sua arma. Não estava mais na sua mão. Não parei para procurá-la. Estava muito ocupado forçando-o a recuar, não permitindo que se firmasse, apertando-o e desferindo golpes com as duas mãos.

Ele era mais alto do que eu uns quinze centímetros e tinha os braços mais longos, mas não possuía nenhuma vantagem em matéria de peso e força. Suponho que ele tenha me atingido algumas vezes enquanto eu o martelava sala adentro. Ele só pode ter me batido. Mas eu não senti nada.

Forcei-o para o canto, onde ficou enfiado com as pernas presas sob o corpo, o que lhe dava pouco equilíbrio para tentar qualquer golpe. Cerquei seu corpo com meu braço esquerdo, prendendo-o na posição que queria, e comecei a desferir-lhe golpes com a direita.

Gostei disso. Seu abdômen era flácido e ficava cada vez mais flácido à medida que eu batia nele. Bati muito.

Ele golpeava meu rosto, mas, enfiando o nariz no peito dele e mantendo-o ali, impedi que ele estragasse totalmente a minha beleza. Enquanto isso, continuei a enterrar a minha direita no seu corpo.

Foi aí que percebi que Cara Kenbrook se movia atrás de mim, e lembrei-me do revólver que havia caído em algum lugar quando avancei sobre Tennant. Não gostei disso, mas não podia fazer nada, a não ser aumentar a força dos meus golpes. A minha arma, pensei, devia estar em um de seus bolsos. Mas, no momento, nenhum dos dois tinha tempo para procurar por ela.

Os joelhos de Tennant cederam da próxima vez que o atingi.

Mais uma vez, disse a mim mesmo, e depois me afasto, acerto-lhe uma direta no queixo, e fico assistindo enquanto ele cai.

Mas não cheguei até lá.

Algo que eu sabia ser o revólver perdido atingiu-me no alto da cabeça. Um golpe ineficaz – sem impacto suficiente para me paralisar –, mas minou a força dos meus socos.

Outro.

Não eram fortes, essas pancadinhas, mas não é preciso muita força para machucar um crânio com um pedaço de metal.

Tentei me desviar do próximo baque, e não consegui. Não somente não consegui me desviar, como deixei Tennant se desvencilhar.

Era o fim.

Voltei-me contra a moça a tempo de levar mais uma pancada na cabeça e, em seguida, um dos punhos de Tennant atingiu-me acima da orelha.

Entrei em queda, uma daquelas que dá ao pugilista a fama de ser mole. Meus olhos estavam abertos e minha mente acordada, mas meus braços e pernas não conseguiam me erguer do chão.

Tennant sacou minha arma de um bolso, e, apontando-a para mim, sentou-se em uma cadeira Morris, para retomar o fôlego que eu havia tirado dele na base da malhação. A moça sentou-se em outra cadeira; e eu, vendo que dava, sentei-me no meio do chão e encarei os dois.

Tennant falou, ainda ofegante.

– Isto é ótimo. Todos os vestígios de uma luta que precisamos para dar credibilidade à história!

– Se eles não acreditarem que você andou brigando – disse azedo, apertando minha cabeça latejante com as duas mãos –, você pode tirar a camisa e mostrar a barriguinha.

– E você pode mostrar isto para eles.

Debruçou-se e partiu a minha boca com um soco que me deixou caído.

A raiva deu vida às minhas pernas. Fiquei de pé. Tennant deu a volta e ficou atrás da cadeira Morris. Minha arma preta estava firme em sua mão.

– Vai devagar – me avisou. – Minha história continua a funcionar se eu for obrigado a matar você... talvez funcione até melhor.

Isso fazia sentido. Estaquei.

– Liga para a polícia, Cara – ordenou ele.

Ela saiu da sala, fechando a porta; e só deu para ouvir de sua conversa um murmúrio desconexo.

Após dez minutos, chegaram três policiais uniformizados. Todos os três conheciam Tennant e tratavam-no com respeito. Tennant relatou a história que ele e a moça haviam inventado, com pequenas mudanças para explicar o tiro disparado do revólver niquelado, bem como o nosso estado surrado. Ela meneava vigorosamente a cabeça cada vez que um policial olhava para ela. Tennant entregou as duas armas para o sargento de cabelos brancos no comando.

Eu não discuti nem neguei nada, mas disse ao sargento:

– Estou trabalhando em um caso com o detetive-sargento O’Gar. Gostaria de falar com ele pelo telefone e depois gostaria que o senhor nos levasse os três para a divisão de detetives.

Tennant se posicionou contrariamente, é claro, não porque esperava ganhar qualquer coisa com isso, mas apenas por via das dúvidas. O sargento de cabelos brancos olhou perplexo de um para o outro. Eu, com o rosto ralado e o lábio partido; Tennant, com a cara inchada e vermelha abaixo do olho, onde fora atingido por meu primeiro golpe; a moça, com a maior parte de suas roupas rasgadas acima da cintura e um hematoma na face.

– Tem alguma coisa estranha aqui – decidiu o sargento, em voz alta –, e tenho por mim que a divisão de detetives é o lugar certo para a cambada toda.

Um dos policiais me acompanhou até o corredor, e eu consegui falar com O’Gar telefonando para sua casa. Já eram quase dez horas da noite, e ele estava se preparando para deitar.

– Estou desvendando o assassinato de Gilmore – disse eu. – Me encontre no Palácio de Justiça. Você pode alcançar Kelly, o policial que encontrou Gilmore, e trazê-lo com você? Queria que ele visse umas pessoas.

– Vou providenciar – prometeu O’Gar, e desliguei o telefone.

O camburão que atendera ao chamado de Cara Kenbrook nos levou até o Palácio de Justiça, onde fomos todos levados para a sala do capitão dos detetives. McTighe, um tenente, estava de plantão.

Conhecia McTighe, e tínhamos um bom relacionamento; mas eu não tinha força na política municipal, e Tennant tinha. Não estou dizendo que McTighe teria ajudado Tennant a me incriminar propositalmente; mas entre mim e o diretor-assistente de engenharia do município, eu sabia quem iria receber o benefício de qualquer dúvida.

Minha cabeça estava pulsando e zunindo naquela hora, com galos nos locais em que a moça havia me acertado com o revólver. Sentei-me, fiquei calado e cuidei da minha cabeça, enquanto Tennant e Cara Kenbrook mostravam suas feridas e contavam sua história, recheada de detalhes que não haviam desperdiçado com os uniformes.

Falava Tennant, descrevendo a cena terrível com a qual se deparara ao adentrar apressadamente o apartamento da moça, atraído por seus gritos, quando O’Gar entrou na sala. Erguendo uma sobrancelha, tomou conhecimento de Tennant e veio se sentar junto de mim.

– Que diabos está acontecendo? – resmungou.

– Uma bela confusão – sussurrei-lhe. – Escuta, tem um cartucho vazio dentro daquela arma niquelada em cima da mesa. Pegue-o para mim.

Ele coçou a cabeça, hesitante, ouviu as próximas palavras da prosa de Tennant, olhou-me de soslaio, e em seguida foi até a mesa e apanhou o revólver.

McTighe fitou-o com um olhar incisivo e questionador.

– Tem a ver com o assassinato de Gilmore – disse o detetive-sargento, abrindo o revólver.

O tenente principiou a dizer algo, mudou de idéia, e O’Gar trouxe o cartucho e entregou-o a mim.

– Obrigado – disse, colocando-o no bolso. – Agora escute a história do meu amigo ali. Ele representa bem, para quem gosta dessas coisas.

Tennant encerrava sua narrativa.

– ... evidentemente, um homem que tentaria uma coisa dessas contra uma mulher desprotegida só poderia ser covarde, portanto não foi difícil dominá-lo depois que me apossei de sua arma. Bati nele algumas vezes e ele desistiu, implorando de joelhos para que eu parasse. E aí, chamamos a polícia.

McTighe me fitou com olhos duros e frios. Tennant o havia convencido, e não somente a ele; o sargento e os dois outros policiais me lançavam olhares fulminantes. Desconfiei que o próprio O’Gar – que havia passado por uma dezena de batalhas comigo – teria desconfiado de mim também, se o engenheiro não tivesse acrescentado aquele floreio sobre eu me ajoelhando.

– Bem, o que você tem a dizer? – A pergunta de McTighe foi lançada em um tom de desafio que indicava que não fazia muita diferença o que eu respondesse.

– Não tenho nada a dizer sobre esse devaneio – disse abruptamente. – Estou interessado no assassinato de Gilmore... não nessa bobagem. – Voltei-me para O’Gar. – O policial está aqui?

O detetive-sargento foi até a porta e gritou:

– Ei, Kelly!

Kelly entrou, um homem grande e ereto, com cabelos cinza-chumbo e um rosto gordo e inteligente.

– Foi você quem encontrou o corpo de Gilmore? – perguntei.

– Fui eu.

Indiquei Cara Kenbrook com o dedo.

– Já viu essa moça?

Seus olhos cinza estudaram-na com cuidado.

– Não que eu me lembre – respondeu.

– Ela subiu a rua quando você estava cuidando de Gilmore e entrou no edifício em frente ao qual ele estava deitado?

– De jeito nenhum.

Tirei do bolso o cartucho que O’Gar havia apanhado para mim e coloquei-o sobre a mesa diante do policial.

– Kelly – indaguei –, por que você matou Gilmore?

A mão direita de Kelly enfiou-se debaixo da bainha de seu casaco, na altura de sua cintura.

Lancei-me contra ele.

Alguém me agarrou pelo pescoço. Outra pessoa pulou nas minhas costas. McTighe lançou o seu punho enorme em direção ao meu rosto, mas errou. Uma rasteira havia deslocado minhas pernas e tive uma queda dura, com vários homens em cima de mim.

Quando me puxaram para cima novamente, o grande vulto de Kelly ergueu-se junto à mesa, sopesando seu revólver de polícia na mão. Seus olhos claros encontraram os meus, e ele depositou a arma sobre a mesa. Em seguida, removeu seu distintivo e colocou-o junto da arma.

– Foi um acidente – disse com simplicidade.

Nesse ínterim, os tiras que me manuseavam perceberam que talvez estivessem perdendo uma parte importante do enredo, que talvez eu não fosse um doido varrido. As mãos se desprenderam de mim, e logo estava todo mundo ouvindo Kelly.

Ele contou sua história sem pressa e com firmeza, seus olhos nunca se desviando ou se turvando. Um homem determinado, embora azarado.

– Estava fazendo a ronda naquela noite, e quando dobrei a esquina da Jones para a Pine, vi um homem voltar correndo dos degraus diante de um edifício para dentro da portaria. Um ladrão, imaginei, e fui cuidadosamente até lá. Era uma portaria longa e escura, e vi algo que parecia um homem, mas não tive certeza.

“Sai daí!, gritei, mas não houve resposta. Saquei minha arma e fui subindo os degraus. Naquele instante eu o vi se mover e começar a sair. E aí, escorreguei. O degrau de baixo estava gasto e liso, e meu pé deslizou. Caí para a frente, a arma disparou, e a bala o atingiu. Ele já tinha saído um pouco da portaria, e quando a bala o atingiu, ele caiu para a frente, rolando pelos degraus e despencando na calçada.

“Quando olhei, vi que era Gilmore. Eu o conhecia de vista e o cumprimentava sempre, e ele a mim; e vai ver por isso se escondeu quando me viu na esquina. Ele não queria que eu o visse saindo do edifício onde eu sei que mora o sr. Tennant, suponho eu, porque eu poderia juntar as coisas, e talvez botar a boca no mundo.

“Não estou dizendo que fiz a coisa certa quando menti, mas não fazia mal a ninguém. Foi um acidente, mas ele tinha muitos amigos influentes, e, sendo acidente ou não, eu levava uma boa chance de me ferrar e talvez acabar preso por algum tempo. Por isso, contei a história que vocês conhecem. Eu não podia dizer que havia visto qualquer coisa suspeita sem talvez jogar a culpa para algum inocente, e não queria fazer isso. Já havia resolvido que se alguém fosse preso pelo assassinato e acusado, eu iria confessar. Vocês podem encontrar na minha casa uma confissão assinada, que escrevi caso acontecesse alguma coisa comigo, para que ninguém fosse culpado.

“Por isso fui obrigado a dizer que nunca tinha visto esta moça. Eu a vi, sim, entrando no edifício do qual Gilmore saiu naquela noite. Mas não podia falar nada sem levantar suspeitas contra ela; então menti. Acredito que poderia ter inventado uma história melhor se tivesse tido tempo, mas tive que pensar rápido. De qualquer forma, fico feliz que tudo acabou.”

Kelly e os outros policiais haviam deixado a sala, que agora reunia McTighe, O’Gar, Cara Kenbrook, Tennant e eu. Tennant estava do meu lado, pedindo desculpas.

– Espero que você me permita compensar você pelo que aconteceu hoje à noite. Você sabe como é quando alguém de quem você gosta está em apuros. Eu teria matado você se eu achasse que ajudaria Cara, com toda certeza. Por que você não disse que não suspeitava dela?

– Mas eu suspeitava mesmo de vocês dois – disse. – Tudo indicava que Kelly tinha de ser o culpado, mas vocês aprontaram tanta confusão que comecei a duvidar disso. No início, foi engraçado: você pensando que tinha sido ela, e ela pensando que tinha sido você, embora imagino que cada um tenha jurado inocência para o outro. Mas, depois, perdeu a graça. Vocês foram longe demais.

– Como você concluiu que tinha sido Kelly? – perguntou O’Gar, ombro a ombro comigo.

– A srta. Kenbrook caminhava em direção norte na Leavenworth e estava a meio caminho entre Bush e Pine quando o tiro foi disparado. Não viu ninguém, e nenhum carro, até dobrar a esquina. A sra. Gilmore, que andava para o norte pela Jones, estava mais ou menos à mesma distância quando ela ouviu o tiro, e também não viu ninguém até chegar na Pine Street. Se Kelly estivesse falando a verdade, ela o teria visto na Jones Street. Ele disse que só dobrou a esquina após o tiro.

“Qualquer uma das duas mulheres poderia ter matado Gilmore, mas não as duas juntas, de jeito nenhum. Duvidava que qualquer uma das duas pudesse ter atirado nele e fugido sem esbarrar na outra ou em Kelly. Supondo que as duas estivessem contando a verdade... e aí? Então, era Kelly que estava mentindo! De qualquer forma, pela lógica, ele era o suspeito natural: a pessoa mais próxima ao morto quando o tiro foi disparado.

“Ainda por cima, ele deixou a srta. Kenbrook entrar às três da manhã no prédio em frente do qual um homem acabava de ser morto, sem questioná-la e sem mencioná-la em seu relatório. Parecia que ele sabia quem tinha cometido o assassinato. Por isso, arrisquei o truque do cartucho vazio, porque era provável que ele tivesse jogado fora o cartucho dele, e portanto iria pensar...”

A voz pesada de McTighe interrompeu minha explicação.

– E como fica essa queixa de lesão corporal? – indagou, evidenciando o escrúpulo de evitar o meu olhar quando me voltei para ele, junto com todos os outros.

Tennant limpou a garganta.

– Um... ah... em vista de tudo que aconteceu, e sabendo que a srta. Kenbrook não iria gostar do burburinho desagradável que sempre acompanha um incidente desses, proponho que tudo seja esquecido. – Ele sorriu luminosamente para mim e para McTighe. – Vocês sabem, nada disso foi registrado ainda.

– Faz o babacão suar – rosnou O’Gar no meu ouvido. – Não deixa barato.

– É claro que se a srta. Kenbrook não deseja registrar a queixa – dizia McTighe, vigiando-me com o canto do olho –, imagino que...

– Se está claro para todo mundo que tudo isso era uma armação – disse eu – e se os policiais que ouviram o depoimento forem chamados para cá agora e informados por Tennant e pela srta. Kenbrook que era tudo mentira, então estou disposto a deixar passar. Senão, não vou deixar encobrir o caso.

– Você é um bobo! – sussurrou O’Gar. – Arranca o couro deles!

Meneei a cabeça que não. Não vi sentido em arranjar um monte de encrenca para mim, apenas para causar problemas para os outros... e supondo que Tennant conseguisse comprovar sua história...

Portanto, os policiais foram encontrados e trazidos até a sala, e a verdade foi-lhes contada.

E, pouco tempo depois, Tennant, a moça e eu atravessávamos o corredor e nos dirigíamos para a porta da rua. Tennant ainda pedia para me compensar pelo ocorrido.

– Você tem que me deixar fazer alguma coisa por você! – insistiu. – É uma questão de justiça!

Sua mão enfiou-se casaco adentro e ressurgiu com uma carteira grossa.

– Vamos lá – disse ele –, deixa eu...

Naquele momento feliz, descíamos os degraus de pedra que levam da portaria para a Kearny Street – são seis ou sete degraus.

– Não – disse eu –, deixe eu...

Ele estava no segundo degrau mais alto quando ergui a mão e mandei ver.

Seu corpo depositou-se em uma pilha murcha ao pé da escadaria.

Deixando sua dama de cara vazia para cuidar dele, caminhei ligeiro por Portsmouth Square, em direção a um restaurante que serve um filé bem grosso.

 

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