Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 39 de 44

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Tiros na Noite

Capítulo V

Franzindo a testa um pouco, ela perguntou:

– E então?

– Bom, encontrei você.

– Mas eu não estava lá embaixo mais cedo. A que horas foi?

– Meia hora antes de ele atirar no seu irmão.

–Veja bem – triunfante –, você sabe que eu estava em casa, falando com você.

– Disso eu sei.

V

Às dez da manhã seguinte, Guild foi para o Seaman’s National Bank, até uma mesa onde estava escrito: SR. COLER, TESOUREIRO-ASSISTENTE. O homem louro e bronzeado que estava sentado ali cumprimentou Guild, alegre.

Guild sentou-se e disse:

– Viu os jornais hoje de manhã, imagino.

– Sim. Graças a Deus pelo seguro.

– Nós devemos pegá-lo a tempo de conseguir uma parte de volta. Eu gostaria de dar uma olhada na conta dele e nos cheques cancelados que possam existir.

– Claro. – Coler se levantou da mesa e se afastou. Ao voltar estava trazendo um fino maço de cheques numa das mãos e uma folha datilografada na outra. Sentando-se, olhou para a folha e disse: – Foi isso que aconteceu: no dia 2 deste mês, Wynant depositou aquele cheque de dez mil dólares...

– Trouxe pessoalmente?

– Não. Ele sempre mandava os depósitos pelo correio. Era um cheque emitido pela Modern Publishing Company, da Madison Trust Company de Nova York. Ele tinha um saldo de U$ 1.100,55: O cheque fez aumentar para onze mil e poucos. No dia 5, um cheque – ele pegou um no maço fino – de nove mil dólares, nominal a Laura Porter, veio pela compensação. – Coler olhou o cheque. – Datado do dia 3, um dia depois do depósito. – Ele virou o cheque. – Foi depositado na Golden Gate Trust Company. – Em seguida passou-o por sobre a mesa para Guild. – Bom, isso o deixou com um saldo de U$ 2.162,55. Ontem recebemos um telegrama dizendo que o cheque de Nova York tinha sido aumentado de mil para dez mil.

– Vocês deixam os clientes sacarem a partir de cheques de fora da cidade assim, antes de ter tempo de compensar?

Coler ergueu as sobrancelhas.

– Contas antigas e com a importância da do sr. Wynant, sim.

– Agora a importância é ainda maior. O que são estes outros cheques?

Coler os examinou. Seus olhos se animaram. Disse:

– São mais dois para Laura Porter: U$ 1.750. O resto parecem ser simplesmente salários e gastos domésticos. – Ele os passou para Guild.

Guild examinou os cheques lentamente, um a um. Depois disse:

– Veja se consegue descobrir há quanto tempo isso vem acontecendo, e quanto foi o total.

Coler se levantou e saiu. Ficou longe durante uma hora. Quando voltou, disse:

– Pelo que posso saber, ela vem recebendo cheques pelo menos há vários meses e vem retirando praticamente tudo que ele deposita, não sobrando muito mais do que o bastante para cobrir as despesas comuns.

– Obrigado – disse Guild em voz baixa, através da fumaça de cigarro.

Do Seaman’s National Bank, Guild foi à Golden Gate Trust Company, na Montgomery Street. Uma garota parou de datilografar para levar seu cartão à sala do tesoureiro e depois guiou-o até lá. Ali Guild apertou a mão de um homem rotundo e de cabelos brancos que disse:

– É um prazer vê-lo, sr. Guild. Qual de nós, criminosos, o senhor está procurando agora?

– Não sei se estou procurando algum desta vez. O senhor tem uma cliente chamada Laura Porter. Gostaria de saber o endereço dela.

O sorriso do tesoureiro se congelou.

– Ora, ora, eu estou sempre disposto a fazer todo o possível para ajudá-lo, mas...

– Ela pode ter algo a ver com um desfalque de oito mil do Seaman’s National.

A curiosidade tirou um pouco da rigidez do sorriso do tesoureiro.

– Não sei se ela teve um dedo nisso – disse Guild –, mas estou aqui porque acho que ela pode ter. Só quero o endereço, agora, e não vou querer mais nada até ter certeza.

O tesoureiro apertou os lábios, franziu a testa, pigarreou, finalmente disse:

– Bom, eu lhe dou se você entender que é...

– Estritamente confidencial. Exatamente como a informação de que o Seaman’s foi roubado.

Cinco minutos depois estava saindo da Golden Gate Trust Company levando, num bolso, um pedaço de papel onde estava escrito Laura Porter, Leavenworth, 1.157.

Pegou um bonde e subiu a California Street. Quando o bonde passou pelo Condomínio Cathedral, levantou-se de súbito e saltou na esquina seguinte, voltando até o prédio.

Na portaria disse:

– Srta. Helen Robier.

O homem do outro lado do balcão balançou a cabeça.

– Não temos ninguém com esse nome, a não ser que ela esteja visitando alguém.

– Poderia dizer se ela já morou aqui, digamos... há uns cinco meses?

– Vou tentar. – Ele foi para trás e falou com outro homem. O outro veio até Guild e falou:

– Sim, a sra. Robier morou aqui, mas morreu.

– Morreu?

– Foi morta num acidente de automóvel no dia 4 de julho.

Guild apertou os lábios.

– Um tal de MacWilliams mora aqui?

– Não.

– Já morou?

– Não creio. Vou olhar. – Quando ele voltou, foi positivo: – Não.

Do lado de fora do Cathedral, Guild olhou o seu relógio. Eram quinze para o meio-dia. Foi até o seu hotel. Boyer se levantou de uma poltrona no saguão e veio encontrá-lo, dizendo:

– Bom dia. Como está? Alguma novidade?

Guild deu de ombros.

– Algumas coisas podem significar alguma coisa. Vamos conversar almoçando. – Ele se virou ao lado do promotor e o guiou até o restaurante do hotel.

Quando estavam sentados e tinham feito os pedidos, ele contou a Boyer sobre a conversa com os Fremont, o tiro que os interrompeu e a busca por Wynant, que resultou em encontrarem o carro dele; sobre a conversa com Chris – “Christopher Maxim”, disse ele, “crítico literário do Dispatch”; sobre a visita ao Manchu e o encontro com Elsa Fremont; e sobre suas visitas naquela manhã aos dois bancos e ao prédio de apartamentos. Falou rapidamente, desperdiçando poucas palavras, sem deixar de lado qualquer ponto importante.

– Você acha que Wynant foi àquele restaurante chinês, sabendo que a garota trabalhava lá, para descobrir onde ela e o irmão moravam? – perguntou Boyer quando Guild finalmente terminou.

– Não se ele esteve na casa de Fremont, causando o maior tumulto há duas semanas.

O rosto de Boyer ficou ruborizado.

– Isso mesmo. Bom, você...

– Diga o que andou acontecendo do seu lado – pediu Guild – e talvez nós possamos fazer as suposições juntos. Espere até esse garçom sair do caminho.

Quando a comida tinha sido posta diante deles e os dois ficaram de novo a sós, o promotor disse:

– Eu lhe contei que Lane viu Wynant indo ao tal restaurante chinês.

– Sim. E quanto às impressões digitais? – perguntou Guild, e pôs um pouco de comida na boca.

– Mandei examinar a casa toda e pegamos impressões de todas as pessoas que sabíamos que estiveram lá, mas as comparações não tinham sido feitas quando saí hoje de manhã.

– Você não esqueceu as da garota morta?

– Ah, não. E você esteve lá: pode nos mandar as suas.

– Certo, se bem que eu fiz questão de não tocar em nada. Algum informe resultante do alerta geral?

– Nenhum.

– De qualquer modo, nós sabemos que ele veio a San Francisco. E quanto às circulares?

– Estão sendo impressas agora: foto, descrição, amostras de escrita. Vamos fazer mais um lote quando tivermos as digitais; eu queria conseguir alguma coisa rapidamente.

– Ótimo. Eu pedi à polícia daqui para tirar algumas impressões do carro. Algum outro acontecimento?

– É só isso.

– Não conseguiu nada nos papéis dele?

– Nada. Afora o que pareciam ser anotações de trabalho, não havia muitos papéis. Você mesmo pode olhá-los quando for lá em cima.

Guild, comendo, assentiu como se estivesse totalmente satisfeito.

– A primeira coisa hoje à tarde é irmos dar uma olhada na srta. Porter – disse ele – e talvez alguma coisa resulte disso.

– Você acha que ela o estava chantageando?

– Pessoas chantageiam pessoas – admitiu Guild.

– Só estou falando aleatoriamente – disse o promotor um tanto sem graça –, deixando sair qualquer coisa que me venha à cabeça.

– Continue assim – disse Guild encorajando-o.

– Você acha que ela pode ser uma filha que ele teve com a tal esposa atriz em Paris?

– Podemos tentar descobrir o que aconteceu com ela e os filhos. Talvez Columbia Forrest fosse filha dele.

– Mas você sabe qual era a situação lá em cima – protestou Boyer. – Isso seria incesto.

– Já aconteceu antes. É por isso que temos um nome para isso.

Guild apertou o botão ao lado do nome de Laura Porter no vestíbulo de um pequeno prédio de apartamentos na Leavenworth Street, 1.157. Boyer estava ao seu lado, respirando pesadamente. Não houve resposta. Não houve resposta na segunda e na terceira vez em que apertou o botão, mas quando tocou no da zeladora a tranca da porta zumbiu.

Eles abriram a porta e entraram num saguão escuro. Uma porta logo à frente se abriu e uma mulher disse:

– Sim? O que é? – Ela era pequena e de feições afiladas, grisalha, com nariz adunco e olhos brilhantes.

Guild avançou até ela dizendo:

– Nós queríamos ver a srta. Laura Porter, do 310, mas ela não atende à campainha.

– Acho que ela não está – respondeu a mulher grisalha. – A srta. Porter não fica muito em casa. Quer deixar um recado?

– Quando ela deve estar de volta?

– Não sei, disso eu tenho certeza.