Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 40 de 44

Páginas do PDF

Tiros na Noite

Capítulo VI

– Sabe quando ela saiu?

– Não, senhor. Algumas vezes eu vejo os moradores quando entram e saem, e algumas vezes não vejo, e a srta. Porter vejo menos do que qualquer outro.

– Ah, ela não fica aqui na maior parte do tempo?

– Não sei, moço. Desde que paguem o aluguel e não façam muito barulho, eu não incomodo eles.

– Eles? Ela mora com alguém?

– Não. Estou falando deles, todos os moradores daqui.

Guild se virou para o promotor.

– Aqui. Um dos seus cartões.

Boyer procurou os cartões, achou um e entregou a Guild, que deu à mulher.

– Queremos algumas informações sobre ela – disse o homem moreno em voz baixa, confidencial, enquanto forçava a vista para o cartão à luz fraca. – Pelo que sabemos, está tudo bem com ela, mas...

Os olhos da mulher, quando ela os ergueu, estavam arregalados e inquisitivos.

– O que é? – perguntou.

Guild se inclinou para ela, procurando causar impressão.

– Há quanto tempo ela mora aqui? – perguntou num sussurro teatral.

– Quase seis meses. São seis meses.

– Ela recebe muitas visitas?

– Não sei. Não lembro de ter visto alguma, mas não presto muita atenção, e quando vejo pessoas entrando aqui não sei para que apartamento estão indo.

Guild se empertigou, estendeu a mão esquerda e apertou um interruptor, iluminando o saguão. Pôs a mão no bolso interno do paletó e pegou fotos de Wynant e da secretária morta. Deu-as à mulher.

– Já viu alguma dessas pessoas?

Ela olhou a foto do homem e balançou a cabeça.

– Não – disse –, e esse não é um homem que eu esqueceria se tivesse visto. – Em seguida olhou a foto de Columbia Forrest. – Esta! – exclamou. – Esta é a srta. Porter!

VI

Boyer olhou para Guild, arregalado.

O homem moreno, depois de uma pequena pausa, falou com a mulher:

– Esta é Columbia Forrest, a garota que foi morta ontem em Hell Bend.

Os olhos da mulher ficaram tão arregalados quanto os do promotor.

– Bom! – exclamou ela, olhando de novo para a fotografia. – Eu nunca pensaria que ela era uma ladra. Bom, ela era uma coisinha tão agradável, de aparência suave...

– Uma ladra? – perguntou Boyer, incrédulo.

– Ora, sim. – A mulher ergueu os olhos da fotografia. – Pelo menos é o que o jornal está dizendo, que ela foi...

– Que jornal?

– O da tarde. – Seu rosto ficou animado, ansioso. – Os senhores não viram?

– Não. A senhora tem...

– Sim. Vou mostrar. – Ela se virou rapidamente e passou pela porta aberta.

Guid, franzindo os lábios um pouco e levantando as sobrancelhas, olhou para Boyer.

O promotor sussurrou alto:

– Ela não o estava chantageando? Ela estava roubando dele?

Guild balançou a cabeça.

– Ainda não sabemos nada.

A mulher voltou em seguida, trazendo um jornal. Virou-o e empurrou contra a mão de Guild, inclinando-se sobre o papel, batendo nele com o indicador.

– Aí está. – Sua voz estava metálica de excitação. – Aí está. Leia isso.

Boyer rodeou até o outro lado do homem moreno, onde ficou parado, quase pendurado em seu braço, esticando-se para ver melhor o jornal.

Os dois leram:

SECRETÁRIA ASSASSINADA

ERA CONHECIDA DA POLÍCIA DE NOVA YORK

NOVA YORK, 8 de setembro (A.P.) – Columbia Forrest, por cujo assassinato ontem em Hell Bend, Califórnia, a polícia está procurando Walter Irving Wynant, famoso cientista, filósofo e escritor, foi condenada por roubar em lojas na cidade de Nova York há três anos, segundo o ex-magistrado Erle Gardner.

O ex-magistrado Gardner declarou que a jovem admitiu ser culpada numa acusação feita contra ela por duas lojas de departamentos e recebeu dele uma sentença de seis meses, mas a sentença foi cancelada devido à intervenção de Walter Irving Wynant, que se ofereceu para reembolsar as lojas e dar a ela um emprego de secretária. A jovem tinha sido datilógrafa, empregada numa firma de corretores de Wall Street.

Boyer começou a falar, mas Guild o interrompeu dirigindo-se energicamente à mulher:

– Isso é interessante. Muito obrigado. Agora nós gostaríamos de olhar o quarto dela.

A mulher, falando com total animação, levou-os para cima e destrancou a porta do apartamento 310. Entrou na frente deles, mas o homem moreno, segurando a porta do corredor, foi incisivo:

– Falaremos com a senhora de novo antes de irmos embora.

Ela saiu com relutância e Guild fechou a porta.

– Agora estamos chegando a algum lugar – disse Boyer.

– Talvez estejamos.

Palavras saíram com rapidez da boca do promotor:

– Você acha que ela cuidava dos detalhes da movimentação bancária dele e forjou aqueles cheques para Laura Porter e alterou a contabilidade para encobri-los? As chances são de que ele não gastasse muito e achasse que tinha um saldo grande. Então, quando ela tinha praticamente limpado a conta dele, sacou o último cheque e ia fugir?

– Talvez, mas... – Guild olhou pensativo para os pés do promotor.

– Mas o quê?

Guild levantou os olhos.

– Por que ela não fugiu enquanto estava longe, em vez de voltar para lá no carro de outro homem para dizer a ele que ia se casar com o outro homem?

Boyer tinha uma resposta pronta:

– Os ladrões são estranhos, e as mulheres são estranhas, e quando você tem uma mulher ladra não dá para dizer o que fará ou por quê. Ela pode ter tido uma discussão com ele e talvez quisesse jogar em sua cara que estava indo embora. Pode ter esquecido alguma coisa lá. Pode ter tido a idéia de afastar as suspeitas da conta bancária fazendo malabarismos durante um tempo. Pode ter tido vários motivos, não precisam ser motivos sensatos. Pode...

Guild sorriu educadamente.

– Vejamos o que esse lugar nos diz.

Numa mesa da sala de estar encontraram uma chave de latão que abria a porta do corredor. Nada mais que encontraram em qualquer lugar, a não ser no banheiro, pareceu interessá-los. No banheiro, sobre uma mesa, acharam uma navalha obviamente nova, com a lâmina apresentando marcas recentes de ferrugem, um tubo aberto de creme de barbear, do qual muito pouco fora espremido, um pincel de barba novo que fora usado e não fora lavado e uma tesoura. Pendurado na borda da banheira ao lado da mesa havia uma toalha de rosto onde manchas de espuma tinham secado.

Guild soprou fumaça de cigarro sobre essas coisas e disse:

– Parece que o nosso homem magro veio aqui se livrar das costeletas.

Boyer, franzindo a testa em perplexidade, perguntou:

– Mas como ele saberia?

– Talvez tenha arrancado a informação dela antes de matá-la, e tenha entrado com a chave que estava sobre a mesa, a chave dela. – Guild apontou o cigarro para a tesoura. – A tesoura faz com que pareça que tenha sido ele e não... bem... Fremont, por exemplo. Ele precisaria da tesoura para as costeletas, e as coisas são novas, como se ele tivesse comprado no caminho para cá. – Guild se curvou para examinar a mesa, o interior da banheira, o chão. – Se bem que não estou vendo nenhum pêlo.

– O que significa, então? O fato de ele ter vindo aqui – perguntou ansioso o promotor.

O homem moreno sorriu um pouco.

– Alguma coisa, talvez. – E se levantou depois de ter examinado o chão. – Ele poderia ter sido cuidadoso para não deixar cair nenhum pêlo das costeletas quando as cortou, ainda que Deus saiba por que tentaria fazer isso. – Guild olhou pensativo para os instrumentos de barbear, sobre a mesa. – Nós deveríamos falar mais com o namorado dela.

No andar de baixo encontraram a zeladora esperando no saguão. Ela ficou na frente deles com um sorriso luminoso para instigar a conversa.

– Muito obrigado – disse Guild. – O aluguel dela está pago até quando?

– Até o dia 15 deste mês.

– Então não custará nada à senhora não deixar que ninguém entre lá até essa data. Não deixe, e se alguém entrar, não toque em nada. Alguns policiais virão aqui. Tem certeza de que não viu um homem lá em cima no início da noite passada?

– Sim, senhor, tenho certeza de que não vi ninguém entrar ou sair, mas Deus sabe que alguém poderia fazer isso sem mim, se tivesse uma chave...

– Quantas chaves ela possuía?

– Eu só dei uma, mas ela podia ter mandado fazer quantas quisesse, e provavelmente fez chaves suficientes se... O que ela fez, moço?

– Não sei. Ela recebia muita correspondência?

– Bom, não tantas, e a maioria parecia anúncios e coisas assim.

– Lembra-se de onde era alguma delas?

O rosto da mulher ficou vermelho.

– Isso não. Eu não olho a correspondência do meu pessoal assim. Eu sempre cuidei só da minha vida, desde que eles paguem o aluguel e não façam muito barulho que as outras pessoas...

– Tudo bem – disse Guild. – Muito obrigado. – Ele lhe entregou um dos seus cartões. – Eu provavelmente voltarei, mas se acontecer alguma coisa, qualquer coisa que pareça ter a ver com ela, poderia me telefonar? Se eu não estiver, deixe o recado.

– Sim, senhor, certamente farei isso. Há algu...?

– Muito obrigado – disse Guild mais uma vez, e saiu junto com o promotor.

Estavam sentados no automóvel do promotor quando Boyer perguntou:

– Por que você acha que Wynant deixou a chave lá, se era dela e ele a usou?

– Por que não? Ele só foi lá para se barbear, e talvez fazer uma busca. Ele não iria se arriscar a ir lá de novo, e deixá-la ali era mais fácil do que jogar fora.

Boyer assentiu dubiamente e pôs o automóvel em movimento. Guild o orientou para ir às vizinhanças da Golden Gate Trust Company, onde estacionaram o automóvel. Depois de alguns minutos de espera, foram levados à sala do tesoureiro de cabelos brancos.

Ele se levantou da mesa quando os dois entraram. Nem seu sorriso nem seu estrepitoso “O senhor está me seguindo como uma sombra!” escondia a curiosidade inquieta.

– Sr. Bliss, este é o sr. Boyer, promotor do condado de Whitfield – disse Guild.

Boyer e Bliss se apertaram as mãos. O tesoureiro fez um gesto para que os visitantes se sentassem.

– A nossa Laura Porter é a Columbia Forrest que foi assassinada ontem em Hell Bend.

O rosto de Bliss ficou vermelho. Havia algo próximo da indignação na voz com que ele disse:

– Isso é absurdo, Guild.

O sorriso do homem moreno estava apertado de malícia.

– Quer dizer que assim que alguém se torna seu correntista ele tem a garantia de uma vida longa e feliz?

O tesoureiro sorriu.

– Não, mas... – ele parou de sorrir. – Ela teve alguma participação no roubo do Seaman’s National?

– Sim – respondeu Guild, e acrescentou, ainda com malícia sorridente: –, a não ser que o senhor tenha certeza de que nenhum dos seus clientes possa tocar nos centavos de outra pessoa.

Sem prestar atenção à última parte da fala de Guild, o tesoureiro se retorceu na cadeira e olhou inquieto para a porta.

O homem moreno falou:

– Nós gostaríamos de ter uma transcrição da conta dela, e eu gostaria de mandar um grafotécnico para examinar os cheques, mas agora estamos com pressa. Gostaríamos de saber quando ela abriu a conta, que referências deu e qual é o saldo.

Bliss apertou um dos botões em sua mesa, mas, antes que alguém viesse à sala, ele se levantou com um murmúrio:

– Com licença. – E saiu.

Guild sorriu em seguida.

– Ele vai estar cinco quilos mais magro antes de saber se foi trapaceado ou não, e dez se descobrir que foi.

Quando voltou, o tesoureiro fechou a porta, encostou-se nela e falou como se tivesse ensaiado as palavras:

– A conta da srta. Porter está com saldo de 38 dólares e cinqüenta centavos. Ela retirou doze mil dólares em dinheiro vivo ontem de manhã.

– Ela própria?

– Sim.

Guild se dirigiu a Boyer:

– Na saída vamos mostrar a foto dela ao caixa, só para ter certeza. – Em seguida virou-se de novo para o tesoureiro: – E quanto à data da abertura e as referências que ela deu?