Tiros na Noite
Capítulo X
– Calma, calma, querida. – E falou para Guild: – Você não pode perturbar essa garota assim. Não pode. Devia ter vergonha, um homem do seu tamanho. – Ele se inclinou para a frente espiando o rosto de Guild. – Por Deus, acho que você é mulato. Acho mesmo.
Elsa, tentando se livrar da mão gorda do bêbado, soltou um “Me deixe em paz” para o homem. Guild ficou quieto. O gordo olhou inseguro de um para o outro, até que outro homem, não menos bêbado, murmurando desculpas ininteligíveis, veio e o levou para longe.
Elsa olhou humilde para o homem moreno.
– Vou dizer a Frank que estou indo – falou numa voz baixa e cansada. – Pode me levar em casa?
– Claro.
Os dois se levantaram e foram para a porta. Kearny estava parado junto ao elevador.
– Não estou com vontade de trabalhar esta noite, Frank – disse a jovem. – Vou dormir.
– Certo – concordou ele. – Tome uma bebida quente e uma aspirina. – E estendeu a mão para Guild. – Prazer em conhecê-lo. Apareça quando quiser. Qualquer coisa que eu possa fazer por você, é só dizer. Vai levar a garota em casa? Ótimo! Fique boa.
X
Elsa Fremont era uma figura escura ao lado de Guild num táxi que seguia para o oeste subindo o Nob Hill. Seus olhos brilharam no borrão de luz de um poste. Ela respirou fundo e perguntou:
– Você acha que Charley fugiu, não é?
– É provável, mas talvez esteja em casa quando nós chegarmos.
– Espero que sim – disse ela, séria. – Espero mesmo, mas... estou com medo.
Ele a encarou obliquamente.
– Você já disse isso antes. Quer dizer que está com medo de algo ter acontecido com ele ou de que algo aconteça com você?
Ela estremeceu.
– Não sei. Só estou com medo. – Em seguida pôs uma das mãos em cima da dele, perguntando como se implorasse: – Você não vai pegar Wynant?
– Sua mão está fria.
Ela puxou a mão. Sua voz não saiu alta: a intensidade a fez soar aguda.
– Você nem ao menos é humano? É sempre assim? Ou isso é uma pose? – Ela recuou para um canto do táxi. – Você é uma porcaria de um cadáver?
– Não sei – disse o homem moreno. Parecia ligeiramente perplexo. – Não sei o que você quer dizer.
Ela não falou de novo, ficou carrancuda no canto até chegarem à sua casa. Guild estava à vontade, fumando até o motorista parar. Depois saiu, dizendo:
– Vou ficar só o tempo de ver se ele está em casa.
A garota atravessou a calçada e destrancou a porta enquanto ele pagava ao chofer. Ela havia entrado deixando a porta aberta quando Guild subiu os degraus da frente. Ele entrou também. Elsa tinha acendido as luzes do andar térreo e estava chamando para o de cima:
– Charley!
Não houve resposta.
Ela emitiu uma exclamação impaciente e correu para cima. Quando desceu de novo, movia-se com desânimo.
– Ele não está. Ele não veio.
Guild assentiu com aparente desapontamento.
– Eu lhe telefono assim que acordar – falou, recuando para a porta da rua – ou se tiver alguma notícia dele.
– Não vá, por favor – disse ela rapidamente –, a não ser que precise. Eu não... Eu gostaria de que você ficasse um pouco.
– Claro – respondeu ele, e os dois foram para a sala de estar.
Depois de tirar o casaco ela o deixou durante alguns minutos, indo à cozinha e voltando com uísque escocês, gelo, limões, copos e um sifão de água. Sentaram-se no sofá segurando as bebidas.
Com o tempo, olhando-o inquisitivamente, ela disse:
– Eu realmente falei a sério no táxi. Você não é humano? Não há algum modo de a gente fazer contato com você, alcançar o seu interior verdadeiro? Eu acho que você é a pessoa – ela franziu a testa, escolhendo as palavras – mais intocável, mais irreal que já conheci. Tentar... tentar realmente fazer contato com você é como segurar fumaça.
Guild, que tinha ouvido com atenção, assentiu.
– Acho que sei o que você está tentando dizer. É uma vantagem quando estou trabalhando.
– Eu não perguntei isso – protestou ela, movendo o copo na mão com impaciência. – Perguntei se você é realmente assim ou se só finge.
Ele sorriu e balançou a cabeça sem se comprometer.
– Isso não é um sorriso – disse ela. – Está pintado na cara. – Em seguida se inclinou para ele rapidamente e deu-lhe um beijo, grudando a boca na dele durante um tempo considerável. Quando se afastou, seus olhos verdes examinaram cuidadosamente o rosto de Guild. Fez um muxoxo. – Você não é nem mesmo um cadáver, é um fantasma.
Guild falou em tom afável:
– Eu estou trabalhando. – E bebeu de seu copo.
O rosto dela ficou ruborizado.
– Você acha que estou dando em cima de você? – perguntou inflamada.
Ele riu.
– Eu gostaria de que estivesse, mas não achei isso.
– Você não gostaria. Ficaria apavorado.
– Uh-uh – replicou em tom ameno. – Eu estou trabalhando. Isso tornaria mais fácil para mim manipulá-la.
Nada no rosto dela reagiu à fanfarronice. Ela falou, com seriedade paciente:
– Se ao menos você me ouvisse e acreditasse quando digo que não sei mais sobre isso do que você, se é que sei tanto. Você só está perdendo tempo quando deveria estar encontrando Wynant. Eu não sei de nada. Charley não sabe. Nós dois diríamos se soubéssemos. Nós dois já dissemos o que sabemos. Por que não pode acreditar quando falo isso?
– Desculpe – disse ele, despreocupado. – Não faz sentido. – E olhou para o relógio. – Já passa das cinco. É melhor eu ir.
Ela estendeu a mão para detê-lo, mas em vez de falar olhou pensativamente para o lenço amarrado no pulso, que estava pendendo, e apertou os lábios.
Guild acendeu outro cigarro e esperou, sem aparentar impaciência.
Por fim ela encolheu os ombros nus e disse:
– Não faz diferença. – E virou a cabeça para olhar para trás, inquieta. – Mas será que você... será que podia fazer uma coisa para mim antes de ir? Ande pela casa e veja se está tudo bem. Eu... estou nervosa, perturbada.
– Claro – disse ele de pronto, e depois, sugestivamente: – Se tem alguma coisa a me contar, quanto antes melhor para nós dois.
– Não, não há nada. Eu contei tudo.
– Certo. Você tem uma lanterna?
Ela assentiu e trouxe uma, da sala ao lado.
Quando Guild voltou à sala de estar Elsa Fremont estava parada onde ele a havia deixado. Ela o encarou e a ansiedade desapareceu de seu rosto.
– Foi tolice minha – falou –, mas muito obrigada.
Ele pôs a lanterna sobre a mesa e procurou os cigarros.
– Por que pediu para eu olhar?
Ela sorriu embaraçada e murmurou:
– Foi uma idéia idiota.
– Por que me trouxe para casa?
Ela o encarou com olhos onde o medo ia despertando.
– O... o que você quer dizer? Há...?
Ele assentiu.
– O que é? – gritou ela. – O que você encontrou?
– Encontrei uma coisa errada lá embaixo no porão.
A mão dela foi até a boca.
– Seu irmão – disse ele.
Ela gritou:
– O quê?
– Morto.
A mão sobre a boca abafou a voz dela.
– M... morto?
Ele assentiu.
– Suicídio, pelas aparências. A arma poderia ser a mesma com que a moça foi morta. O... – Ele se interrompeu e segurou o braço dela, enquanto Elsa tentava passar por ele correndo em direção à porta. – Espere. Há muito tempo para olhar. Quero falar com você.
Ela ficou parada imóvel, encarando-o com olhos arregalados, vazios.
– E quero que você fale comigo.
Ela não demonstrou ter ouvido.
– Seu irmão matou Columbia Forrest, não foi?
Os olhos dela mantiveram a expressão vazia. Seus lábios mal se mexeram.
– Seu idiota, seu idiota – murmurou numa voz cansada, chapada.
Ele ainda estava segurando seu braço. Passou a ponta da língua sobre os lábios e perguntou num tom baixo, persuasivo:
– Como sabe que ele não matou?
Elsa começou a tremer.
– Ele não poderia – gritou ela. A vida tinha voltado à sua voz e ao rosto. – Ele não poderia.
– Por quê?
Ela puxou o braço, livrando-se da mão de Guild, e ergueu o rosto na direção dele.
– Ele não poderia, seu idiota. Ele não estava lá. Você pode descobrir facilmente onde ele estava. Você teria descoberto há muito tempo se tivesse algum cérebro. Ele estava numa reunião da Comissão de Boxe naquela tarde, tentando conseguir uma permissão para Sammy. Eles lhe diriam isso. Eles têm um registro.
O homem moreno não pareceu surpreso. Seus olhos azuis estavam meditativos sob as sobrancelhas ligeiramente apertadas.
– Ele não a matou, mas cometeu suicídio – disse devagar, e como se estivesse ouvindo a si mesmo. – Isso também não faz sentido.
3 Sociedade secreta sino-americana fundada na segunda metade do século XIX com o objetivo de
dar apoio aos emigrantes chineses nos Estados Unidos. Acabou se degenerando para gangues envolvidas com o crime organizado. Boo how doy era como chamavam-se os capangas dos líderes das gangues, encarregados do trabalho sujo. (N.E.)
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Título original: Nightmare Town
Publicado originalmente na Coleção L&PM POCKET em dois volumes: A mulher do
bandido e Medo de tiro
Tradução: adquirida conforme acordo com a Editora Record. Heloísa Seixas (Cidade
pesadelo, Detetive de plantão, A mulher do bandido, O homem que matou Dan Odams e Tiros na
noite), Alexandre Raposo (Os ziguezagues da perfídia e O assassino assistente), Roberto Muggiati
(O guardião do seu irmão e Duas facas afiadas), Rafel Cardoso (Morte na Pine Street e O anjo do
segundo andar), Marcos Santarrita (Medo de tiro e Tom, Dick ou Harry), Rubem Mauro Machado
(Uma hora e Quem matou Bob Teal?), Luiz Antonio Aguiar com a colaboração de Marisa Sobral e
Ernani Aguiar (Um homem chamado Spade), Luiz Antonio Aguiar (Foram tantos a viver) e Ivanir
Calado (Só podem enforcá-lo uma vez, Um homem chamado Thin e O primeiro “homem magro”)
Capa: Ivan Pinheiro Machado sobre ilustração de Alex Varenne
Revisão: Renato Deitos e Bianca Pasqualini
CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
H191t
Hammett, Dashiell, 1894-1961
Tiros na noite / Dashiell Hammett; tradução Heloísa Seixas, Alexandre Raposo, Roberto Muggiati... et al. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2013.
(Coleção L&PM POCKET; v.597)
Tradução de: Nightmare Town
Apêndice
ISBN 978.85.254.2981-0
1. Ficção policial americana. I. Seixas, Heloísa, 1952-. II. Raposo, Alexandre. III. Muggiati, Roberto, 1937-. IV. Título. V. Título: A mulher do bandido. VI. Série.
07-0850. CDD: 813
CDU: 821.111.(73)-3
© 1999 by Literary Property Trustees sobre o espólio de Lillian Hellman. © da introdução © 1999 by William F. Nolan
Todos os direitos desta edição reservados a L&PM Editores
Rua Comendador Coruja 326 – Floresta – 90220-180 Porto Alegre – RS – Brasil / Fone: 51.3225.5777 – Fax: 51.3221-5380 PEDIDOS & DEPTO. COMERCIAL: vendas@lpm.com.br FALE CONOSCO: info@lpm.com.br
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Table of Contents
Introdução
Cidade pesadelo
Detetive de plantão
A mulher do bandido
O homem que matou Dan Odams
Tiros na noite
Os ziguezagues da perfídia
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
XI
XII
O assassino assistente
O guardião do seu irmão
Duas facas afiadas
Agradecimentos
Morte na pine street
O anjo do segundo andar
Medo de tiro
Tom, Dick ou Harry
Uma hora
I
II
III
Quem matou Bob Teal?
Um homem chamado Spade
Foram tantos a viver
Só podem enforcá-lo uma vez
Um homem chamado Thin
O primeiro “homem magro”
I
II
III
IV
V
VI
VII
VIII
IX
X
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Você terminou Tiros na Noite
Dashiell Hammett