Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 5 de 44

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Tiros na Noite

O homem que matou Dan Odams

Quando a luz que entrava na cela por sua única janela – um quadrado de mais ou menos um metro, cortado de barras – abrandou-se a ponto de ele não poder mais ver as iniciais e os rabiscos desenhados por seu predecessor na parede em frente, o homem que tinha matado Dan Odams ergueu-se do catre e caminhou até a grade de aço da porta.

– Ei, chefe! – gritou, sua voz troando por entre as paredes estreitas.

Uma cadeira arranhou o chão na parte da frente da construção, passos decididos se aproximaram e o xerife de Jingo surgiu no corredor entre seu escritório e a cela.

– Quero falar com você – disse o homem dentro do cubículo.

O xerife estava perto o suficiente para ver que, na luz mortiça, brilhava o cano de um revólver curto e pesado, ameaçando-o bem junto à cintura do prisioneiro, do lado direito.

Sem esperar pela ordem tão conhecida, o xerife ergueu as mãos, até que suas palmas chegaram à altura das orelhas.

O homem por trás das grades foi lacônico ao sussurrar:

– Vire-se! De costas para a grade!

Quando as costas do xerife se encostaram nas barras de metal, uma mão ergueu-se até sua axila esquerda, puxou o paletó desabotoado e tirou o revólver do coldre.

– Agora, destranque esta porta.

A arma do prisioneiro tinha desaparecido e, no lugar dela, estava o revólver tomado do xerife. Este se virou e baixou uma das mãos, onde tilintavam as chaves, e a porta da cela foi aberta.

O prisioneiro deu alguns passos para trás, convidando o outro com um movimento feito com o cano da arma.

– Deite na cama, de barriga para baixo.

Em silêncio, o xerife obedeceu. O homem que tinha matado Dan Odams inclinou-se sobre ele. O revólver preto e comprido foi baixado numa trajetória rápida, indo parar na base da cabeça do xerife.

Suas pernas se arquearam – e ele ficou imóvel.

Com grande agilidade, mas sem pressa, os dedos do prisioneiro exploraram os outros bolsos, pegando dinheiro, fumo e seda de cigarro. Ele tirou também o coldre que estava encaixado no ombro do xerife, colocando-o em si próprio. E fechou a porta da cela ao sair.

Não havia ninguém no escritório do xerife. A escrivaninha forneceu dois pacotes de fumo, fósforos, uma pistola automática e dois punhados de munição. Pendurados na parede, havia um chapéu, que caiu abaixo das orelhas do prisioneiro, e um impermeável de borracha preta, que ficou comprido e apertado demais nele.

Vestido com a capa e o chapéu, esgueirou-se pela rua.

A chuva, depois de três dias de soberania, tinha parado, por enquanto. Mas a rua principal de Jingo estava deserta – os habitantes da cidade comiam entre cinco e seis da tarde.

Os olhos castanhos e fundos do prisioneiro – cuja animalidade era enfatizada pela falta de cílios – perscrutaram os quatro quarteirões da rua, com suas calçadas de madeira. Havia uma dúzia de automóveis parados, mas nenhum cavalo.

Na primeira esquina, ele saiu da rua principal e, meio quarteirão depois, enveredou por uma ruela enlameada, paralela à primeira. Sob uma marquise, nos fundos de um salão de bilhar, encontrou quatro cavalos, com suas selas e arreios pendurados ali perto. Escolheu um animal atarracado e forte – porque é impossível correr pela lama de Montana –, arreou-o e se dirigiu ao fim da ruela.

Ali, montou na sela e deu as costas para as luzes de Jingo, que começavam a despertar.

Algum tempo depois, remexeu no impermeável e tirou do bolso da cintura a arma com a qual rendera o xerife: uma pistola de mentira, feita de sabão esculpido, coberta com papel laminado tirado de maços de cigarro. Descascou a lâmina, apertou o sabão na mão até que perdesse a forma e atirou-o fora.

Depois de um tempo, o céu clareou e as estrelas apareceram. Ele descobriu que a estrada por onde estava indo levava ao sul. Viajou a noite toda, tocando sem trégua o cavalo pelo chão úmido e arenoso. Quando o dia raiou, o animal não podia mais continuar se não descansasse. O homem desceu uma ravina – por segurança, longe da estrada – e levou-o para a sombra de uns choupos.

Depois, subiu a encosta e deitou-se no chão encharcado, os olhos avermelhados e sem cílios presos na paisagem que acabara de percorrer: colinas tintas de negro, verde e cinza, cujos domínios eram divididos entre o solo molhado, a grama nascida e a neve suja – esses três elementos vencidos aqui e ali pela tira sépia da estrada do condado, serpenteando até perder-se de vista.

Não viu ninguém enquanto permaneceu ali, mas a região estava por demais coalhada de marcas humanas para que ele se sentisse seguro. Cercas de arame farpado, na altura do ombro, ladeando a estrada, um atalho aberto na encosta de uma colina próxima, postes telefônicos com seus braços abertos contra o céu cinzento.

Lá pelo meio-dia ele voltou a selar o cavalo e seguiu pela ravina. Vários quilômetros à frente, deu com uma fieira de pequenos postes sustentando um fio de telefone. Saiu do fundo da ravina, localizou o rancho para onde iam os fios, contornou-o e foi em frente.

Mas, à tarde, já não teve tanta sorte.

Estava mais desatento – não via fios telefônicos havia mais de uma hora – e, de repente, ao atravessar uma colina, se encontrou praticamente no meio de um conjunto de construções. Indo em direção a elas, partindo do lado oposto, havia um fio.

O homem que tinha matado Dan Odams parou, desviou para outra colina e, quando descia, do outro lado, um rifle disparou às suas costas, do ponto por onde tinha passado.

Ele se inclinou, enfiando o nariz no lombo do cavalo e açoitando-o com pés e mãos para que corresse. O rifle disparou de novo.

O homem rolou do cavalo quando este caiu, e continuou rolando até que os montes de grama e artemísia o fizeram parar. Então engatinhou, escalou o morro e foi em frente.

O rifle não voltou a atirar. E ele não tentou localizá-lo.

Desviou-se do sul e seguiu rumo a oeste, suas pernas curtas, pesadas, empurrando-o para a frente, onde o monte Tiger se recortava contra o céu como um imenso gato preto e verde se arrastando, com tiras de branco sujo marcando os pontos onde a neve se acumulava nas ravinas e fissuras.

O homem sentiu uma dormência no ombro esquerdo, dormência que logo foi substituída por uma dor que queimava. O sangue escorria por seu braço, manchando-lhe a mão suja de lama. Ele parou para abrir o casaco e a camisa, ajeitando o curativo sobre o ferimento no ombro – a queda do cavalo reabrira a ferida, fazendo-a voltar a sangrar. E foi em frente.

A primeira estrada que encontrou subia em direção ao monte Tiger. Seguiu por ela, abrindo caminho a custo pelo chão de lama, melado e pegajoso.

Somente numa ocasião ele quebrou o silêncio que vinha mantendo desde que saíra da prisão em Jingo. Parou no meio do caminho, com as pernas bem abertas e, com olhos injetados, olhou em torno, de um lado a outro, do chão até o céu, e em seguida, sem qualquer emoção, mas convicto, maldisse a lama, a cerca, os fios de telefone, o homem cujo rifle o deixara a pé, as cotovias do prado cujo canto jocoso, de notas flauteadas, parecia uma provocação permanente acima de sua cabeça.

Depois foi em frente, parando de vez em quando para tirar o excesso de lama das botas, aproveitando cada alto de colina para perscrutar o campo que deixava para trás, em busca de sinais de perseguição.

A chuva voltou a cair, cobrindo os cabelos ralos, empapados de barro – o chapéu se fora junto com a montaria. O impermeável, que mal cabia nele, toldava-lhe os movimentos, apertando-o nas ancas, mas era necessário para proteger da chuva o ferimento que tinha no ombro.

Por duas vezes, teve de sair da estrada para deixar passar veículos – de uma vez um Ford fumacento, de outra uma carroça meio cheia de feno, que passou sacolejando, puxada por quatro cavalos.

O melhor caminho era através das terras cercadas, onde estaria menos exposto. Havia casas aqui e ali, com espaços de alguns quilômetros entre elas. E a perda do cavalo era para ele a prova de que os fios telefônicos funcionavam. Ele não comia desde o meio-dia da véspera, mas – embora aparentemente não estivesse sendo seguido – não podia fazer pilhagens ali.

A noite caía quando ele deixou a estrada e começou a subir a encosta do monte Tiger. Quando estava completamente escuro, parou. A chuva continuou por toda a noite. Ele se sentou e enfrentou-a – encostado a uma grande pedra, com o impermeável na cabeça.

A choupana, descascada e em ruínas, jazia numa ponta da ravina. Acima do telhado, havia um fio de fumaça parado no ar, encharcado e sem vida, que sequer tentava elevar-se, sendo afinal transformado em nada pela chuva. As estruturas em torno da cabana e de sua chaminé tinham ainda menos encanto. O conjunto parecia ter sucumbido ao terror que sentia ante o imenso gato formado pela colina, em cujo flanco se encontrava.

Mas para os olhos vermelhos do homem que tinha matado Dan Odams – de bruços no topo da colina diante da qual se estendia a ravina – a falta de fios telefônicos dava àquela cabana miserável uma beleza que transcendia arquitetos ou pintores.

Naquela manhã, enquanto ele observava, por duas vezes uma mulher estivera à vista. De uma vez, ela saíra da choupana, fora até um outro galpão e depois voltara. Da segunda vez, surgira na porta e ali ficara por um instante, observando a ravina. Era uma mulher pequena, de compleição e idade impossíveis de determinar em meio à chuva, e vestia um vestido simples, cinza.

Mais tarde, um garoto de uns dez anos surgiu dos fundos da casa, os braços carregando uma enorme pilha de lenha, e desapareceu.

Depois de algum tempo, o homem saiu de seu esconderijo no topo da colina, deu a volta e voltou a observar a cabana, agora pelos fundos.

Meia hora tinha se passado. Viu o garoto carregando água de um poço logo abaixo, mas não voltou a ver a mulher.

O fugitivo se aproximou da casa com cuidado, suas pernas carregando-o com movimentos rígidos, sem elasticidade. De vez em quando, os pés lhe faltavam. Mas sob a camada de barro e a barba de três dias, suas mandíbulas vibravam, e não havia nelas nenhum sinal de fraqueza.

Mantendo-se a distância, ele explorou as construções externas – estruturas miseráveis e frágeis, oferecendo uma pretensa e falsa proteção a uma égua caquética e a uma confusão de ferramentas do campo, todas tendo saído perdendo em sua luta contra a terra. Apenas a aplicação generosa, embora não especialmente inteligente, do material, que valia a galpões como aquele a descrição de “apetrechos de amarrar feno”, salvava-os da completa derrocada.

Em nenhum ponto do terreno havia pegadas maiores que as do pé da mulher ou do garoto de dez ou doze anos.

O fugitivo atravessou o quintal da casa, dando passadas largas para disfarçar o tremor em seu caminhar. Com o ritmo calmo e inexorável das batidas de um relógio, grossas gotas de sangue pingavam-lhe dos dedos da mão esquerda, sendo marteladas no chão pegajoso pela chuva que caía.

Através do vidro sujo de uma janela, ele viu a mulher e o garoto, sentados juntos num catre, de frente para a porta.

O rosto do garoto estava lívido quando o homem escancarou a porta e entrou na cabana sem divisões internas, e seus lábios tremiam. Mas o rosto fino e pálido da mulher não exibia qualquer expressão – exceto o fato de mostrar, pela falta de surpresa, que ela o vira aproximar-se. Sentada ereta na cama, a mulher trazia as mãos vazias e imóveis sobre o colo e, em seus olhos apagados, não havia medo ou interesse.

O homem ficou parado por um instante – junto à porta, de um dos lados – como uma estátua grotesca de barro modelado. Baixo, corpulento, com seus ombros largos e encurvados. Nada se via de sua roupa ou cabelo, completamente emplastrados de lama, pouco se vendo do rosto e das mãos. O revólver do xerife, limpo e seco em sua mão, impunha-se por virtude própria sobre a pureza discrepante e a implacabilidade exagerada da cena.

Os olhos do fugitivo perscrutaram a sala: dois catres encostados à parede nua, de pranchas de madeira, uma mesa tosca de madeira no centro, cadeiras bambas de cozinha aqui e ali. Uma escrivaninha velha e arranhada, um baú, uma fieira de cabides cheios de roupas femininas e masculinas misturadas, uma pilha de sapatos a um canto, uma porta aberta dando para uma cozinha minúscula.

O homem caminhou até a porta da cozinha, sendo seguido pelo olhar da mulher.

Estava vazia. Ele interpelou a mulher.

– Onde está seu homem?

– Foi-se.

– Volta quando?

– Não volta.

A voz neutra e sem expressão da mulher parecia confundir o fugitivo, da mesma forma que sua frieza ao vê-lo entrar. Ele franziu a testa, virando os olhos – agora mais injetados de sangue do que nunca – do rosto dela para o do garoto, e depois de volta ao dela.

– E o que isso quer dizer? – perguntou.

– Quer dizer que ele se cansou da vida no rancho.

Ele mordeu os lábios, pensativo. Em seguida foi até o canto onde estava a pilha de sapatos. Havia dois pares de sapatos masculinos, gastos – secos, sem qualquer sinal de lama fresca.

Ele se endireitou, repôs o revólver no coldre e, com um gesto desengonçado, tirou o impermeável.

– Me arruma qualquer coisa para comer.

A mulher saiu do catre sem dizer palavra e foi até a cozinha. O fugitivo empurrou o menino atrás dela e ficou esperando na porta enquanto ela fazia café e preparava bolo de chapa com bacon. Depois, voltaram para a sala. A mulher botou a comida na mesa e sentou-se outra vez na cama, com o garoto junto dela.

O homem engoliu a comida sem olhar – seus olhos estavam ocupados com a porta, a janela, a mulher, o garoto, o revólver junto do prato. O sangue continuava pingando de sua mão esquerda, manchando a mesa e o chão. Pedaços de barro se desprendiam de seu cabelo, do rosto e das mãos, caindo no prato, mas ele nem parecia notar.

A fome aplacada, enrolou e acendeu um cigarro, a mão esquerda desempenhando mal seu papel.

Pela primeira vez, a mulher pareceu notar o sangue. Veio até junto dele.

– Você está sangrando. Deixe eu fazer um curativo.

Os olhos dele – agora pesados de fadiga e pela fome satisfeita – observaram-na com suspeita. Em seguida, ele se reclinou na cadeira e afrouxou as roupas, mostrando o ferimento de bala feito uma semana antes.

Ela trouxe água e toalhas, limpando o ferimento e pondo-lhe uma atadura. Nenhum dos dois disse nada até que ela voltou a sentar-se na cama.

Então:

– Você tem recebido alguma visita?

– Não vejo ninguém há seis ou sete semanas.

– Onde fica o telefone mais próximo?

– Em Nobel, oito milhas ravina acima.

– Você tem mais algum cavalo além daquele no telheiro?

– Não.

Ele se levantou, com ar cansado, e foi até a escrivaninha, puxando as gavetas e enfiando as mãos lá dentro. Na primeira, encontrou um revólver e enfiou-o no bolso. No baú não achou nada. Atrás das roupas penduradas na parede, encontrou um rifle. Nas camas, não havia armas escondidas.

Ele pegou duas cobertas de uma das camas, o rifle e o impermeável que estava usando. Cambaleava quando se dirigiu à porta.

– Vou dormir um pouco – disse, ríspido –, lá fora, no telheiro onde fica o cavalo. De vez em quando vou dar um pulo aqui para ver como estão as coisas, e não quero dar por falta de ninguém. Entenderam?

A mulher assentiu, fazendo uma sugestão.

– Se algum estranho aparecer, quer que eu o acorde antes que eles vejam você?

Os olhos dele, embotados, ganharam vida e ele caminhou sem vacilar até ela, olhando-a face a face, como se tentasse perscrutar o fundo daqueles olhos apagados.

– Eu matei um cara em Jingo na semana passada – disse depois de um tempo, falando devagar, num tom pausado que era ao mesmo tempo cauteloso e ameaçador. – Foi legítima defesa. Ele me pegou no ombro antes, mas depois eu o matei. Só que ele era de Jingo e eu não. O melhor que eu poderia esperar era o pior possível. Surgiu uma chance de escapar antes que me levassem para Great Falls e eu não podia perder. E não estou com a menor vontade de ser levado de volta para lá para ser enforcado. Não pretendo ficar aqui por muito tempo, mas enquanto ficar...

A mulher assentiu de novo.

Ele voltou a franzir a testa para ela e saiu da cabana.

Amarrou o cavalo num canto do galpão com uma corda curta e estendeu as cobertas entre ele e a porta. Depois, com o revólver do xerife na mão, deitou-se e dormiu.

A tarde já ia alta quando ele acordou, e a chuva continuava caindo. Espiou o quintal vazio, com todo o cuidado, observando bem a casa antes de entrar.

A mulher tinha varrido e arrumado a sala. Pusera um vestido limpo, que sucessivas lavagens tinham deixado de um rosa claro e desbotado. Escovara e ajeitara o cabelo. Ergueu o rosto da costura e olhou para a porta, e seu rosto, embora marcado pelo trabalho duro, parecia menos pálido do que antes.

– Onde está o garoto? – disparou o homem.

Ela esticou o polegar por cima do ombro.

– Lá em cima, na colina. Mandei-o vigiar a ravina.

Ele estreitou os olhos, saindo da casa. Observou a colina através da chuva e viu a silhueta do garoto, deitado de barriga para baixo debaixo de uma árvore atarracada, um cedro vermelho, olhando em direção ao leste. E o homem voltou para dentro.

– Como está o ombro? – perguntou a mulher.

Ele levantou o braço, experimentando.

– Melhor. Embrulhe alguma coisa de comer para eu levar. Vou embora.

– Bobagem – disse ela, com abatimento, enquanto entrava na cozinha. – Você faria melhor se ficasse aqui até que seu ombro estivesse bom para enfrentar a viagem.

– Aqui é muito perto de Jingo.

– Ninguém vai enfrentar toda essa lama para vir atrás de você. Um cavalo não conseguiria passar, muito menos um carro. Não pensa que iam enfrentar toda essa lama para vir atrás de você, se soubessem onde está, pensa? Além do mais, a chuva não vai fazer bem ao seu ombro.

Ela se abaixou para pegar um saco no chão. Sob o vestido rosa e fino, delinearam-se contra a parede seus quadris, a cintura e as pernas.

Quando se endireitou e viu que ele a olhava, ela piscou os olhos, corando e entreabrindo de leve os lábios.

O homem encostou-se ao umbral da porta e acariciou a barba cheia de lama com o dedo grosso.

– Talvez você tenha razão – disse.

Ela pôs de lado a comida que estava arrumando, pegou num canto um balde de metal e foi três vezes à fonte, enchendo uma banheira de ferro que tinha encaixada no fogão. O homem continuou de pé, na porta, olhando.

Ela avivou o fogo, foi até a sala, pegou na cômoda roupas de baixo, uma camisa azul e um par de meias, puxou de um cabide um par de calças cinzentas e tirou da pilha de sapatos uns chinelos de usar em casa. Pôs as roupas sobre uma cadeira, na cozinha.

Depois saiu, fechando a porta entre a cozinha e a sala.

Enquanto o homem se despia e se lavava, ouviu-a cantarolando baixinho. Por duas vezes, foi pé ante pé até a porta, espiando através da fresta junto ao umbral. Nas duas vezes viu-a sentada na cama, debruçada sobre a costura, o rosto ainda afogueado.

Estava com uma perna enfiada na calça que a mulher lhe dera quando ela parou de cantarolar de repente.

Apanhou rápido o revólver que ficara sobre uma cadeira, bem à mão, e foi até a porta, pisando na bainha da calça, que se arrastava no chão atrás dos calcanhares. Encostando-se à parede, ele espiou pela fresta.

Na porta da frente da casa, estava de pé um jovem alto, vestido com um impermeável que brilhava, encharcado. Nas mãos do jovem, estava uma espingarda de cano duplo, as bocas gêmeas como olhos mortos e malignos focadas no centro da porta entre a sala e a cozinha.

O homem na cozinha ergueu o revólver, o dedo polegar puxando o cão da arma com a mesma precisão mecânica de quem usa pistolas automáticas.

A porta dos fundos da cozinha foi escancarada.

– Baixe a arma!

O fugitivo, girando ante o som da porta que se abria, já estava frente a frente com o novo inimigo antes mesmo que a ordem fosse proferida.

Duas armas rugiram ao mesmo tempo.

Mas os pés do fugitivo, quando ele se virou, ficaram embaraçados na bainha das calças. As calças tinham sido sua armadilha. Tinha caído de joelhos no instante exato em que as duas armas foram disparadas.

A bala dele se perdeu no espaço acima do ombro do homem que estava na porta. A bala deste cravou-se na parede apenas um centímetro acima da cabeça do fugitivo, que se jogava ao chão.

Lutando de joelhos, o fugitivo disparou uma segunda vez.

O homem na porta balançou e deu um giro para o lado.

Enquanto ele se endireitava, o dedo indicador do fugitivo pressionou mais uma vez o gatilho...

E da porta entre a cozinha e a sala ouviu-se o disparo de uma arma.

O fugitivo pôs-se de pé num salto, a surpresa estampada no rosto, ficou ereto por um momento e desabou no chão.

O jovem com a espingarda veio em direção ao homem que estava encostado na porta, com a mão espalmada ao longo do corpo.

– Você se feriu, Dick?

– Pegou de raspão, eu acho... não é nada. Parece que você o matou, Bob.

– Parece. Foi um tiro certeiro!

A mulher chegou à cozinha.

– Onde está Buddy?

– Está tudo bem com o garoto, sra. Odams – garantiu Bob. – Mas ele estava cansado de correr na lama e minha mãe botou-o na cama.

O homem que estava caído no chão emitiu um som, e eles viram que seus olhos estavam abertos.

A sra. Odams e Bob debruçaram-se sobre ele, mas o homem fez sinal que parassem quando eles tentaram movê-lo para examinar o ferimento aberto pela espingarda em suas costas.

– Não adianta – protestou, o sangue grosso escorrendo do canto da boca enquanto falava. – Me deixem quieto.

Em seguida, os olhos dele – a vermelhidão selvagem que havia neles agora vidrada – procuraram os da mulher.

– Você... é mulher... de Dan... Odams? – conseguiu perguntar.

Havia algo de desafiador – prova de que ela sentia necessidade de justificar-se – em sua resposta.

– Sou.

O rosto dele – de feições grossas e rugas profundas, agora que a lama se fora – nada revelou do que se passava em sua mente.

– Paspalho – murmurou para si próprio depois de uma pausa, os olhos perdidos na colina em cujo topo vira o que acreditava ser um garoto agachado.

Ela assentiu.

O homem que tinha matado Dan Odams virou o rosto e cuspiu o sangue que lhe enchia a boca. Depois, voltou a olhá-la.

– Boa menina – disse, com toda a clareza, e em seguida morreu.

 

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