Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 14 de 44

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Tiros na Noite

Capítulo VIII

Ledwich dobrou a esquina. Bob seguiu atrás dele.

Cinco minutos depois, Bob já estava de volta.

– Está tirando o carro da garagem.

Corri ao telefone e pedi um carro de passeio o mais rápido possível.

– Ele voltou!

Juntei-me a Bob na janela ainda a tempo de ver Ledwich entrando em casa, o carro estacionado ao longo do meio-fio. Alguns minutos depois, Boyd e Ledwich saíram juntos. Boyd se apoiava pesadamente em Ledwich, que o sustentava com um braço ao redor dos ombros. Não podíamos ver os seus rostos, mas o homenzinho estava doente, bêbado ou drogado.

Ledwich ajudou a embarcar o colega no automóvel. Impotentes, acompanhamos a luz vermelha traseira do veículo até ela desaparecer por completo, alguns quarteirões adiante. O carro que eu pedira chegou vinte minutos depois, de modo que dispensamos os seus serviços.

Pouco depois das três da manhã, Ledwich voltou. Estava só, a pé e vinha da garagem. Estivera fora durante exatamente duas horas.

VIII

Nem eu nem Bob voltamos para casa naquela noite. Dormimos no apartamento na Laguna Street.

Pela manhã, Bob foi até a mercearia da esquina para comprar o desjejum e trouxe um matutino com ele.

Eu preparava o desjejum enquanto ele dividia a atenção entre a portaria de Ledwich e o jornal.

– Ei! – disse ele subitamente. – Veja isso!

Saí da cozinha com a mão cheia de fatias de bacon.

– O quê?

– Ouça! “Mistério no Assassinato do Parque: cedo pela manhã o corpo de um homem não identificado foi encontrado próximo a uma pista de rolamento na Golden Gate Park. O pescoço estava quebrado e, de acordo com a polícia, a falta de ferimentos no corpo e o estado de suas roupas e do solo nas proximidades do local onde foi encontrado indicam que a vítima não morreu em uma queda, nem por atropelamento. Acredita-se que o homem foi morto e somente então levado de automóvel até o parque, onde foi abandonado.”

– Boyd! – disse eu.

– Aposto! – concordou Bob.

Pouco depois, já no necrotério, descobrimos que estávamos certos. O morto era John Boyd.

– Ele já estava morto quando Ledwich o trouxe para fora de casa – disse Bob.

– Estava – confirmei. – Boyd era pequeno e não seria grande coisa para um galalau como Ledwich levá-lo com apenas um braço da porta até o carro, fingindo que o amparava como se faz com um bêbado. Vamos descobrir o que a polícia sabe a respeito, se é que sabe de alguma coisa.

Na delegacia, procuramos O’Gar, o sargento-detetive encarregado de homicídios, um bom sujeito para se trabalhar.

– Esse morto encontrado no parque – perguntei. – Sabe alguma coisa sobre ele?

O’Gar ajeitou o chapéu de condestável de aldeia – um chapéu grande e preto com uma aba frouxa mais adequada a um espetáculo de variedades –, coçou a cabeça de obus e franziu as sobrancelhas, como se desconfiasse que eu estava tentando lhe pregar uma peça.

– Nada a não ser que está morto – disse por fim.

– Gostaria de saber com quem esteve pouco antes de morrer?

– Certamente não iria atrapalhar saber quem o matou.

– Que tal isso: seu nome é John Boyd e estava morando num hotel ali na esquina. A última pessoa com quem esteve foi um sujeito que tem ligações com a primeira esposa do dr. Estep. Você sabe, aquele dr. Estep cuja segunda esposa vocês estão tentando incriminar de homicídio. Parece interessante?

– Sim. Por onde começamos?

– Esse Ledwich, o cara que foi visto pela última vez com Boyd, é um sujeito durão. Em vez dele, seria interessante procurar a mulher, a primeira esposa do dr. Estep. Há uma chance de Boyd ser parceiro dela e, nesse caso, quando ela souber que Ledwich apagou o cara, ela pode abrir o bico e dar o serviço para nós. Por outro lado, se ela e Ledwich estiverem juntos contra Boyd, seria bom tê-la em lugar seguro antes de deter Ledwich. De qualquer modo, não quero pressioná-lo antes de hoje à noite. Tenho um encontro com ele e vou tentar envolvê-lo primeiro.

Bob Teal dirigiu-se à porta enquanto dizia por sobre o ombro:

– Vou ficar de olho nele até você chegar.

– Bom – disse eu. – Não deixe que saia da cidade. Se tentar escapar, enquadre-o.

No saguão do Hotel Montgomery, O’Gar e eu falamos primeiramente com Dick Foley. Ele nos disse que a mulher ainda estava lá e que pedira o desjejum no quarto. Não recebera cartas, telegramas nem telefonemas desde que começara a ser vigiada.

Lancei mão de Stacey novamente.

– Vamos subir para falar com a sra. Estep. Talvez a levemos conosco. Poderia enviar uma camareira para ver se ela já está de pé e vestida? Não queremos irromper antes da hora, quando ela ainda estiver deitada ou apenas parcialmente vestida.

Esperamos cerca de quinze minutos e, em seguida, Stacey nos informou que a sra. Estep estava de pé e vestida.

Subimos até o quarto, trazendo a camareira conosco.

A camareira bateu à porta.

– Quem é? – perguntou uma voz irritadiça.

– A camareira. Preciso...

A chave girou e, furiosa, a sra. Estep abriu a porta. Avançamos, O’Gar brandindo o distintivo.

– Somos da central de polícia – disse ele. – Queremos falar com você.

O pé de O’Gar impedia que ela fechasse a porta enquanto avançávamos, de modo que não lhe restou alternativa senão recuar, permitindo nossa entrada; o que fez sem a menor boa vontade.

Fechamos a porta e, então, soltei a minha bomba:

– Sra. Estep, por que Jake Ledwich matou John Boyd?

As expressões de seu rosto sucederam-se na seguinte ordem: alarme ao ouvir o nome de Ledwich, medo ao ouvir a palavra “matou”, mas o nome de John Boyd apenas a deixou confusa.

– Por que quem fez o quê? – balbuciou para ganhar tempo.

– Sim – disse eu. – Por que Jake matou Boyd na noite passada e depois abandonou o corpo no parque?

Outra seqüência de expressões: confusão crescente até eu quase terminar a frase e, então, a súbita compreensão de algo, seguido do inevitável tatear em busca de equilíbrio. Obviamente essas expressões não eram assim tão evidentes, mas perfeitamente detectáveis por qualquer um que tenha jogado pôquer, seja com cartas ou com pessoas.

O que concluí de tudo isso é que Boyd não estava trabalhando com ela e que, embora ela soubesse que Ledwich havia matado alguém algum dia, não fora Boyd e não fora na noite anterior. Quem, então? E quando? O dr. Estep? Dificilmente! Não havia a menor chance de ele ter sido morto, se é que foi morto, por outra pessoa que não a sua segunda mulher. As provas não podiam ser interpretadas de outro modo.

Então quem Ledwich matou antes de matar Boyd? Seria ele um matador de aluguel?

Todas essas coisas passavam pela minha cabeça enquanto a sra. Estep dizia:

– Isso é um absurdo! A idéia de virem até aqui e...

Ela falou durante cinco minutos ininterruptos, as palavras chiando por entre os lábios empedernidos; mas as palavras não faziam sentido. Falava para ganhar tempo e pensar no melhor que tinha a fazer.

E antes que pudéssemos interrompê-la, ela chegou onde queria: o silêncio!

Não pudemos tirar nenhuma outra palavra dela; e essa é a única maneira de alguém vencer o jogo do interrogatório. O suspeito comum tende a contestar a própria prisão; e não importa quão astuto ou quão mentiroso ele é. Se ele falar e você jogar as cartas certas, pode pegá-lo, pode fazer com que ele o ajude a condenar a si mesmo. Mas se ele não falar, nada se pode fazer.

E foi assim com aquela mulher. Ela se recusou a prestar atenção às nossas perguntas. Não falava, não balançava a cabeça, não resmungava, nem mexia os braços em resposta. Ela nos deu todo um repertório de expressões faciais, bastante sinceras, é verdade, mas não conseguimos a informação verbal que queríamos.

Não entregamos os pontos tão facilmente e a pressionamos durante três belas e ininterruptas horas. Vociferamos, adulamos, ameaçamos e, em dado momento, acho que até dançamos. Mas não adiantou. Por fim, decidimos levá-la conosco. Nada tínhamos contra ela, mas não podíamos deixá-la solta enquanto não prendêssemos Ledwich.

Na delegacia, não a fichamos. Em vez disso, a mantivemos como testemunha material, deixando-a numa sala aos cuidados de uma matrona e de um dos homens de O’Gar, que veriam o que poderiam tirar dela enquanto íamos atrás de Ledwich. É claro que a revistamos tão logo chegou; e, como esperávamos, ela nada tinha de importante.