Tiros na Noite
Capítulo VII
Antes de me deitar, falei com Dick Foley pelo telefone. Disse-me que a sra. Estep nada fizera de importante durante o dia e que não recebera nem cartas, nem telefonemas. Em resposta, disse-lhe para deixar de segui-la, até eu terminar com John Boyd.
Eu temia que Boyd voltasse a atenção para a mulher, e eu não queria que ele descobrisse que ela estava sendo seguida. Já havia instruído Bob Teal a simplesmente observar o apartamento de Ledwich – ver quando ele chegava, quando e com quem saía – e agora dizia para Dick fazer o mesmo com a mulher.
Minha suspeita era a de que ela e esse Boyd estavam trabalhando juntos – que ele estava seguindo Ledwich para ela, de modo que o grandalhão não pudesse traí-la. Mas isso era apenas uma suspeita, e eu não aposto muito em minhas suspeitas.
VII
Na manhã seguinte, vesti roupas e sapatos do exército, um boné velho e desbotado e um paletó que não chegava a ser andrajoso mas que era surrado o bastante para não sobressair ao lado das roupas velhas de John Boyd.
Passava um pouco das nove horas quando Boyd deixou o hotel e fez o desjejum no pé-sujo onde comera na noite anterior. Depois, subiu até a Laguna Street e escolheu uma esquina para esperar por Jacob Ledwich.
Esperou um bocado. Em realidade, esperou o dia inteiro, já que Ledwich só apareceu depois que escureceu. Mas o homenzinho era paciente, diria eu em seu favor. Estava inquieto, repousava ora sobre uma perna, ora sobre outra, e chegou a sentar no meio-fio durante algum tempo. Mas logo se levantou.
De minha parte, relaxei. O apartamento mobiliado que Bob Teal alugara para vigiar a porta de Ledwich era térreo, do outro lado da rua, e apenas um pouco adiante da esquina onde Boyd esperava. Portanto, podíamos observar Boyd e a portaria em um relance.
Bob e eu estivemos sentados, fumando e conversando o dia inteiro, revezando-nos na observação do homenzinho irrequieto e da porta de Ledwich.
A noite já havia caído quando Ledwich saiu e dirigiu-se à linha do bonde. Ganhei a rua e nossa procissão recomeçou: Ledwich na frente, Boyd atrás dele e nós seguindo Boyd.
Meio quarteirão depois, eu tive uma idéia. Não sou o que se pode chamar de um pensador brilhante – as coisas que consigo geralmente são fruto de paciência, destreza e persistência sem a menor imaginação, ajudadas aqui e ali, talvez, por um pouco de sorte –, mas também tenho os meus surtos de inteligência. E esse foi um deles.
Ledwich estava um quarteirão à minha frente; Boyd à metade disso. Aumentando as passadas, ultrapassei Boyd e alcancei Ledwich. Daí, reduzi o passo e comecei a andar ao seu lado, embora sem aparentar que tinha qualquer interesse nele.
– Jake – disse eu sem me voltar. – Tem um sujeito seguindo você.
O grandalhão quase estragou tudo ao parar de súbito; mas se recuperou a tempo e continuou a caminhar ao meu lado.
– Quem diabos é você? – rosnou.
– Não banque o nervosinho – respondi, sempre andando e olhando à frente. – Nada tenho com isso, mas eu estava subindo a rua quando você saiu e vi esse cara se escondendo atrás de um poste quando você passou. Depois, começou a segui-lo.
Ele caiu.
– Tem certeza?
– Absoluta! Tudo o que tem a fazer é dobrar a próxima esquina e esperar.
Eu estava dois ou três passos adiante dele. Dobrei a esquina e me encostei em uma parede de tijolos. Ledwich encostou-se ao meu lado.
– Quer ajuda? – disse eu, sorrindo um sorriso que seria imprudente não parecesse tão forçado.
Sua boquinha era horrível e seus olhos azuis duros como seixos.
Levantei a aba do paletó e mostrei a coronha de minha arma.
– Quer o ferro emprestado?
– Não.
Obviamente, tentava decifrar quem eu era.
– Você se incomoda se eu ficar por perto para me divertir um pouco? – perguntei, debochado.
Não houve tempo para a resposta. Boyd havia acelerado os passos e agora dobrava a esquina às pressas, o nariz nervoso como o de um cão rastreador.
Ledwich posicionou-se no centro da calçada tão subitamente que o homenzinho chegou a emitir um grunhido quando se chocou contra ele. Olharam-se brevemente e houve reconhecimento entre os dois.
Ledwich esticou a manzorra e pegou o outro pelo ombro.
– Por que está me seguindo, seu rato? Não disse para que ficasse longe de “Frisco”?
– Ai, Jake! – implorou Boyd. – Não queria fazer mal, só pensei que...
Ledwich o silenciou com um sacolejo e voltou-se para mim. – É amigo meu – disse ele com um sorriso de desdém.
Seus olhos novamente assumiram uma expressão desconfiada e me mediram do boné aos sapatos.
– Como sabe o meu nome? – perguntou.
– Um cara famoso como você? – respondi com surpresa debochada.
– Deixe de palhaçada! – disse ele. E deu um passo ameaçador em minha direção. – Como sabe o meu nome?
– Não é da sua conta – rebati.
Minha atitude pareceu tê-lo acalmado. Seu rosto assumiu uma expressão menos desconfiada.
– Bem – disse ele lentamente –, devo-lhe esse favor. Como está de grana?
– Já estive mais lambuzado. – “Lambuzado” é gíria para “próspero” na Costa Oeste.
Ele olhou para mim e para Boyd enquanto pensava.
– Conhece o Círculo? – perguntou.
Assenti. O submundo chama o restaurante de Guapo Healey de “O Círculo”.
– Se me encontrar lá amanhã à noite, talvez eu possa lhe arranjar um trocado.
– Nada tão exposto! – disse eu enquanto balançava a cabeça em negativa. – Não posso dar na vista.
Não havia a menor chance de eu encontrá-lo lá. Guapo Healey e metade de seus freqüentadores me conheciam como detetive. Nada havia a fazer a não ser tentar parecer um vigarista com bons motivos para se manter longe de lugares badalados durante algum tempo.
Aparentemente deu certo. Ele pensou um pouco e depois me deu o seu endereço na Laguna Street.
– Apareça amanhã a essa mesma hora e talvez eu lhe faça uma proposta... se você tiver coragem.
– Vou pensar – disse eu, sem me comprometer. E tomei o caminho da rua.
– Um minuto – disse.
Voltei a encará-lo e ele perguntou:
– Quem é você?
– Wisher – respondi. – Shine, se você quiser saber o primeiro nome.
– Shine Wisher – repetiu. – Não me lembro de ter ouvido esse nome antes.
Ficaria surpreso se ele tivesse. Eu o havia inventado havia uns quinze minutos.
– Não precisa sair gritando o meu nome por aí – disse eu, amargo. – Assim, toda a vizinhança vai acabar se lembrando de tê-lo ouvido algum dia.
E com essa eu me fui, nada insatisfeito comigo mesmo. Acusando Boyd, fiz com que Ledwich ficasse me devendo um favor e me aceitasse, ao menos por enquanto, como um colega vigarista. E ao fazer nenhum esforço aparente para cair em suas graças acabei conseguindo exatamente isso. Teria um encontro com ele no dia seguinte em que poderia ganhar – ilegalmente, sem dúvida – “algum trocado”.
Havia uma possibilidade de essa proposta nada ter a ver com o caso Estep. Mas talvez tivesse. E tivesse ou não a ver com o caso, eu havia conseguido me intrometer um pouco nos negócios de Jake Ledwich.
Perambulei cerca de meia hora e depois voltei ao apartamento de Bob Teal.
– Ledwich voltou?
– Sim – respondeu Bob. – E com aquele baixinho. Entraram há cerca de meia hora.
– Bom! Chegou alguma mulher?
– Não.
Eu esperava que a sra. Estep viesse à noite, mas ela não apareceu. Bob e eu sentamos e conversamos enquanto vigiávamos a porta de Ledwich. E as horas passaram.
À uma da manhã, Ledwich saiu de casa.
– Vou segui-lo só para ver o que acontece – disse Bob enquanto pegava o boné.