Tiros na Noite
Capítulo VI
Ele caminhava para cima e para baixo em seu escritório, voz alterada pela emoção. Saí dali rapidamente.
VI
Do escritório do advogado voltei para a agência, onde soube que Bob Teal havia telefonado para dar o endereço de um apartamento mobiliado que alugara na Laguna Street. Tomei um bonde e fui dar uma olhada.
Mas não pude ir tão longe.
Logo após saltar do bonde, descendo a Laguna Street, vi Bob Teal caminhando em minha direção. Entre mim e Bob, igualmente vindo em minha direção, havia um homem que reconheci como Jacob Ledwich: um grandalhão com uma caraça vermelha ao redor de uma boquinha.
Continuei caminhando rua abaixo e ultrapassei Ledwich e Bob, aparentemente sem lhes dar atenção. Na esquina seguinte, parei para enrolar um cigarro e esticar um olhar à dupla.
Então me dei conta de tudo!
Ledwich havia parado em uma barraca de cigarros. Conhecendo o seu mister, Bob Teal o ultrapassou, caminhando normalmente rua acima.
Imaginava que ou Ledwich havia saído para comprar cigarros e que voltaria para o apartamento em seguida ou que, após a compra, iria até a linha do bonde. Em qualquer um dos casos, Bob esperaria.
Contudo, quando Ledwich parou diante da barraca de cigarros, um homem no outro lado da rua subitamente se escondeu no vão de uma porta e ali ficou, oculto pelas sombras. Esse homem, lembrei-me então, caminhava no lado oposto da rua onde estavam Bob e Ledwich e vinha na mesma direção.
Ele também perseguia Ledwich.
Quando Ledwich terminou de fazer sua compra na barraca, Bob já havia alcançado a linha de bonde mais próxima, na Sutter Street. Ledwich seguiu para lá. O homem escondido no vão da porta saiu atrás dele. Eu o segui.
Um bonde descia Sutter Street quando cheguei à esquina. Ledwich e eu subimos ao mesmo tempo. Alguns metros mais atrás, o perseguidor misterioso fingiu estar dando o nó no cadarço do sapato até que o bonde começou a se mover e ele o alcançou na corrida.
Postou-se atrás de mim, em pé na plataforma traseira, escondendo-se por trás de um homem encorpado que vestia um macacão. Por sobre o ombro desse passageiro, vez por outra vigiava Ledwich.
Bob já estava sentado na frente do bonde quando subimos eu, Ledwich e aquele detetive amador – não havia a menor dúvida de que era amador.
Avaliei o amador enquanto ele esticava o pescoço para observar Ledwich. Era pequeno, o detetive; e magricela; e frágil. Sua característica mais marcante era o nariz, um órgão flácido que tremelicava nervosamente todo o tempo. Vestia roupas velhas e surradas e tinha por volta de cinqüenta anos de idade.
Após estudá-lo durante alguns minutos, concluí que não havia se dado conta de Bob Teal. Sua atenção estava firmemente voltada para o grandalhão, a quem seguia perto demais para perceber que Bob também estava no páreo.
Daí que, quando o lugar ao lado de Bob vagou, joguei fora o meu cigarro, entrei no carro e me sentei, dando as costas para o homenzinho de nariz nervoso.
– Desça do bonde daqui a alguns quarteirões e volte ao apartamento – disse para Bob em surdina. – Não siga Ledwich novamente até segunda ordem. Apenas vigie a casa dele. Tem um passarinho seguindo o nosso homem e eu quero saber o que ele pretende.
Ele murmurou ter entendido o que eu dissera e, após alguns minutos, desceu do bonde.
Ledwich saltou em Stockton Street, o homenzinho com o nariz nervoso o seguiu e eu saltei atrás dele. Nessa formação, desfilamos pela cidade durante toda a tarde.
O grandalhão tinha negócios em diversas casas de sinuca, lojas de cigarros e sorveterias – a maioria das quais eu conhecia como lugares onde se podia apostar em qualquer cavalo que estivesse correndo na América do Norte, fosse em Tanforan, Tijuana ou Timonium.
Não soube o que Ledwich fez nesses lugares. Eu integrava o fim da procissão e meu interesse estava voltado para o baixinho misterioso. Ele não entrou em nenhum dos lugares visitados por Ledwich, preferindo flanar pelas redondezas até Ledwich reaparecer.
O baixinho teve um trabalhão naquela tarde, tentando ficar fora do ângulo de visão de Ledwich e só conseguindo porque estávamos no centro da cidade, onde se pode perseguir alguém de qualquer jeito. Mas ele certamente fez muita ginástica esquivando-se aqui e ali.
Algum tempo depois, Ledwich o despistou.
O grandalhão saiu de uma tabacaria com outro sujeito. Entraram num automóvel estacionado ao longo do meio-fio e se foram, deixando o meu homenzinho em pé na calçada, o nariz tremelicando em sinal de contrariedade. Havia um ponto de táxi na esquina mas ou ele não sabia ou não tinha dinheiro para pagar a corrida.
Pensei que fosse voltar à Laguna Street. Mas não voltou. Em vez disso, desceu a Kearny até Portsmouth, onde se deitou no gramado, acendeu um cachimbo e pôs-se a olhar desanimado para o monumento a Stevenson, provavelmente sem vê-lo.
Escarrapachei-me num confortável pedaço de relva a alguma distância dele – entre uma chinesa com dois filhos rechonchudos e um velho português vestindo roupas jovialmente quadriculadas – e deixei a tarde passar.
Quando o sol baixou o bastante para o chão esfriar, o homenzinho levantou-se, limpou os fundilhos e voltou à Kearny Street, onde entrou num restaurante barato e comeu mal. Depois, foi até um hotel algumas portas adiante, pegou uma chave no escaninho e sumiu no interior de um corredor escuro. Olhando o livro de registro, descobri que a chave pertencia a um quarto cujo ocupante era John Boyd, de St. Louis, Missouri, e que chegara no dia anterior.
Esse hotel não é do tipo onde é seguro pedir informações, de modo que desci à rua novamente e parei na esquina menos evidente das redondezas.
Entardeceu e acenderam-se as luzes das ruas e das lojas. Logo escureceu. O tráfego noturno da Kearny Street desfilou diante de mim. Jovens filipinos excessivamente bem-vestidos, prontos para o inevitável jogo de vinte-e-um; mulheres espalhafatosas ainda com o rosto amarrotado do repouso diurno; detetives à paisana prontos para se apresentarem às suas centrais antes de encerrarem o dia de trabalho; chineses vindo ou indo para Chinatown; duplas de marinheiros atrás de qualquer aventura; gente faminta procurando os restaurantes italianos e franceses; gente preocupada a caminho do agente de fianças para negociar a libertação de amigos e parentes; italianos de volta para casa após o dia de trabalho; bandos de cidadãos furtivos envolvidos em diversas atividades obscuras.
Veio a meia-noite e nada de John Boyd, de modo que dei o dia por encerrado e fui para casa.