Tiros na Noite
Um homem chamado Spade
Samuel Spade desligou o telefone e olhou para o relógio. Ainda não eram quatro horas. Ele chamou:
– Eiii!
Effie Perine entrou no escritório. Estava comendo um pedaço de bolo de chocolate.
– Avise a Sid Wise que não vou poder me encontrar com ele esta tarde – ele disse.
Ela enfiou o último bocado do bolo na boca e lambeu a ponta do indicador e do polegar.
– É a terceira vez esta semana.
Quando ele sorriu, as covinhas do seu queixo, boca e sobrancelhas tornaram-se mais alongadas.
– Eu sei, mas tenho de sair para salvar uma vida. – Ele inclinou a cabeça indicando o telefone. – Alguém está assustando Max Bliss.
Ela riu.
– Provavelmente, alguém chamado John-consciência.
Spade levantou a cabeça para ela, desviando a atenção do cigarro que começara a enrolar.
– Você sabe alguma coisa que eu devia estar sabendo a respeito dele?
– Nada de novo. Estava apenas me lembrando da vez em que ele deixou o irmão ir para San Quentin.
Spade deu de ombros.
– Ele já fez coisa pior. – Acendeu o cigarro, levantou-se e esticou a mão para apanhar o chapéu. – Mas é um bom sujeito hoje em dia. Todos os clientes de Samuel Spade são honestos. Gente que acredita em Deus. Se eu não estiver de volta até a hora de fechar, é só ir saindo, certo?
Ele se dirigiu para um edifício residencial bastante alto, em Nob Hill, e apertou um botão na moldura da porta com a numeração 10K. A porta foi aberta imediatamente por um homem corpulento, de pele escura e vestido com roupas escuras. Ele era quase calvo e tinha um chapéu cinzento numa das mãos.
O homem corpulento disse:
– Olá, Sam. – E sorriu, mas os seus olhos pequenos não perderam o brilho inquisitivo. – O que está fazendo aqui?
Spade respondeu:
– Olá, Tom. – A sua fisionomia ficou dura, sua voz inexpressiva. – Bliss está?
– É ele! – Tom esticou para baixo os cantos da boca de lábios espessos. – Não precisa se preocupar.
As sobrancelhas de Spade se juntaram.
– Bem...?
Um homem apareceu no vestíbulo atrás de Tom. Era menor do que Spade e Tom, mas de compleição compacta. Tinha um rosto vermelho, quadrado, e um bigode bem-aparado e encanecido. Vestia roupas elegantes. Usava um chapéu-coco preto empoleirado atrás da cabeça.
Spade dirigiu-se a ele por cima dos ombros de Tom.
– Olá, Dundy.
Dundy respondeu com um breve aceno de cabeça e aproximou-se da porta. Os seus olhos azuis tinham expressão dura e indagativa.
– De que se trata? – perguntou ele a Tom.
– B-l-i-s-s, M-a-x – Spade soletrou pacientemente. – Quero vê-lo. E ele quer me ver. Entendeu?
Tom riu. Dundy não. Tom disse:
– Apenas um de vocês vai conseguir o que deseja.
Então, ele olhou de soslaio para Dundy e abruptamente parou de rir. Parecia pouco à vontade.
Spade franziu as sobrancelhas.
– Certo. Isso quer dizer que ele está morto ou que matou alguém?
Dundy impôs o seu rosto quadrado diante de Spade e pareceu empurrar as palavras com o lábio inferior.
– Por que acha que é uma coisa ou outra?
Spade respondeu:
– Mas é óbvio! Venho visitar o sr. Bliss e sou barrado na porta por uma dupla de policiais da Homicídios. Vou achar o quê? Que estou interrompendo o carteado de vocês?
– Um pouco de calma, Sam. – Tom grunhiu, sem olhar para Spade nem Dundy. – Ele está morto.
– Assassinado?
Tom balançou a cabeça vagarosamente para cima e para baixo. E só então encarou Spade.
– O que tem você a ver com isso?
Spade replicou com voz deliberadamente monótona:
– Ele me telefonou hoje de tarde... Faltavam uns cinco minutos para as quatro... Olhei para o meu relógio depois que ele desligou e ainda faltava um minuto para as quatro. Ele disse que tinha alguém atrás do escalpo dele. Pediu que eu desse um pulo até aqui. Parecia estar com medo de verdade. Alguma coisa séria. – Spade fez um gesto curto com uma das mãos. – Bem, aqui estou eu.
– Ele não falou quem ou como? – Dundy perguntou.
Spade sacudiu a cabeça.
– Não. Apenas que alguém tinha ameaçado matá-lo e que ele acreditava que era para valer. E pediu que eu viesse imediatamente.
– Ele não... – Dundy começou a dizer.
– Ele não disse mais nada – concluiu Spade. – E vocês, rapazes? O que têm para me dizer?
Dundy disse laconicamente:
– Entre e dê uma olhada nele.
Tom acrescentou:
– É um espetáculo!
Eles atravessaram o vestíbulo e passaram por uma porta para uma sala de estar verde e rosa.
Um homem próximo à porta parou de borrifar pó branco sobre a extremidade de uma mesinha de tampo de vidro para dizer:
– Olá, Sam.
Spade acenou com a cabeça, dizendo:
– Como está, Phels? – E depois acenou para os dois homens de pé que conversavam junto à janela.
O homem morto estava estendido no chão com a boca escancarada. Algumas das suas peças de roupas haviam sido arrancadas. A garganta estava estufada e escura. A língua pendia para o canto da boca e estava roxa e inchada. Sobre o peito nu, bem em cima do coração, fora desenhada uma estrela de cinco pontas, com tinta preta, e, no centro dela, um T.
Spade olhou para o homem morto caído e, por alguns instantes, observou-o em silêncio. Depois, perguntou:
– Esse aí foi o jeito como ele foi encontrado?
– Quase – respondeu Tom. – Nós movemos o corpo, mas só um pouco.
– Ele apontou o polegar na direção da camisa, camiseta, colete e casaco jogados em cima da mesa. – Estava tudo espalhado pelo chão.
Spade coçou o queixo. Os seus olhos de um amarelo-acinzentado mostravam-se vagos.
– Quando?
Tom respondeu:
– Chegamos aqui às quatro e vinte. A filha dele foi quem nos chamou. – Moveu a cabeça para indicar uma porta fechada. – Você vai falar com ela depois.
– Mas ela pode dar alguma pista?
– Só Deus sabe – replicou Tom entediado. – Até agora não conseguimos nos entender muito bem com ela. – Ele se virou para Dundy. – Quer tentar conversar com a garota de novo agora?
Dundy acenou positivamente, depois instruiu um dos homens na janela:
– Comece a peneirar os papéis dele, Mack. Parece que ele estava sendo ameaçado.
Mack respondeu:
– Certo. – Então, puxou o chapéu para baixo, sobre os olhos, e caminhou na direção de uma escrivaninha verde no outro extremo da sala.
Um homem entrou, vindo do corredor, um sujeito pesadão de cerca de cinqüenta anos, rosto de contornos bem definidos, face acinzentada sob o chapéu preto de abas largas. Ele falou:
– Olá, Sam. – E então disse, voltando-se para Dundy: – Ele recebeu uma visita por volta das duas e meia, alguém que ficou exatamente uma hora aqui. Um grandalhão louro com terno marrom, de quarenta ou talvez 45 anos de idade. Não disse seu nome a ninguém. Soube disso pelo filipino, no elevador que trouxe o sujeito até aqui em cima e depois para baixo, na saída.
– Tem certeza de que ficou somente uma hora? – Dundy quis saber.
O homem de face acinzentada assentiu com a cabeça.
– E o filipino tem certeza de que não eram mais de três e meia quando o tal cara saiu. Ele disse que os jornais da tarde chegaram logo depois que o tal homem foi embora. – Ele afastou o chapéu para coçar a cabeça, depois apontou com o dedo grosso para o desenho a tinta feito no peito do morto e perguntou algo, num tom queixoso: – Que diabo você acha que isso aí significa?
Ninguém respondeu. Dundy perguntou:
– Acha que o ascensorista conseguiria identificar o sujeito louro?
– Ele disse que conseguiria, a questão não é essa. Disse que nunca o tinha visto antes. – O policial ficou parado por instantes observando o homem morto. – A garota vai me dar uma lista das chamadas telefônicas. Como vão as coisas, Sam?
Spade respondeu que iam bem. Depois, acrescentou, lentamente:
– O irmão dele é grandalhão e louro e deve ter uns quarenta ou 45 anos.
Os olhos azuis de Dundy brilharam com firmeza:
– E daí?
– Você se lembra da trapaça Graystone Loan, não lembra? Estavam ambos envolvidos, porém Max jogou tudo em cima do Theodore e isso custou ao irmão uma condenação de um a quatro anos em San Quentin.
Dundy estava assentindo com a cabeça lentamente para cima e para baixo:
– Eu me lembro agora. Onde ele está?
Spade deu de ombros e começou a enrolar um cigarro.
Dundy cutucou Tom com o cotovelo:
– Descubra.
Tom disse:
– Sem problemas! Mas, se ele esteve aqui até às três e meia e esse cara ainda estava vivo às cinco para as quatro...
– ... E, se ele quebrou a perna, e por isso não pôde se enfiar aqui dentro de volta... – disse ironicamente o homem de rosto cinzento.
– Descubra – Dundy repetiu.
Tom respondeu:
– Certo, certo. – E dirigiu-se para o telefone.
Dundy dirigiu-se ao homem de rosto cinzento:
– Verifique os jornais. Veja a que horas eles foram realmente entregues, esta tarde.
O homem de rosto cinzento concordou com a cabeça e deixou a sala.
O homem que havia examinado a escrivaninha exclamou:
– Hum-hum! – E virou-se, segurando um envelope numa das mãos, uma folha de papel na outra.
Dundy estendeu a mão.
– Alguma coisa?
O homem repetiu:
– Hum-hum! – E passou para Dundy a folha de papel.
Spade ficou espiando por cima dos ombros de Dundy.
Era uma folha pequena de papel branco comum, contendo uma mensagem a lápis, escrita numa caligrafia nítida, mas sem particularidades.
Quando esta alcançar você, estarei perto demais para você escapar desta vez. Vamos ajustar as nossas contas para sempre.
A assinatura era uma estrela de cinco pontas circundando um T, o mesmo desenho feito sobre o peito esquerdo do homem morto.
Dundy estendeu a mão para receber o envelope. O selo era francês. O endereço fora datilografado:
MAX BLISS
CONDOMÍNIO AMSTERDAM,
SAN FRANCISCO, CALIF.
EUA
– Carimbo postal de Paris – disse ele. – Despachado no dia 2. – Ele contou rápido nos dedos. – Isso chegaria aqui hoje, está certo. – Dobrou a mensagem lentamente, colocou-a dentro do envelope e pôs o envelope no bolso do seu casaco. – Continue procurando – disse para o homem que encontrou a mensagem.
O homem acenou com a cabeça e retornou para a escrivaninha.
Dundy olhou para Spade.
– O que você acha?
O cigarro marrom de Spade movia-se para cima e para baixo com as palavras.
– Não estou gostando nada disso. Nada.
Tom acabara de desligar o telefone.
– O irmão saiu no dia quinze do mês passado – disse. – Mandei tentarem localizar o cara.
Spade foi até o telefone, discou um número e perguntou pelo sr. Darrell. Então:
– Olá, Harry, aqui é Sam Spade... Bem. Como vai Lil?... Sim... Escute, Harry, o que uma estrela de cinco pontas com um T maiúsculo no meio significa?... O quê? Como se soletra isso?... Sim, entendo... E se você encontra isso num cadáver...? Nem eu... Sim, e obrigado. Direi a você do que se trata quando passar aí para uma visita. Sim, telefone... Muito obrigado. Tchau.
Dundy e Tom ficaram por perto, observando-o com atenção. Spade retornou do telefone e disse:
– É um amigo que sabe das coisas algumas vezes. Ele me disse que se trata de um pentagrama com um tau grego... t-a-u... no meio. Um sinal que os mágicos costumam usar. Talvez os rosa-cruzes ainda usem isso.
– E o que é um rosa-cruz? – perguntou Tom.
– Poderia ser a inicial de Theodore, também – arriscou Dundy.
Spade deu de ombros e disse sem emoção:
– Pode ser, mas se a intenção era deixar o trabalho autografado, ia ser muito mais fácil para ele assinar o nome inteiro. – E, retomando o raciocínio anterior: – Há rosa-cruzes em San Jose e em Point Loma. Não entendo muito dessas coisas, mas pode ser bom consultá-los.
Dundy assentiu.
Spade olhou para as roupas do homem morto sobre a mesa:
– Algo nos bolsos?
– Somente o que se esperaria encontrar – replicou Dundy. – Está tudo ali em cima da mesa.
Spade foi até a mesa e examinou a pequena pilha de objetos. Havia o relógio de bolso e a corrente, chaves, carteira, uma caderneta de endereços, dinheiro, uma lapiseira de ouro, um lenço e a caixa de óculos, além das roupas. Ele não as tocou, mas, vagarosamente, examinou, uma de cada vez, a camisa do homem morto, a camiseta, o colete e o casaco. Havia uma gravata azul debaixo delas. Olhou irritado para ela:
– Ele não usou esta gravata – reclamou.
Dundy, Tom e o legista – ele era um homem baixo com um rosto fino, escuro e inteligente –, que haviam permanecido em silêncio por todo esse tempo, junto à janela, vieram todos examinar a gravata de seda azul sem sequer uma ruga.
Tom gemeu desconsolado. Dundy praguejou, soltando o ar. Spa de ergueu a gravata para verificar a parte de trás. A etiqueta era de um armarinho em Londres.
Spade exclamou alegre:
– Mas que ótimo! San Francisco, Point Loma, San Jose, Paris, Londres.
Dundy encarou-o com raiva.
O homem de face cinzenta entrou:
– Os jornais chegaram aqui às três e trinta. Isso confere – disse. Seus olhos abriram-se um pouco: – O que está acontecendo?
Enquanto atravessava a sala na direção dos outros, disse:
– Não consigo encontrar ninguém que tenha visto o tal louro se esgueirar cá para dentro de novo. – Sem entender, ele fixou o olhar na gravata, até que Tom grunhiu:
– Está novinha em folha. – E então ele assobiou suavemente.
Dundy virou-se para Spade.
– Dane-se! – disse, amargo. – Ele tinha um irmão com motivos suficientes para não gostar dele. O irmão acabou de sair da prisão. Alguém parecido com esse tal irmão saiu daqui às três e meia. Vinte e cinco minutos mais tarde, ele telefonou para você dizendo que havia sido ameaçado. Menos de meia hora depois, a filha entra e encontra o cara morto... estrangulado. – Ele cutucou o peito do homem baixo de rosto escuro. – Correto?
– Estrangulado – o homem de rosto escuro respondeu decidido – ... por um homem. As mãos eram grandes.
– Certo! – Dundy voltou-se para Spade novamente. – Achamos uma carta ameaçadora. E pode ser que fosse disso que ele queria falar com você. Talvez o irmão tenha dito alguma coisa a ele. Não vamos querer adivinhar. Vamos nos concentrar no que sabemos. Sabemos que ele...
O homem na escrivaninha virou-se e disse:
– Mais uma. – A fisionomia dele traía certa presunção.
Os olhos com que os cinco homens na mesa olharam para ele eram, por sua vez, indiferentes, inamistosos.
Sem se deixar perturbar com a hostilidade, ele leu em voz alta:
Bliss:
Escrevo-lhe esta para lhe dizer pela última vez que quero o meu dinheiro de volta, e quero no dia primeiro do mês. Todo ele. Se não conseguir, vou resolver esse assunto de qualquer maneira e você pode adivinhar o que quero dizer com isso. Não pense que estou brincando.
Sinceramente,
Daniel Talbot.
Ele sorriu:
– Mais um T para vocês. – Ele pegou o envelope. – Carimbo postal de San Diego, do dia 25 do mês passado. – Ele sorriu novamente. – Mais uma cidade também para vocês.
Spade sacudiu a cabeça:
– Point Loma fica lá perto – disse.
Ele e Dundy examinaram a carta. Foi escrita com tinta azul, em papel branco de boa qualidade, assim como o endereço no envelope, numa caligrafia espremida, angular, que em nada se parecia com a da carta escrita a lápis.
Spade ironizou:
– Agora, sim, estamos chegando a algum lugar.
Dundy fez um gesto de impaciência:
– Vamos nos concentrar no que sabemos – rosnou.
– Claro – Spade concordou. – E o que é isto?
Não houve resposta.
Spade apanhou fumo e papéis de cigarro no bolso.
– Quando é que vamos falar com a filha? – perguntou.
– Daqui a pouco... – Dundy virou a cabeça, depois subitamente franziu a testa, olhando o homem morto no chão. Lançou subitamente o polegar para o homem baixo de rosto escuro. – Tudo terminado por aqui?
– Por mim, sim.
Dundy dirigiu-se a Tom laconicamente:
– Livre-se dessa coisa. – A seguir, voltou-se para o de cabeça grisalha: – Quero falar com os dois ascensoristas, depois de conversar com a moça.
Ele caminhou na direção da porta fechada que Tom tinha indicado para Spade e bateu nela.
Uma voz feminina ligeiramente áspera perguntou lá de dentro:
– Quem é?
– Tenente Dundy. Desejo falar com a senhorita Bliss.
Houve uma pausa, depois a voz disse:
– Entre.
Dundy abriu a porta e Spade seguiu-o para o interior de uma sala preta, cinzenta e prateada, onde uma mulher grandalhona, ossuda e feia, de meia-idade, vestida de preto com avental branco, estava sentada ao lado da cama na qual a moça estava deitada.
A moça deitada, cotovelo no travesseiro, mão no rosto, encarava a mulher grandona, ossuda e feia. Aparentava cerca de dezoito anos. Usava um conjunto cinzento. Os cabelos eram louros e curtos, o rosto tinha traços firmes e notavelmente simétricos. Ela não olhou para os dois homens que entraram na sala.
Dundy falou para a mulher ossuda e grande, enquanto Spade acendia o cigarro:
– Queremos lhe fazer algumas perguntas também, senhora Hooper. A senhora é a governanta da casa, não é?
A mulher respondeu:
– Sou. – A voz ligeiramente áspera, certa intensidade de seus olhos, de um cinzento profundo, a quietude e o tamanho de suas mãos que repousavam no seu colo, todo esse conjunto contribuía para a impressão de uma força tranqüila.
– O que a senhora sabe sobre o crime?
– Absolutamente nada. Recebi licença para me ausentar do serviço, esta manhã, para ir até Oakland e assistir ao funeral do meu sobrinho. Quando voltei, o senhor e seus colegas já estavam aqui e... já havia acontecido!
Dundy acenou e perguntou:
– Mas não tem palpite nenhum?
– Não – replicou ela, simplesmente.
– Era do seu conhecimento que ele estivesse esperando acontecer algo assim?
De repente, a moça desviou o olhar da senhora Hooper. Ela se sentou na cama, virou-se inteiramente e, olhos excitados sobre Dundy, perguntou:
– O que você está querendo dizer?
– Exatamente o que eu disse. Ele tinha sido ameaçado. Disse isso aqui ao Spade – indicou Spade com a cabeça – pelo telefone, apenas alguns minutos antes de ser assassinado.
– Mas... quem? – murmurou ela.
– É o que estamos querendo descobrir – retrucou Dundy. – Quem teria um motivo para fazer isso?
Ela o fitou assombrada:
– Ninguém.
Dessa vez, Spade a interrompeu, falando macio o bastante para as palavras parecerem menos brutais do que eram na realidade.
– Mas alguém tinha, sim. – Quando ela voltou o olhar para o detetive, ele perguntou: – Você não soube de nenhuma ameaça que ele tenha recebido?
Ela sacudiu a cabeça de um lado para o outro enfaticamente.
Spade voltou-se para a senhora Hooper:
– E a senhora?
– Não, senhor – respondeu ela.
O detetive concentrou-se outra vez na moça:
– Conhece um homem chamado Daniel Talbot?
– Conheço... mas por quê? – Ela ficou intrigada. – Ele esteve jantando aqui na noite passada.
– Quem é ele?
– Não sei... Só sei que mora em San Diego. Ele e papai tinham algum tipo de negócio juntos. Nunca havia me encontrado com ele, até ontem.
– E como estavam agindo um com o outro?
Ela franziu um pouco a testa, antes de responder devagar:
– Bem... cordialmente.
Dundy indagou:
– Que negócios são esses em que seu pai estava metido?
– Ele promovia shows.
– Quer dizer... era empresário de espetáculos?
– Isso, acho que pode dizer assim.
– Onde Talbot está? Voltou para San Diego?
– Não sei.
– Pode nos dar uma descrição dele?
Ela franziu a testa novamente, pensativa:
– Era um tipo grandalhão. Tinha o rosto vermelho, cabelos brancos e usava bigode.
– Velho?
– Acho que uns sessenta anos. Cinqüenta e cinco no mínimo.
Dundy olhou para Spade, que amassou o toco do seu cigarro num cinzeiro sobre a mesa e assumiu o interrogatório:
– Há quanto tempo não vê o seu tio?
O rosto dela ficou vermelho.
– O senhor está falando do tio Ted?
Ele confirmou com a cabeça.
– Desde... – ela começou, mas depois mordeu o lábio. Finalmente, disse: – Bem, o senhor deve saber... Não o vejo desde que ele saiu da prisão.
– Ele veio aqui?
– Veio, sim.
– Para ver o seu pai?
– Claro.
– Mas em que termos os dois se relacionavam?
Ela arregalou os olhos.
– Ora, os dois são meio fechados... – disse ela. – Mas são irmãos. Papai estava dando dinheiro para ele tentar abrir algum negócio.
– Quer dizer que eram amigos?
– Eram – replicou ela, numa entonação de alguém respondendo a uma pergunta idiota.
– Onde ele mora?
– Na Post Street – disse ela, e deu um número.
– E você não o viu depois disso?
– Não. Ele sentia vergonha... o senhor sabe... por ter estado na prisão... – ela terminou a frase gesticulando.
Spade dirigiu-se à senhora Hooper:
– E a senhora, não o viu mais?
– Não, senhor.
Ele enrugou os lábios e perguntou vagarosamente:
– Nenhuma de vocês duas sabe se ele esteve aqui esta tarde?
Disseram não juntas.
– Onde...?
Alguém bateu na porta.
Dundy exclamou:
– Entre.
Tom abriu a porta só o suficiente para enfiar a cabeça:
– O irmão dele está aqui – disse.
A moça inclinou-se para a frente e chamou:
– Oi, tio Ted!
Um grandalhão louro de terno marrom apareceu atrás de Tom. Ele estava tão queimado de sol que seus dentes reluziam, parecendo ainda mais brancos, e seus olhos claros pareciam ainda mais azuis do que eram na realidade.
Ele perguntou:
– Qual é o problema, Miriam?
– Papai está morto – disse e começou a chorar.
Dundy acenou para Tom, que saiu da frente de Theodore Bliss e deixou-o entrar no quarto.
Uma mulher entrou atrás dele, lenta e hesitantemente. Ela era alta, beirando os trinta, loura, quase rechonchuda. Seus traços eram generosos, rosto simpático e inteligente. Usava um pequeno chapéu marrom e um casaco de pele de mink.
Bliss pôs um braço em volta da sua sobrinha, beijou a sua testa e sentou-se na cama ao seu lado.
– Calma, garota. Calma – disse ele todo desajeitado.
Ela se deu conta da presença da mulher loura e fixou os olhos nela, através das suas lágrimas, por um instante. A seguir, disse:
– Como vai, srta. Barrow?
– Estou muito triste pelo que...
Bliss pigarreou e emendou:
– Ela agora é a sra. Bliss. Nós nos casamos esta tarde.
Dundy olhou zangado para Spade. Spade, fazendo um cigarro, parecia prestes a rir.
Depois de um momento de silêncio constrangedor, Miriam Bliss disse:
– Ah, eu desejo a você toda felicidade do mundo. De verdade! – Ela se virou para o tio enquanto a mulher dele murmurava obrigada e disse: – E a você também, tio Ted.
Ele lhe deu uns tapinhas carinhosos no ombro e a apertou junto dele. Bliss voltou-se para Spade e Dundy com ar intrigado.
– Seu irmão morreu esta tarde – disse Dundy. – Ele foi assassinado.
A sra. Bliss prendeu a respiração. Os braços de Bliss apertaram a cintura da sobrinha com um repuxo, mas sem ainda demonstrar qualquer mudança na fisionomia:
– Assassinado! – Ele repetiu como se não tivesse entendido.
– Isso mesmo. – Dundy levou a mão ao bolso do casaco. – O senhor esteve aqui esta tarde?
Theodore Bliss empalideceu um pouco sob a sua pele queimada, mas respondeu com firmeza:
– Sim, estive.
– Por quanto tempo?
– Cerca de uma hora. Cheguei aqui perto das duas e meia e... – Ele se virou para a sua mulher: – Eram quase três e meia quando eu telefonei para você, não foi?
Ela respondeu:
– Sim.
– Bem, eu saí logo depois.
– Tinha um encontro marcado com ele? – perguntou Dundy.
– Não. Telefonei para o escritório dele e... – fez um sinal com a cabeça em direção à sua mulher – ... e me disseram que ele tinha ido para casa. Então, vim para cá. Eu queria ver meu irmão antes de Elise e eu partirmos, é claro, e queria que ele fosse ao casamento. Mas ele não podia. Disse que estava esperando uma pessoa. Sentamos aqui e ficamos conversando por mais tempo do que eu pretendia. Por isso, tive de telefonar para Elise para ela se encontrar comigo na Prefeitura.
Após uma pausa pensando, Dundy perguntou:
– A que horas foi isso?
– Que nos encontramos lá? – Bliss ficou olhando em dúvida para a sua mulher, que disse:
– Faltavam quinze para as quatro. – Ela riu um pouco. – Cheguei lá primeiro e fiquei olhando o tempo todo para o relógio.
Bliss refletiu um pouco e falou:
– Passava um pouco das quatro, quando nos casamos. Tivemos que esperar pelo juiz Whitefield mais ou menos uns dez minutos. E ainda demorou alguns minutos, até começar, para ele concluir o caso que estava julgando. Vocês podem checar tudo. Suprema Corte. Bloco Dois, acho.
Spade girou nos pés e apontou para Tom.
– Talvez seja melhor checar isso agora.
– Deixe comigo! – respondeu Tom.
– Se foi como disse, está tudo bem, sr. Bliss – falou Dundy. – Mas tenho de lhe perguntar essas coisas. Agora, o seu irmão disse quem ele estava esperando?
– Não.
– Falou alguma coisa sobre ter sido ameaçado?
– Não. Ele nunca falava muito sobre os seus assuntos com ninguém, nem mesmo comigo. Ele tinha sido ameaçado?
Os lábios de Dundy comprimiram-se um pouco.
– Vocês dois eram amigos?
– Sim, acho que sim.
– Não tem certeza? – perguntou Dundy. – Tem certeza de que nenhum de vocês guardava rancor do outro?
Theodore Bliss soltou o braço da cintura da sobrinha. A crescente palidez fez com que a pele queimada de sol adquirisse um tom amarelado. Ele disse:
– Todo mundo aqui sabe que eu estive em San Quentin. Pode falar claramente, se é sobre isso que quer conversar.
– É sobre isso! – Dundy declarou e, depois de uma pausa: – Então?
Bliss levantou-se:
– Então, o quê? – respondeu, perdendo a paciência. – Se guardo ressentimento contra ele por isso? Não. Por que ia guardar? Nós dois estávamos envolvidos na coisa. Ele conseguiu se livrar, eu, não. Mas eu tinha certeza de que ia ser condenado, mesmo que ele fosse absolvido, não fazia diferença. Se ele tivesse ido parar na prisão também não ia me ajudar em nada. Discutimos a coisa toda e decidimos que eu deveria ir sozinho. Deixei ele de fora para colocar as coisas no lugar. E foi isso o que ele fez. Se der uma olhada na conta bancária dele, vai verificar que ele me deu um cheque de 25 mil dólares, dois dias após eu ter saído de San Quentin. E o registro da National Steel Corporation pode confirmar que mil ações foram transferidas do nome dele para o meu.
Ele sorriu, como se pedisse desculpas, e sentou-se na cama novamente.
– Sinto muito. Sei que precisa perguntar todas essas coisas.
Dundy ignorou a retratação:
– Conhece um sujeito chamado Daniel Talbot? – perguntou.
– Não.
Mas sua mulher interveio:
– Eu conheço. Quer dizer, ele tem aparecido no escritório. Esteve por lá, ontem.
Dundy olhou-a de alto a baixo cuidadosamente antes de perguntar:
– Que escritório?
– Eu sou... eu era a secretária do sr. Bliss e...
– De Max Bliss?
– Sim, e esse tal Daniel Talbot foi ao escritório ontem à tarde, para vê-lo. Quer dizer, se é que são a mesma pessoa.
– E daí, o que aconteceu?
Ela olhou para o marido, que disse:
– Se você sabe de alguma coisa, diga a eles.
– Mas, na verdade, não houve nada – retrucou ela. – No começo, pensei que estivessem brigando, mas, quando saíram juntos, estavam rindo e conversando. E, antes de sair, o sr. Bliss tocou a campainha para me chamar e mandar Trapper, o guarda-livros, preencher um cheque para o sr. Talbot.
– E você fez isso?
– Claro que sim. Um cheque de sete mil e quinhentos e poucos dólares.
– Qual a finalidade?
Ela balançou a cabeça:
– Eu não sei.
– Como secretária do sr. Bliss – insistiu Dundy –, devia ter alguma idéia do tipo de negócio que ele tinha com o sr. Talbot.
– Mas eu não tinha – disse ela. – Nunca tinha ouvido falar dele.
Dundy encarou Spade, cujo rosto estava inexpressivo. Dundy fuzilou-o com os olhos e depois fez uma pergunta ao homem na cama:
– Como era a gravata que o seu irmão estava usando quando o senhor o viu pela última vez?
Bliss hesitou, depois fixou o olhar em algum ponto além de Dundy e fechou os olhos. Quando finalmente os abriu, disse:
– Era verde com... eu a reconheceria se a visse. Por quê?
A sra. Bliss respondeu por ele:
– Uma gravata com listras diagonais estreitas de várias tonalidades de verde. Era a que ele usava no escritório, hoje de manhã.
– Onde ele guarda as gravatas? – Dundy perguntou à governanta.
Ela se levantou, dizendo:
– Num armário no quarto. Eu mostro para o senhor.
Dundy e os Bliss recém-casados a seguiram.
Spade pôs o chapéu em cima da mesa e perguntou a Miriam Bliss:
– A que horas você saiu? – Ele se sentou aos pés da sua cama.
– Hoje? Era perto de uma hora. Eu tinha combinado almoçar com uma pessoa e me atrasei um pouco. Depois, fui fazer compras, e depois... – Ela se deteve, estremecendo.
– E a que horas você voltou para casa? – A voz de Spade soava bastante amistosa.
– Por volta das quatro, acho.
– E o que aconteceu depois disso?
– Eu... e-encontrei papai caído ali e telefonei... não sei se foi lá para baixo ou para a polícia. Depois, não sei mais o que eu fiz. Desmaiei, fiquei histérica, algo assim... A primeira coisa de que me lembro foi que acordei e encontrei aqueles homens aqui... e a sra. Hooper. – Ela olhava bem nos olhos dele, agora.
– Você não telefonou para um médico?
Ela abaixou os olhos novamente.
– Não, acho que não.
– Claro que você não faria isso, sabendo que ele estava morto... – disse ele, de modo casual.
Ela ficou calada.
– Você sabia que ele estava morto? – perguntou Spade.
Ela levantou os olhos para ele, mesmo sem vê-lo:
– Mas ele estava morto!
Ele sorriu.
– Sim, estava. Mas o que eu quero saber é se você tentou se certificar, antes de telefonar?
Ela levou a mão à garganta.
– Não me lembro do que eu fiz... – disse sinceramente. – Acho que apenas sabia que ele estava morto.
Ele acenou com a cabeça, compreensivo.
– E se você ligou para a polícia é porque sabia que ele tinha sido assassinado.
Ela juntou as mãos, olhando para ele, e disse:
– Acho que sim. Foi horrível. Não sei mais o que eu estava pensando, nem o que eu fiz.
Spade inclinou-se para a frente com uma voz baixa e persuasiva.
– Eu não sou um policial, Miriam. Fui contratado por seu pai... alguns minutos tarde demais para salvá-lo. Então, de certo modo, estou trabalhando para você agora. Assim, se houver qualquer coisa que eu possa fazer... talvez alguma coisa que a polícia não deva... – Ele se interrompeu quando Dundy, seguido pelos Bliss e a governanta, voltaram para o quarto. – Tiveram sorte?
Dundy disse:
– A gravata verde não está lá. – Um olhar desconfiado logo foi lançado para Spade e a seguir para a moça. – A senhora Hooper diz que a gravata azul que encontramos faz parte de uma remessa de meia dúzia delas, que ele acabara de receber da Inglaterra.
Bliss perguntou:
– Por que essa gravata é tão importante?
Dundy franziu o cenho para ele.
– Ele estava parcialmente despido. Mas a gravata nunca tinha sido usada.
– E se ele estivesse trocando de roupa, quando quem o matou chegou aqui? Ele pode ter sido morto antes de ter acabado de se vestir.
O mau humor de Dundy acentuou-se:
– Certo, mas então o que ele fez com a gravata verde? Comeu?
Spade disse:
– Ele não estava trocando de roupa. Se você observar o colarinho da camisa, vai ver que ele já devia estar usando uma gravata quando foi estrangulado.
Tom apareceu na porta.
– Checaram tudo – disse para Dundy. – O juiz e um escrivão chamado Kittredge disseram que eles estiveram lá, de quinze para as quatro até quase quatro horas. Falei com o Kittredge para vir até aqui dar uma olhada neles, só para ter certeza de que são as mesmas pessoas.
– Perfeito – disse Dundy sem virar o rosto, e apanhou do bolso a carta ameaçadora escrita a lápis e assinada com o T dentro de uma estrela. Ele a dobrou de forma que apenas a assinatura ficasse visível e então perguntou:
– Alguém sabe o que é isto?
Miriam Bliss deixou a cama e foi juntar-se aos outros para examinar o papel. Então, ficaram olhando uns para os outros perplexos.
– Alguém já viu alguma coisa parecida?
Todos responderam que não.
Dundy disse:
– Tudo bem. Aguardem aqui. Talvez ainda tenha mais alguma coisa para perguntar a vocês daqui a pouco.
Spade disse:
– Só um momento... Bliss, há quanto tempo conhece a sra. Bliss?
Bliss encarou Spade com curiosidade.
– Desde que saí da prisão – replicou ele, algo cauteloso. – Por quê?
– Quer dizer, somente desde o mês passado. – Spade disse como se falasse consigo mesmo. – E foi seu irmão quem os apresentou.
– Isso mesmo, lá no escritório dele. Por quê?
– E na Prefeitura, esta tarde, vocês estiveram juntos o tempo todo?
– Sim, claro que sim. – Bliss respondeu prontamente. – Onde o senhor quer chegar?
Spade sorriu para ele, um sorriso amigável:
– O meu trabalho é fazer perguntas.
Bliss sorriu também.
– Tudo bem. – Seu sorriso tornou-se mais franco. – Na verdade, estou mentindo. Não estivemos juntos o tempo todo. Eu saí para o corredor para fumar um cigarro. Mas posso garantir que o tempo todo fiquei de olho nela, através da vidraça da porta da sala do tribunal, e ela ficou sentada bem onde eu a deixei.
O sorriso de Spade era tão brilhante quanto o de Bliss. Mesmo assim, ele perguntou:
– E quando você não estava olhando através da vidraça, não perdia a porta de vista? Ela não podia ter deixado a sala do tribunal sem que o senhor a visse?
O sorriso de Bliss desapareceu.
– É claro que não – afirmou. – Não fiquei do lado de fora nem cinco minutos.
Spade sorriu de novo e disse:
– Muito obrigado. – E seguiu Dundy para dentro de sala de estar, fechando a porta atrás dele.
Dundy olhou de soslaio para Spade.
– Alguma idéia?
Spade deu de ombros.
O corpo de Max Bliss tinha sido removido. Além do homem na escrivaninha e o homem de cabeça grisalha, dois garotos filipinos de uniforme de cor roxo-escura estavam na sala. Eles se sentaram juntos um do outro no sofá.
Dundy disse:
– Mack, quero encontrar uma gravata verde. Quero essa casa desmontada e toda a vizinhança virada pelo avesso, até vocês acharem. Arranje quantos homens sejam necessários.
O homem na escrivaninha levantou-se e falou:
– Certo. – Depois, puxou o chapéu para baixo, deixando-o logo acima dos olhos, e saiu.
Fazendo cara feia, Dundy perguntou aos filipinos:
– Quem de vocês viu o homem de roupa marrom?
O menor levantou-se:
– Eu, senhor.
Dundy abriu a porta do quarto e chamou:
– Bliss!
Bliss chegou até a porta. O rosto do ascensorista filipino pareceu se iluminar.
– Foi ele mesmo, senhor.
Dundy fechou a porta na cara de Bliss e grunhiu:
– Sente-se.
O garoto sentou-se o mais depressa que pôde.
Dundy encarou os ascensoristas com ar contrariado, a ponto de deixá-los inquietos. Então, retomou o interrogatório:
– Quem mais vocês trouxeram aqui para este apartamento, esta tarde?
Eles balançaram a cabeça, sincronizadamente, de um lado para o outro.
– Mais ninguém, senhor – o menor deles respondeu. Um sorriso arreganhou seu rosto, na tentativa desesperada de ganhar as boas graças do detetive.
Dundy avançou um passo em direção a eles, ameaçando-os:
– Idiotas! – rosnou ele. – Vocês trouxeram aqui a filha do morto, Miriam Bliss.
A cabeça do garoto maior meneou para cima e para baixo:
– Sim, senhor. Sim, senhor. Eu trouxe eles também. Pensei que estivesse falando de pessoas de fora.
Ele também tentou um sorriso.
Dundy enfureceu-se com ele:
– Não importa o que você pensou que eu quis dizer. Responda apenas o que eu perguntar. Agora... o que quis dizer com “eles”?
O olhar de Dundy acabou com o sorriso do garoto. Ele agora fitava o chão entre os seus pés. Gaguejando, disse:
– A menina Bliss e o moço que subiu com ela.
– Que moço? Esse senhor que está lá dentro? – E virou a cabeça na direção da porta que acabara de fechar na cara de Bliss.
– Não, senhor, era outro. Não era americano. – Ele tinha erguido a cabeça novamente e um brilho voltou a iluminar o seu rosto. – Acho que ele era um armênio.
– Por quê?
– Porque ele não era como nós, americanos, não falava como a gente.
Spade sorriu e perguntou:
– Já viu um armênio?
– Não, senhor. Foi só o que eu achei.
Ele fechou a boca com um ruído, enquanto Dundy soltava outro rosnado do fundo de sua garganta.
– Como ele era? – perguntou Dundy.
O garoto levantou os ombros, separando bastante as mãos.
– Era alto, igual a esse senhor aí – disse, apontando para Spade. – Cabelo preto, bigode preto. Muito... – ele franziu o cenho, compenetrado – ... roupas muito bonitas. Um homem de muito boa aparência. Bengala, luvas, até polainas e...
– Jovem? – Dundy perguntou.
A cabeça foi para cima e para baixo novamente.
– Jovem, sim, senhor.
– Quando ele foi embora?
– Cinco minutos depois – o garoto replicou de imediato.
Dundy fez um movimento de mastigar com as mandíbulas, então perguntou:
– A que horas eles entraram?
O garoto separou as mãos, levantando os ombros novamente:
– Eram quatro horas... talvez uns dez minutos mais.
– Você trouxe mais alguém aqui para cima antes de chegarmos?
Os filipinos balançaram a cabeça em dueto, uma vez mais.
Dundy falou pelo canto da boca para Spade:
– Pegue-a agora!
Spade abriu a porta do quarto, curvou-se ligeiramente para dentro e chamou:
– Quer vir aqui fora um momento, Miriam?
– Por quê? – perguntou ela entediada.
– Só por um momento – disse, segurando a porta aberta. Então, subitamente, acrescentou: – E seria melhor que viesse também, Bliss.
Miriam Bliss entrou vagarosamente na sala de estar, seguida por seu tio, e Spade fechou a porta atrás deles. O lábio inferior da moça tremeu ligeiramente, quando deu com os ascensoristas. Ela olhou de modo apreensivo para Dundy.
Ele perguntou:
– Por que tentou esconder que um homem subiu com você até aqui?
Seu lábio inferior tremeu mais uma vez.
– O quê? – Ela tentou encenar uma face aturdida.
Theodore Bliss mais do que depressa cruzou a sala, ficou um instante em pé na frente dela, como se quisesse dizer alguma coisa e, depois, aparentemente mudando de intenção, colocou-se atrás dela, os braços cruzados sobre as costas da cadeira.
– O homem que entrou com você – perguntou Dundy áspera e rapidamente: – Quem é ele? Onde ele está? Por que ele foi embora? Por que você nada disse sobre ele?
A moça levou as mãos ao rosto e começou a chorar.
– Ele não teve nada a ver com isso – disse, entre soluços, através das mãos. – Ele não fez nada, e essa confusão só iria trazer problemas para ele.
– Bom rapaz – disse Dundy. – Assim, para manter o seu nome longe dos jornais, ele foge e deixa você sozinha com o seu pai assassinado.
Ela afastou as mãos do rosto.
– Foi, sim, mas ele precisou fazer isso. A mulher dele é muito ciumenta. Se ela soubesse que ele esteve comigo novamente, na certa ia querer se divorciar dele, e ele não tem um centavo, o dinheiro é todo dela.
Dundy olhou para Spade, que olhou para os filipinos de olhos arregalados e apontou o polegar para a porta de saída.
– Sumam! – disse.
Eles saíram apressados.
– E quem é essa preciosidade? – perguntou Dundy.
– Mas ele não teve nada a ver...
– Quem é ele?
Os ombros dela penderam um pouco. Ela abaixou os olhos e murmurou, irritada:
– O nome dele é Boris Smekalov.
– Soletre.
Ela soletrou.
– Onde ele mora?
– No Hotel St. Mark.
– Faz alguma coisa na vida além de viver do golpe do baú?
A raiva brotou no rosto da moça, no instante em que ela o erguia, mas logo desapareceu.
– Ele não faz nada – disse.
Dundy girou sobre os pés e se dirigiu ao homem de cabeça grisalha:
– Traga-o.
O homem de cabeça grisalha grunhiu e saiu.
Dundy enfrentou a moça novamente.
– Você e esse Smekalov estão tendo um caso?
A fisionomia dela mostrou-se desdenhosa. Miriam o olhou com desprezo, sem responder.
Ele disse:
– Agora que o seu pai está morto, você vai ter dinheiro bastante para que ele se case com você, se a mulher aceitar o divórcio, certo?
Ela cobriu o rosto com as mãos.
Dundy insistiu:
– Agora que o seu pai está morto, você vai...?
Inclinando-se bastante à frente, Spade amparou-a enquanto a moça caía. Ele a ergueu com facilidade e levou-a para o quarto. Quando voltou, fechou a porta atrás de si e apoiou-se contra ela.
– Não sei ainda sobre o resto, mas o desmaio foi fingido!
– Tudo o que ela fez aqui foi uma farsa – resmungou Dundy.
Spade sorriu troçando:
– Devia haver uma lei para obrigar os criminosos a confessarem de uma vez.
Bliss sorriu e sentou-se na escrivaninha do seu irmão, próximo à janela.
A voz de Dundy soou desagradável:
– Você não tem que se preocupar com nada – disse ele para Spade. – Até porque o seu cliente está morto e não pode reclamar. Mas se eu não aparecer com algum resultado, vou ter de aturar o capitão, o chefe de polícia, os jornais e sabe Deus o que mais.
– Tenha paciência! – Spade acalmou-o. – Você vai acabar apanhando um criminoso, mais cedo ou mais tarde. – A face do investigador ficou séria, exceto pelas faíscas dos seus olhos cinzentos amarelados. – Eu não quero complicar este trabalho muito além do que já fomos obrigados a fazer, mas não acha que devemos checar aquele funeral a que a governanta disse que foi? Há alguma coisa estranha naquela mulher.
Após olhar com desconfiança para Spade durante um instante, Dundy assentiu com a cabeça e disse:
– Tom fará isso.
Spade voltou-se para Tom, agitando o dedo, e disse:
– Aposto dez contra um que não houve funeral nenhum. Cheque isso... não se deixe enganar.
Então, ele abriu a porta do quarto e chamou a sra. Hooper:
– O sargento Polhaus deseja uma informação da senhora – disse Spade para ela.
Enquanto Tom anotava os nomes e endereços que a mulher lhe passava, Spade sentou-se no sofá, enrolou e fumou um cigarro. Dundy passeava pela sala vagarosamente, franzindo o cenho para o tapete. Com a aprovação de Spade, Theodore Bliss levantou-se e foi se juntar à sua esposa no quarto de dormir.
Logo, Tom guardava a caderneta de notas no bolso e agradecia à governanta.
– Até mais tarde – disse, despedindo-se de Spade e Dundy, e deixou o apartamento.
A governanta permaneceu onde ele a deixara, feia, forte, serena, paciente.
Spade se torceu no sofá, até poder encarar seus olhos profundos e imóveis:
– Não se preocupe com isso – disse, fazendo um gesto na direção da porta por onde Tom tinha saído. – É só rotina. – Depois, comprimiu os lábios e perguntou: – Honestamente, o que pensa de tudo isso, senhora Hooper?
Ela replicou calmamente na sua voz forte e algo áspera:
– Eu penso que quem julga é Deus.
Dundy interrompeu seus passos de um lado para o outro.
Spade exclamou:
– O quê?
Havia certeza e nenhuma excitação na voz dela:
– O preço do pecado é a morte.
Dundy avançou na direção dela, como se pretendesse aplicar-lhe um golpe de luta-livre. Spade deteve-o com um aceno de mão que o sofá escondeu da mulher. O seu rosto e sua voz mostraram interesse, mas estavam agora tão compostos quanto os da mulher:
– Que pecado? – indagou.
E ela retrucou:
– Quem quer que fira quaisquer desses pequeninos que crêem em mim, melhor seria se uma mó de pedra fosse pendurada em seu pescoço e que ele fosse arremessado no mar.
A governanta pronunciou as palavras não como se estivesse fazendo uma citação, mas dando-lhe a entonação de quem realmente acreditava no que dizia.
Dundy dirigiu-lhe a pergunta com a voz irritada, soando mais como um latido:
– Que pequeninos são esses?
Ela desviou os olhos cinzentos circunspectos para ele, depois olhou além dele, em direção ao quarto:
– Ela – disse a governanta. – Miriam.
Dundy franziu as sobrancelhas para ela:
– A filha dele?
A mulher respondeu:
– Sim, sua própria filha... adotada.
O rosto quadrado de Dundy foi tomado por uma irritação que o deixou da cor do sangue:
– Mas de que diabo você está falando agora? – Ele sacudiu a cabeça como para livrar-se de alguma coisa tilintando dentro dela. – Ela não é filha dele de verdade?
A serenidade da mulher não foi de modo algum perturbada por sua ira.
– Não. A mulher dele passou quase a vida inteira inválida. Eles não tiveram filhos.
Por um instante, Dundy remexeu as mandíbulas como se estivesse mastigando. Quando falou novamente, sua voz estava mais fria.
– O que ele fez a ela?
– Eu não sei – replicou a governanta. – Mas acredito que, quando a verdade for descoberta, o senhor verá que o dinheiro do pai dela... digo, do verdadeiro pai... o dinheiro que ele deixou para ela tem sido...
Spade interrompeu-a, esforçando-se para falar com toda clareza, movendo uma mão em pequenos círculos acompanhando as palavras.
– Você quer dizer que não sabe realmente se Bliss trapaceou a moça... É apenas uma suspeita?
Ela levou uma das mãos ao coração:
– Eu sei disto aqui – retrucou ela com serenidade.
Dundy voltou-se para Spade, Spade para Dundy, e os olhos de Spade estavam brilhantes, mas não de contentamento. Dundy pigarreou, limpando a garganta, e dirigiu-se novamente à mulher:
– E a senhora acha que isso... – indicou com a mão para o local do chão onde o homem morto estivera caído – foi um ato da justiça de Deus, não é?
– É o que eu penso.
O olhar do investigador agora havia conseguido se despir de qualquer ar de sarcasmo:
– Então, quem quer que tenha feito isso, estava apenas sendo guiado pelas mãos de Deus?
– Não cabe a mim dizer – replicou ela.
O sangue ameaçou novamente tomar a face do investigador:
– Está bem, por enquanto – disse, com a voz engasgada. Mas, no momento em que ela alcançou a porta do quarto, seus olhos entraram em alerta novamente e ele a chamou.
– Apenas um minuto... Por acaso a senhora é rosa-cruz?
– Não desejo ser nada mais do que uma cristã.
Ele rosnou:
– Tudo bem, tudo bem... – E voltou-lhe as costas.
Ela foi para o quarto e fechou a porta. Dundy enxugou a testa com a palma da mão direita e queixou-se de cansaço:
– Meu Deus! Que família.
Spade deu de ombros.
– Experimente investigar a si mesmo, de vez em quando.
A face de Dundy empalideceu. Seus lábios, quase sem cor, voltaram a apertar os dentes. Ele fechou os punhos e lançou-os na direção de Spade.
– O que você...?
O olhar de agradável surpresa na fisionomia de Spade o deteve. Ele evitou os olhos dele, umedeceu os lábios com a ponta da língua, voltou-se para Spade por um instante, depois para o outro lado, ensaiou um sorriso embaraçado e resmungou:
– Você quer dizer qualquer família... Hum-hum! Pode ser.
Uma campainha soou atrás dele, e Dundy voltou-se bruscamente para a porta do corredor. A divertida contração no rosto de Spade acentuou ainda mais sua semelhança com um demônio louro.
Uma voz amistosa e arrastada vinda do corredor penetrou pela porta:
– Sou Jim Kittredge. Corte Superior. Fui chamado para comparecer aqui.
A voz de Dundy respondeu:
– Isso mesmo. Entre.
Kittredge parecia um bolinho recheado, corado no forno e com cobertura, com suas roupas exageradamente apertadas e brilhosas, de tão gastas. Ele acenou para Spade e disse:
– Lembro-me de você, sr. Spade, do caso Burke contra Harris.
Spade retrucou:
– Mas é claro! – E ficou em pé para um aperto de mãos.
Dundy tinha ido à porta do quarto chamar Theodore Bliss e sua esposa. Kittredge olhou para eles, sorriu amavelmente e disse:
– Como vocês estão? – E, virando-se para Dundy: – São eles, com certeza. – Em seguida, olhou em volta como se procurasse um lugar para cuspir, não achou nenhum e disse: – Faltavam mais ou menos dez para as quatro quando esse senhor ali entrou na sala de justiça e me perguntou quanto tempo sua excelência ainda ia demorar. Respondi que cerca de uns dez minutos, e eles ficaram esperando. Logo depois da suspensão das audiências, às quatro horas, nós os casamos.
– Obrigado – disse Dundy. E mandou Kittredge embora, despachando também os Bliss de volta ao quarto. Depois, franziu o cenho mal-humorado para Spade, indagando: – E daí?
Spade, novamente sentado, replicou:
– Daí que você não conseguiria ir daqui até a Prefeitura em menos de quinze minutos. Não poderíamos supor isso, nem que ele tivesse dado um jeito de entrar aqui de volta, enquanto aguardava o juiz. E também não poderia ter corrido até aqui e matado o irmão, depois do casamento, antes de Miriam chegar.
A insatisfação no rosto de Dundy cresceu. Ele abriu a boca, mas fechou-a em silêncio quando o homem de cara cinzenta entrou acompanhado de um jovem alto, esbelto e pálido, que se ajustava à descrição do companheiro de Miriam Bliss feita pelo ascensorista filipino.
O homem de cara cinzenta disse:
– Tenente Dundy, sr. Spade, este é o sr. Boris... hum... Smekalov.
Dundy assentiu lacônico.
Smekalov começou a falar imediatamente. O seu sotaque não era forte a ponto de impedir os ouvintes de entendê-lo, apesar de seus erres soarem mais como dáblius:
– Tenente, devo lhe pedir que considere esta conversa como assunto confidencial. Se algo transpirar para fora daqui, vai me arruinar. Isso mesmo, tenente, serei arruinado, e muito injustamente. Sou completamente inocente, senhor, lhe asseguro. De coração, alma e atos. Não apenas inocente, mas de forma alguma ligado a qualquer aspecto dessa história. Não há...
– Espere um instante. – Dundy enfiou o dedo rudemente no peito de Smekalov. – Ninguém aqui está acusando você de nada. Só queremos que fique por aqui um pouco.
O jovem abriu os braços, as palmas à frente, num gesto expansivo.
– Mas, o que é que eu posso fazer? Eu tenho uma esposa que... – Ele balançou a cabeça com violência. – É impossível. Não posso fazer isso.
O homem de cara cinzenta murmurou para Spade:
– Esses russos são uns palhaços.
Dundy contorceu os olhos para Smekalov num tom de voz judicial, advertindo-o:
– Ou fica ou provavelmente vai se envolver numa confusão bastante séria.
Smekalov parecia a ponto de cair no choro.
– Mas, por favor, simplesmente se coloque no meu lugar – implorou. – Bastará isso para o senhor...
– Eu não gostaria de estar no seu lugar. – Na sua franqueza rude, Dundy parecia sensibilizado com a situação do rapaz. – Não se brinca com assassinato neste país.
– Assassinato! Mas eu lhe garanto, tenente, que fui envolvido nesta situação apenas pela mais pura falta de sorte. Eu não sou...
– Você quer dizer que entrou aqui com a Miriam Bliss apenas por acaso?
Pareceu que o jovem gostaria de responder que sim. Mas disse não, pronunciando a palavra vagarosamente. E logo em seguida, prosseguiu, com um assomo de rapidez:
– Mas não aconteceu nada, senhor, absolutamente nada. Saímos para almoçar. Eu a acompanhei, na volta para casa, e ela disse: “Você aceitaria uma bebida?” Eu aceitei. Isso foi tudo. Dou a minha palavra de honra. – Ele estendeu as mãos, palmas para cima. – Isso não poderia ter acontecido também ao senhor? – E moveu as mãos na direção de Spade. – Ou ao senhor?
Spade disse:
– Uma porção de coisas costumam acontecer comigo. Bliss sabia que o senhor estava saindo com a filha dele?
– Ele sabia que éramos amigos, sim.
– Ele sabia que o senhor era casado?
Smekalov respondeu cautelosamente desta vez:
– Acho que não.
– Mas o senhor sabia que ele ignorava isso – afirmou Dundy.
Smekalov umedeceu os lábios e não contradisse o tenente.
Dundy perguntou:
– O que o senhor acha que ele teria feito, caso descobrisse?
– Eu não sei, senhor.
Dundy aproximou-se alguns passos do jovem e falou entre os dentes, numa voz deliberadamente áspera:
– O que ele fez quando descobriu?
O jovem recuou um passo, o rosto branco e assustado.
A porta do quarto se abriu e Miriam Bliss entrou na sala.
– Deixe ele em paz – disse, indignada. – Eu já falei que ele não sabe nada sobre o que aconteceu aqui. – Ela estava ao lado de Smekalov, agora, e tinha uma das mãos nas dele. – O senhor está apenas criando problemas para ele, e não vai descobrir nada importante com isso. Sinto muito mesmo, Boris, bem que tentei impedir que eles o perturbassem.
O jovem murmurou algo ininteligível.
– Sim, você tentou, sem dúvida alguma – Dundy concordou, para a seguir se dirigir a Spade. – E se tiver acontecido assim, Sam? Bliss descobriu que ele era casado, ficou sabendo que eles iam almoçar juntos, chegou cedo em casa para encontrá-los, quando entrassem aqui, e aí ameaçou contar tudo à esposa do russo. Daí, foi estrangulado. – Dundy olhou de soslaio para a moça. – Se desejar fingir outro desmaio, agora pode ser uma boa ocasião.
O jovem gritou e arremessou-se sobre Dundy, ambas as mãos em garra. Dundy grunhiu:
– Ahhh! – e esmurrou-o com força no rosto.
O jovem cambaleou para trás, através da sala, até bater numa cadeira. Ele e a cadeira foram ao chão. Dundy disse para o homem de cara cinzenta:
– Leve-o para a chefatura! Testemunha material.
O homem de cara cinzenta respondeu:
– Ok. – Então, apanhou o chapéu de Smekalov e foi ajudá-lo a se levantar.
Theodore Bliss, sua esposa e a governanta vieram até a porta que Miriam Bliss tinha deixado aberta. Miriam Bliss estava chorando, batendo com os pés no chão e ameaçando Dundy:
– Vou dar queixa contra você, seu covarde. Não tinha nenhum direito de... – E assim por diante.
Ninguém prestou muita atenção nela. Todos observavam o homem de cara cinzenta ajudar Smekalov a se pôr de pé e levá-lo embora. O nariz e a boca de Smekalov estavam lambuzados de sangue.
Então, Dundy ordenou à moça:
– Cale a boca!
E a seguir, sem maior consideração, tirou um pedaço de papel do bolso.
– Estou aqui com uma lista dos telefonemas feitos deste apartamento hoje. Diga se reconhecer algum número.
Ele leu um número de telefone.
A senhora Hooper disse:
– É o do açougueiro. Telefonei para ele antes de sair de casa esta manhã. – E informou que o número seguinte na lista de Dundy era o da mercearia.
Ele leu outro.
– Esse é do St. Mark – disse Miriam Bliss. – Eu telefonei para Boris. – Ela identificou dois outros números, que eram de amigos a quem havia telefonado.
O sexto número, Bliss informou, era o do escritório do seu irmão.
– Provavelmente, fui eu telefonando para combinar com Elise o nosso encontro na Prefeitura.
Spade exclamou:
– Esse é o meu! – Era o sétimo número, e Dundy informou que o último era o telefone de emergência da polícia. A seguir, pôs o papel de volta no bolso.
Spade comentou, debochado:
– Bem, isso rendeu um bocado de pistas, não foi?
A campainha da porta tocou.
Dundy foi atender. Ele e um outro homem podiam ser ouvidos falando em vozes demasiado baixas para que as suas palavras fossem entendidas na sala de estar.
O telefone tocou. Spade atendeu:
– Olá... Não, é Spade. Espere um minuto... Muito bem. – Ele escutou com atenção. – Certo, direi a ele... Não, eu não sei. Eu peço para ele ligar para você... Certo.
Quando voltou do telefone, Dundy estava de pé, as mãos nas costas, no umbral do vestíbulo. Spade disse:
– O’Gar disse que o tal russo ficou completamente maluco a caminho da chefatura. Eles foram obrigados a colocá-lo numa camisa-de-força.
– Ele já devia estar vestindo uma faz tempo! – Dundy resmungou. – Venha até aqui.
Spade seguiu Dundy até o vestíbulo. Um policial uniformizado estava em pé no umbral externo da porta.
Dundy trouxe as mãos detrás das costas. Numa, trazia uma gravata com listras diagonais estreitas, em vários tons de verde. Na outra, um alfinete de gravata de platina com um conjunto de pequenos diamantes no formato de um crescente.
Spade inclinou-se para examinar três manchas pequenas e irregulares na gravata:
– Sangue?
– Ou sujeira – arriscou Dundy. – O policial encontrou isso embrulhado num jornal, tudo jogado numa lata de lixo, na esquina.
– Isso mesmo, senhor – confirmou o policial uniformizado, com orgulho. – Encontrei lá mesmo, um bolo amarrotado que... – Ele se calou, já que ninguém estava lhe prestando atenção.
– Sangue seria melhor – estava dizendo Spade. – É uma razão para dar sumiço na gravata. Vamos entrar e falar com o pessoal.
Dundy enfiou a gravata num bolso e a mão segurando o alfinete em outro:
– Certo... Então, vamos chamar de sangue.
Retornaram à sala de estar. Dundy olhava de Bliss para a mulher de Bliss, para a sobrinha de Bliss, para a governanta, como se nenhum deles lhe agradasse. Retirou a mão do bolso, impeliu-a bem à sua frente e abriu-a para mostrar o alfinete de gravata com o crescente, em sua mão:
– O que é isso? – perguntou.
Miriam Bliss foi a primeira a falar.
– Ora, é o alfinete de gravata do papai – disse ela.
– Ah, é? – replicou Dundy contrariado. – E ele estava usando isso hoje?
– Ele sempre o usa. – Ela se virou para os outros pedindo confirmação.
A sra. Bliss disse “Sim”, enquanto os outros assentiam com um aceno de cabeça.
– Onde o senhor o encontrou? – perguntou a moça.
Dundy os estava examinando um por um, novamente, como se gostasse deles menos do que nunca. Sua face estava vermelha.
– Então, ele usava isto sempre... – disse, zangado. – E não houve um só de vocês que pudesse dizer: “O pai usava sempre um alfinete de gravata. Onde está?”. Não, tivemos que esperar até o alfinete aparecer para escutar alguma coisa a respeito.
Bliss disse:
– Não seja injusto. Como íamos saber...?
– Deixe para lá o que vocês tinham de saber. – Dundy vociferou: – Está na hora de eu dizer tudo o que já sei. – Ele retirou a gravata verde do bolso. – Esta é a gravata dele?
A sra. Hooper respondeu:
– É, sim, senhor.
Dundy disse:
– Ora, vejam só... Está manchada de sangue, e não é sangue dele, porque não encontramos nenhum arranhão nele. – Ele fixou um olhar apertado de um para outro. – Agora, suponha que você estivesse tentando estrangular um homem que usasse um alfinete de gravata e ele estivesse tentando lutar para se defender e...
Dundy interrompeu-se e olhou para Spade.
Spade atravessara a sala, até onde a sra. Hooper estava de pé. Suas enormes mãos estavam crispadas à frente dela. Ele virou a mão direita da governanta para cima, tirou o lenço que ela ocultava na palma da mão, embolado, e lá estava um arranhão fresco de seis centímetros, bastante profundo.
Ela permitira passivamente que ele examinasse a sua mão. Sua fisionomia nada perdeu da tranqüilidade habitual. Ela não pronunciou sequer uma palavra.
– Então? – perguntou ele.
– Eu me arranhei com o alfinete da srta. Bliss, ao colocá-la na cama, quando ela desmaiou – explicou a governanta calmamente.
A risada de Dundy foi curta e amarga:
– Pode até ser, mas mesmo assim vai levar a senhora à forca.
A fisionomia da mulher não se alterou:
– A vontade de Deus será feita – replicou ela.
Spade deixou escapar um ruído peculiar da garganta, quando soltou a mão dela.
– Bem, vamos ver em que ponto estamos. – Ele sorriu para Dundy. – Você não gosta daquela estrela com o T, não é?
Dundy respondeu:
– Tem toda razão.
– Também não gosto – disse Spade. – A ameaça de Talbot, provavelmente, era real. Mas parece que a dívida foi paga. Então... Espere um instante!
Ele foi ao telefone e ligou para seu escritório.
– O negócio da gravata pareceu um bocado estranho, também, até há pouco – foi dizendo, enquanto aguardava –, mas creio que o sangue se encarregou disso.
Ele falou ao telefone:
– Alô, Effie. Escute... No espaço mais ou menos de meia hora antes do telefonema de Bliss me chamando você recebeu alguma ligação fora do comum? Alguma coisa que pudesse ter sido um pretexto para... Sim, pode ser... Pense.
Ele cobriu o fone com a mão e disse para Dundy:
– Tem muita coisa ruim no mundo.
Voltou novamente ao telefone:
– Sim?... Sim... Kruger?... Sim. Homem ou mulher?... Obrigado... Não, vou terminar dentro de meia hora. Espere por mim e eu levo você para jantar. Até logo!
Deu as costas para o telefone e disse:
– Cerca de meia hora antes do telefonema de Bliss, um homem ligou para o escritório e perguntou por um tal de Kruger.
Dundy franziu as sobrancelhas.
– E daí?
– Kruger não estava lá.
Dundy franziu mais ainda as feições.
– Quem é Kruger?
– Não sei – respondeu Spade, afavelmente. – Não conheço nenhum Kruger. – Retirou fumo e papel do bolso. – Tudo bem, Bliss, onde está o seu arranhão?
– Como? – Theodore Bliss exclamou, enquanto os outros fitavam Spade sem entender.
– O seu arranhão – Spade repetiu, num tom calculadamente paciente. Sua atenção estava voltada para o cigarro que enrolava. – O lugar onde o alfinete do seu irmão feriu você, quando o estava estrangulando.
– Você está maluco? – Bliss vociferou. – Eu estava...
– Já sei... você estava se casando quando ele foi assassinado. Mas não é verdade! – Spade umedeceu a borda do seu papel de cigarro e o amaciou com os dedos indicadores.
Foi a vez de a senhora Bliss falar, gaguejando levemente:
– Mas ele... mas Max Bliss telefonou...
– Quem disse que Max Bliss me telefonou? – inquiriu Spade. – Não posso garantir. Eu não seria capaz de reconhecer a voz dele. Sei apenas que um homem perguntou por mim e disse que o seu nome era Max Bliss. Qualquer pessoa podia fazer isso.
– Mas o registro telefônico mostra que a chamada partiu daqui – protestou ela.
Spade balançou a cabeça e sorriu.
– Eles mostram que recebi uma chamada daqui. E é verdade. Mas não foi aquela chamada. Já disse que alguém me ligou meia hora, mais ou menos, antes da suposta chamada de Max Bliss e perguntou por um tal de Kruger. – O detetive apontou Theodore Bliss. – Ele é esperto o bastante para telefonar deste apartamento para o meu escritório, o que deixaria a ligação registrada. E isso antes de sair para se encontrar com a senhora.
Ela olhou fixamente para Spade, com seus estarrecidos olhos azuis, e depois se voltou para o marido, que lhe disse, com tranqüilidade:
– É tolice, minha querida. Você sabe...
Spade não deixou que ele terminasse a frase.
– Você sabe que ele saiu para fumar um cigarro no corredor, enquanto esperava pelo juiz. E ele sabia que havia uma cabine telefônica no corredor. Um minuto era tudo de que ele precisava.
Spade acendeu o cigarro e tornou a guardar o isqueiro no bolso.
Bliss protestou:
– Quanta idiotice! Por que eu ia matar o Max? – Ele sorriu confiante para os olhos aterrorizados da esposa. – Não deixe que isso a perturbe, querida. Os métodos da polícia às vezes são...
– Muito bem – Spade desafiou –, então nos deixe procurar arranhões em você.
Bliss virou-se para encará-lo mais diretamente.
– Você que se dane! – Ele escondeu uma das mãos atrás das costas.
Spade, com fisionomia dura e olhos sonhadores, avançou.
Spade e Effie Perine estavam sentados a uma mesinha no Juliu’s Castle on Telegraph Hill. Através da janela além deles, barcas podiam ser vistas portando luzes, indo e vindo, misturando-se e saindo das luzes da cidade, no outro lado da baía.
– ... disse que não tinha ido lá para matá-lo. Talvez não... – dizia Spade. – Queria apenas pressionar um pouco, conseguir mais dinheiro. Mas, quando a luta começou, e quando as mãos dele se fecharam na garganta do irmão, acho que o ressentimento dele cresceu tanto que acabou apertando até Max morrer. Entenda, estou apenas colocando em ordem o que as provas indicam e o que conseguimos tirar da mulher dele, mais o pouco que arrancamos dele próprio.
Effie assentiu com a cabeça.
– Ela é uma esposa boa e leal.
Spade tomou café, encolheu os ombros.
– E daí? Ela agora sabe que Bliss a queria apenas porque era a secretária de Max. Ela sabe que, quando ele tirou a licença de casamento, duas semanas atrás, foi apenas para deixá-la mais ligada ainda a ele, de maneira a convencê-la a tirar as fotocópias que poderiam incriminar Max na trapaça da Graystone Loan. Ela sabe... Ora, ela sabe que não estava apenas ajudando um inocente injustiçado a limpar o seu nome.
Spade tomou mais um gole de café.
– Foi por isso que ele passou na casa do irmão, esta tarde, para ameaçá-lo com San Quentin, outra vez, e extorquir dinheiro. Então aconteceu a briga e ele o matou. Mas saiu com um arranhão no pulso... que não estava programado. Daí, ele tira a gravata do cadáver e troca por outra, porque a ausência de uma gravata iria dar à polícia o que pensar. Mas teve azar justamente aí... As gravatas novas de Max estão guardadas no cabide da frente. Então, ele agarrou a primeira que encontrou... Muito bem. Agora, ele tem que colocá-la no pescoço do homem morto... Mas, espere um pouco... ele tem uma idéia melhor... Que tal despir algumas peças de roupa do cadáver para confundir a polícia? A gravata fora do lugar vai se tornar tão imperceptível quanto a camisa jogada no chão. Ao despi-lo, ele tem mais uma idéia. Vai dar à polícia algo mais com que se preocupar. Assim, desenha um signo místico que deve ter visto em algum lugar no peito do homem morto.
Spade esvaziou a xícara, colocou-a sobre a mesa e continuou:
– Até aí, ele se revela um mestre na arte de confundir a polícia. Uma carta ameaçadora assinada com o signo desenhado no peito de Max. O correio da tarde está sobre a escrivaninha. Qualquer envelope serve, desde que seja datilografado e sem remetente. Mas o da França traz um toque da coisa estrangeira. Então, ele joga fora a carta original e mete no envelope a ameaça. Ele está exagerando agora, você vê? Está colocando tantas coisas fora do lugar que quase somos obrigados a suspeitar justamente do que parece em ordem... as chamadas telefônicas, por exemplo.
Spade dá uma piscada para Effie, que se mantém imóvel e atenta:
– Bem... ele está pronto para as chamadas telefônicas, agora... o seu álibi. Ele escolhe o meu nome, entre os detetives particulares do catálogo, e aplica o truque do sr. Kruger. Mas isso depois de telefonar para a loura Elise e dizer a ela que conseguira remover os obstáculos para o casamento deles. E também que surgira uma oportunidade de negócios em Nova York e que ele precisaria partir imediatamente. Assim, pergunta se ela pode se encontrar com ele dentro de quinze minutos para se casarem. Isso não é apenas um álibi. Theodore precisa que ela esteja absolutamente certa de que ele não matou Max, porque ela sabe que ele não gosta de Max e ele não quer que ela perceba que a estava apenas usando para conseguir provas contra o irmão. Somente Elise poderia, nessa altura, somar dois mais dois e chegar à resposta.
“Com isso providenciado, ele está pronto para partir. E sai do prédio, sem temer ser visto. Apenas uma coisa o preocupa...”
– A gravata verdadeira e o alfinete... – adivinhou Effie.
– Correto! – Spade disse. – A gravata e o alfinete no seu bolso. Ele leva o alfinete porque não está seguro de que a polícia não possa encontrar vestígios de sangue em volta do arranjo de pedras, apesar de tê-lo limpado com todo cuidado. No caminho, ele consegue um jornal... compra um do jornaleiro que encontra na rua... Daí, embrulha a gravata e o alfinete e joga numa lata de lixo da esquina. Parece tudo perfeito. Nenhuma razão para a polícia procurar a gravata. Nenhuma razão para o lixeiro que esvazia a lata abrir um jornal amassado. Mesmo que alguma coisa dê errado... Que diabo!... O assassino jogou aquilo fora, e ele, Theodore, não pode ser o assassino. Isso porque ele vai ter um álibi.
“Então, ele entra no seu carro correndo e dirige até a Prefeitura. Ele sabe que há uma porção de telefones ali, e pode sempre dizer que precisa lavar as mãos... Mas nem vai precisar de uma desculpa dessas. Enquanto esperavam que o juiz terminasse um julgamento, ele sai para fumar um cigarro e pronto... ‘sr. Spade, aqui é Max Bliss e eu estou sendo ameaçado...’.”
Effie Perine assentiu com a cabeça, e então perguntou:
– Por que você acha que ele escolheu um detetive particular, em vez da polícia?
– Questão de segurança. Se o corpo tivesse sido encontrado, nesse meio-tempo, a polícia podia ter sido notificada e iriam rastrear a chamada. Um detetive particular não poderia receber a notícia até que saísse nos jornais.
Ela riu, depois disse:
– E esta foi a sua sorte.
– Sorte? Será? – Ele olhou desanimado para as costas da sua mão esquerda. – Machuquei minha mão para detê-lo e o trabalho apenas durou uma tarde. O mais provável é que, seja lá quem for que vá cuidar da herança, faça um escândalo se eu enviar uma conta, cobrando um dinheiro decente.
Ele levantou a mão para atrair a atenção do garçom.
– Bem, quem sabe tenho sorte de verdade na próxima vez? Quer pegar um filme, ou você tem outra coisa para fazer?
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