Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 35 de 44

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Tiros na Noite

O primeiro “homem magro”

Hammett escreveu estes dez capítulos em 1930, cerca de três anos

antes de escrever e publicar The Thin Man (O homem magro). Ainda

que o enredo dos capítulos tenha claras semelhanças com o do

romance, este último resultou numa obra totalmente reescrita. O estilo

neste primeiro quinto do romance é muito mais próximo do trabalho

incisivo que Hammett publicou na revista Black Mask. E Nick e Nora

Charles não aparecem aqui.

I

O trem foi para o norte através das montanhas. O homem moreno atravessou os trilhos até a bilheteria e disse:

– Poderia dizer como posso chegar à casa do sr. Wynant? A casa do sr. Walter Irving Wynant.

O homem lá dentro parou de escrever num formulário impresso. Seus olhos ficaram brilhantes e inquisitivos por trás dos óculos sem aro. Sua voz era ansiosa.

– O senhor é jornalista?

– Por quê? – Os olhos do homem moreno eram azuis. Espiaram preguiçosamente o outro. – Faz diferença?

– Então não é – disse o bilheteiro. Estava desapontado. Olhou para um relógio na parede. – Diabo, eu deveria saber. O senhor não teria tempo de chegar até aqui. – Ele pegou o lápis que havia largado.

– Sabe onde fica a casa dele?

– Claro. Lá em cima no morro. – O bilheteiro acenou o lápis vagamente para o oeste. – Todos os motoristas de táxi conhecem, mas se é Wynant que o senhor quer ver, está sem sorte.

– Por quê?

A expressão do bilheteiro se animou. Ele pôs os antebraços no balcão, encolhendo os ombros, e disse:

– Porque o fato é que ele assassinou todo mundo lá e pulou no rio há menos de uma hora.

– Não! – exclamou o homem em voz baixa.

O bilheteiro estalou os lábios.

– Ahã, matou todos os três, a turma toda, partiu em pedaços com um machado e depois amarrou um peso no próprio pescoço e pulou no rio.

O homem moreno perguntou em tom solene:

– Por que ele fez isso?

Uma campainha de telefone começou a tocar atrás do bilheteiro.

– O senhor não o conhece, caso contrário não perguntaria – respondeu enquanto estendia a mão para o telefone. – Mais louco, impossível, e sempre foi. Só é de espantar que não tenha feito isso há muito tempo. Alô – disse ao telefone.

O homem moreno passou pela sala de espera e desceu a escada até a rua. Os automóveis estacionados perto da estação eram aparentemente particulares. Um grande letreiro vermelho e branco no quarteirão seguinte dizia “táxi”. O homem moreno passou por baixo do letreiro e entrou num escritório pequeno e sujo onde um homem gordo e careca estava lendo um jornal.

– Posso conseguir um táxi? – perguntou o homem moreno.

– Estão todos fora, irmão, mas estou esperando que um volte a qualquer minuto. Está com pressa?

– Um pouco.

O careca pousou a cadeira nas quatro pernas e baixou o jornal.

– Aonde quer ir?

– À casa de Wynant.

O careca largou o jornal e se levantou, dizendo animado:

– Bom, eu mesmo estou indo para lá. – E cobriu a careca com um chapéu marrom manchado de suor.

Saíram do escritório e, depois de o homem parar num escritório imobiliário ao lado para gritar “Atenda ao meu telefone, se tocar, Toby”, entraram num sedã escuro, viraram à esquerda no primeiro cruzamento e subiram o morro na direção oeste.

Quando tinham seguido por cerca de trezentos metros, o gordo disse num tom cuja casualidade era negada pelo brilho dos olhos:

– Deve estar uma tremenda bagunça lá em cima, sem brincadeira.

O homem moreno estava acendendo um cigarro.

– O que aconteceu? – perguntou.

O gordo olhou-o de lado, incisivamente.

– Não ouviu dizer?

– Só o que o bilheteiro me contou. – O homem moreno se inclinou para a frente para recolocar o acendedor no buraco do painel. – Que Wynant matou três pessoas com um machado e depois se afogou.

O gordo deu um riso de escárnio.

– Meu Deus, é impossível vencer Lew. Se você torcer o tornozelo ele pode acabar conseguindo uma espinha partida. Wynant matou apenas dois, a sra. Hopkins se livrou, porque foi ela quem telefonou. E ele estrangulou cada um dos dois e depois atirou em si mesmo. Aposto que se o senhor voltar lá agora Lew vai dizer que meia dúzia de pessoas foram mortas, provavelmente com dinamite.

O homem moreno tirou o cigarro da boca.

– Então ele não estava certo sobre a loucura de Wynant?

– Sim – disse o gordo com relutância –, mas ninguém poderia errar com relação a isso.

– Não?

– Não. Santo inferno! Ele não costumava descer para a cidade de pijama no verão passado? E quando as pessoas não gostaram disso e pediram para Ray dizer alguma coisa a ele, ele não ficou furioso e parou de vir totalmente? Não fazia tanta confusão sobre as pessoas passarem por sua propriedade como se tivesse uma mina de ouro lá? Eu não o vi com meus próprios olhos jogar uma pedra num carro que tinha passado por ele levantando poeira uma vez?

O homem moreno deu um sorriso afável.

– Não sei nenhuma das respostas. Eu não o conhecia.

Ao lado de um letreiro contra invasores deixaram a estrada de cascalho em troca de um caminho estreito e irregular, de terra escura, que subia mais íngreme o morro à direita. Mato crescido roçava as laterais do sedã e de vez em quando um galho de árvore esbarrava no teto. A velocidade tornava a viagem mais difícil do que precisaria.

– É aqui – disse o gordo. Ele estava sentado rigidamente atrás do volante, lutando com a irregularidade do caminho. Seus olhos estavam brilhando, cheios de expectativa.

A casa onde chegaram era uma estrutura desconexa, de pedra cinzenta nativa e madeira que precisava de tinta cinza, sob teto baixo em estilo holandês. Havia cinco carros na clareira diante da construção. O homem sentado ao volante de um deles e os dois homens ao seu lado pararam de falar e olharam a aproximação do sedã.

– Aqui estamos – disse o gordo, e saiu. Seus modos haviam se tornado subitamente solenes. Foi solene o cumprimento de cabeça que dirigiu aos três homens.

O homem moreno, deixando o outro lado do sedã, foi em direção à casa. O gordo correu para acompanhá-lo.

Um homem saiu da casa antes que eles a alcançassem. Era um gigante de meia-idade com roupas largas e gastas. Seu cabelo era grisalho, os olhos pequenos, e mascava chiclete. Falou:

– Como vai, Fern – para o gordo e, olhando direto para o moreno, ficou parado no caminho, confrontando-os diretamente.

– Olá, Nick. – Disse Fern, falando ao moreno depois: – Este é o xerife Petersen. – Em seguida estreitou um dos olhos marotamente e se dirigiu de novo ao xerife: – Ele veio para ver Wynant.

O xerife Nick Petersen parou de mascar.

– Qual é seu nome?

– John Guild – disse o moreno.

– Certo. Agora, por que queria ver Wynant?

O homem que tinha dito que seu nome era John Guild sorriu.

– Faz alguma diferença agora que ele está morto?

– O quê? – perguntou o xerife com força considerável.

– Agora que ele está morto – repetiu Guild pacientemente. Em seguida pôs um novo cigarro entre os lábios.

– Como o senhor sabe que ele está morto? – O xerife enfatizou o “o senhor”.

Guild espiou o xerife com olhos azuis curiosos.

– Disseram no povoado – falou descuidadamente. E moveu o cigarro alguns centímetros para indicar o gordo. – Ele disse.

O xerife franziu a testa com ceticismo, mas quando falou foi para emitir um vago “Ah”. Mascou seu chiclete.

– Bom, por que o senhor queria vê-lo?

– Olhe – perguntou Guild –, ele está morto ou não?

– Não que eu saiba.

– Ótimo – disse Guild, com os olhos se animando. – Onde ele está?

– Eu gostaria de saber – disse o xerife, carrancudo. – Agora, o que o senhor quer com ele?

– Eu sou do banco onde ele tem conta. Quero vê-lo para falar de negócios. – Os olhos de Guild ficaram entorpecidos. – São negócios confidenciais.

– E? – A testa franzida do xerife Petersen parecia guardar mais desconforto do que chateação. – Bom, agora nenhum dos negócios dele é confidencial para mim. Eu tenho direito de saber tudo que qualquer pessoa saiba sobre Wynant.

Os olhos de Guild se estreitaram um pouco. Ele soprou fumaça.

– Eu tenho – insistiu o xerife num tom de reclamação. – Ouça, Guild, você não tem o direito de esconder de mim qualquer negócio dele. Ele é um assassino e eu sou responsável pela lei e pela ordem neste condado.

Guild franziu os lábios.

– Quem ele matou?

– Columbia Forrest – disse Petersen, apontando um polegar para a casa. – Ele atirou nela e deu no pé, Deus sabe para onde.

– Ele matou mais alguém?

– Meu Deus – perguntou o xerife irritado –, isso não basta?

– Para mim basta, mas lá embaixo no povoado captaram tudo muito no plural. – Guild olhou pensativo para o xerife. – Ele escapou ileso?

– Até agora – rosnou Petersen –, mas estamos telefonando e dando a descrição de Wynant e do carro. – Ele suspirou, mexeu desconfortavelmente os ombros grandes. – Bom, vamos lá. Qual é o seu negócio com ele? – Mas quando Guild ia responder, o gigante disse: – Espere um minuto. Nós poderíamos entrar, pegar Boyer e Ray e fazer isso de uma vez só.

Deixando o gordo, Guild e o xerife entraram numa sala agradavelmente mobiliada na frente da casa, onde outros dois homens logo se juntaram a eles. Um era quase tão alto quanto o xerife, um homem louro e ossudo com trinta e poucos anos, de queixo e boca enérgicos e olhos sombrios. O outro era mais jovem, mais baixo, com bochechas juvenis e rosadas, olhos escuros e ágeis, cabelo escuro puxado para trás. Quando o xerife os apresentou a Guild, disse que o mais alto era Ray Callaghan, subdelegado, e o outro era o promotor Bruce Boyer. Disse-lhes que John Guild era um sujeito que queria ver Wynant.

O jovial promotor, parado junto de Guild, deu um sorriso agradável e perguntou:

– Qual é o seu negócio, sr. Guild?

– Vim procurar Wynant para falar de sua conta bancária – respondeu devagar o homem moreno.

– Que banco?

– Seaman’s National de San Francisco.

– Sei. Mas sobre o que você queria falar com ele? Quero dizer, o que havia com relação à conta dele que o fez vir até aqui para vê-lo?

– Digamos que um saque a descoberto – disse Guild, deliberadamente evasivo.

Os olhos do promotor ficaram ansiosos.

Guild fez um pequeno gesto com a mão morena que segurava o cigarro.

– Olhe aqui, Boyer – disse ele –, se quer que eu vá até o final com você, você deveria ir até o final comigo.

Boyer olhou para Petersen. O xerife o encarou com olhos descomprometidos. Boyer se virou de novo para Guild.

– Nós não estamos escondendo nada – disse sério. – Não temos nada a esconder.

Guild assentiu.

– Tudo bem. O que aconteceu aqui?

– Wynant pegou a srta. Forrest se preparando para deixá-lo e atirou nela, entrou no carro e foi embora – disse rapidamente. – É só isso.

– Quem é a srta. Forrest?

– A secretária dele.

Guild apertou os lábios e perguntou:

– Só?

O ossudo subdelegado falou:

– Vamos parar com isso, agora! – numa voz tensa e áspera. Seus olhos claros estavam injetados e furiosos.

O xerife rosnou:

– Vá com calma, Ray – evitando os olhos do subdelegado.

O promotor olhou impaciente para o subdelegado. Guild o encarou com seriedade, atento.

O rosto do subdelegado ruborizou-se um pouco e ele se balançou num pé e no outro. Falou de novo com o homem moreno, na mesma voz crocitante:

– Ela está morta e o senhor poderia falar decentemente sobre ela.

Guild mexeu os ombros um pouco.

– Eu não a conhecia – disse friamente. – Estou tentando descobrir o que aconteceu. – Ele encarou por mais um momento o homem ossudo e em seguida desviou o olhar para Boyer. – Por que ela estava indo embora?

– Para se casar. Ela disse isso quando ele a surpreendeu fazendo as malas depois de voltar da cidade e... e os dois tiveram uma briga, e quando ela não quis mudar de idéia ele a matou.

Os olhos azuis de Guild se desviaram para focalizar o rosto ossudo do subdelegado.

– Ela estava morando com Wynant, não estava? – perguntou à queima-roupa.

– Seu filho-da-puta! – gritou rouco o subdelegado, e lançou o punho para o rosto de Guild.

Guild evitou o soco recuando sem pressa. Tinha começado a recuar antes que o punho partisse. Seus olhos observaram gravemente o punho passar.

O grande Petersen se lançou para o subdelegado, envolvendo-o com os braços.

– Pare com isso, Ray – grunhiu. – Por que não se comporta? Não é hora de perder a cabeça.

O subdelegado não lutou contra ele.

– Qual é o problema desse sujeito? – perguntou Guild ao promotor. Não havia ressentimentos em seus modos. – Está apaixonado por ela, ou algo do tipo?

Boyer assentiu furtivamente, depois franziu a testa e balançou a cabeça num gesto de alerta.

– Tudo bem – disse Guild. – Onde vocês conseguiram as informações sobre o que aconteceu?

– Com o casal Hopkins. Eles cuidam deste lugar para Wynant. Estavam na cozinha e ouviram toda a briga. Correram escada acima quando ouviram os tiros, e ele os afastou com a arma e disse que voltaria para matá-los se contassem a alguém antes que ele tivesse uma hora de dianteira, mas eles telefonaram para Ray assim que Wynant foi embora.

Guild jogou a guimba do cigarro na lareira e acendeu um novo. Em seguida pegou um cartão numa caixa marrom tirada do bolso e deu o cartão a Boyer.

JOHN GUILD

DETETIVES ASSOCIADOS, INC.