Tiros na Noite
O primeiro “homem magro”
Hammett escreveu estes dez capítulos em 1930, cerca de três anos
antes de escrever e publicar The Thin Man (O homem magro). Ainda
que o enredo dos capítulos tenha claras semelhanças com o do
romance, este último resultou numa obra totalmente reescrita. O estilo
neste primeiro quinto do romance é muito mais próximo do trabalho
incisivo que Hammett publicou na revista Black Mask. E Nick e Nora
Charles não aparecem aqui.
I
O trem foi para o norte através das montanhas. O homem moreno atravessou os trilhos até a bilheteria e disse:
– Poderia dizer como posso chegar à casa do sr. Wynant? A casa do sr. Walter Irving Wynant.
O homem lá dentro parou de escrever num formulário impresso. Seus olhos ficaram brilhantes e inquisitivos por trás dos óculos sem aro. Sua voz era ansiosa.
– O senhor é jornalista?
– Por quê? – Os olhos do homem moreno eram azuis. Espiaram preguiçosamente o outro. – Faz diferença?
– Então não é – disse o bilheteiro. Estava desapontado. Olhou para um relógio na parede. – Diabo, eu deveria saber. O senhor não teria tempo de chegar até aqui. – Ele pegou o lápis que havia largado.
– Sabe onde fica a casa dele?
– Claro. Lá em cima no morro. – O bilheteiro acenou o lápis vagamente para o oeste. – Todos os motoristas de táxi conhecem, mas se é Wynant que o senhor quer ver, está sem sorte.
– Por quê?
A expressão do bilheteiro se animou. Ele pôs os antebraços no balcão, encolhendo os ombros, e disse:
– Porque o fato é que ele assassinou todo mundo lá e pulou no rio há menos de uma hora.
– Não! – exclamou o homem em voz baixa.
O bilheteiro estalou os lábios.
– Ahã, matou todos os três, a turma toda, partiu em pedaços com um machado e depois amarrou um peso no próprio pescoço e pulou no rio.
O homem moreno perguntou em tom solene:
– Por que ele fez isso?
Uma campainha de telefone começou a tocar atrás do bilheteiro.
– O senhor não o conhece, caso contrário não perguntaria – respondeu enquanto estendia a mão para o telefone. – Mais louco, impossível, e sempre foi. Só é de espantar que não tenha feito isso há muito tempo. Alô – disse ao telefone.
O homem moreno passou pela sala de espera e desceu a escada até a rua. Os automóveis estacionados perto da estação eram aparentemente particulares. Um grande letreiro vermelho e branco no quarteirão seguinte dizia “táxi”. O homem moreno passou por baixo do letreiro e entrou num escritório pequeno e sujo onde um homem gordo e careca estava lendo um jornal.
– Posso conseguir um táxi? – perguntou o homem moreno.
– Estão todos fora, irmão, mas estou esperando que um volte a qualquer minuto. Está com pressa?
– Um pouco.
O careca pousou a cadeira nas quatro pernas e baixou o jornal.
– Aonde quer ir?
– À casa de Wynant.
O careca largou o jornal e se levantou, dizendo animado:
– Bom, eu mesmo estou indo para lá. – E cobriu a careca com um chapéu marrom manchado de suor.
Saíram do escritório e, depois de o homem parar num escritório imobiliário ao lado para gritar “Atenda ao meu telefone, se tocar, Toby”, entraram num sedã escuro, viraram à esquerda no primeiro cruzamento e subiram o morro na direção oeste.
Quando tinham seguido por cerca de trezentos metros, o gordo disse num tom cuja casualidade era negada pelo brilho dos olhos:
– Deve estar uma tremenda bagunça lá em cima, sem brincadeira.
O homem moreno estava acendendo um cigarro.
– O que aconteceu? – perguntou.
O gordo olhou-o de lado, incisivamente.
– Não ouviu dizer?
– Só o que o bilheteiro me contou. – O homem moreno se inclinou para a frente para recolocar o acendedor no buraco do painel. – Que Wynant matou três pessoas com um machado e depois se afogou.
O gordo deu um riso de escárnio.
– Meu Deus, é impossível vencer Lew. Se você torcer o tornozelo ele pode acabar conseguindo uma espinha partida. Wynant matou apenas dois, a sra. Hopkins se livrou, porque foi ela quem telefonou. E ele estrangulou cada um dos dois e depois atirou em si mesmo. Aposto que se o senhor voltar lá agora Lew vai dizer que meia dúzia de pessoas foram mortas, provavelmente com dinamite.
O homem moreno tirou o cigarro da boca.
– Então ele não estava certo sobre a loucura de Wynant?
– Sim – disse o gordo com relutância –, mas ninguém poderia errar com relação a isso.
– Não?
– Não. Santo inferno! Ele não costumava descer para a cidade de pijama no verão passado? E quando as pessoas não gostaram disso e pediram para Ray dizer alguma coisa a ele, ele não ficou furioso e parou de vir totalmente? Não fazia tanta confusão sobre as pessoas passarem por sua propriedade como se tivesse uma mina de ouro lá? Eu não o vi com meus próprios olhos jogar uma pedra num carro que tinha passado por ele levantando poeira uma vez?
O homem moreno deu um sorriso afável.
– Não sei nenhuma das respostas. Eu não o conhecia.
Ao lado de um letreiro contra invasores deixaram a estrada de cascalho em troca de um caminho estreito e irregular, de terra escura, que subia mais íngreme o morro à direita. Mato crescido roçava as laterais do sedã e de vez em quando um galho de árvore esbarrava no teto. A velocidade tornava a viagem mais difícil do que precisaria.
– É aqui – disse o gordo. Ele estava sentado rigidamente atrás do volante, lutando com a irregularidade do caminho. Seus olhos estavam brilhando, cheios de expectativa.
A casa onde chegaram era uma estrutura desconexa, de pedra cinzenta nativa e madeira que precisava de tinta cinza, sob teto baixo em estilo holandês. Havia cinco carros na clareira diante da construção. O homem sentado ao volante de um deles e os dois homens ao seu lado pararam de falar e olharam a aproximação do sedã.
– Aqui estamos – disse o gordo, e saiu. Seus modos haviam se tornado subitamente solenes. Foi solene o cumprimento de cabeça que dirigiu aos três homens.
O homem moreno, deixando o outro lado do sedã, foi em direção à casa. O gordo correu para acompanhá-lo.
Um homem saiu da casa antes que eles a alcançassem. Era um gigante de meia-idade com roupas largas e gastas. Seu cabelo era grisalho, os olhos pequenos, e mascava chiclete. Falou:
– Como vai, Fern – para o gordo e, olhando direto para o moreno, ficou parado no caminho, confrontando-os diretamente.
– Olá, Nick. – Disse Fern, falando ao moreno depois: – Este é o xerife Petersen. – Em seguida estreitou um dos olhos marotamente e se dirigiu de novo ao xerife: – Ele veio para ver Wynant.
O xerife Nick Petersen parou de mascar.
– Qual é seu nome?
– John Guild – disse o moreno.
– Certo. Agora, por que queria ver Wynant?
O homem que tinha dito que seu nome era John Guild sorriu.
– Faz alguma diferença agora que ele está morto?
– O quê? – perguntou o xerife com força considerável.
– Agora que ele está morto – repetiu Guild pacientemente. Em seguida pôs um novo cigarro entre os lábios.
– Como o senhor sabe que ele está morto? – O xerife enfatizou o “o senhor”.
Guild espiou o xerife com olhos azuis curiosos.
– Disseram no povoado – falou descuidadamente. E moveu o cigarro alguns centímetros para indicar o gordo. – Ele disse.
O xerife franziu a testa com ceticismo, mas quando falou foi para emitir um vago “Ah”. Mascou seu chiclete.
– Bom, por que o senhor queria vê-lo?
– Olhe – perguntou Guild –, ele está morto ou não?
– Não que eu saiba.
– Ótimo – disse Guild, com os olhos se animando. – Onde ele está?
– Eu gostaria de saber – disse o xerife, carrancudo. – Agora, o que o senhor quer com ele?
– Eu sou do banco onde ele tem conta. Quero vê-lo para falar de negócios. – Os olhos de Guild ficaram entorpecidos. – São negócios confidenciais.
– E? – A testa franzida do xerife Petersen parecia guardar mais desconforto do que chateação. – Bom, agora nenhum dos negócios dele é confidencial para mim. Eu tenho direito de saber tudo que qualquer pessoa saiba sobre Wynant.
Os olhos de Guild se estreitaram um pouco. Ele soprou fumaça.
– Eu tenho – insistiu o xerife num tom de reclamação. – Ouça, Guild, você não tem o direito de esconder de mim qualquer negócio dele. Ele é um assassino e eu sou responsável pela lei e pela ordem neste condado.
Guild franziu os lábios.
– Quem ele matou?
– Columbia Forrest – disse Petersen, apontando um polegar para a casa. – Ele atirou nela e deu no pé, Deus sabe para onde.
– Ele matou mais alguém?
– Meu Deus – perguntou o xerife irritado –, isso não basta?
– Para mim basta, mas lá embaixo no povoado captaram tudo muito no plural. – Guild olhou pensativo para o xerife. – Ele escapou ileso?
– Até agora – rosnou Petersen –, mas estamos telefonando e dando a descrição de Wynant e do carro. – Ele suspirou, mexeu desconfortavelmente os ombros grandes. – Bom, vamos lá. Qual é o seu negócio com ele? – Mas quando Guild ia responder, o gigante disse: – Espere um minuto. Nós poderíamos entrar, pegar Boyer e Ray e fazer isso de uma vez só.
Deixando o gordo, Guild e o xerife entraram numa sala agradavelmente mobiliada na frente da casa, onde outros dois homens logo se juntaram a eles. Um era quase tão alto quanto o xerife, um homem louro e ossudo com trinta e poucos anos, de queixo e boca enérgicos e olhos sombrios. O outro era mais jovem, mais baixo, com bochechas juvenis e rosadas, olhos escuros e ágeis, cabelo escuro puxado para trás. Quando o xerife os apresentou a Guild, disse que o mais alto era Ray Callaghan, subdelegado, e o outro era o promotor Bruce Boyer. Disse-lhes que John Guild era um sujeito que queria ver Wynant.
O jovial promotor, parado junto de Guild, deu um sorriso agradável e perguntou:
– Qual é o seu negócio, sr. Guild?
– Vim procurar Wynant para falar de sua conta bancária – respondeu devagar o homem moreno.
– Que banco?
– Seaman’s National de San Francisco.
– Sei. Mas sobre o que você queria falar com ele? Quero dizer, o que havia com relação à conta dele que o fez vir até aqui para vê-lo?
– Digamos que um saque a descoberto – disse Guild, deliberadamente evasivo.
Os olhos do promotor ficaram ansiosos.
Guild fez um pequeno gesto com a mão morena que segurava o cigarro.
– Olhe aqui, Boyer – disse ele –, se quer que eu vá até o final com você, você deveria ir até o final comigo.
Boyer olhou para Petersen. O xerife o encarou com olhos descomprometidos. Boyer se virou de novo para Guild.
– Nós não estamos escondendo nada – disse sério. – Não temos nada a esconder.
Guild assentiu.
– Tudo bem. O que aconteceu aqui?
– Wynant pegou a srta. Forrest se preparando para deixá-lo e atirou nela, entrou no carro e foi embora – disse rapidamente. – É só isso.
– Quem é a srta. Forrest?
– A secretária dele.
Guild apertou os lábios e perguntou:
– Só?
O ossudo subdelegado falou:
– Vamos parar com isso, agora! – numa voz tensa e áspera. Seus olhos claros estavam injetados e furiosos.
O xerife rosnou:
– Vá com calma, Ray – evitando os olhos do subdelegado.
O promotor olhou impaciente para o subdelegado. Guild o encarou com seriedade, atento.
O rosto do subdelegado ruborizou-se um pouco e ele se balançou num pé e no outro. Falou de novo com o homem moreno, na mesma voz crocitante:
– Ela está morta e o senhor poderia falar decentemente sobre ela.
Guild mexeu os ombros um pouco.
– Eu não a conhecia – disse friamente. – Estou tentando descobrir o que aconteceu. – Ele encarou por mais um momento o homem ossudo e em seguida desviou o olhar para Boyer. – Por que ela estava indo embora?
– Para se casar. Ela disse isso quando ele a surpreendeu fazendo as malas depois de voltar da cidade e... e os dois tiveram uma briga, e quando ela não quis mudar de idéia ele a matou.
Os olhos azuis de Guild se desviaram para focalizar o rosto ossudo do subdelegado.
– Ela estava morando com Wynant, não estava? – perguntou à queima-roupa.
– Seu filho-da-puta! – gritou rouco o subdelegado, e lançou o punho para o rosto de Guild.
Guild evitou o soco recuando sem pressa. Tinha começado a recuar antes que o punho partisse. Seus olhos observaram gravemente o punho passar.
O grande Petersen se lançou para o subdelegado, envolvendo-o com os braços.
– Pare com isso, Ray – grunhiu. – Por que não se comporta? Não é hora de perder a cabeça.
O subdelegado não lutou contra ele.
– Qual é o problema desse sujeito? – perguntou Guild ao promotor. Não havia ressentimentos em seus modos. – Está apaixonado por ela, ou algo do tipo?
Boyer assentiu furtivamente, depois franziu a testa e balançou a cabeça num gesto de alerta.
– Tudo bem – disse Guild. – Onde vocês conseguiram as informações sobre o que aconteceu?
– Com o casal Hopkins. Eles cuidam deste lugar para Wynant. Estavam na cozinha e ouviram toda a briga. Correram escada acima quando ouviram os tiros, e ele os afastou com a arma e disse que voltaria para matá-los se contassem a alguém antes que ele tivesse uma hora de dianteira, mas eles telefonaram para Ray assim que Wynant foi embora.
Guild jogou a guimba do cigarro na lareira e acendeu um novo. Em seguida pegou um cartão numa caixa marrom tirada do bolso e deu o cartão a Boyer.
JOHN GUILD
DETETIVES ASSOCIADOS, INC.