Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 3 de 44

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Tiros na Noite

Detetive de plantão

O detetive do Hotel Montgomery recebera a mixaria da semana anterior em forma de mercadoria, em vez de dinheiro, das mãos do contrabandista de bebidas. Em seguida, bebeu tudo e adormeceu no hall do hotel. Resultado: foi despedido. Como eu era o único dando sopa na filial de San Francisco da Agência de Detetives Continental, fui encarregado de dar plantão no hotel durante três dias, enquanto eles procuravam alguém em definitivo.

O Montgomery era um hotel calmo, de boa qualidade, e eu acabei tendo uma temporada muito tranqüila – até o terceiro e último dia. Aí, tudo mudou. Desci até o lobby naquela tarde e encontrei Stacey, o subgerente, doido atrás de mim.

– Uma das arrumadeiras acabou de ligar. Parece que tem alguma coisa errada no 906 – disse.

Subimos juntos até lá. A porta estava aberta. No meio do quarto, uma arrumadeira olhava com olhos arregalados para a porta fechada do guarda-roupa. Da fresta da porta, saía um rio de sangue, serpenteando em nossa direção por quase meio metro.

Tomando a frente da arrumadeira, fui até o armário e forcei a porta. Estava destrancada. Abri. Lentamente, duro como um pau, caiu nos meus braços um homem – caiu de costas –, e em suas costas o sobretudo, empapado e pegajoso, exibia um rasgão de quinze centímetros.

Aquilo não me surpreendeu: o sangue no chão já havia me preparado para alguma coisa do tipo. Mas quando outro cadáver caiu do guarda-roupa – este, de frente para mim, olhando-me com seu rosto escuro, desfigurado –, eu deixei cair o primeiro e dei um pulo para trás.

E, assim que pulei, um terceiro homem caiu lá de dentro, por cima dos outros.

Atrás de mim, ouvi um grito e um baque. Era a arrumadeira desmaiando. Eu próprio não estava lá muito bem das pernas. Não sou um cara delicado, e já vi um bocado de coisas feias na vida, mas nas semanas seguintes eu guardaria nas retinas a imagem daqueles três cadáveres pulando de dentro do armário e caindo nos meus pés. E caindo devagar, quase como se fizessem de propósito, numa brincadeira macabra de “faça-tudo-o-que-seu-mestre-mandar”.

Olhando aqueles homens, não poderia restar dúvida de que estavam mortos. Cada detalhe daquela queda e cada detalhe da pilha em que jaziam agora guardavam uma certeza horripilante de morte.

Virei-me para Stacey, que, branco como um papel, mantinha-se de pé apoiando-se no pé de metal da cama.

– Tire a moça daqui! Vá chamar um médico... A polícia!

Desfiz a pilha de corpos, colocando-os lado a lado numa fila horripilante, com os rostos para cima. Em seguida, examinei rapidamente o quarto.

Um chapéu mole, que cabia em um dos mortos, fora jogado sobre a cama, que não fora desfeita. A chave estava na porta, do lado de dentro. Não havia sangue pelo quarto, a não ser o que escorrera de dentro do guarda-roupa, e o quarto não tinha sinais de luta.

A porta para o banheiro estava aberta. No fundo da banheira, havia uma garrafa de gim quebrada. Pelo cheiro forte e pela maneira como a banheira estava molhada, imaginei que tivesse sido quebrada ainda bem cheia. Num dos cantos do banheiro havia um copo pequeno de uísque e outro sob a banheira. Estavam secos, limpos e não tinham cheiro.

A parte interna da porta do guarda-roupa estava toda suja de sangue, da altura do meu ombro até o chão. E, no fundo, havia dois chapéus em meio à poça pegajosa. Cada um cabia certinho num dos homens mortos.

E era tudo. Três cadáveres, uma garrafa de gim quebrada, sangue.

Stacey voltou em pouco tempo trazendo um médico. Enquanto ele examinava os homens mortos, chegaram os detetives da polícia.

O trabalho do médico foi rápido.

– Este aqui – disse ele, apontando um dos caras – levou uma pancada na parte de trás da cabeça com um instrumento pequeno e rombudo. Em seguida, foi estrangulado. Este outro – apontou o do lado – foi só estrangulado. E o terceiro levou uma facada nas costas, com uma lâmina de aproximadamente doze centímetros de comprimento. Estão mortos há cerca de duas horas, desde o meio-dia, por aí.

O subgerente identificou dois dos corpos. O homem esfaqueado – o primeiro a cair do guarda-roupa – tinha chegado ao hotel três dias antes, registrando-se como Tudor Ingraham, de Washington, e estava hospedado no quarto 915, três portas adiante.

O último cara a cair do guarda-roupa – o que só tinha sido estrangulado – era o ocupante do quarto. Chamava-se Vincent Develyn. Era um corretor de seguros e morava no hotel desde a morte da mulher, cerca de quatro anos antes.

O terceiro homem era sempre visto na companhia de Develyn, e um dos empregados do hotel lembrou-se de que eles tinham entrado juntos pouco depois do meio-dia. Cartas e cartões que levava no bolso nos disseram que seu nome era Homer Ansley, sócio da firma de advocacia Lankershim e Ansley, cujo escritório no Edifício Miles ficava ao lado do escritório de Develyn.

Nos bolsos de Develyn havia qualquer coisa entre 150 e 200 dólares. Na maleta de Ansley, mais de cem. Os bolsos de Ingraham estavam recheados com quase 300 dólares e numa bolsa camuflada em forma de cinto, em sua cintura, encontramos mais 2.200 dólares, além de dois diamantes de tamanho médio, sem engaste. Os três levavam relógios – o de Develyn era valioso – nos bolsos, e Ingraham usava ainda dois anéis, ambos caros. A chave do quarto de Ingraham estava em seu bolso.

Além do dinheiro – cuja presença indicava que o triplo crime não fora um latrocínio –, não encontramos mais nada com os mortos que nos fornecesse qualquer pista. Tampouco fizemos progresso ao examinar, meticulosamente, os quartos de Ingraham e Develyn.

No quarto de Ingraham encontramos uma dúzia ou mais de pacotes com cartas marcadas, alguns dados adulterados, além de grande quantidade de informação sobre corridas de cavalos. Também descobrimos que ele tinha mulher morando em Buffalo, na East Delavan Avenue, e um irmão em Dallas, na Crutcher Street. Encontramos ainda uma lista de nomes e endereços, que guardamos para posterior investigação. Mas nada, em qualquer um dos dois quartos, cheirava, nem de leve, a assassinato.

Phels, o “Bertillon”4 do Departamento de Polícia, encontrou várias impressões digitais no quarto de Develyn, mas não se podia saber se elas teriam algum valor enquanto ele não terminasse de examiná-las. Embora Develyn e Ansley aparentemente tivessem sido estrangulados por mãos, Phels não conseguiu obter impressões digitais de seus pescoços ou colarinhos.

A arrumadeira que tinha descoberto a mancha de sangue contou que arrumara o quarto de Develyn entre dez e onze da manhã, mas que não tinha trocado as toalhas, razão pela qual voltara de tarde. Estivera lá antes – entre 10h20 e 10h45 – com tal intuito, mas Ingraham ainda não saíra do quarto.

O ascensorista que vira Ansley e Develyn subirem pouco depois do meio-dia lembrava de que eles, no elevador, tinham comentado, entre risadas, os pontos obtidos numa partida de golfe no dia anterior. Ninguém vira nada suspeito no hotel perto da hora em que o médico calculara terem ocorrido os crimes. Mas isso já era esperado.

O assassino podia ter saído do quarto, fechando a porta atrás de si e caminhando calmamente na certeza de que um homem andando pelos corredores do Montgomery ao meio-dia não despertaria qualquer atenção. Se estivesse hospedado no hotel, seria só entrar em seu quarto. Se não, bastaria ter descido até o hall e saído pela porta ou então ter descido dois ou três lances de escada, para em seguida pegar o elevador.

Nenhum dos empregados do hotel jamais vira Ingraham e Develyn juntos. Não havia a mínima evidência de qualquer relação entre eles. Ingraham geralmente ficava no quarto até o meio-dia, não voltando até tarde da noite. Nada se sabia sobre seus negócios.

No Edifício Miles, nós – quero dizer, Mary O’Hara e George Dean, da Seção de Homicídios do Departamento de Polícia, e eu – interrogamos os sócios de Ansley e os empregados de Develyn. Os dois, ao que parecia, eram homens comuns, levando vidas comuns: vidas que não tinham pontos obscuros ou excentricidades. Ansley era casado e tinha dois filhos. Morava na Lake Street. Ambos tinham muitos amigos e parentes espalhados por várias cidades do país. E, até onde pudemos averiguar, estava tudo em ordem com seus negócios.

Tinham saído dos respectivos escritórios naquele dia para almoçar juntos, com a intenção de passar primeiro no quarto de Develyn a fim de tomar um drinque, de uma garrafa de gim que alguém contrabandeara da Austrália.

– Bem – disse O’Hara, quando já estávamos de novo na rua –, uma coisa é certa. Se eles subiram até o quarto de Develyn para um drinque, está na cara que foram mortos assim que chegaram lá. Os copos de uísque que você encontrou estavam secos e limpos. Quem quer que tenha feito aquela bagunça devia estar esperando por eles. Estou desconfiando desse tal de Ingraham.

– Eu também – concordei. – Pela posição em que eles estavam quando abri aquela porta, Ingraham parece ser a chave de tudo. Develyn estava de costas para a parede, com Ansley na frente dele, ambos de frente para a porta. Ingraham estava virado para os dois, com as costas para a porta. O guarda-roupa era grande o suficiente para manter os três em pé – mas pequeno demais para que um deles despencasse com a porta fechada.

– Não havia sangue no quarto, a não ser o que tinha escorrido do guarda-roupa. Ingraham, com aquela facada nas costas, só pode ter sido golpeado depois que estava dentro do guarda-roupa, caso contrário teria sujado tudo de sangue. Estava colado nos dois homens quando foi esfaqueado, e aquele que o golpeou fechou a porta em seguida com ele lá dentro.

– Agora, por que ele estaria de pé naquela posição? Será que ele e outro camarada mataram os dois amigos e quando ele estava arrumando os corpos no armário foi atingido pelo comparsa por trás?

– Talvez – disse Dean.

E aquele “talvez” era o máximo a que tínhamos chegado, depois de três dias de investigação.

Havíamos mandado e recebido um monte de telegramas, interrogando parentes e conhecidos dos mortos. E isso sem encontrar nada que parecesse ter relação com os assassinatos. Tampouco achamos qualquer conexão entre Ingraham e os outros dois. Tínhamos feito um levantamento da vida deles até quase o berço. Também havíamos levantado cada passo dado por eles desde que Ingraham chegara a San Francisco – o suficiente para nos convencer de que nenhum dos dois se encontrara com ele.

Ingraham, ficamos sabendo, era um bookmaker e trapaceava no jogo. Estava separado da mulher, mas fora uma separação amigável. Uns quinze anos antes, ele fora condenado por “assalto com intenção de matar” em Newark, New Jersey, cumprindo uma pena de dois anos de prisão. Mas o cara que tentara assassinar tinha morrido de pneumonia em Omaha, em 1914.

Ingraham tinha chegado a San Francisco para abrir um clube de jogo, e todas as nossas investigações mostravam que, desde sua chegada à cidade, ele só se movimentara nesse sentido.

No fim das contas, as impressões digitais obtidas por Phels eram de Stacey, da arrumadeira, dos detetives ou minhas. Resumindo: não tínhamos descoberto nada!

E isso era tudo, apesar de nosso esforço para descobrir o motivo por trás daquele triplo assassinato.

Deixamos, então, essa abordagem para lá e decidimos nos prender aos detalhes, dedicando-nos a uma caçada paciente atrás dos rastros do assassino. Entre qualquer crime e seu autor existe um rastro. Pode até ser – e era esse o caso – obscuro. Mas como uma matéria não pode se mover sem movimentar outra matéria em seu curso, sempre existe – e sempre existirá – um rastro de algum tipo. Encontrar e seguir esses rastros é aquilo para o qual os detetives são pagos.

No caso de um assassinato, às vezes é possível cortar caminho em direção à extremidade do rastro, simplesmente descobrindo o motivo. Conhecer o motivo em geral reduz as possibilidades. Às vezes, leva-nos direto ao culpado.

Até então, tudo o que sabíamos sobre o motivo para o caso com o qual estávamos lidando era que não tinha sido roubo. A não ser que alguma coisa sobre a qual não tínhamos conhecimento tivesse sido roubada – alguma coisa valiosa o suficiente para fazer com que o assassino deixasse para trás um monte de dinheiro nos bolsos de suas vítimas.

Claro que não tínhamos desistido completamente de seguir a pista do assassino, mas – como seres humanos – é óbvio também que estávamos tentando a todo custo achar uma forma de cortar o caminho. Agora, íamos partir atrás do homem, ou homens, sem levar em conta o que o levara, ou os levara, a cometer os crimes.

Entre as pessoas registradas no hotel no dia do assassinato havia nove homens de cuja inocência tínhamos alguma razão para duvidar. Quatro deles ainda estavam hospedados no hotel, e apenas um nos interessava. Tínhamos descoberto que esse – um cara magro e comprido, de seus 45, 50 anos, que se registrara como J. J. Cooper, vindo de Anaconda, em Montana – não era, de jeito algum, um minerador, como alegara. Nossas comunicações telegráficas com Anaconda nos tinham mostrado que ninguém o conhecia por lá. Assim sendo, decidimos segui-lo – com parcos resultados.

Entre os tais nove homens, cinco tinham ido embora do hotel depois dos assassinatos. Três haviam deixado na portaria os endereços para onde estavam indo. Gilbert Jacquemart, que ocupava o quarto 946, dera ordem para que sua correspondência fosse enviada para um hotel em Los Angeles. W. F. Salway, que estava no quarto 1.022, deixara instruções para que mandassem suas cartas para um endereço na Clark Street, em Chicago. Ross Orrett, do quarto 609, pedira que sua correspondência fosse enviada para o posto local dos correios.

Jacquemart tinha chegado ao hotel dois dias antes dos crimes, indo embora na tarde da ocorrência. Salway chegara na véspera e fora embora no dia seguinte. Orrett chegara no próprio dia do crime e deixara o hotel um dia depois.

Depois de mandar telegramas para que os dois primeiros fossem localizados e investigados, fui por minha conta atrás do tal de Orrett. Na ocasião, estava sendo anunciada na cidade uma grande comédia musical chamada Para quê?, com panfletos muito bem impressos, na cor roxa, para distribuição. Peguei um deles e encontrei, na papelaria, um envelope que combinasse. Em seguida, enviei por correio para Orrett no Hotel Montgomery. É praxe procurar saber nos hotéis os nomes das pessoas que estão chegando à cidade, a fim de mandar propaganda para elas. Com isso, eu tinha certeza de que Orrett não desconfiaria de nada quando visse meu vistoso envelope, mandado para o hotel, chegar até as mãos dele através do guichê do correio.

Dick Foley – especialista da agência em seguir pessoas – ficou de plantão no posto do correio, a fim de espiar quando um envelope roxo fosse entregue através do buraco em forma de “O” do guichê, para então seguir o destinatário.

Passei o dia seguinte tentando decifrar o jogo do misterioso J. J. Cooper, mas, ao final do dia, não tinha conseguido avançar nada. Pouco antes das cinco da manhã do dia seguinte, Dick Foley apareceu no meu quarto a caminho de casa para me acordar e dizer o que tinha descoberto.

– O tal Orrett é o camarada que procuramos – disse. – Flagrei o cara pegando o envelope ontem à tarde. Tinha uma outra carta para ele, além da sua. Ele está num apartamento na Van Ness Avenue. Alugou no dia seguinte ao dos crimes, com o nome de B. T. Quinn. Carrega uma arma embaixo do braço esquerdo, percebi o volume característico. Foi para casa dormir. Tem dado umas buscas em todas as espeluncas de North Beach. E sabe de quem ele está atrás?

– De quem?

– De Guy Cudner.

Aquilo, sim, era uma notícia! O tal de Guy Cudner, conhecido como “o Sombra”, era o bandido mais perigoso de toda a costa, quiçá do país. Só tinha sido preso uma vez, mas, se recebesse pena por todos os crimes que se sabia que tinha cometido, ia precisar de meia dúzia de vidas para cumprir as sentenças, além de mais meia dúzia para ser enforcado. Só que ele tinha costas quentes – o suficiente para fazer com que tivesse nas mãos testemunhas, álibis, até mesmo jurados e um ou outro juiz.

Não sei o que deu errado uma vez, mas nessa ocasião ele foi preso, no Norte, com uma acusação que lhe daria entre um e quatorze anos de prisão. Mas logo ele deu um jeitinho e, quando os jornais com as notícias ainda estavam com a tinta fresca, já estava sendo libertado sob condicional.

– Cudner está na cidade?

– Não sei – respondeu Dick –, mas o tal de Orrett, ou Quinn, ou seja lá qual for o seu nome, está doido atrás dele. Foi no Rick’s, no “Wop” Healey’s e no Pigatti’s. Quem me deu a pala foi o Porco Grout. Segundo ele, Orrett não conhece Cudner de vista, mas está atrás dele. O Porco não soube me dizer o que o cara quer com Cudner.

O tal de Porco Grout era um sujeito nojento, capaz de vender a família – se um dia tivesse tido uma – pelo preço de uma banana. Mas, com esses caras que fazem jogo duplo, nunca se sabe se eles estão mesmo do seu lado.

– Tem certeza de que o Porco está falando a verdade? – perguntei.

– Parece que está, mas com ele não se pode brincar.

– Orrett conhece muita gente por aqui?

– Pelo visto, não. Ele sabe aonde quer ir, mas precisa perguntar como se chega lá. E não falou com ninguém que parecesse conhecer.

– Como é que ele é?

– Não é nenhuma flor que se cheire, se você quer saber. Ele e Cudner fariam um par e tanto. Fisicamente, não se parecem nada. O tal cara é alto e magro, mas é bem socado, com músculos ágeis. A cara é sulcada, sem ser fina, se é que você me entende. Quero dizer, as linhas do rosto são duras. Não há curvas. Queixo, nariz, boca, olhos, é tudo reto, com linhas e ângulos retos. Parece um cara do mesmo tipo de Cudner. Fariam um bom par, sim. É bem-vestido, não parece um vagabundo, não, mas é duro como uma pedra! Uma boa bisca! É o cara que procuramos, pode acreditar!

– Nada mal – concordei. – Chegou ao hotel na manhã do crime e foi embora na manhã seguinte. Num piscar de olhos, muda de nome. E agora está de par como “Sombra”. Nada mal, nada mal.

– Estou lhe dizendo – insistiu Dick –, o cara tem um jeito de que não perderia o sono com três assassinatos. Só queria saber onde é que Cudner se encaixa...

– Não tenho idéia. Mas se ele e Orrett ainda não se encontraram, então Cudner não participou dos assassinatos. Mas talvez ele possa nos dar a resposta.

Pulei da cama.

– Vou me arriscar a acreditar que o Porco Grout falou a verdade. Como é que você descreveria Cudner?

– Você o conhece melhor do que eu.

– Eu sei, mas se eu não o conhecesse e você tivesse de descrevê-lo, o que diria?

– Um cara gordo e baixinho, com uma cicatriz vermelha na bochecha esquerda. Por quê?

– Isso – concordei. – Aquela cicatriz faz toda a diferença do mundo. Se ele não tivesse cicatriz, você teria de dar detalhes da aparência dele. Mas, já que tem, você só diz “Um cara gordo e baixinho, com uma cicatriz vermelha na bochecha esquerda”. Aposto que foi assim que descreveram ele para Orrett. Eu não me pareço com Cudner, mas tenho o mesmo corpo e a mesma altura que ele. Com uma cicatriz no rosto, Orrett vai pensar que eu sou ele.

– Para quê?

– Não sei direito. Mas, se Orrett pensar que eu sou Cudner, vou ouvir um bocado de coisas. Seja como for, vale a pena tentar.

– Você não vai conseguir... não em San Francisco. Cudner é muito popular.

– Que diferença faz, Dick? Orrett é o único que eu quero enganar. Se ele acreditar que eu sou Cudner, ótimo. Se não, ótimo também. Não vou insistir.

– E como é que você vai arranjar uma cicatriz de mentira?

– Moleza! Temos fotos do Cudner na polícia, com a cicatriz bem à vista. Arrumo um pouco de colódio, é vendido nas farmácias, de várias marcas diferentes, para se botar em cortes e arranhões, e pinto, dando o formato da cicatriz de Cudner. Quando seca, o colódio fica com a superfície meio brilhante, vai ficar igualzinho a uma cicatriz antiga.

Na noite seguinte, pouco depois das onze horas, Dick me ligou dizendo que Orrett estava no Pigatti’s, na Pacific Street, com ar de quem tinha chegado para se demorar. Com minha cicatriz falsa já pronta, corri para pegar um táxi. Poucos minutos depois, estava conversando com Dick na esquina do Pigatti’s.

– Ele está na última mesa, no fundo, à esquerda. Até a hora em que saí, estava sozinho. Não tem como você não vê-lo. É o único cara nesta espelunca que está usando uma roupa limpa.

– É melhor você esperar aqui fora, a meio quarteirão daqui, dentro de um táxi – disse a Dick. – É provável que eu e o nosso amiguinho Orrett saiamos juntos e, quando isso acontecer, seria ótimo ter você por perto para o caso de alguma coisa dar errado.

O Pigatti’s é um estabelecimento comprido e estreito, de teto baixo, sempre muito enfumaçado. No centro, entre as mesas, há um espaço estreito sem tapete, usado para dançar. O resto do lugar é todo entupido de mesas, muito próximas umas das outras, com toalhas sempre manchadas.

A maioria das mesas estava ocupada quando eu entrei, e havia meia dúzia de casais dançando. Poucos rostos ali eram estranhos às filas matinais do quartel da polícia.

Espiando através da fumaça, vi Orrett imediatamente, sentado sozinho num canto, observando os casais que dançavam, com aquela cara neutra que fazem aqueles que estão prestando atenção em tudo à sua volta. Entrei pelo outro lado do salão e atravessei a pista de dança bem debaixo da luz, para que minha cicatriz de mentira ficasse visível para ele. Em seguida, escolhi uma mesa vazia não muito longe de onde ele estava e me sentei, encarando-o.

Durante uns dez minutos, ele fingiu estar interessado nos casais que dançavam e eu fingi olhar com grande concentração para a toalha suja que cobria a minha mesa. Mas nenhum de nós perdia nem um único movimento um do outro.

Após algum tempo, os olhos dele – olhos cinzentos, pálidos mas não rasos, com pupilas negras que faiscavam como uma lâmina – acabaram encontrando os meus. Foi um olhar frio, firme, inescrutável. E, muito lentamente, ele se pôs de pé. Uma das mãos – a direita – estava enfiada no bolso de seu paletó escuro, enquanto ele atravessava em direção à minha mesa, para afinal sentar-se.

– Cudner?

– Ouvi falar que está procurando por mim – respondi, tentando fazer a mesma entonação suavemente gelada da voz dele, assim como tentava manter a mesma firmeza de seu olhar.

Ele se sentara com o lado esquerdo ligeiramente virado para mim, com o braço direito posto numa determinada posição, de forma que facilitasse sacar uma arma com rapidez de dentro do bolso onde a mão continuava enfiada.

– Você também andou atrás de mim.

Eu não sabia qual seria a resposta certa e, por isso, dei apenas uma risadinha. Mas aquele riso não teve convicção. Logo percebi que tinha cometido um erro – um erro que poderia me custar caro, antes mesmo que tivéssemos acertado os ponteiros. O cara não estava atrás de Cudner por amizade, como eu pensara, inocentemente, mas sim em clima de guerra.

E de repente visualizei aqueles três homens caindo de dentro do guarda-roupa no quarto 906.

Minha arma estava enfiada no cós da calça, de onde poderia sacá-la com rapidez, mas a dele já estava na mão. Por isso, tomei cuidado para manter as mãos imóveis, na quina da mesa, enquanto abria ainda mais o meu sorriso.

Agora os olhos dele se modificavam e, quanto mais eu olhava para eles, menos gostava do que via. O cinza tinha ficado mais escuro e mais neutro, as pupilas estavam dilatadas, o branco em forma de meia-lua crescendo sob as íris cinzentas. Eu já vira em duas ocasiões olhos assim – e não esquecera o que eles significavam: eram os olhos de um assassino nato!

– Vamos supor que você dissesse o que tem a dizer – comecei, depois de algum tempo.

Mas ele não estava para conversa. Balançou a cabeça apenas alguns centímetros, deixando cair os cantos da boca de forma quase imperceptível. A meia-lua branca na parte de baixo dos olhos cresceu mais, empurrando as íris cinzentas para baixo das pálpebras superiores.

Era a hora! E eu não tinha por que esperar.

Enfiei um pé nas canelas do cara, sob a mesa, ao mesmo tempo em que empurrava a própria mesa sobre ele, saltando. A bala que saiu do revólver dele foi para um dos lados. Outra bala – que não veio de sua arma – cravou-se na mesa que estava entre nós dois.

Eu o segurava pelos ombros quando um segundo tiro, vindo de trás, atingiu seu braço esquerdo, bem abaixo da minha mão. Larguei-o e me joguei no chão, rolando em direção à parede e me virando para ficar de frente para o lugar de onde partiam os tiros.

Virei-me exatamente a tempo de ver – desaparecendo por trás da quina de um corredor que ia dar num reservado – o rosto de Guy Cudner, com sua cicatriz. E, assim que desapareceu, um novo disparo, agora da arma de Orrett, espatifou o gesso que recobria a parede de onde ele surgira.

Dei um risinho ao pensar no que estaria se passando na cabeça de Orrett, jogado no chão e enfrentando dois Cudners ao mesmo tempo. Mas nesse segundo ele me deu mais um tiro e eu parei de rir. Por sorte, Orrett teve de se contorcer para mirar em mim, botando todo o peso em cima do braço ferido, o que o fez encolher-se por causa da dor, perdendo o ímpeto.

Antes que ele pudesse se ajeitar melhor, eu já tinha me arrastado em direção à cozinha do Pigatti’s – que ficava a poucos metros dali –, escondendo-me num lugar seguro, atrás de uma quina da parede. Só meus olhos e o topo de minha cabeça eram visíveis, de forma que eu pudesse ver o que acontecia.

Orrett estava agora a três ou quatro metros de mim, deitado no chão, encarando Cudner, com uma arma na mão e outra no chão a seu lado.

Do outro lado da sala, a uns dez metros mais ou menos, Cudner espiava por trás de uma quina, expondo-se de quando em quando para trocar tiros com o homem que estava no chão, e vez por outra atirando também em minha direção. Tínhamos agora o lugar todo só para nós. Havia quatro saídas no Pigatti’s e os outros fregueses tinham desaparecido por elas.

Eu estava de arma na mão, mas na verdade esperava para ver no que ia dar. Cudner, imaginei, tinha ficado sabendo que Orrett estava atrás dele e chegara ali sem a menor dúvida quanto às intenções deste último. O que acontecera entre os dois e qual a relação de tudo aquilo com as três mortes no Montgomery, isso continuava sendo um mistério para mim. Mas aquela não era hora de tentar desvendar mistérios.

Os dois atiravam em uníssono. Cudner aparecia por trás da parede e as duas armas eram disparadas ao mesmo tempo, para em seguida ele voltar a se esconder. Orrett estava agora sangrando perto da cabeça e tinha uma das pernas aberta para trás, meio torta. Quanto a Cudner, eu não saberia dizer se fora ou não atingido.

Cada um já tinha dado pelo menos uns oito tiros, talvez nove, quando de repente Cudner saiu de trás da parede, atirando sem parar com o revólver que trazia na mão esquerda, tão depressa quanto permitia o mecanismo da arma, mas sem disparar o que levava na mão direita. Orrett tinha mudado de arma e agora estava de joelhos, com a nova mantendo o mesmo ritmo da do inimigo.

Aquilo não ia durar muito.

Cudner baixou a arma da mão esquerda e, enquanto erguia a outra, avançou, caindo também de joelhos. Orrett parou de atirar de repente, caindo de costas – esticado. Cudner deu mais um tiro – atirando a esmo, no teto – e caiu de cara no chão.

Corri para junto de Orrett e chutei seus dois revólveres para longe. Ele estava imóvel, mas de olhos abertos.

– É você que é Cudner, ou era ele?

– Ele.

– Ótimo! – disse, antes de fechar os olhos.

Fui até onde Cudner estava caído e virei-o de barriga para cima.

Tinha o torso destroçado.

Seus lábios grossos se moveram e eu aproximei meu rosto.

– Eu o peguei?

– Pegou – menti. – Já está frio.

Seu rosto moribundo se contorceu num esgar de riso.

– Desculpe... aqueles três no hotel... – sussurrou. – Foi um engano... o quarto errado... peguei um... e... tinha outros dois... tinha de... me proteger. – E, com um estremecimento, estava morto.

Uma semana depois, o pessoal do hospital me deixou falar com Orrett. Contei a ele o que Cudner dissera antes de morrer.

– Foi assim que eu saquei tudo – disse Orrett, das profundezas de suas bandagens. – Foi por isso que me mandei e troquei de nome no dia seguinte. – E, depois de algum tempo, acrescentou: – Acho que você já entendeu tudo agora.

– Não – admiti. – Ainda não. Tenho uma idéia do que aconteceu, mas não seria mal se você me contasse mais alguns detalhes.

– Sinto por não poder lhe contar todos os detalhes, porque, afinal de contas, preciso me proteger. Mas vou lhe contar uma história que talvez possa lhe ajudar. Era uma vez um canalha de alta classe – um daqueles que os jornais chamam de “cérebro” dos crimes. Chegou uma hora em que ele decidiu que já tinha ganho fortuna suficiente e que já podia largar o jogo, a fim de se estabelecer como um homem honesto.

“Mas ele tinha dois comparsas – um em Nova York, outro em San Francisco – que eram as únicas duas pessoas no mundo que sabiam que ele era um crápula. Além disso, estava com medo dos dois. Assim sendo, o cara imaginou que teria mais sossego caso eles saíssem de seu caminho. E acontece que esses comparsas não se conheciam de vista.

“Bem, o tal manda-chuva convenceu cada um dos dois caras de que o outro havia passado a perna nele, e que devia ser eliminado para a segurança geral. E os dois caíram como patinhos. O cara de Nova York foi para San Francisco para pegar o outro, e o de San Francisco soube que o de Nova York ia chegar em tal e tal dia e se hospedar em tal e tal hotel.

“O manda-chuva imaginou que havia uma boa chance de os dois homens morrerem nesse encontro – e ele estava quase certo. Sabia que, no mínimo, um morreria e que o outro, mesmo que escapasse da forca, seria um só, ficando mais fácil livrar-se dele no futuro.”

Não havia tantos detalhes na história quanto eu gostaria, mas aquilo explicava muita coisa.

– E como foi que você descobriu que Cudner tinha ido parar no quarto errado? – perguntei.

– Foi gozado! Deve ter acontecido o seguinte: eu estava no quarto 609 e as mortes aconteceram no 906. Imagine o Cudner entrando no hotel no dia em que sabia que eu iria chegar e dando uma olhada nos registros. Ele não ia querer ser visto fazendo isso, portanto teve de agir rápido, e deve ter olhado o livro de cabeça para baixo.

“Quando você lê números de três algarismos de cabeça para baixo, precisa pensar que número formam na posição certa. Como 123, por exemplo. Você lê 321 e vira os algarismos ao contrário na sua cabeça. Foi o que Cudner fez com o número do meu quarto. Só que ele estava fissurado, pensando no serviço que tinha pela frente, e não prestou atenção ao fato de que 609, em qualquer posição, é 609. Sendo assim, ele desvirou o número em pensamento e chegou a 906 – o número do quarto de Develyn.

– Foi o que deduzi – disse eu –, e acho que foi isso mesmo. Com certeza, depois ele deu uma olhada no quadro de chaves e viu que a do 906 não estava lá. Então achou que podia acabar logo com tudo de uma vez, para depois se esgueirar pelos corredores do hotel sem ser notado. Talvez ele tenha ido até o quarto antes que Ansley e Develyn chegassem, mas duvido muito.

“Acho mais provável que, por acaso, ele tenha chegado ao hotel poucos minutos depois de Ansley e Develyn. Provavelmente Ansley estava sozinho no quarto quando Cudner abriu a porta destrancada e entrou – Develyn devia estar no banheiro, pegando os copos.

“Ansley era mais ou menos da sua idade e tamanho, com uma aparência que podia perfeitamente bater com uma descrição superficial sua. Cudner então voou em cima dele e Develyn, ouvindo aquilo, largou a garrafa e os copos e saiu correndo do banheiro – para dar no que deu.

“Cudner, do jeito que era, com toda certeza devia achar que uma morte ou duas era algo que não faria a menor diferença, além, é claro, do fato de que não queria testemunhas.

“E foi por isso também que provavelmente Ingraham entrou na história. Devia estar passando pelo corredor, indo pegar o elevador, quando ouviu a barulheira e parou para investigar. E Cudner deve ter apontado a arma para ele, obrigando-o a enfiar os dois corpos no guarda-roupa. Em seguida, enfiou a faca em suas costas e fechou a porta. Deve ter sido assim que...”

Uma enfermeira inconveniente veio por trás de mim e me pediu que fosse embora, acusando-me de estar deixando o paciente agitado.

Orrett me segurou quando eu ia me virando.

– Fique de olho nas notícias de Nova York – disse – e talvez você descubra o resto da história. Ela ainda não acabou. Ninguém pode ter nada contra mim. O tiroteio no Pigatti’s foi em legítima defesa. E, assim que eu estiver andando de novo e de volta à Costa Leste, vai haver um manda-chuva segurando o maior rabo-de-foguete. É uma promessa!

E eu acreditei nele.

 

4 Provável referência a Alfonse Bertillon, grafólogo francês que deu um parecer errado no

famoso caso Dreyfus, em 1894. (N.T.)

 

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