Tiros na Noite
Capítulo II
EDIFÍCIO FROST, SAN FRANCISCO
– Na semana passada Wynant depositou um cheque de dez mil dólares, de Nova York, em sua conta no Seaman’s National Bank – disse Guild. – Ontem o banco ficou sabendo que o cheque tinha sido alterado, de mil para dez mil. O banco perdeu seis mil no negócio.
– Mas no caso de um cheque alterado – disse Boyer – eu creio que...
– Eu sei – concordou Guild –, o banco não é responsável. Teoricamente. Mas em geral a coisa não é tão simples e... bem, nós estamos trabalhando para a companhia de seguros que cobre o Seaman’s, e é bom negócio ir atrás dele e recuperar o máximo possível.
– Fico feliz por ser assim que vocês pensam – disse o promotor com entusiasmo. – Fico enormemente satisfeito por você trabalhar conosco. – Ele estendeu a mão.
– Obrigado – disse Guild enquanto segurava sua mão. – Vamos olhar os Hopkins e o corpo.
II
Columbia Forrest tinha sido uma jovem de membros compridos, suavemente esguia. Seu corpo, mesmo morto e vestido num conjunto esportivo azul, parecia ágil. O cabelo curto era de um castanho levemente ruivo. As feições eram pequenas e regulares, atraentes em sua falta de força. Havia três buracos de bala na têmpora esquerda. Duas se tocavam. A terceira ficava abaixo do olho.
Guild pôs a ponta de seu indicador moreno levemente na borda do buraco mais baixo.
– Calibre 32 – falou. – Ele se certificou: qualquer um dos três teria feito o serviço. – Em seguida virou-se de costas para o cadáver. – Vejamos os Hopkins.
– Eles estão na sala de jantar, eu acho – disse o promotor. Em seguida hesitou, pigarreou. Seu rosto jovem estava preocupado. Tocou o cotovelo de Guild com as costas de uma das mãos e disse: – Vá com calma com o Ray, certo? Ele estava um pouco, ou muito, eu acho, apaixonado por ela, e isso está sendo difícil.
– O subdelegado?
– Sim, Ray Callaham.
– Estará tudo bem se ele não ficar no caminho – disse Guild, descuidadamente. – Que tipo de pessoa é esse xerife?
– Ah, Petersen é boa pessoa.
Guild pareceu considerar criticamente essa declaração. Depois falou:
– Mas não é o que você chamaria de um empedernido caçador de homens?
– Bem, não, não é. Você sabe, um xerife tem outras coisas a fazer na maior parte do tempo, mas se tivesse outra pessoa de bom grado para fazer o serviço, ele não interferiria. – Boyer umedeceu os lábios e se inclinou para perto do homem moreno. Seu rosto estava com uma luminosidade juvenil. – Eu gostaria de que fosse você. Fico feliz por você trabalhar comigo nisso, Guild – disse ele numa voz baixa, séria. – Eu... este é o meu primeiro assassinato, e eu gostaria de... bem... mostrar a eles – ele ruborizou – que não sou tão novo quanto alguns dizem.
– É justo. Vamos ver os Hopkins. Aqui.
O promotor examinou inquietamente o rosto moreno de Guild por um instante, começou a dizer alguma coisa, mudou de idéia e saiu do quarto.
Um homem e uma mulher vieram junto quando ele voltou. O homem tinha provavelmente cinqüenta anos, era de estatura mediana, com cabelos finos e grisalhos acima de um rosto redondo e fleumático. Usava calças marrons presas por suspensórios azuis novos e uma camisa azul desbotada aberta no colarinho. A mulher tinha mais ou menos a mesma idade, era baixa, gorducha e esmeradamente vestida de cinza. Usava óculos de aro de ouro. Seus olhos eram redondos, claros e brilhantes.
O promotor fechou a porta e disse:
– O sr. Guild está trabalhando comigo. Por favor dêem a ele toda a ajuda que puderem.
Os Hopkins assentiram em uníssono.
– Como foi que isso aconteceu? – perguntou Guild, e indicou a jovem morta, com um pequeno movimento da cabeça.
– Eu sempre soube que ele faria alguma coisa assim em algum momento – disse Hopkins, enquanto a mulher falava:
– Foi exatamente aqui neste quarto, e eles estavam falando tão alto que dava para ouvir na casa inteira.
Guild balançou o cigarro na direção deles.
– Um de cada vez. – E falou para o homem: – Como o senhor sabia que ele ia fazer isso?
A mulher respondeu rapidamente:
– Ah, ele era louco de ciúme dela o tempo todo, ela não podia se afastar da vista dele por um minuto, e quando ela voltou da cidade e disse que ia embora para se casar, ele...
De novo Guild usou o cigarro para interrompê-la.
– O que a senhora acha? Ele é realmente maluco?
– Na hora ele estava, senhor – disse ela. – Bom, quando nós entramos aqui correndo depois de ouvirmos o tiro e ele disse para nós ficarmos calados, ele estava, os olhos, o senhor nunca viu uma coisa assim na sua vida, nem a voz também, e ele estava tremendo e se sacudindo como se fosse se despedaçar.
– Não estou falando disso – explicou Guild. – Quero dizer, ele é maluco? – Antes que a mulher pudesse responder, ele fez outra pergunta: – Há quanto tempo vocês trabalham aqui?
– Uns dez meses, não é, Willie? – perguntou ela ao marido.
– É, desde o outono passado.
– Isso mesmo – disse ela a Guild. – Foi em novembro passado.
– Então vocês deviam saber se ele é louco. Ele é?
– Bom, eu vou contar – disse ela devagar, franzindo a testa. – Sem dúvida ele era a pessoa mais estranha de que o senhor já ouviu falar, mas eu acho que os gênios são assim, e eu não queria dizer que ele era totalmente maluco, a não ser por ela. – A mulher olhou para o marido.
Este disse, tolerante:
– Claro, todos os gênios são assim. É... é excêntrico.
– Então vocês acham que ele era um gênio – disse Guild. – Vocês leram as coisas que ele escrevia?
– Não, senhor – disse a sra. Hopkins, se retorcendo –, eu tentei algumas vezes, mas era muito... não consegui entender nada... muito... mas eu não sou uma mulher estudada, e...
– Com quem ela ia se casar? – perguntou Guild.
A sra. Hopkins balançou a cabeça vigorosamente.
– Não sei. Não pesquei o nome, se ela disse. Era ele que estava falando alto demais.
– Por que ela foi à cidade?
A sra. Hopkins balançou a cabeça de novo.
– Também não sei isso. Ela costumava ir a cada duas semanas, e ele sempre ficava louco com isso.
– Ela ia de carro?
– Na maior parte das vezes, sim, mas ontem não, mas ela voltou naquele carro azul novo que está lá fora.
Guild olhou interrogativamente para o promotor, que disse:
– Estamos tentando identificá-lo. Parece que é um carro novo, mas logo deveremos saber de quem é.
Guild assentiu e voltou a atenção para os Hopkins.
– Ontem ela foi a San Francisco de trem? E hoje voltou a que horas nesse carro novo?
– Sim, senhor. Mais ou menos às três horas, acho, e ela começou a fazer as bagagens. – A mulher apontou para as malas de viagem e roupas espalhadas pelo quarto. – E ele entrou e a confusão começou. Eu podia ouvir lá embaixo, e fui até a janela e chamei o Willie, isto é, o sr. Hopkis, e nós ficamos ao pé da escada, ali junto à sala de jantar, ouvindo.
Guild virou-se para esmagar o cigarro numa bandeja de bronze sobre uma mesa.
– Ela geralmente passava a noite lá, quando ia à cidade?
– Quase sempre.
– Vocês devem ter alguma idéia do motivo para ela ir à cidade – insistiu Guild.
– Não, não tenho – disse a mulher, com veemência. – Nós nunca sabíamos, não é, Willie? Ciumento como ele era, acho que se ela estava indo ver algum sujeito não diria a ninguém que pudesse contar a ele, apesar de Deus saber que eu sou capaz de manter a boca fechada como ninguém. Eu vi o...
Guild parou de acender um novo cigarro para perguntar:
– E quanto à correspondência dela? Vocês devem ter visto algumas vezes.
– Não, sr. Gould, nós nunca víamos, e isso é uma coisa engraçada, porque o tempo todo que estamos aqui nós nunca vimos nenhuma correspondência a não ser revistas e nunca soubemos se ela escrevia cartas.
Guild franziu a testa.
– Há quanto tempo ela estava aqui?
– Ela estava aqui quando nós chegamos. Não sei há quanto tempo ela já estava, mas deve ter sido muito tempo.
– Três anos – disse Boyer. – Ela chegou em março, há três anos.
– E quanto aos parentes dela, amigos?
Os Hopkins balançaram a cabeça. Boyer balançou a cabeça.
– Dele?
A sra. Hopkins balançou a cabeça de novo.
– Ele não tinha nenhum. É o que ele sempre dizia, que não tinha um parente nem um amigo no mundo.
– Quem é o advogado dele?
A sra. Hopkins ficou inexpressiva.
– Se ele tinha um, eu não sei, sr. Gould. Talvez o senhor possa descobrir isso nas cartas e nas coisas dele.
– Está bom – disse Guild abruptamente com o cigarro na boca, e abriu a porta para os Hopkins. Eles saíram do quarto.
Ele fechou a porta e, de costas para ela, olhou o cômodo em volta, a figura morta na cama sob um cobertor, as roupas espalhadas aqui e ali, as três malas, e finalmente o centro ensangüentado do tapete azul-claro.
Boyer o observava cheio de expectativa.
Olhando para a mancha de sangue, Guild perguntou:
– Vocês notificaram a polícia de San Francisco?
– Ah, sim, mandamos a descrição dele, e a descrição e o número da placa do carro dele a toda parte: de Los Angeles a Seattle e para o leste até Salt Lake.
– Qual é o número? – Guild pegou um lápis e um envelope no bolso.
Boyer disse, acrescentando:
– É um cupê Buick, do ano passado.
– Como é a aparência do sujeito?
– Eu nunca o vi, mas é muito alto, bem mais de um metro e oitenta, e magro. Não pesa mais de sessenta quilos, pelo que dizem. Você sabe, ele é tuberculoso: foi por isso que veio para cá. Tem uns 45 anos, é queimado de sol, mas macilento, com olhos castanhos, cabelos castanhos bem escuros e costeletas. Ele tem costeletas, talvez medindo uns doze a quinze centímetros, grossas e desgrenhadas. Há um bocado de fotos no quarto dele. Você pode vê-las. Estava usando um terno de tweed cinza, largo, chapéu cinza mole e sapatos marrons pesados. Os ombros são altos e retos, e ele caminha pisando nos calcanhares, com passos longos. Não fuma nem bebe e tem o hábito de falar sozinho.