A Enxada e a Lança
8. Os reinos cristãos da Núbia
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
No caso da Núbia, a própria disposição das pinturas no interior dos tem plos
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estava predeterm inada por regras com uns às igrej as do Oriente. Os artistas de
Faras seguiram frequentem ente as convenções quanto à colocação dos m urais. E, se delas algum as vezes se apartaram , tiveram sem pre o cuidado de colocar na abside a figura de Nossa Senhora com o Menino Jesus e, no alto do m eio-dom o, o Cristo Pantocrátor.
De início, as igrej as, de pedra ou de pedra com binada com tij olo, tinham a form a da basílica, com a nave central e outras duas naves, um a de cada lado, que se duplicavam nas grandes catedrais. Com o tem po, introduziram -se novidades: a ligação por corredor da abside, que estava incluída no corpo do prédio e não se proj etava para fora dele, a duas câm aras laterais, ou sacristias; a construção de duas salas do lado oposto ao do altar principal, um a delas com um a escadaria a conduzir ao teto. Este era de m adeira assentado sobre colunas m onolíticas, encim adas por capitéis com decorações vegetais, ou sobre pilastras.
Mais tarde, desenvolveram -se outras plantas de igrej a. Assim , um a em form a de cruz inscrita num quadrado, com o teto em abóbada. E ainda m ais tarde, sobretudo no século XIII, um tipo m iúdo de tem plo, inspirado talvez nas igrej inhas da Anatólia: quase quadrado, com m enos de nove m etros de lado, e um a cúpula central a fechá-lo do céu. Este m odelo e o anterior afastam -se do
Egito e parecem derivar da Síria e da Palestina.58
A Pérsia, por seu turno, influenciaria, j untam ente com Bizâncio, a cerâm ica núbia. Em bora em tom m enor. Pois a Núbia tinha atrás de si um a velhíssim a tradição oleira.
Os achados arqueológicos perm item que se estudem setecentos anos de evolução da cerâm ica, nos reinos cristãos da Núbia. Neles, a arte da louça de barro atingiu um dos pontos altos de sua história, tanto pela beleza e variedade da form a dos vasos quanto pela inventiva com que foram decorados.
Até a m etade do século IX, predom inou a cerâm ica verm elha, do tipo terra sigillata rom ano, derivada das peças da cultura de Balana. Depois, com o num salto para trás de m eio m ilênio, retom a-se a história que se interrom pera com o colapso m eroíta na Núbia Inferior. Volta a louça pintada, delicada e fina, rica em desenho e cor. Palm as, arabescos, m otivos geom étricos, estrelas, cruzes no centro de flores, ou por elas cercadas, ornam entam os frisos das terracotas, nos quais se veem tam bém debuxos estilizados ou realistas de anim ais — peixes, aves, um antílope a correr, leve e saltitante.
Esta cerâm ica guarda enorm es afinidades com a m eroíta, m as não chega a atingir a perfeição da “de casca de ovo”. Fica-lhe aquém . Honrosam ente aquém . Na delicadeza das paredes de barro, na finura da decoração, na m ultiplicidade das form as. Que revelam , contudo, excelência. Vej a-se a j anela em barro cozido da Igrej a das Colunas de Granito, na antiga Dongola: no espaço aberto do retângulo inserem -se dois círculos, com quatro peixes a convergirem para o centro de cada um , de m odo a form arem , com o vazio, duas cruzes.
Um povo cuj as exigências de beleza eram tão grandes em seus obj etos de cerâm ica, de uso diário e com um — pratos, tigelas, m oringas, potes —, deve ter alcançado um certo grau de conforto e bem -estar em sua vida urbana e rural. E que não se concentraria exclusivam ente na nobreza e no clero, pois os produtos do oleiro servem a todas as casas.
As escavações feitas em Debeira West, entre 1961 e 1964, pela Universidade de Gana, parecem confirm ar esse quadro. Ressurgiu do passado um a pequena cidade, com seu cem itério, suas igrej as e algum as grandes casas isoladas, à beira-rio, que podem ter sido sedes de quintas ou fazendolas.
O núcleo da vila é um conj unto com plexo de edifícios, que talvez form asse, no século VII, um a unidade arquitetônica de natureza áulica ou religiosa. Abandonados duzentos ou trezentos anos m ais tarde, os prédios foram ser obj eto de nova ocupação hum ana, no início do século XI. Durante vinte ou m ais décadas, seus habitantes os m odificaram substancialm ente, fechando portas internas de grandes edifícios para transform á-los em num erosos apartam entos e pequenas casas, e construindo j unto às paredes dos prédios antigos novas m oradas.
As residências obedecem a um plano básico, que sofre poucas alterações: retangulares, possuem um a só entrada, a abrir-se para um a sala que ocupa a m etade do espaço total da casa, sendo o resto tom ado por outro aposento ou dividido em dois com partim entos, talvez depósito e cozinha. Na parede frontal da habitação podia haver, além da porta, um a ou duas pequenas j anelas quadradas. Algum as casas tinham dois andares; em outras, de um só piso, há um a escada que conduz à cobertura. As construções eram de tij olo seco ao sol. Os tetos podiam ser em abóbadas, ou planos, de varas cobertas por palha. Havia um a
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latrina pública e um sistem a central de esgoto na vila.
O m esm o se verificava num outro vilarej o, escavado m ais tarde, Meinarti. Além disso, em Meinarti, cada residência possuía um a passagem estreita que levava da sala da frente, ao longo dos aposentos posteriores, até um a sentina, no fundo da casa. Ali havia um vaso de cerâm ica sobre um a plataform a de m adeira. Um buraco, aberto no m uro, perm itia a lim peza periódica dos
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despej os. Está-se diante de um a grande inovação na arquitetura dom éstica. Só
em 1596, com o water closet, inventado por John Harington — técnica que iria difundir-se com enorm e lentidão —, haveria m elhor novidade na m atéria.
As investigações dos arqueólogos em Debeira West, em Meinarti, em Arm inna, em Tam it, em Kasanarti, confirm ariam a im pressão de estarm os diante de com unidades que dependiam basicam ente da agricultura e da pastorícia, m as que tam bém praticavam um a vasta gam a de atividades m anufatureiras. Usavam a roda para levantar a água, para triturar sem entes oleaginosas e produzir azeite, para fazer cerâm ica. Com iam o m esm o pão ázim o e achatado, o kisra, que até hoj e se usa na área — em bora se ignore se era feito
de sorgo ou de trigo. 61 As cidadezinhas abrigavam um a classe m édia artesanal — entre a aristocracia e o cam pesinato —, que fiava e tecia a lã, e talvez o algodão, trabalhava o couro, fazia obj etos de m adeira, osso, pedra e m arfim , entrelaçava cestos e esteiras, cortava contas na pedra e na concha. Essas atividades eram exercidas em casa, em pequenas oficinas e, possivelm ente, tam bém nos m osteiros. Quem sabe se não seria neles que se plantavam as uvas necessárias à produção do vinho, depois que os m uçulm anos do Egito proibiram a venda da bebida à Núbia? Há sinais de que a olaria de Faras com eçou num
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convento.
O com ércio, ao norte da Segunda Catarata, escapou em grande parte ao m onopólio ou ao controle dos reis e de seus prepostos. Foi parar nas m ãos de m ascates árabes, que se instalavam por toda parte e que introduziram na região
os rudim entos de um a econom ia m onetária. 63 Im portavam -se vasos de barro com uns e cerâm ica vidrada — a qual, apesar da grande voga que teve no Egito, nunca foi fabricada na Núbia —, copos, frascos para cosm éticos e garrafas de vidro, obj etos de bronze, com o as varetinhas para a aplicação de kohl ou som bra nas pálpebras, tecidos de linho e m uitos outros artigos de luxo. O principal produto de exportação tornou-se, desde o Baqt, o escravo. Que Macúria ia buscar nas m ontanhas entre o Nilo e o m ar Verm elho ou no Cordofã e no Darfur. E Alódia, nas terras que se estendiam para o sul. O com ércio de escravos estaria nas m ãos reais. Em bora tam bém fosse, na Núbia Inferior, exercido por pessoas privadas.
A busca do escravo pode ter sido o acicate a um a expansão para o oeste. Até onde o cavalo pudesse galopar ao lado do cam elo. Talvez até Ain Farah, no Darfur, se é que são núbias as ruínas de tij olos verm elhos que lá se encontram e nas quais houve quem visse os restos de um m onastério e de duas igrej as
cristãs. 64
As atividades m ilitares não se restringiam à guerra por escravos. Algum as vezes, as tropas núbias tiveram de conter e punir as investidas dos bej as — provavelm ente um nom e novo para os blêm ios — ou de dom ar a agressividade das tribos árabes que se infiltravam pelo norte da Nobácia.
Beduínos, expulsos do Alto Egito, ergueram suas tendas nas regiões desérticas. Árabes fizeram -se senhores das m inas auríferas do uede Alaqui, principal fonte egípcia do m etal am arelo até o século XIII. E árabe, com m estiçagem de bej a e núbio, era a tribo de banu kanz, que se im pôs, no século X, com o a grande força m ilitar na região da Prim eira Catarata.
Mais im portante, contudo, era a penetração pacífica dos m uçulm anos, facilitada pela atm osfera de entendim ento entre os fatím idas e os reis m acurros e pelas prescrições do Baqt. Existem , na Baixa Núbia, num erosíssim as lápides funerárias escritas em árabe e datadas desde 832, a atestarem essa crescente presença. E, em bora rio acim a da Segunda Catarata, a entrada de islam itas estivesse suj eita a controle, alguns m aom etanos ali viviam , em cidades cristãs, dedicados ao com ércio ou a outros m isteres. Em algum as partes — com o na área de Wadi Halfa — podiam até, tolerantem ente, ser enterrados em cem itérios
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m onofisistas.
Os acontecim entos no Egito iriam , entretanto, m ais um a vez in-fluenciar a evolução histórica da Núbia. Agora, negativam ente.
Reduzido em seus dom ínios, enfraquecido pelas dissensões internas, invadido pelos cruzados, o califado xiita do Egito iria ficar sob o controle de um a dinastia de soldados curdos, os aiubidas, cuj o principal líder, Saladino, ocupou o poder de fato, com o vizir do últim o fatím ida, Al-Adid li-Din Alá, em 1169. Dois anos m ais tarde, ao m orrer Al-Adid, Saladino fez o Egito retornar à ortodoxia sunita, ao reconhecer com o suserano o califa abássida de Bagdá.
O poder aiubida assentava-se num a casta m ilitar de escravos turcos, os m am elucos — um a elite de cavaleiros couraçados. As tropas sudanesas fizeram -se, portanto, desnecessárias. E m ais que isto, obj eto de suspeita.
Na sequência de insubordinações e revoltas, os regim entos sudaneses refugiaram -se nos confins m eridionais do Egito, ou para lá foram desterrados. Aliaram -se aos núbios. E j untos — talvez para satisfazer a um a aliança entre
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Macúria e os partidários dos fatím idas — atacaram Assuã, em 1171 ou 1172, e com eçaram a descer o Nilo. Mal ouviram , porém , os rum ores de que Saladino preparava um contra-ataque, retrocederam . Mas tão lentam ente, que não escaparam da perseguição aiubida e dos com bates, sem claro vencedor.
A Saladino interessava, no m om ento, a ocupação da Núbia. Para ali ter — quem sabe? — um a base de operações, caso fosse expulso do Egito por seus inim igos m uçulm anos ou pelos cruzados. Por isso, m andou seus exércitos, sob o com ando de um irm ão, Turan Shah (ou Sham s ed-Dawla), Nilo acim a. Os núbios foram levados de vencida e expulsos da cidadela de Qasr Ibrim , onde se instalaram os aiubidas. Turan m andou m atar setecentos porcos, vender m ilhares de núbios com o escravos, transform ar a sé em m esquita e aprisionar e torturar o
bispo cristão. Com o nos conta Abu Salih. 67
Quando os exércitos de Turan se vão, deixam , a guardar Ibrim , um forte contingente de cavalaria, que de lá parte em 1175, ou porque seu com andante,
Ibrahim al-Kurde, se afogara próxim o a Adendan,68 ou porque Saladino, após enviar um a m issão de reconhecim ento a Dongola, se convencera, com o Nero m uitíssim o antes, de que os recursos do país não com pensavam as canseiras da conquista.
Deixa-se a Núbia de novo em paz. Qasr Ibrim é reocupada pelos cristãos, que reconsagram a igrej a.
A história iria repetir-se, com outro desfecho, um século m ais tarde. Em 1249, Malik Saleh, o últim o soberano aiubida, m orria em Mansurá. Os m am elucos, que, poucos m eses depois, venceriam São Luís da França e seus cruzados naquela m esm a cidade, resolvem desem baraçar-se dos am os e assum ir o poder. Passam a selecionar entre os seus um sultão vitalício, cuj os filhos, contudo, não herdavam o trono.
Baibars, o m ais fam oso dos sultões m am elucos, expulsa rapidam ente os cruzados de suas m elhores praças-fortes do Levante. Derrota os arm ênios. Enfrenta os ism ailitas. Detém os m ongóis, que haviam avassalado os territórios árabes e m assacrado os habitantes de Bagdá. E, em 1261, traz um príncipe abássida, sobrevivente da chacina, e o instala com o califa no Cairo, fazendo daquela cidade o centro do Islão.
De um a nova posição de força, o Cairo passa a interpretar o Baqt com o lhe dando direito à percepção de um tributo — principalm ente aos quatrocentos escravos anuais. E quando um rei de Macúria, David, lhe m anda um a em baixada, cobra ao enviado o pagam ento do que acredita ser-lhe devido. Havia tem pos não se observavam os requisitos do Baqt, e David, ressentido, continuará a não cum pri-los. Em 1272, talvez em represália pela ocupação do porto de Suakin pelo Egito, o núbio ataca Assuã e pilha Ay dhab, por cuj o cais se escoava o com ércio egípcio com o Índico e se transportavam para Meca os peregrinos. O governador do Alto Egito responde com rapidez. Ataca os núbios, captura o eparca e vários outros nobres, e os leva para o Egito, onde são executados.
Alguns anos depois, um a crise sucessória na casa real de Macúria dará a Baibars a oportunidade de transform ar o Cairo num elem ento essencial da política interna núbia. Finara-se o rei David. Seu filho, de m esm o nom e, e seu
sobrinho Xecandaf disputam o trono, cada qual baseado em diferente regra de herança. Xecanda vai, em 1275, ao Cairo e pede aj uda a Baibars. Este não perde a ocasião. Suas tropas j untam -se às de Xecanda e às de banu kanz, sobem o Nilo, tom am Jebel Adda e Meinarti, chegam a Dongola. Xecanda torna-se rei. David II refugia-se em El-Abwab (talvez um reino vassalo de Alódia ou tão som ente sua província nortista), m as é entregue aos m am elucos e vai som ar-se aos outros m em bros da casa real levados com o reféns para o Cairo. Há indícios de que o negachi Iecuno-Am elaque, da Etiópia, se interessou por seu destino j unto a
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Baibars.
Instalado Xecanda, o sultão apresentou a conta. O Baqt passa a ter outra leitura, a ser interpretado com o um tratado de virtual vassalagem . Aos núbios torna-se obrigatório o pagam ento da j izia, da taxa que cabe aos não m uçulm anos. Devem entregar anualm ente não só os escravos prescritos pelo Baqt, m as tam bém três girafas, cinco leopardos fêm eas, um a centena de drom edários, quatrocentos bovinos. A província de Maris, ou sej a, a Nobácia, passa a depender do Cairo e o eparca a relatar ao sultão. A própria política do cabil suj eitava-se à aprovação cairota. A Núbia, porém , ficava longe, e parece que nem sem pre
todas essas exigências foram obedecidas, caindo pronto em desuso.70
O Cairo não podia fazer cum prir tudo o que im pusera, m as não se desinteressava da Núbia. Continuou a ali intervir. Tanto que, insatisfeito com
Xecanda, o m andaria assassinar, substituindo-o por um certo Baraque, g o qual, insuficientem ente dócil e flexível, foi logo deposto e m orto.
Sucedeu-lhe Xem am um , h que logrou perm anecer no trono até quase o final do século XIII. Foi, é bem verdade, deposto duas vezes pelas tropas m am elucas e de banu kanz. Mas recuperou o poder. Bom de intriga, hábil e precavido, era m estre em desafiar e fugir ao confronto. Sabia, derrotado, m anter os seus apoios, para, após sentir que o principal adversário se afastara do terreno, ressurgir vitorioso.
Por essa altura, aum entara consideravelm ente a pressão das tribos nôm ades árabes nas m argens de Macúria. Os beduínos, expulsos violentam ente do Egito pelos aiubidas e pelos m am elucos, iam descendo, com escaram uças, razias e pilhagens, do deserto para o vale. Neste, alongava-se a crise do poder central. Perdera-se a coesão interna e seguia-se o exem plo do Egito, onde líderes m am elucos feudalizavam o país, m ultiplicando centros subsidiários de poder, que m uitas vezes agiam por im pulso próprio e até m esm o em oposição aos interesses do Cairo.
A fragm entação do m ando em Macúria foi causa e efeito, em grande parte, das disputas dinásticas. Instalavam -se e fortaleciam -se senhores da guerra nos principais centros urbanos, capazes de oferecer, em suas cidadelas, castelos ou casas fortificadas, proteção aos que no burgo e em seus arredores viviam . E espraiava-se um estado de conflito perm anente, a envolver as várias facções que disputavam o trono de Dongola — o Cairo, o kanz ed-dawla (ou chefe de banu kanz), as tribos beduínas e provavelm ente tam bém o rei de Alódia.
William Y. Adam s 71 identificou algum as evidências arqueológicas dessa m udança de m entalidade, que, num a época de desordem , se exprim iu na prevalência do castelo sobre a catedral. A partir do século XII, as num erosíssim as vilas, aldeias e aldeolas que dantes existiam na Núbia Inferior com eçaram a ser desocupadas, as populações tendendo a aglom erar-se em torno daquelas poucas que podiam oferecer m aior segurança. Dentre essas, passam a ter relevo antigas cidadelas, com o Qasr Ibrim e Jebel Adda, cuj as m uralhas e bastiões são renovados. Ao m esm o tem po, nota-se um deslocam ento populacional para as regiões inóspitas do Batn-el-Hagar. Na área quase deserta, m ultiplicam -se as novas povoações, tanto grandes quanto pequenas, m as todas arm adas de defesas no alto das ilhas ou dos prom ontórios rochosos. Assim , Deffinarti. Assim , Sunnarti, com sua grossa m uralha triangular.
Se a cidadela se tornava o ideal da urbe, a fortaleza com o que se im põe com o m odelo da casa. As paredes engrossam . Os aposentos internos das m oradas deixam de com unicar-se com a sala da frente: a eles só se tem acesso por um alçapão dissim ulado no teto. A própria planta das habitações vai-se com plicando, seguindo um a inventiva guiada pela necessidade de ocultar e, possivelm ente, proteger. As casas de dois andares, por exem plo, passam a não ter porta nos rés do chão, m as tão som ente no prim eiro andar, a que se chegava por um a escada retrátil. Subia-se ao prim eiro andar e dele se descia, por um a ou m ais escotilhas, para o pavim ento inferior. Tudo é cheio de câm aras escondidas, de passagens labirínticas, de quartos fechados.
Nas vilotas e nas aldeias, existe com frequência um a só dessas grandes casas de dois andares, num local proem inente. A de Meinarti tinha 15m num dos lados
e um a parede de m etro e m eio de largura. Adam s 72 sugere que fossem elas refúgio para toda a coletividade e seus bens, em caso de luta, assim com o perm anente dem onstração de poder e prestígio do grande da terra j unto aos que dele se tornaram dependentes.
Essas casas j á eram quase fortins. E em fortins se foram tornando, com um pequeno aum ento de tam anho, as paredes externas com o contrafortes quase verticais, as m assas retangulares a sugerirem a excepcional espessura dos m uros, as poucas e altas j anelas, estreitas com o se fossem seteiras, a absoluta ausência de qualquer adorno externo. Quando debruçadas sobre o rio, a am eaçar-lhe o cam inho, tinham toda a aparência das m áquinas de guerra.
Outras, com o em Kulubnarti e em Dal, foram alargadas em castelos, a elas se acrescentando um pátio am uralhado e um a alta torre com seteiras. Mais ao sul, entre as Terceira e Quinta Cataratas, há sinais de fortalezas ainda m aiores, que talvez fossem construídas desde o início com a am bição de tam anho, resguardo e poder.
A arquitetura retrata a feroz instabilidade da política.
No início do século XIV, reinava, em Dongola, Maí. Assassinaram -no em
1310. Subiu ao trono Cudam bes, i que foi pessoalm ente ao Cairo prestar hom enagem ao sultão. De volta a Macúria, esqueceu-se de que aquele o tinha por vassalo e passou a agir com o lhe convinha. O Cairo, insatisfeito com sua conduta, preparou-se m ilitarm ente para depô-lo e para colocar em seu posto um
outro príncipe núbio, este m uçulm ano, Barxam bu. j Cudam bes, diante da queda inevitável, contrapropôs sair de cena, desde que ascendesse ao poder um seu sobrinho, filho de sua irm ã, que era tam bém o kanz ed-dawla, ou chefe da gente banu kanz. O sultão En-Nasir rej eitou a proposta, prendeu o kanz ed-dawla, m andou suas tropas contra Macúria, capturou Cudam bes e fez rei Barxam bu.
Pela prim eira vez, Macúria tinha um soberano islam ita. Um par de anos depois, em 1317, a catedral de Dongola era convertida em m esquita — e os dois fatos j á foram apresentados com o a indicar a transform ação do norte da Núbia
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de reino cristão em estado m uçulm ano.
Barxam bu pouco ficaria no poder. Tão pronto os m am elucos libertaram o kanz ed-dawla, este dirigiu-se à Núbia, onde foi aclam ado com o o verdadeiro rei. Barxam bu é m orto por sua própria gente. O kanz ed-dawla assum e o m ando. E o sultão de novo intervém , pondo um irm ão de Cudam bes, cham ado Abraão — ao que parece, um m onofisista —, à frente das tropas m am elucas. Abraão é reconhecido com o soberano pelo sobrinho, m as m orre logo depois. De novo o kanz ed-dawla sobe ao trono.
Não param aí as peripécias. O sultão resolve libertar Cudam bes e usá-lo contra o sobrinho. Ante o avanço dos exércitos cairotas, o kanz ed-dawla foge para o norte de Alódia, onde recebe, prim eiro, a notícia de que Cudam bes fora reentronizado, e segundo, a inform ação da partida das tropas m am elucas. Saem estas e ele entra, com força, e reconquista o poder. Cudam bes refugia-se em Assuã, onde fica à espera de um a aj uda do norte, que não chega. O Cairo desistira de intervir em Macúria. Deixa-a, debilitada, ao seu destino.
Quando, algum as décadas depois, os m am elucos voltaram a atuar na Núbia, m ais franca andava a desordem , m ais generalizados eram os conflitos, havia quase guerra de todos contra todos.
O kanz ed-dawla não governou, ao que tudo indica, em paz. Teve sem pre que fazer frente à hostilidade aberta ou dissim ulada dos que lhe tinham sido, nas lutas pela sucessão, contrários; que enfrentar a insubordinação dos reis que lhe negavam , em bora nom inalm ente vassalos, o tributo e o respeito; que se opor aos que, acastelados nas ilhas e prom ontórios, se tornavam verdadeiros senhores da guerra; que conter os ataques dos beduínos, crescentem ente agressivos e intratáveis; que desm anchar as intrigas da corte; que interm ediar nas contendas arm adas entre um a nobreza na qual cada um se arrogava a precedência sobre os dem ais.
Econom icam ente, Macúria definhava. A agricultura e o pastoreio sofriam com a atm osfera de luta perm anente e com as tropelias dos exércitos e de grupos guerreiros, que os felás tinham de abrigar e alim entar e dos quais sofriam toda sorte de vexam es. Quebravam -se noras. Incendiavam -se casas. Destruíam -se colheitas. O com ércio extinguia-se. Minguaram de tal m odo as trocas com o exterior, que há quase ausência de artigos im portados nos restos arqueológicos da época. A própria cerâm ica decaíra: os belos vasos de paredes delicadas e decoração im aginosa cederam lugar a peças rudes, cada vez m ais grosseiras. Num dado m om ento, a técnica da roda do oleiro de todo desaparece.
Se o sucessor do kanz ed-dawla saiu de sua tribo e o sucessor de seu sucessor tam bém , a cadeia rom peu-se em certo ponto. Talvez o trono tenha voltado aos
núbios; e o rei, a ser cristão.74 Com o ainda era a m aioria de seus súditos, em bora os m uçulm anos ganhassem terreno, as perseguições m am elucas distanciassem cada vez m ais o patriarca de Alexandria dos núbios, e a própria Igrej a fosse perdendo o vigor da pregação e o em penham ento coletivo.
Quanto às hostes de banu kanz, retornaram à vida guerreira, parecendo preferir as razias e o saque ao governo e ao im posto. Tornaram -se o flagelo do Alto Egito e da Nobácia, enquanto em Dongola o papel predatório era exercido pelas tribos beduínas, dentre as quais se salientava a de banu j ad.
Contra uns e outros, o rei m acurro foi, em 1365, ao Cairo, buscar aj uda. Ele se refugiara na cidadela de Dô (possivelm ente Jebel Adda), após ter sido expulso de Dongola pelos beduínos, e em Dô sofria as acom etidas da gente de banu kanz e de seus aliados. Os m am elucos responderam positivam ente ao pedido, m as após terem batido os nôm ades que assediavam Dô, regressaram ao Egito, deixando Dongola na posse dos beduínos que a tinham antes tom ado e destruído. E, com a cidade, abandonou-se à desordem todo o sul do que fora Macúria. Ali passaram a im perar, sem estorvos, chefetes m ilitares, que cobravam taxas aos felás e aos m ercadores, assaltavam barcos e pilhavam caravanas.
A cidade de Dô fazia provavelm ente parte de um antigo reino vassalo de Macúria: Dotauo. O nom e aparece, com o de um reino ou principado
independente, em docum entos 75 que vão de 1144 a 1484. Nesta últim a data, o
seu rei cham ava-se Joel, e seu bispo, o m etropolitano de Qasr Ibrim , Mercos. k E os textos revelam haver em Dotauo a m esm a íntim a aliança entre Estado e Igrej a que outrora caracterizara Nobácia e Macúria.
Dotauo não devia ser o único dos antigos principados vassalos de Macúria a conservar-se fiel à fé, à estrutura do estado e às tradições da Núbia. Muito possivelm ente vários desses pequenos reinos m antiveram -se cristãos até o fim do século XV. Ou até bem entrado o século XVI. Há quem pense, por exem plo, que
só pela m etade do Seiscentos é que Dotauo perdeu de todo a independência. 76
Estam os m uito m ais no escuro quanto ao declínio e ao fim de Alódia. Sabem os que as ricas pastagens da estepe de Butana atraíram , desde pelo m enos o século XI, os nôm ades árabes que se haviam estabelecido no Egito. Eles as foram ocupando lentam ente, e lentam ente foram absorvendo e expulsando os grupos núbios que ali pastoreavam o gado.
Por volta do século XIII, pressionado pelos beduínos, fragm entado por dissensões internas e talvez j á a sofrer o em purrão das tribos do sul e do oeste, entre as quais durante séculos exercera a preia de escravos, o reino e sua capital,
Soba, entraram em decadência.77 A falta de segurança m ilitar reduzia os cam pos lavrados e as colheitas. Os rebanhos não m ais podiam ser eficientem ente protegidos dos nôm ades predadores. O com ércio estancara, pois se perdera o controle das rotas e não havia suficientes forças arm adas para am parar as caravanas. Os beduínos ocupavam os desertos das duas m argens do Nilo e assum iam o com ando dos itinerários para o m ar Verm elho e o Darfur.
No fim do século XIII, Soba não era m ais a capital de Alódia. O próprio reino havia perdido a unidade. Um em issário cairota, Alm al-Din Sanj ar, conta que teve de haver-se com nove diferentes régulos para cum prir o encargo que o
levara a Alódia. 78 O poder depressa se fragm entava e caía nas m ãos de chefetes locais, abrigados em fortins ao longo do Nilo.
Pouco faltava para o rem ate. No fim do século XV ou início do XVI, um líder beduíno, Abdala Jam a, destruiu Soba. E reunificou, sob seu m ando, grande parte do território de Alódia. Mais ao sul, logo abaixo da confluência dos dois Nilos, um novo poder m ilitar se estava criando, o dos funj es.
A quebra da unidade dos dois reinos e a fragm entação política que se lhe seguiu não podiam deixar de refletir-se sobre o destino do cristianism o na Núbia. Ali, ao contrário do que sucedera na Arm ênia, no Egito e na Etiópia, não se form ara um a igrej a nacional. Cada bispo respondia de form a direta ao patriarca de Alexandria, um chefe religioso praticam ente cativo dos m am elucos. Da boa vontade destes e do desej o que tivessem de agradar aos soberanos núbios decorria até m esm o a presteza na consagração de novos bispos, para substituir os que m orriam . Com a quebra do poder dos reis e o acesso ao trono de soberanos não cristãos, os bispados viram -se desam parados e ainda m ais longe de Alexandria.
A distância fez-se m aior depois que a tribo de banu kanz, nos últim os anos do século XIV, se dedicou a atacar e pilhar a região de Assuã, dali praticam ente expulsando os m am elucos e qualquer espécie de ordem . Chegar ao Egito, vindo da Núbia, transform ou-se num a perigosa aventura.
Separada, por tantas agruras, do patriarcado, sem bispos e sem ordenações, a Igrej a perdia a capacidade de catequese e até m esm o a de m anter, pela repetição dos ritos, a coesão dos fiéis. É possível que não houvesse clero suficiente para os batism os e as m issas, e que estes e os dem ais sacram entos fossem passando, por necessidade, para as m ãos dos leigos.
Essas carências verificavam -se concom itantem ente com o aum ento dos grupos populacionais, em sua quase totalidade islam itas ou pagãos, que afluíam para a Núbia. Não havia quem os convertesse e o am biente era pouco propício às tarefas de catequese. Estas, não obstante, algum as vezes se cum priam , ainda que
sem constância e persistência. O j esuíta Pero Pais 79 conta-nos, por exem plo, que um dom inicano italiano, frei Bartolom eu de Tívoli, havendo sido consagrado em Rom a e ali recebido o título de Bispo de Dongola, “determ inou com o bom pastor acodir a suas ouelhas; e assi se partio de Rom a o anno de 1330”. Moveu-o o saber “estes Nubes antigua.te Christãos, e naqlle tem po auer lá algu rasto de f~ee, e religião Christam ~”. Com uns poucos sacerdotes e dois irm ãos leigos de sua ordem , foi ter à Núbia, “onde elle e seus com panheiros conuerterão m .tos infieis m ouros, e gentios, e reduirão innum eraueis Christãos”. Mas, apesar dos bons resultados, foi na Etiópia, por não achar na Núbia sítio próprio, que construiu o seu convento.
Não só crescia constantem ente a proporção de islam itas e pagãos, com o tam bém aqueles iam pouco a pouco assum indo posições de m ando. E não só pela força, m as principalm ente pela conversão, sincera ou oportunista, e pelo casam ento. Frequentes vezes, para acalm ar a audácia do nôm ade ou conj urar a am bição do vizinho, um nobre lhe dava a irm ã ou a filha em casam ento. Pelas norm as de sucessão núbias, era o rebento dessa irm ã ou dessa filha um herdeiro natural ao posto e ao patrim ônio do tio ou do avô. E tinha com o fazer valer os seus direitos, e arm as para colocar-se à frente dos rivais. Criado entre os beduínos, com o m aom etano, levava a sua fé para a chefia que lhe coubera, ainda que sobre cristãos. E a estes tornava-se cada vez m ais difícil, diante de um islam ism o em expansão e apoiado no poder tem poral, recrutar conversos para um a fé sem prestígio político, cuj os escassos m inistros quase não tinham condições de servir, confortar e conduzir.
Apesar das adversidades, por m uito tem po resistiu a religião cristã. Onde faltava sacerdote, os fiéis se encarregavam do culto. Onde se perdia a m em ória das práticas cristãs, algum as poucas preces e alguns poucos gestos perm aneciam . As igrej as continuaram a ser cuidadas, e de tal form a, que assom bra o bom estado em que se encontram , m esm o depois de séculos sem culto. Quando os ritos da fé de todo nelas se apagaram , a superstição e o tem or reverencial ainda as protegeram .
Com o passar do tem po, os núcleos cristãos se foram desfazendo ou am esquinhando. No fim do século XV, um visitante italiano topou um a pequena colônia de núbios j unto ao m osteiro de Esna. Se praticavam o batism o, o
m atrim ônio e o sepultam ento cristãos, haviam esquecido quase todo o resto.80
Cerca de cinquenta anos depois, o padre Francisco Álvares 81 ouviu um natural de Trípoli de Suria, João, dizer-lhe haver na Núbia 150 igrej as, “que ainda têm crucifixos e im agens de Nossa Senhora e outras im agens pintadas pelas paredes e tudo velho”. Dele soube tam bém que “a gente da terra não são cristãos, m ouros, nem j udeus”, m as “vivem com desej os de ser cristãos”. Estava o padre Álvares na Etiópia, quando foram , da Núbia, ter à corte do negachi “seis hom ens com o em baixadores, pedindo-lhe que lhes m andasse clérigos e frades que os ensinassem ”. Não os receberam , nem da Etiópia, nem do Egito, nem de qualquer outro lugar. Apesar disso, dois séculos m ais tarde, um certo padre Giacom o Rzim arz escrevia do Cairo ao cardeal Beluga, em Rom a, a contar-lhe que um criado lhe afiançara existir na ilha de Tangos, acim a de Dongola, cristãos a
adorar em sua igrej a. 82
Acossado pelo Islão, isolado de seus correligionários do resto do m undo, carente de padres e catequistas, com seus devotos rebaixados às cam adas m ais pobres da população, com suas catedrais transform adas em m esquitas, o cristianism o núbio foi se extinguindo, até ser quase apenas m em ória, num grupo de velhos que ainda veneravam im precisam ente a cruz, em algum vilarej o distante e solitário.