A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 16 de 35 · parte 2/2

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A Enxada e a Lança

12. Os litorais do Índico

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

A m esquita era o principal edifício da cidade e causaria im pressão até m esm o

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aos portugueses. Valentim Fernandes com parou-a, em 1505, à de Córdova. Excetuados os tem plos e as casas do sultão, que Barros diz serem “feitas à m aneira de fortalezas, com torres, cubelos e todo outro m odo de defensão”, não haveria outros edifícios públicos de porte.

As casas de pedra, fossem pequenas ou m aiores, com o as dos dignitários da corte ou as dos com erciantes ricos, seguiam a planta dos apartam entos de Husuni Kubwa. Cada um destes constava de duas salas longas e estreitas, um a atrás da outra. À segunda seguiam -se dim inutas alcovas.

Entrava-se na casa por um a porta cuj a m oldura era finam ente trabalhada em pedra-coral, com m otivos decorativos a im itar cordas e espinhas de peixe — o m esm o tipo de ornam entação que cercava os m irabes das m esquitas. Essa porta principal dava para um pátio, m ais baixo do que o nível do solo e circundado por degraus ou por bancos. Às vezes, entre o pátio e a prim eira sala, havia um a varanda. As vivendas m aiores podiam possuir um outro espaço descoberto, para o qual se abriam cozinhas e dependências de criados. Muitas casas dispunham de com partim entos com latrinas e bidês para abluções. As salas que davam para os pátios tinham j anelas. Nas dem ais, a luz penetrava unicam ente pelas portas. Eram recintos escuros, porém frescos.

Nas paredes, havia nichos, nos quais se colocavam vasos de porcelana. Os m uros eram tam bém decorados com frisos talhados de m adeira e talvez com tapetes, pois as paredes de certas habitações apresentam um a fieira de buracos, que corresponderiam possivelm ente às escápulas ou aos ganchos em que se suspendiam as alfom bras.

A cidade — diz-nos Ibn Batuta — era habitada predom inantem ente por negros, que escarificavam o rosto. E era m uito verde, cheia de árvores e palm eiras —

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acrescenta Valentim Fernandes. Ali havia toda sorte de feij ões, legum es, lim ões, laranj as doces — as m elhores que Gaspar Correia j am ais vira —, e cana-de-açúcar, bananas, j am bos — se é j am bo a fruta extrem am ente doce e parecida com azeitona que, com o nom e de j am m un, Ibn Batuta encontrou em

Mom baça75 —, e rom ãs, bétele, arroz, m ilhete, cebola, pim entas, cocos e algodão. O peixe era abundante. Criavam -se galinhas, pom bos, bois, cabras, carneiros deslanados e de rabo gordo, com um a cauda que a Gaspar Correia parecia quase tão grande quanto o corpo.

Quíloa, quando por lá andou Ibn Batuta, j á era um grande centro com ercial. A urbe m ais im portante da costa — “um a cidade sem fim ”, nas palavras do viaj ante árabe — continuava, no entanto, a ser Mogadixo. E dela, ele nos traçou

um breve m as sugestivo retrato.76

Conta-nos, por exem plo, que, chegado um barco ao porto, o assediavam vários zam bucos. Deles subiam a bordo num erosos j ovens, e cada um selecionava, dentre os viaj antes, aquele que seria hóspede de seu am o. O estrangeiro ia, então, para a casa de um com erciante local e só através dele podia com prar e vender.

Segundo Ibn Batuta, a base do sustento dos habitantes de Mogadixo era o arroz. Coziam -no com m anteiga e o faziam acom panhar de carne de galinha, carneiro, cam elo ou peixe, bem com o de legum es. Cozinhavam bananas verdes no leite, para fazer um a espécie de purê. Outro prato local era um a coalhada com lim ões em form a de picles, pim enta em m olho de vinagre e sal, gengibre e m angas, frutas — explica — “que parecem m açãs, m as possuem um grande caroço”. Com iam em excesso, e eram gordos e corpulentos.

Am arravam um pano à cintura, sobre o qual punham túnica e m anto. Usavam turbante. O tecido das roupas era, entre os hom ens m ais ricos, de ótim a qualidade. O xeque, quando Ibn Batuta o acom panhou à audiência pública, tinha sobre o corpo um a veste de linho egípcio e dos om bros lhe caía um a túnica de tecido de Jerusalém . Cam inhava sob um pálio de seda, com as quatro hastes encim adas por pássaros dourados. À sua frente, iam tocadores de tam bor, flauta e trom beta. Um a procissão em tudo sem elhante à de um grande chefe em qualquer outra parte da África.

Quase nada se sabe da estrutura política de Mogadixo, Quíloa, Manda, Melinde, Mom baça, Zanzibar, Mafia e outras cidades-estado m ercantis da África Índica, exceto que eram governadas por um sultão ou xeque, com auxílio de vizires, cádis, em ires e, em vários casos, de um conselho de notáveis, e que eram , na aparência, regidas pelas leis islâm icas. É m uito possível, contudo, que a verdadeira estrutura de poder fosse a herdada dos m icroestados que ali existiam antes da chegada dos m aom etanos — Ali ibn al-Hassan com prou Quíloa ao régulo local, e o prim eiro rei da dinastia Nabkani recebeu o título pelo casam ento

com um a m ulher do clã real dos prim itivos habitantes de Pate.77 Tam pouco se exclui que as aristocracias bantas tenham perdurado, absorvendo em seu núm ero os im igrantes ou com eles se confundindo.

As forças m ilitares dessas cidades-estado deviam ser pequenas. Usavam com o arm as o arco e flecha, a lança e um escudo leve. O bom entendim ento, senão a aliança, com as tribos som alis ou bantas circunvizinhas devia ser a regra, pois só isto explica que as cidades, quando no continente, não tenham restos de m uralhas nem de paliçadas. O com ércio, na verdade, interessava a todos, e eram os cafres que traziam do interior o ouro, o m arfim e as peles, para levar de retorno os panos, o ferro, as contas e os cauris.

Tam bém os escravos eram obtidos por troca. Só os islenhos se atreviam , com o os de Quíloa, a, com m aior ou m enor frequência, acom eter aldeias bantas, para cativar a sua gente ou arrebatar-lhes o m arfim .

Nenhum desses pequenos estados parece ter-se estendido terra adentro. Terão seus hom ens trilhado as rotas que levavam às zonas auríferas do Zim babué e do Monom otapa? Alguns terão subido os rios e outros se instalado em acam pam entos sem iperm anentes no sertão, pois, em 1531, os portugueses encontraram um a com unidade de “m ouros” em Sena, a boa distância do

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litoral. Quase todas as cidades suaílis tinham aliados no interior, com eles

com erciavam e deles talvez recebessem proteção. Em Ungwana, um a cidade m urada, próxim a ao delta do Tana e cuj os inícios datariam da m etade do século X, há sinais de que se vinculava às com unidades rio acim a, servindo este de corredor entre o sertão e a costa. A cerâm ica antiga de Ungwana, do m esm o tipo da de Shanga e Manda, é, com efeito, sem elhante à que se recolheu ao longo do

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rio. As cidades suaílis m antinham com o interior com ércio regular e

dependiam dele para suprir as dem andas do Índico. Isso não desm entia, contudo, o padre Monclaro, que, no fim do Quinhentos, após verificar que as cidades e povoações m uçulm anas da Contracosta “estavam ou em ilhas ou j unto ao m ar”, aduziu: “Parece que tiveram o m esm o m odo de conquista naquela terra que nós

na Índia, senhoreando som ente a faldra do m ar.”80 Caranguej ando a costa, com o diria, sobre o Brasil, frei Vicente do Salvador.

As m ercadorias iam e vinham , entre o litoral e o m ais rem oto interior, passando de tribo em tribo e de aldeia em aldeia, num sucessivo e continuado escam bo. Eram desem barcadas e recolhidas em vários pontos da costa por pequenos barcos — pirogas com flutuador, zam bucos, pangaios —, os m esm os barcos que ligavam entre si os portos da Azânia e de Madagáscar.

Os zam bucos e os pangaios faziam -se com pranchas de m adeira leve, am arradas com corda ou tam iça de coco. Não tinham qualquer pregadura m etálica e calafetavam -se com m assa de algodão e gordura. O pangaio era com o um a j angada, com os lados baixos, e possuía dois m astros e velas latinas, de esteira ou em preita de palm a. Dos m esm os m ateriais eram as velas do zam buco — em barcação veloz, de fundo chato e proa aguda.

A navegação a distância ficava a cargo dos grandes navios árabes e do subcontinente indiano, nos quais chegavam os artigos de luxo, para satisfazer à dem anda das classes ricas das cidades, e as m ercancias apreciadas pela gente do sertão — entre as quais avultavam as contas de vidro, os cauris das Maldivas e os algodões do Guzerate.

Outros produtos, obtidos na própria Azânia, tinham tam bém procura certa no interior: sal, peixe seco, ferro, contas feitas de concha m arinha, cauris que se

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recolhiam nas praias da Tanzânia e de Moçam bique, panos de algodão. Os tecidos de Mogadixo entravam igualm ente no com ércio a distância: vendiam -se até m esm o no Egito. E arroz de Quíloa, e talvez tam bém de Madagáscar, era

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exportado para Aden.

Das im portações de louça, a arqueologia j untou abundantes exem plos. Desenvolvera-se notavelm ente, no início do século XIV, o gosto pela porcelana chinesa. Em Quíloa, com o em outros lugares, tinha-se especial estim a por um a porcelana verde-acinzentada, a celadona, da qual se dizia ter a propriedade de se rachar ao contato com veneno. Dela encontraram -se restos de pratos, de j arras e de tigelas, datáveis da dinastia Yuan (1279-1368). Tam bém se desencavaram peças de porcelana azul e branca e faiança de pó de pedra china, geralm ente com decoração gravada por baixo do louçado castanho-esverdeado.

Im portava-se igualm ente cerâm ica m oslêm ica de baixa qualidade, sobretudo de um tipo que vinha, ao que parece, de Aden: sob o vidrado am arelo, havia desenhos lineares em negro. Essa louça tinha grande dem anda nas costas do Quênia. Perdia m ercado à m edida que se velej ava para o sul, onde os obj etos de barro do fabrico local atendiam quase que inteiram ente aos usos corriqueiros.

Túm ulo com pilar. Melinde. Século XIV

 

A cerâm ica nativa estava presente em todas as casas da Azânia. Já a porcelana era privilégio das fam ílias de posses. Nas m oradas dos ricos, com ia cada qual num a tigela, geralm ente de louça chinesa ou persa. Os pobres sentavam -se em torno de um a panela com um , da qual iam retirando as porções de alim ento.

No século XIV, a porcelana com eçou a ser utilizada para efeitos decorativos. Não só se punham vasos nos nichos das paredes das casas, m as se incrustavam no reboco do próprio m uro pratos e tigelas, para quebrar-lhe a m onotonia e a opacidade. Nas abóbadas e dom os das m esquitas de Quíloa tam bém se em butiram peças de cerâm ica, que deviam rebrilhar à luz das lâm padas.

Ao norte de Dar-es-Salaam , os pratos chineses aparecem em bebidos na argam assa exterior dos sepulcros dos poderosos. Esses m onum entos funerários, extrem am ente originais, apresentam a banda leste dividida num grande núm ero de painéis de gesso, com m olduras de pedra. Quando a tum ba é de hom em , suporta um pilar elevado, que alcança os cinco m etros. O pilar pode ser de base redonda e ter nítida form a fálica — com o dois que se encontram diante da m esquita m oderna de Melinde. Ou ser de base octogonal, hexagonal ou quadrada. Muitos são inteiram ente lisos. Outros possuem peças de porcelana cim entadas nas faces. Alguns, finalm ente, m ostram , na parte m ais alta, nichos rasos, retangulares ou em arco, escavados na pedra.

Esses túm ulos, que talvez derivem dos obeliscos de Axum e dos m onum entos fálicos da parte m eridional da Etiópia, não se encontram na região de Quíloa, nem m ais para o sul. Respondiam , ao norte de Dar-es-Salaam , a um a tradição tão forte que, sendo os m ais antigos do século XIV, ainda eram erguidos, em

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Tanganica, em pleno Novecentos.

Os corpos que se colocavam nessas sepulturas eram de hom ens que, quando vivos, vestiam tecidos im portados, m oravam em casas de pedra, recitavam o Alcorão nas salas alfom bradas. Alguns eram brancos; a m aioria, negra e m ulata. Faziam parte da classe dos m ercadores e eram donos da política e da vida nas cidades islenhas e do litoral.

Com o seus com panheiros m ais ao sul, aspiravam a pertencer ao universo do Islão. E esforçavam -se, talvez, em perm anecer fiéis às saudades da Arábia e da Pérsia. Haviam construído, porém , um a cultura própria, com o o provam os próprios túm ulos com pilares, ainda que im pregnada de islam ism o. Os im igrantes recentes — pois o com ércio deve ter continuado a trazê-los — em bebiam -se rapidam ente do m odo de vida circundante. Suas m ulheres, sogros e cunhados eram , na m aioria dos casos, gente da terra, bantos. Deles acolheram o idiom a em que norm alm ente se expressavam , a língua geral da costa ou quissuaíli. Seus filhos j á cresciam africanizados. Em bora m oslins. E convictos de que m antinham as tradições culturais de além -oceano.

Essa gente parece não ter tido força ou disposição para difundir, fora da vizinhança de suas cidades, a cultura m uçulm ana de que era portadora. A própria gentalha que nelas exercia os ofícios m enores e os escravos, vestidos eles tam bém com sim ples tanga, só deviam ter um a ligeira tintura de islam ism o. As religiões tradicionais persistiriam provavelm ente entre o vulgo, m esclando-se ao m aom etanism o e o im pregnando de seus rituais.

Todas essas com unidades espalhadas ao longo do litoral índico tinham no com ércio a atividade de m aior prestígio. A com petição entre elas devia ser acirrada e sem tréguas, cada qual procurando obter o controle de novos escoadouros do m arfim e do m etal am arelo.

Talvez se deva ao aum ento dessa rivalidade ou a um a tem porânea perda do m onopólio das transações com Sofala, a estagnação, e até m esm o o declínio, que sofreu Quíloa, na segunda m etade do século XIV. Reduziram -se as construções em pedra — sinal por si só suficiente para caracterizar um a situação de crise. Mas há um dado ainda m ais taxativo: durante o período, parece que nenhum sultão cunhou m oeda na cidade. Continuaram , porém , a circular as espécies antigas.

Breve foi o desm aio. Já no início do século XV voltava a prosperidade a Quíloa. E a relativa abastança tornou-se a regra em toda a Azânia.

Para isso m uito deve ter contribuído o novo im pulso que tom aram as navegações no Índico. Por via m arítim a passara a escoar-se quase todo o com ércio a distância, desde que Tam erlão quebrara o poder dos m ongóis e destruíra a paz e a ordem que estes haviam im posto sobre as rotas da seda e os dem ais cam inhos caravaneiros entre a China e o Mediterrâneo.

Os assaltos, as tropelias arm adas, as guerras locais, o clim a geral de insegurança que se instaurara ao longo das grandes vias que atravessavam a Ásia, tudo conduzira ao abandono delas, em favor do oceano. Quando as m ercadorias desciam do boj o dos navios para o lom bo dos anim ais, era para abreviar distâncias, em percursos pequenos e por novos itinerários, cada vez m ais frequentados, com o os que vinculavam o golfo Pérsico ao m ar Negro e a Alepo. O m ar Verm elho recobrou im portância e o Egito tornou-se o principal interm ediário entre um a Europa que voltara a florescer e a Ásia opulenta.

O Quatrocentos foi um período de grandes em presas m arítim as. Tanto no Ocidente quanto no Oriente. No m esm o m om ento histórico em que os portugueses davam início à sua expansão oceânica, descendo sistem aticam ente os litorais atlânticos da África, os chins entravam nas águas ocidentais do Índico. Para tanto, os chineses dispunham de barcos que eram os m aiores e os m ais

seguros do m undo, naquele tem po. E superiores às caravelas dos portugueses. 84

O j unco de alto-m ar existia desde o século IX, m as foi três centúrias depois que se desenvolveu plenam ente: a partir do início do século XII, quando a China se dividiu em duas. Os soberanos da dinastia Sung, que controlava o vale do Yang-tzé e as terras do sul, com eçaram a ter do im pério um a concepção diferente. De um a noção exclusiva de dom ínio continental evoluíram para outra, em que se dava im portância ao poder sobre os m ares e ao com ércio com as terras que ficavam além deles.

É sob os Sung sulistas que se expande a arte náutica chinesa e se cria um verdadeiro sistem a m ercantilista de com ércio exterior. Os j uncos aum entam de tam anho, tornam -se de m ais fácil m anej o e se aventuram , prim eiro pelas águas do sudeste da Ásia, depois até a Índia. Na m etade do século XIII, chegam a Aden.

O desenvolvim ento m arítim o da China prossegue com a dinastia m ongol dos Yuan e ganha novo ím peto com os prim eiros im peradores Ming. O terceiro deles, Yung-lo (ou Zhu Di), prom overia sete grandes expedições aos m ares ocidentais, confiadas a um eunuco da corte, Cheng-Ho ou Zheng He.

Pelo tam anho e poderio, essas expedições deixam m uito atrás a de Pedro

Álvares Cabral. Num a delas, Zheng He levou 28.560 hom ens em 63 navios,85

m uitos deles com m ais de quinhentas toneladas.86 Noutra, 27.500 hom ens em

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m ais de cem barcos. (Com pare-se: a caravela de três m astros tinha em m édia

cinquenta toneladas, em bora pudesse atingir as 150; as m aiores em barcações portuguesas da carreira da Índia, no início do século XVI, ficavam entre as

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quatrocentas e quinhentas toneladas. E há quem diga dos j uncos de Zheng He

que tinham em m édia 1.500 toneladas.89 Os m aiores deles, os cham ados navios do tesouro, eram enorm es: com nove m astros e 12 velas, m ediam cerca de

120m de com prim ento.) 90

Na prim eira viagem , iniciada em 1405, os chineses chegaram a Calicute. Na segunda, em 1407, percorreram o Cochim , Sião, Tim or, Java, a costa oeste da Índia. Na terceira, foram ter ao Ceilão. Em 1409. Na quarta, partiram em 1414 e arribaram a Orm uz. Nas três últim as, em 1417, 1421 e 1432, visitaram Mogadixo, Brava, Melinde e outros pontos da África.

Segundo Duy vendak,91 a gente de Melinde fizera chegar ao Im perador Celeste um a girafa, anim al que se transform ara, na China, “em em blem a da Perfeita Virtude, do Perfeito Governo e da Perfeita Harm onia no Im pério e no Universo”. A fim de levar de volta os em baixadores daquela cidade, o im perador ordenara Zheng He a alongar, em 1417, seu itinerário até os confins do Índico. Teria, assim , a girafa im pelido os chineses até a África.

A realidade deve ter sido outra, m enos fantasiosa e m enos bela. A viagem à Azânia estaria nos planos ou, pelo m enos, na lógica de um m ovim ento de expansão oceânica, de um esforço para retirar dos m uçulm anos o prático m onopólio do com ércio no Índico. Os chins não ignoravam que da m argem m ais ocidental dos m ares provinham o m arfim dúctil, o ouro, os chifres de rinoceronte, o âm bar cinzento e os escravos negros. Acresce que as expedições de Zheng He eram de natureza m ilitar. Destinavam -se a im por o que os chineses consideravam a natural suserania do im perador sobre todas as terras onde fossem ter. Os chineses não se dedicavam à conquista. Supunham -se o centro do m undo: seus soberanos j ulgavam -se investidos de autoridade universal. Um a vez que ela se revelasse a outros povos, estes não tinham m ais que se dobrar diante da evidência e prestar ao Im perador Celeste a devida hom enagem . Som ente quando isso não era observado pelos povos bárbaros é que os chineses se transform avam em guerreiros, para restaurar a ordem violada, para restabelecer

o equilíbrio do universo. 92

Em suas viagens, Zheng He com bateu os inim igos da harm onia do m undo, falsos reis e rebeldes contra a fonte de toda a legitim idade. Guerreou-os em Palem bang, em Calicute, no Ceilão e em Sam udra, na tarefa — com o ele próprio o disse, na inscrição que m andou gravar, em 1431, no Tem plo da Esposa

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Celestial, em Liu-chia-chiang — de “unir os m ares e os continentes”.

Não deve ter deixado de causar pasm o a chegada de sua frota aos portos da Azânia. Pelo tam anho dos navios e o seu núm ero. Foram , ao que tudo indica, recebidos com apreensão. Mas com erciaram . Recolheram a bordo anim ais exóticos — zebras, avestruzes, leões, antílopes, girafas. E partiram .

As viagens não tiveram seguim ento. Nem consequências para a vida e a história da África. Mas são im portantes pelo que “podia ter sido e que não foi”.

Tudo indicava, com efeito, que seriam os chineses — com m elhores navios, m aiores recursos hum anos e econôm icos e m ais adiantada ciência náutica — os senhores do “m ar sem fim ”. E não os portugueses. Em vez, porém , de descobrir o cam inho m arítim o para a Europa, a China retirou de supetão as suas naves do Índico.

Em 1424, no próprio dia em que subiu ao trono, o sucessor de Zhu Di, Zhu Gaozhi (Hongxi ou Hung-Hsi), tom ou a decisão de abolir as viagens oceânicas. O im perador seguinte, Zhu Zhanj i (Xuande ou Hsuan-Tê) ainda prom oveu a sétim a e últim a viagem de Zheng He e, após a m orte deste, um a expedição a Sum atra. A partir de então, os j uncos não m ais voltaram ao alto-m ar. Não só as viagens a terras distantes foram proibidas, m as a própria construção de grandes barcos. A engenharia naval regrediu na China. Assim com o as artes náuticas. O país fechou-se em seu espaço continental.

Não se pode explicar a retirada dos m ares com a desilusão causada pela girafa, que se revelara incapaz de prom over a felicidade. A decisão isolacionista deve ter sido tom ada após intensa luta entre o partido m arítim o e m ercantil, de um lado, e os defensores dos interesses agrários, os “velhos do Restelo”, de outro. Estes preconizavam : o abandono da aventura m arinheira e a concentração de recursos e esforços na agricultura; um im obilism o social e cultural falsam ente confuciano; a proteção, pelo isolam ento, de um a civilização requintada e contem plativa, que poderia contam inar-se de costum es bárbaros; um a política externa voltada para o noroeste.

Saíram vencedores. Devem ter argum entado com o alto custo das expedições, em recursos m ateriais e vidas hum anas. Pois a China teve tam bém a sua “história trágico-m arítim a”: de cada grupo de dez pessoas em barcadas, apenas

um a ou duas retornavam do alto-m ar. 94 E deve ter-se aduzido que esse preço só tenderia a crescer, pois as sete viagens de Zheng He e a de outros navegantes chineses revelaram as dificuldades de firm ar o dom ínio sobre o Índico e a força da hostilidade m uçulm ana.

As razões do recuo chinês seriam as m esm as que explicariam a falência da conquista lusitana no Oriente. O Celeste Im pério teria com preendido que o com ércio do Índico só se poderia controlar subm etendo-se pelas arm as os islam itas e ocupando os seus portos, destruindo toda um a estrutura política e econôm ica eficiente e vigorosa. No Índico, os chineses encontraram , com o os portugueses logo depois deles, “rotas de navegação regulares, centros com erciais m uito prósperos, um a inter-relação ativa das diferentes regiões que constituía alicerce profundo das respectivas econom ias e não apenas floração superficial, e poderosíssim as sociedades de com ércio que dispunham de capitais fabulosos e frotas m ercantes de elevado núm ero de navios e exerciam influência decisiva na política dos diferentes reinos e senhorios”— conform e as palavras de Vitorino

Magalhães Godinho.95 Para desfazer essa tram a de interesses, o com bate teria de ser longo, feroz e constante. E para um im perador riquíssim o, senhor de m ilhões e m ilhões de súditos e soberano de territórios extensíssim os, o dom ínio do Índico e de suas m argens talvez não valesse a pena e o risco.

Não valeria com certeza em relação à África Índica, da qual os escribas que acom panharam Zheng He nos deixaram um retrato de terras pobres. E o eram , da óptica chinesa, em bora, da perspectiva africana, quase todas aquelas cidades-estado estivessem atravessando fase de grande progresso.

Considerável era o núm ero dos barcos que ancoravam nos portos da Azânia, vindos da m aioria dos centros com erciais do Índico — de Aden, do golfo Pérsico, do Guzerate, de Malabar, de Malaca. O m arfim , o âm bar cinzento, as peles, as plum as e sobretudo o ouro de Sofala alim entavam , do lado africano, o com ércio. As im portações tam bém não variaram : em grande m oda estavam os tecidos coloridos do golfo de Cam baia e aum entara ainda m ais o gosto pela porcelana chinesa.

A porcelana branca e azul passara a dividir a preferência com a celadona: aquele tipo predom inava nas vasilhas pequenas para com ida; este, nas grandes tigelas e vasos cobertos. A faiança persa era tam bém m uito usada, principalm ente na decoração de edifícios. Toda essa louça não era em pregada apenas na costa; servia tam bém para escam bo com os zanj es e os m algares. Algum a porcelana chinesa ia para o norte de Madagáscar e para o interior do continente, sendo encontrada até m esm o nas ruínas de Zim babué.

Com o m ovim ento de navios, voltara a prosperidade a Quíloa. Recom eçam nela as construções em pedra. Aum enta a cunhagem de m oeda. E surge até m esm o, a uns dez quilôm etros ao sul de Quíloa, na ilha de Songo Mnara, um a nova cidade.

Não se altera, no século XV, o m odelo básico de m oradia nas cidades-estado da África Índica. Em Gedi, as casas de pedra têm quase sem pre planta sem elhante às de Quíloa. Seus telhados são geralm ente planos, com o se fossem terraços, feitos com traves de m angues a sustentarem um a placa de cal. As construções aj untam -se. Encostam -se um as às outras, m uitas vezes parede e m eia. Algum as são ligadas entre si, com o a revelarem laços de parentesco entre os m oradores. Os blocos de prédios, separados por vielas estreitas, dispunham de j ardins e hortos na parte posterior. As principais casas — e entre elas destaca-se o

com plexo de habitações que Jam es S. Kirkm an teve por um palácio 96 — possuem entradas im ponentes, paredes engessadas, m as não pintadas, nichos nos m uros ou cerâm icas em butidas. É possível que esse palácio fosse o resultado final da consolidação de um grupo de casas pertencentes a um a determ inada linhagem : esta, ao tornar-se a fam ília real, procurou dar im ponência e sentido de

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unidade ao conj unto.

Gedi, que fica em terra firm e, possui um m uro defensivo exterior a envolver uns 18 hectares, e um interior, construído m uito m ais tarde, j á depois da chegada dos portugueses. Essa segunda m uralha cobre m enos da m etade do antigo espaço urbano.

No início do século XV, a ascensão de Mom baça j á com eçara. A cidade

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existia, contudo, desde antes de 1200, tendo principiado a construir em pedra

na prim eira m etade do século XIII. Quando Vasco da Gam a e seus

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com panheiros lá chegaram — conta-nos João de Barros —, era “tão ferm osa”, com seus edifícios de pedra e cal, “com j anelas e eirados à m aneira de Espanha”, “sobre u~a chapa que dava grã vista ao m ar”, que dela todos se enam oraram , parecendo-lhes que entravam em algum a cidade costeira de Portugal.

Quanto a Pate, a arqueologia estaria a indicar ter ela surgido por volta do

século IX.100 Isso não significa, no entanto, que j á fosse im portante no século XIII e que sej a verdade o que proclam a a sua Crônica: haver ela conquistado, no início da centúria seguinte, Lam u, Manda e Melinde, e estendido seu poder até as

ilhas Kerim bas. Chittick 101 acredita que Pate só com eçaria a contar no fim do Quatrocentos e a ter de fato relevância duzentos anos m ais tarde.

Em Quíloa, no século XV, o novo surto de prosperidade foi acom panhado por m odificações na estrutura do poder. O m ando resvalou para as m ãos dos notáveis, sobretudo para as do em ir, escolhido sem pre dentro da m esm a fam ília. Esse aproveitou-se das disputas sucessórias para consolidar o seu predom ínio político, sem conseguir im pedir, porém , que as dissensões dom ésticas enfraquecessem a cidade. Tanto assim que a fam ília reinante em Zanzibar com eçou a interferir na política interna de Quíloa. Num certo m om ento — segundo a Crônica de Quíloa —, um dos pretendentes ao poder recorreu à aj uda do sultão de Zanzibar, Al-Hassan ibn Abu Bacre, chegando este a organizar um a expedição arm ada em favor das reivindicações daquele.

Na segunda m etade do século, 13 sultões se sucederam no trono de Quíloa. Subiam e caíam rapidam ente, ao sabor da vontade e das intrigas de um em irado estável. Houve um em ir que m andou durante 19 anos, m uito m ais tem po do que qualquer sultão.

As constantes crises políticas de Quíloa devem ter facilitado o fortalecim ento crescente de Mom baça, Melinde e Zanzibar. No fim do século, Quíloa perderia o m onopólio do com ércio de ouro com Sofala, cuj o governador se declarara independente. E deixaria de cunhar m oeda, enquanto que Zanzibar, pouco antes, com eçara a fazê-lo.

O brilho do com ércio transoceânico não deve obscurecer o fato de que todas essas cidades foram , além de em pórios, centros de im portante atividade piscatória, agrícola e m anufatureira. Cultivavam -se num erosos ce-reais, frutas e legum es. Plantava-se e tecia-se o algodão. Em Pate, produzia-se seda. Em Quíloa, esculpiam -se o m arfim e o osso. Por toda parte era abundante e diversificada a cerâm ica. Trabalhavam -se o ferro e o cobre. Faziam -se contas de conchas m arinhas. Talhavam -se com habilidade a m adeira e a pedra. E era considerável a construção naval.

A azáfam a, o burburinho, o colorido do porto e dos m ercados, o ir e vir dos navios, os lances e os pregões, a riqueza e a diversidade dos produtos à venda, a abundância do ouro, da prata e das pedras preciosas, e o âm bar, o alm íscar, as pérolas, a púrpura, as sedas, os dam ascos, os linhos, os veludos, o m arfim , as porcelanas — tudo som breava a constância do am anho das terras, as atividades fabris e artesanais, os m ais diversos trabalhos que constituíam parte do fundam ento da vida e da independência dessas cidades. Seus habitantes estavam , porém , voltados para o oceano. Para o Índico, a cuj o espaço econôm ico pertenciam . E para o Islão.

A cultura dessas cidades era m estiça. E ainda que os negros superassem esm agadoram ente os m ulatos, da presença destes logo se deram conta os portugueses, com o se reflete em Gaspar Correia, no autor (provavelm ente Álvaro Velho) do Roteiro da viagem de Vasco da Gam a e em João de Barros. Escreve este últim o, por exem plo, sobre a chegada da frota do Gam a à em bocadura do Quelim ane: a vista do “gentio que habitava à borda dele, deu grande ânim o a toda a gente, para quão quebrado o levava, tendo tanto navegado sem achar m ais que negros bárbaros com o os de Guiné, vizinhos de Portugal. A gente deste rio peró que tam bém fosse da cor e cabelo com o eles eram , havia entre eles hom ens fulos que pareciam m estiços de negros e m ouros, e alguns

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entendiam palavras de arávico”.

Essa cultura m estiça criou, ao longo dos séculos, m odelos próprios, que não eram apenas a som a das influências recebidas. Com o o provam as ruínas de sua arquitetura em pedra. Nas plantas das casas e dos edifícios, na disposição das fachadas, nas aberturas de portas e j anelas, nos m otivos ornam entais, no desenho de certas edificações (com o os túm ulos com pilares), os construtores da Azânia foram estabelecendo tradições distintas das prevalecentes na Arábia, na Pérsia ou na Índia m uçulm ana, ainda que pertencendo na essência ao m esm o universo.

Mogadixo, Merca, Brava, Pate, Manda, Lam u, Melinde, Gedi, Mom baça, Pem ba, Zanzibar, Mafia, Quíloa, Moçam bique, Angoche, Sofala e tantas outras cidades foram , a um só tem po, os portos m ais ocidentais do Índico, lim ites do m undo islâm ico, e os em pórios da África j unto ao m ar. Em quase tudo sem elhantes a elas, em bora de tam anho e im portância bem m enores, as povoações m uçulm anas e suaílis prolongavam , nas Com ores e nas costas setentrionais de Madagáscar, a linha ponteada desse tipo de civilização m arítim a e m ercantil.

Talvez as prim eiras levas de indonésios tenham chegado a Madagáscar diretam ente de Bornéu, das Celebes ou de outras partes do sudeste asiático. Talvez se tenham dem orado nos litorais da Azânia e ali se m iscigenado com

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negros, antes de atravessarem o canal de Moçam bique. Se isto se deu, deixaram nas praias da África Oriental sinais pouco claros dessa estada: plantas, obj etos e costum es que podem tam bém ter-se transm itido pelos contatos entre Madagáscar e a terra firm e. Assim o xilofone ou m arim ba. Assim a canoa com contrapeso lateral. Assim o taro, a banana, o coco, os inham es asiáticos. Assim , talvez, a cabana retangular coberta por folhas de coqueiro.

Com o quer que tenha sido, a essas prim eiras viagens seguiram -se m uitas outras. Os navegantes traziam em seus barcos m udas, estacas e sem entes dos vegetais a que estavam acostum ados. Talvez recolhessem na costa africana os anim ais dom ésticos: a galinha, a pintada, a cabra, o carneiro, o boi. E ali preassem escravos. Instalavam -se preferentem ente no noroeste e no nordeste de Madagáscar, áreas m ais úm idas e cobertas de m atas, de clim a e vegetação com paráveis aos que tinham deixado na Indonésia.

Chegavam a um a terra desabitada. Sem feras. Sem cobras venenosas. Onde o único anim al a am eaçar o hom em era o crocodilo. Instalaram -se com o grupos isolados, clânicos ou fam iliares no espaço vazio. E iniciaram o lento desbastar da floresta pelas coivaras, que iriam transform ar em pastagens a m aior parte da ilha. E com eçaram a dizim ar os anim ais, pela caça e pelo desm atam ento. Desse m odo, foram -se extinguindo os lêm ures gigantes, o hipopótam o-anão e o epiórnis — enorm e ave de asas atrofiadas, que podia atingir três m etros de altura e cuj os ovos, com um a capacidade de oito litros, m ediam m ais de trinta centím etros de com prim ento contra 23cm de diâm etro. (Não estaria o epiórnis na origem da lenda árabe do pássaro Roca, que vivia nas ilhas de Waq-Waq?)

É possível que os indonésios tenham trazido com eles, do trânsito pela África ou da longa residência em suas praias, inúm eros negros. Depois, passaram a capturá-los em suas razias contra as aldeias da terra firm e. Muitos grupos de bantos, porém , vieram espontaneam ente ter a Madagáscar. Em barcos com balancim e em zam bucos, eles atravessaram o canal de Moçam bique, fazendo ou não escalas nas Com ores, e foram instalar-se no oeste da grande ilha.

Não é, pois, por acaso que as populações da m etade ocidental de Madagáscar são aquelas em que predom inam os traços negroides. Ali, as aldeias estão defendidas por paliçadas, à m aneira africana, enquanto que em grande parte do resto da ilha são cercadas por fosso, à indonésia. E, ali, o j esuíta português Luís Mariano, em pleno início do século XVII, ainda encontrou várias povoações de gente de pele preta e cabelo pixaim , a falar um a língua de cafre, a plantar

m ilhete e m andioca e a criar bois. 104

Com unidades negras, com o essas, que ainda não se haviam am algaxizado, eram — parece — recentes na ilha. Das derradeiras de um processo de pequenas m igrações africanas, antigo de vários séculos, que correra paralelo ao das aventuras transoceânicas dos indonésios.

As viagens destes últim os não teriam sido sem pre apenas de m igração, para estabelecer colônias. É possível que tenham , se não desde o início, pelo m enos a partir de certo m om ento, talvez ainda antes do século VII, obedecido às exigências do com ércio. O destino dos navegantes seria o de criar entrepostos, a fim de garantir o fornecim ento de artigos m algaxes a um a rede m ercantil

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m arítim a até o sul da China. Suas em barcações, com as quais chegariam a

Madagáscar, não teriam sido apenas longas pirogas com flutuadores laterais, m as tam bém grandes navios, que podiam atingir os cinquenta m etros de

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com prim ento, feitos de pranchas am arradas com corda ou tam iça de coco, e

com velas de esteira. Nelas, os indonésios atravessavam o Índico e vinham buscar na Grande Ilha especiarias (com o a canela), essências arom áticas, plantas m edicinais, cascos de tartaruga, peles, ouro e ferro. O ferro que se produzia em Madagáscar, Melinde, Sofala e outros pontos da costa africana era, aliás, altam ente apreciado na Índia, com o testem unha Al-Idrisi. Os indianos

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reelaboravam esse ferro para com ele fazer um aço de especial qualidade.

As viagens provenientes do sudeste da Ásia devem ter-se prolongado até a chegada dos portugueses, em bora as últim as levas im portantes de indonésios a aportar na ilha tenham sido provavelm ente os ancestrais dos m erinas — o que explicaria o haverem estes preservado o tipo físico e certas form as de organização social de suas terras de origem .

Segundo algum as tradições, os m erinas desem barcaram próxim o a Maroantsetra, na baía de Antongil, no nordeste de Madagáscar. Em pleno século

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XII — j á se aventou. Ou cem a trezentos anos m ais tarde. Pronto deixaram a costa e subiram o planalto, onde j á viviam , ignorantes da m etalurgia, da rizicultura irrigada e da criação de gado, povos que se conhecem por vazim bas.

Tiveram -se os vazim bas — descritos na lenda com o baixinhos e de tez escura — por negrilhos ou coissãs, im prováveis habitantes da ilha antes que lá chegassem os prim eiros indonésios. Ou por gente banta — com o indicaria o nom e. É de crer-se, porém , que fossem protom algaxes, descendentes das prim eiras vagas de indonésios, africanos e m estiços que se instalaram em Madagáscar. A palavra “vazim ba” designaria, assim , os ancestrais, os “senhores da terra”, aqueles que prim eiro viveram em determ inado lugar e cuj os costum es, organização política e técnicas de produção foram suplantados pelos

que vieram depois deles 110 — os m erinas, por exem plo, ou os betsileos, os quais, após tam bém cum prirem o percurso do litoral do nordeste ao planalto, se foram estabelecer pouco m ais ao sul, nas cabeceiras do Mahatasintra. Na im aginação da gente de Madagáscar, os vazim bas seriam , com o “senhores da terra”, espíritos do m ato e obj etos de culto. A designação aplica-se, no entanto, a alguns grupos que vivem no centro e no oeste da ilha, e estes não se distinguem física ou

linguisticam ente dos dem ais m algaxes. 111

g

De início, os m erinas e os betsileos, assim com o os sianacas e os bezanozanos — tam bém recém -chegados —, devem ter coexistido com os vazim bas. Mais tarde, buscaram subm etê-los. A m uitos, reduziram à servidão ou incorporaram pacificam ente aos seus núm eros. Houve grupos que resistiram e, vencidos pelas arm as, fugiram para longe. E outros que lograram entender-se com os adventícios e com eles estabeleceram aliança, solidificada talvez pela repetição dos casam entos.

Não se exclui que os m erinas tenham trazido com eles m odelos políticos conducentes à criação dos prim eiros reinos, a partir de clãs fortem ente organizados. Possuíam , com efeito, um a cultura aristocrática e dividiam -se em classes rígidas, nelas se distinguindo o andriana ou nobre, o hova ou plebeu e o andevo ou escravo.

Outra fonte das novas estruturas políticas pode ter sido a costa da África.

O com ércio entre a Azânia e o norte de Madagáscar era antigo. Com o increm ento das trocas, colonos das cidades-estado do litoral africano — negros islam izados, m ulatos, um e outro árabe, persa ou indiano — devem ter-se sentido incentivados a fundar entrepostos nas Com ores, onde j á viviam provavelm ente indonésios ou m estiços de indonésios com bantos. Tradições locais e do noroeste m algaxe repetem , aliás, o que se narra na Crônica de Quíloa: o desem barque nas Com ores do sultão Al-Hassan, o pai dos príncipes xirazes. E acrescentam : após ele, chegaram os Adalis, que se tornaram um a das fam ílias das quais saíram os reis de Anj ouan — o que talvez signifique ter exercido Quíloa algum a form a de

controle ou suserania sobre aquela ou todas as ilhas Com ores.112

Nas Com ores, os im igrantes e seus descendentes tornaram -se conhecidos com o antalaotes ou antalaotras (“povo do outro lado do m ar”). Sua fala é um a espécie de quissuaíli, com grande núm ero de palavras m algaxes. E suas vilas, casas e m odos de vida pouco diferem das cidades, habitações e costum es da Azânia.

Antalaotes cham am -se tam bém os habitantes das povoações arabizadas do noroeste de Madagáscar. Possivelm ente porque m uitos deles têm origem nas Com ores. Outros vieram de m ais longe: do próprio continente. De um ou doutro lugar, trouxeram com eles os sistem as políticos em vigor nas cidades-estado da costa oriental da África, às quais perm aneceram vinculados pelo com ércio. Vendiam -lhes carapaças de tartaruga, gengibre, cana-de-açúcar, m el e cera de abelha, gado, arroz e sândalo.

O m ais im portante dos estabelecim entos antalaotes era Nosy Manj a. Alguns dos outros tinham por nom es Mahilaka, Nosy Mam oko, Sada, Nosy Boina, Nosy Langany. Este últim o foi visitado em 1506 por Tristão da Cunha, e “sua m esquita e parte das casas eram de pedra e cal, com terraços à m aneira de Quíloa e

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Mom baça” — com o escreveu João de Barros.

A arqueologia confirm a o grande cronista. Em Mahilaka e em Nosy Manj a encontraram -se restos de m uralhas, de m esquitas, de casas e de túm ulos de pedra. E desenterraram -se pedaços de porcelana e de faiança persa e chinesa.

No litoral nordeste tam bém se instalaram grupos arabizados. Vindos da Azânia, das Com ores ou de ali perto, do noroeste da ilha. Talvez j á fortem ente m iscigenados de indonésios e m algaxes e com a fé m uçulm ana em processo de diluição. Pelo m enos é para isso que apontam os túm ulos escavados em Iharana (ou Bim aro), ao lado da atual Vohém ar: eles dispõem -se à m aneira m aom etana, com o esqueleto a olhar para Meca, m as contêm num erosos obj etos, contrariando, assim , as prescrições do islão. Entre os bens que acom panhavam os m ortos, figuram cerâm ica e porcelana im portada, com m uitas peças chinesas e iranianas, colares de contas de vidro, espelhos de bronze, j oias de prata, sabres, estiletes, garrafas de vidro de gargalo m uito longo e uns vasos cortados num xisto m ole e suave com o a pedra-sabão, vasos com três pernas e que se punham aos

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pés do cadáver. Esses recipientes eram fabricados em oficinas ao redor de

Iharana e se exportavam em boa quantidade para Quíloa.

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Iharana teria sido fundada no fim do século XIV ou início do XV. No século XVIII, não m ais existia. Dela restavam apenas as ruínas de dois edifícios. E de seus habitantes arabizados não sobrara vestígio: foram de todo absorvidos

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pelas populações m algaxes.

Muito antes disso, alguns iharanianos devem ter-se transportado para o sudeste de Madagáscar, e é possível que eles e os antalaotes estej am na origem de dois

h

grupos ali existentes: os zafi-ram ínias e os antem oros.

As tradições dos prim eiros asseveram que descendem de Ram ínia e de seus irm ãos. Gente de Meca. Mas que esteve em Iharana, antes de fixar-se no sul, no

vale do Mananj ari, onde vive um grupo denom inado antanaoaca, i e no distrito de Fort Dauphin, onde os zafi-ram ínias form am a casta nobre do povo antonasi e possuem alguns m anuscritos em caracteres árabes e dialeto m algaxe, com lendas históricas, encantam entos e fórm ulas religiosas.

Esse tipo de m anuscrito ou sorabé (“a grande escrita”) existe igualm ente, e em m aior núm ero, entre os antem oros. Habitam eles o baixo Matitana, logo ao sul dos antanaocas. E suas castas dom inantes vão tam bém buscar antepassados em Meca, com escalas nas Com ores e em Iharana.

Os sorabés antem oros são escritos em papel fabricado localm ente, batendo-se a entrecasca de um a árvore. Os dois livros m ais antigos são verdadeiras relíquias, inacessíveis à consulta dos estrangeiros. Dos dem ais, nenhum parece anterior ao século XVII. Cem anos antes, porém , os antem oros j á form avam quatro reinos, a guerrearem constantem ente entre si.

Com o tem po e o isolam ento, os antem oros e os zafi-ram ínias se foram distanciando cada vez m ais da fé e das práticas do islão. Entre os prim eiros, um a

das castas sacerdotais, a anacara,j conservou um a linguagem secreta de base árabe e algum as preces m uçulm anas, bem com o a reverência pelo nom e de Maom é, a crença num j ulgam ento após a m orte, o respeito pela sexta-feira, a proibição da carne de porco e de outros anim ais considerados im puros, o horror

ao cão. 117 Outros traços do m aom etanism o generalizaram -se e im pregnaram a cultura m algaxe, com o a geom ancia, a confiança na força m ágica da escrita, a confecção de am uletos e o calendário lunar árabe, com seus nom es de m eses e de dias da sem ana. Na costa oriental de Madagáscar conserva-se, contudo, o calendário indiano, com palavras de origem sânscrita para os m eses e as

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estações.

Propôs-se, aliás, que os zafi-ram ínias e os antem oros fossem descendentes de indianos ou de indonésios hinduizados. Não se necessitaria, entretanto, im aginar que aqueles grupos tivessem principiado por ser colônias indianas para entender neles a persistência de alguns poucos elem entos culturais da Índia. Se seus m aiores vieram , com o é m ais provável, do norte de Madagáscar, das Com ores e dos litorais da Azânia — frequentados, desde m uito, por guzerates, m alabares e cholas —, trouxeram com eles ressonâncias das m ais variadas culturas que com punham o universo do Índico.

Já estariam os seus dirigentes am algaxizados, na carne e no com portam ento, quando as disputas políticas entre eles provocaram rupturas e cisões, levando — conform e a história oral de vários povos — parte de seus m em bros ao exílio no interior da ilha, onde fundaram reinos e as linhagens que os governariam . Por trás desses relatos, que tornam parentes as fam ílias reais do sul e do oeste de Madagáscar, desenrolar-se-ia o enredo m ais com plexo da difusão dos novos sistem as de poder. No entrecho, há lugar para a energia e para o gosto de m ando revelado por estirpes aristocráticas com o, por exem plo, a Maroserana, a Andrevola, a Zafim anel e a Zafi-Ram bo, que viriam a criar estados ou a deles se apoderar.

Essas fam ílias de príncipes não teriam obrigatoriam ente a m esm a origem . Advogou-se, por exem plo, que a dinastia m aroserana provinha da África — de

Zim babué, para ser m ais preciso.119 Ela viria a assum ir o com ando dos

k

sacalavas, um povo do oeste de Madagáscar, com feições m arcadam ente negroides e que conserva, entre outros traços africanos, as cerim ônias de descida dos deuses ou dos espíritos no corpo dos hom ens e o culto das relíquias dos reis. Num de seus lugarej os, Sakoam bé, há, sobre os túm ulos, im agens de pássaros esculpidas na m adeira, sem elhantes às que se encontraram , lavradas em pedra-sabão, no Grande Zim babué. E um de seus m itos refere que os precursores dos Maroseranas, ao desem barcarem nas praias do sudoeste, traziam com eles ouro em abundância.

O Grande Zim babué fica distante. Mas os am uralhados de Manicuene (ou Manhiquene), em Moçam bique, estão a apenas cinquenta quilôm etros do litoral, e Manicuene, se não política, ao m enos culturalm ente era vinculado a Zim babué. Talvez controlasse, com o outros estabelecim entos sem elhantes nas terras baixas de Moçam bique, o com ércio entre a orla m arítim a e o planalto, entre a foz do Save e o interior.

Se m uitos sacalavas e baras são caracteristicam ente negros e m uitos m erinas podem ser tom ados por j avaneses, a m aior parte da população m algaxe, no seu conj unto, é form ada por m estiços, com variadíssim os tipos interm ediários entre o africano e o indonésio. À diversidade física corresponde, entretanto, um só idiom a, pertencente ao grupo linguístico m alaio-polinésio, com influências bantas, não só no vocabulário, m as tam bém na m odificação dos finais

consonantais indonésios em finais vocálicos. 120 Ainda que se divida o idiom a m algaxe em vários dialetos, a uniform idade continua subj acente, sendo a diferença entre eles relativam ente fraca.

À sim plicidade do olhar revelam -se a dupla origem dos m algaxes e a sua aglutinação no correr da história. À direita, os arrozais irrigados com o no sudeste da Ásia; à esquerda, os grandes rebanhos de bois, com seus cortes de identificação nas orelhas, pastoreados à africana; aqui, casas de m adeira sobre pilotis, com tetos em duas águas m uito inclinados; ali, lavradores a ceifarem com foices dentadas cam pos de m ilhete; acolá, a carne a assar-se num forno subterrâneo guarnecido de pedras, enquanto, ao lado, alguém fia, enovela ou tece o algodão. Num a só aldeia, este toca o urucungo; aquele, o xilofone.