A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 5 de 35 · parte 2/2

Páginas do PDF

A Enxada e a Lança

1. A paisagem e o homem

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Nesse pátio passava-se a m aior parte do dia. Ali, cozinhava-se, teciam -se esteiras, banhavam -se as crianças, cum pria-se a m aior parte dos afazeres dom ésticos. E assim era em quase toda a África, onde o convívio fam iliar se processava, e ainda se processa, ao ar livre, nos terreiros e nos pátios internos, ou sob a proteção das varandas.

Algum as vezes, com o entre os iorubás e os edos, da Nigéria, o pátio central, quadrado ou retangular, está cercado de alpendres. Na frente do prédio há um a única porta, que dá, nas casas dos grandes, para um a varanda externa, com colunas de m adeira ou de barro. Para o pátio central abrem -se os vários quartos, nos quais só se vai dorm ir nas noites frias e chuvosas. Durante quase todo o tem po, é nas varandas que se põem as esteiras para o sono.

Ainda que possam os palácios dos aristocratas possuir vários pátios internos, a m oradia eda e iorubana apresenta um a form a com pacta. Tem geralm ente a aparência de ser um só prédio, m esm o quando recebeu num erosos acréscim os. É vista, contudo, com o um conj unto de habitações. Tanto assim que se cham a

agbo ile, “rebanho de casas”. 6

Com preende, de fato, vários lares. Pois num pequeno agbo ile vivem o chefe de fam ília, suas m ulheres — a cada um a das quais corresponde um a cozinha —, seus filhos, alguns parentes — talvez sua m ãe, irm ã ou tia — e agregados. Outrora, ali tam bém se recolhiam os escravos dom ésticos.

A m etáfora seria m ais evidente, se se aplicasse aos grupos de pequeninas casas cilíndricas, cobertas de tetos cônicos de palha, a se com prim irem um as contra as outras, dos m ontes Mandara. Entra-se no conj unto por um a só porta, a da casa principal, que pertence ao cabeça da fam ília, e depois vai-se passando de um a cabana para outra, por dim inutas aberturas que as interligam , por curtos corredores ou por espaços descobertos que entre elas existem . Para o exterior, a sequência de paredes curvas não apresenta um a só j anela ou vão, e se fecha sobre si m esm a.

Há conj untos de habitações fam iliares — ou com pounds, no dizer dos ingleses

— bem m aiores. Com o os dos gruncesl do Burquina Faso. Onde podem abrigar-se o chefe da linhagem , suas m ulheres, seus irm ãos e esposas, seus filhos e sobrinhos com suas com panheiras, seus netos e seus sobrinhos-netos, suas irm ãs e suas filhas solteiras, outros parentes e agregados — cinquenta, sessenta ou setenta pessoas. Além de bois, cabras, ovelhas, aves de capoeira e xirim babos.

Quando a criação de gado é a atividade prim eira do grupo, o curral ocupa im portante parte do com pound. Entre os herreros de Angola, por exem plo, é circular e fica no centro de um a circunferência m aior. No anel assim form ado dispõem -se as cubatas em dom o do chefe da fam ília, de suas várias m ulheres, dos filhos e suas esposas, das crianças, dos parentes e dos hóspedes.

Protegidos pelas próprias paredes das casas, que se colam um as às outras e não apresentam j anelas nem aberturas para o exterior, por m uros de barro ou, m ais raram ente, de pedra, ou por cercas de varas, de galhos de espinheiros, de palha ou de esteiras, e tam bém pelas aras aos antepassados, as quais se erguem m uitas vezes logo à entrada ou j unto aos aloj am entos do chefe da fam ília, esses conj untos habitacionais espalham -se, distanciados uns dos outros por duzentos, trezentos, quinhentos ou m ais m etros, por quase toda a África. Um a África predom inantem ente rural.

Alguns desses com pounds são tão grandes, que sem elham aldeotas. E as aldeotas, as aldeias e os vilarej os — form ados por várias fam ílias extensas, ou por linhagens afins ou aliadas, ou por grupos de parentesco distintos entre si, que a necessidade e o interesse aproxim aram — pontuam a paisagem africana, na qual a cidade é exceção e frequentem ente o resultado da presença estrangeira, com o as que derivaram dos entrepostos árabes e persas na costa do Índico, do com ércio transaariano e do dom ínio colonial europeu.

Há um a região tradicionalm ente bastante urbanizada: a África Ocidental. Onde j á havia cidades nos últim os séculos antes de Cristo. E onde, na m aioria dos casos, a vida urbana e a vida rural estão de tal m odo interligadas, que m al se distinguem .

Predom inam ali, esm agadoram ente, as cidades pequenas. E pequeninas. Mas, m esm o nas grandes, é com um , nos m eses de preparação e cultivo da terra e nas épocas de colheita, o m ovim ento diário de seus habitantes na direção dos cam pos que as circundam . É neles que as fam ílias têm seu lugar principal de trabalho. E existem casos em que alguns m em bros dessas fam ílias vivem fora dos m uros da urbe, em cabanas j unto às roças, para velar constantem ente por elas. E pode suceder que um indivíduo, sem deixar de considerar-se parte de determ inada cidade, viva fora dela, num a fazenda a m uitos quilôm etros de distância, a m aior parte do ano.

No interior de burgos fortificados — com o Kano, Zária, Ifé, Benim e Ij ebu-Ode — havia am plos tratos de terra reservados à agricultura, a fim de garantir o suprim ento da cidade, em caso de guerra e sítio. Dentro das altas m uralhas de terra de Kano, por exem plo, dois terços do espaço estavam , antigam ente,

vedados à construção e neles se plantava. 7 O cam po ficava dentro da cidade.

E a cidade dependia inteiram ente do cam po. Quase todos os seus habitantes viviam da agricultura e da criação de gado. Até m esm o os m ercadores e os que se dedicavam a ofícios especializados — os ferreiros, os escultores, os oleiros, os tecelões, os herbanários, os curtidores, os carpinteiros — retiravam parte de seu sustento das terras que cultivavam .

Mas a cidade era tam bém o m ercado. Onde se trocavam os produtos locais e os que vinham de longe. Às vezes, de m uito longe. Era tam bém centro m anufatureiro, com bairros reservados a cada tipo de artífice. E outros, aos estrangeiros, separados, quando num erosos, por origem . Pois a cidade geralm ente não se fechava aos forâneos e cum pria um destino de ponto de encontro, diálogo e convívio.

Pelo tam anho e a aparência, é difícil distinguir-se a cidade pequena e a aldeia grande. No Iorubo, cidade era onde tinha assento um obá, um rei. Com o a ilustrar

8

a teoria segundo a qual o agente m ais im portante na m udança da aldeia, com sua econom ia de subsistência, sua solidariedade entre fam ílias e seus deuses lares, para a cidade, com sua econom ia de trocas, a diferenciação em classes sociais e um a identidade coletiva m ais abrangente do que a das linhagens, foi o rei, foi a instituição da realeza. O obá, cuj o palácio ou afin ficava no centro da cidade e de cuj a varanda exterior nascia o m ercado, era o grande árbitro e j uiz de relações sociais que se tornavam cada vez m ais com plexas. Sendo ele próprio um ser sagrado, im punha ao seu redor um a ordem que só se discutia quando claram ente inj usta, e uniform izava as crenças e as vontades.

A passagem da aldeia à cidade verificou-se à m edida que a produção do grupo hum ano criou excedentes à pura subsistência. Isso perm itiu a reserva de parte do colhido para épocas de escassez, o surgim ento de certos tipos especializados de trabalho, o desdobrar do com ércio e a instalação de novas estruturas sociais e de poder político. Form ou-se um a classe dom inante, um a aristocracia, que passou a apropriar-se desses excedentes e a forçar a sua expansão, ao m esm o tem po que cham ava a si, através do rei, o controle do com ércio com o exterior.

Ao se fazerem m enos sim ples as relações entre os grupos hum anos, com plicaram -se tam bém os seus laços com a terra. Esta, de m odo geral, não era vista apenas com o fator de produção e para uso dos contem porâneos. Era a guardiã dos m ortos, a servidora dos vivos e a prom essa dos vindouros. Pertencia a todos eles, no tem po e na eternidade.

Por isto, as terras que passaram de um grupo a outro não deixam de ter liam es

com o antigo ocupante. Nas vilas dos cotocos,m do Chade, por exem plo, há um

n

representante dos saôs, que os precederam na posse do território. Esse descendente dos saôs tem o título de Senhor da Terra e, sem o seu conselho, nenhum a decisão de im portância pode ser tom ada.

Com o, por sua vez, os saôs conquistaram a região aos gueguêis, respeita-se, até hoj e, o título de prim eiros ocupantes da terra que teriam esses pigm eus, descritos, nas tradições e nas lendas, com o averm elhados e peludos. Isso explica por que os cotocos, ao desbastar um novo cam po, sacrificam um frango aos gueguêis e

distribuem m ilhete às crianças. 9

Muito em bora, estritam ente, os “senhores da terra” ou “donos da terra” sej am as divindades ou os espíritos locais, essas denom inações são aplicadas aos m oradores prim itivos de um a região, que dela foram deslocados por im igrantes, ou que por estes foram substituídos com o grupo dom inador. Dá-se o título, no singular, a quem representa os antigos habitantes da área, aos quais, por terem sido dela despoj ados, se fazem oferendas expiatórias.

Pode o “senhor da terra” ser um sobrevivente real ou sim bólico de um povo exterm inado, absorvido, dom inado ou m arginalizado pelos adventícios; a im agem m ental de um a nação m ítica (m uitas vezes, de gigantes ou pigm eus); um anim al verdadeiro — um lagarto, um crocodilo, um a cobra — ou um bicho fantástico. Varia entre ser de carne e osso ou pura visagem , com panheiro de todos os dias ou ente só encontrado ou pressentido no sonho e no m edo.

Quem tenha lido The Palm -Wine Drinkard,10 de Am os Tutuola, recordar-se-á de com o, havendo o herói feito um roçado na ilha dos Espectros, um dia lhe apareceu terrível anim al. Era enorm e com o um elefante, cabeçudo, de boca arm ada de dentes m ais longos que aspas de boi, o corpo vestido de longos cabelos. A fera, de cinco chifres na testa, entrou cerca adentro e com eçou a com er a plantação. O herói só superou a am eaça quando se deu conta de que a terrível besta era o “dono da terra”, furioso porque não lhe tinham sido feitos sacrifícios pelo cultivador. Este lhe ofereceu, então, alguns produtos da roça, que o anim al aceitou. E, em troca, aquela espécie de grifo ofertou-lhe sem entes m ágicas de m ilho, de arroz e de quiabo, e lhe favoreceu as colheitas.

Por quase toda parte, a terra era da fam ília, da linhagem , do clã, da aldeia, da tribo, do rei. Não tinha valor próprio, m as o do trabalho que nela se punha. Um indivíduo, um a fam ília ou um grupo eram donos do que plantavam , dos vegetais que nasciam em seus roçados, das árvores de que cuidaram , das palm eiras cuj os frutos regularm ente colhiam . E detinham o usufruto da terra, enquanto dela se ocupassem .

O conselho de anciães, o chefe da aldeia ou o rei distribuíam os terrenos entre os pais de fam ília, para que cada um cultivasse um ou m ais lotes. A pluralidade de lotes, separados uns dos outros, decorria da necessidade de serem os solos bons e m aus repartidos equitativam ente. Era esse o regim e habitual, nas áreas onde se praticava o sistem a de utilização rotativa do solo, um a vez que, após alguns anos de cultivo, um terreno devia ser m antido, por outros tantos, em repouso. Ao entrar pela prim eira vez em descanso, seu detentor buscava obter novo e adicional trato de terra.

Essa alocação podia prolongar-se por m uitas gerações. Herdava-se o uso da terra. A terra ficava na fam ília.

Ao estrangeiro, de m odo geral, não estava vedado obter parcelas de solo. Para isto, devia ele presentear as autoridades locais. O presente, porém , não era tido com o pagam ento pela terra, m as, sim , com o penhor de gratidão por ter sido adm itido na com unidade. Com o m em bro da com unidade, ele tinha acesso ao

11

solo. Se em igrasse, a terra voltava ao grupo que a cedera, sem qualquer

com pensação.

Não se repartia todo o espaço sob o controle do grupo. Parte continuava sob posse coletiva e coletivam ente era utilizado. Todos os que trabalhavam a terra com um recebiam porção do que ela produzia.

Em certas zonas, o controle da terra, inicialm ente grupal, passou depois para as m ãos do chefe ou do rei, que dela dispunham , dentro de determ inados lim ites. Ou de m odo inteiram ente discricionário, com o nas m onarquias centralizadas do

Benim (no sul da Nigéria) e do Danxom éo (no centro da atual República do Benim ).

Em áreas de relativa escassez de terras agricultáveis, de alta densidade dem ográfica ou onde se praticava o cultivo perm anente e intensivo, surgiram form as de apropriação do solo m ais com petitivas. Que podiam até m esm o com preender — o que era raro — a com pra e a venda de terra.

Na Ibolândia (no sudeste da Nigéria) e no país dos quicuios (no Quênia), o uso do lote fam iliar podia ser obj eto de penhora e cedido por contrato. E em Ibadan, no Iorubo, a expansão, j á no século XX, de um a cultura perm anente, o cacau — que não era consum ido pelos locais, m as vendido pelos plantadores a interm ediários que o exportavam —, alterou o regim e tradicional de posse e uso do solo. Dantes, a terra era da linhagem , que a dividia entre os seus m em bros, para que a cultivassem . Depois, passou, na vizinhança im ediata da cidade, a ser livrem ente vendida e com prada. Dentro de um a área de circunferência m ais am pla ao redor de Ibadan, essa m odificação da lei costum eira não prevaleceu abertam ente, m as sob disfarce: podiam -se penhorar todos os cacaueiros de um a

roça, porém não a terra em que punham raízes 12 — o que, na prática e a m édio prazo, significava a m esm a coisa.

Só em poucos lugares existiu a propriedade privada da terra. Entre os caras,p de um a ilha do lago Vitória, por exem plo, que praticavam agricultura perm anente, associada à criação do gado. O núm ero de reses que possuíam era lim itado ao tam anho de suas terras, cuj a fertilidade conseguiam preservar, graças à rotação entre cam pos de cultivo e cam pos de pasto e ao uso sistem ático

13

do estrum e anim al.

Nisso de m anter reduzido o rebanho de bois, os caras eram tam bém exceção. A regra, entre os criadores de gado, é am pliar constantem ente o núm ero de anim ais — pois estes, m ais do que bens de consum o, são bens de capital. O gado não é só m eio de troca, m as de reprodução e acum ulação de riqueza.

O crescim ento dos rebanhos, com a consequente deterioração dos pastos, assim com o as m udanças de clim a, exigiam dos povos pastores grande m obilidade. Muitas vezes, tinham de em preender longas m igrações, em busca de novas paragens onde pudessem m elhor alim entar os bois e lhes dar de beber m ais facilm ente.

Mais frequentes e m enos dram áticos eram outros deslocam entos. Com o os que se processavam , todos os anos, entre o Sael e a savana, na África Ocidental, e entre o Rift Valley e o planalto, na África Oriental. Na época das chuvas, os anim ais eram levados da savana para o Sael, a fim de fugirem à expansão da tsé-tsé e aproveitarem o ressurgir do verdor nas m argens do Saara. No estio, voltavam para a savana, em busca de bons pastos.

A transum ância facilitava os contatos e o com ércio entre pastores e agricultores. Trocavam -se, na savana, leite e estrum e por cereais, tubérculos e cabaças. Os cultivadores, que favoreciam , na estação seca, a presença do gado em suas terras, pelo esterco que ali deixava, passavam a tem ê-la, quando os rebanhos cresciam em núm ero ou chegavam à savana antes da época própria, am eaçando as colheitas. Havia ainda o tem or de sedentarização dos pastores, que passariam a disputar com os agricultores o uso da terra e o acesso às águas. Daí os conflitos que entre eles frequentem ente se produziam e dos quais podia resultar o deslocam ento do eixo da transum ância. Os pastores encam inhavam -se para outra área, norm alm ente próxim a, e ali recom eçavam a oscilação entre o Sael e a savana.

Na África, agricultura e criação de gado são, em geral, atividades separadas. Exercidas por grupos distintos, sendo relativam ente poucos os exem plos de gente entre as quais a pastorícia e o cultivo da terra têm im portância sem elhante ou se harm onizam , com o em certas partes da Etiópia, nas m ontanhas do norte do Togo, na Casam ansa (Senegal), na Guiné-Bissau, no Ruanda, no Burundi e nas encostas dos m ontes Quênia, Kilim anj aro e Meru.

No norte do Quênia, existem tribos divididas em duas alas: um a pastoril, com posta pela gente j ovem , que cuida do gado; e outra, form ada pelas m ulheres,

pelos velhos e pelas crianças, que se ocupa do cultivo da terra.14

Fundam entalm ente, um povo é pastor ou agricultor. Não quer isto dizer, todavia, que um a prática exclua inteiram ente a outra. O pastoralism o puro é raro.

Existe, por exem plo, entre alguns grupos m assais, q do Quênia e da Tanzânia. E pode até m esm o assum ir aspecto de desprezo e intolerância em relação ao cultivo da terra e aos que a praticam . A regra, contudo, é que os pastores não se envergonhem de cultivar regularm ente algum cereal, para suplem entar suas dietas. E que não faltem , por sua vez, entre os agricultores, cabras e ovelhas. Às vezes, em bom núm ero. Nem , aqui e ali, um a vaca, ou m ais de um a, sem pre que o perm ita a tsé-tsé.

O longo contato entre povos agrícolas e pastoris m uitas vezes se resolve num a espécie de sim biose. Num a colaboração estreitíssim a, sem dom inadores e dom inados. Em bora possa tam bém suceder que um grupo se im ponha sobre o outro e form e com ele um a rígida relação de dependência. Com o ocorreu no

r

Burundi, onde os pastores tútsis form aram um a classe m ilitar e subm eteram

politicam ente os bantos, os hutus,s que am anhavam a terra.

Exem plo de associação de tipo sazonal se verifica no norte da Nigéria. Ali,

após a colheita, os pastores fulas t trazem o gado para com er os restolhos dos

u

cam pos dos hauçás. E deixam , depois, a terra estrum ada. Já entre os senufos da Costa do Marfim e seus vizinhos fulas, a cooperação é constante: alguns agricultores ricos possuem pequenos rebanhos vacuns e os entregam aos fulas,

15

para que deles cuidem . Esta confissão de inabilidade no tratar com o gado

aparece ainda m ais patente entre os iorubás de Ibadan. Com o nenhum iorubá

16

soubesse m ungir um a vaca, eram escravos fulas que disto se ocupavam .

Nas zonas m ais áridas preponderam os cam elos, os cavalos e as cabras. Nas m ais am enas, o boi, o asno e o carneiro. Habitualm ente criados soltos no cam po. Pois só alguns povos praticavam de m odo sistem ático a estabulagem . Com o os

caras do lago Vitória, os chagas v do Kilim anj aro, ou os habitantes dos m ontes Mandara.

Os lim ites da expansão dos rebanhos riscam -se, de um lado, pelo deserto, e do outro, pelas m atas úm idas que abrigam a tsé-tsé. Onde esta existe, é difícil o progresso dos rebanhos, dizim ados pela m oléstia do sono, causada pelo tripanossom a de que a m osca é condutora.

Onde, porém , o pasto, ainda que ralo, brota e a tsé-tsé não flagela, o gado tende a m ultiplicar-se. O rebanho de bois, com o acom panham ento quase tão num eroso de cabras e ovelhas, não poucas vezes era m aior do que o que podia ser utilizado pelos pastores. Estes raram ente abatiam os bovinos. Na m aioria dos casos, só com iam a carne daqueles que m orriam naturalm ente, ou que eram sacrificados para fins rituais. Ou nas grandes festas.

Com o o boi era um bem de capital, só era vendido em pequenos núm eros e sem pre que não am eaçasse o volum e da riqueza acum ulada. E por ter grande valor econôm ico, passou a ser prova de status, de im portância e poder. Cabia a cada criador a obrigação de aum entar o rebanho, de fazer crescer o patrim ônio que recebera de seus antepassados e que deixaria aos filhos. Um hom em sem gado é quase um hom em indigno. Um grande e belo rebanho é um prazer inigualável.

Com o gado com pram -se as m ulheres e se form am as fam ílias. Quem possuía grande núm ero de bois podia ter m uitas esposas. E m uitos filhos. E dar e em prestar vacas a outros hom ens, para que adubassem seus cam pos ou iniciassem ou aum entassem os seus rebanhos. E fornecer anim ais para sacrifícios religiosos. E oferecer banquetes, com consum o de carne. Com tudo isso form ava um grande criador o seu séquito político, estabelecia e conservava vínculos de solidariedade e gratidão. De tal form a que podia, m esm o num

w

sistem a de autoridade m uito difusa, com o entre os carim oj ongues (da fronteira

de Uganda com Quênia), fazer prevalecer sua palavra. 17

Entre os cuxitas e os nilóticos da África Índica, desenvolveu-se, no curso de

m ais de dois m ilênios, o que j á se cham ou de “culto do gado”. 18 Este dom ina todas, ou quase todas, as esferas da vida.

O hom em vive do leite e do sangue que extrai das grossas veias do pescoço das reses. Tem em alto valor ritual o esterco dos bois, m as ao m esm o tem po o usa am plam ente, da m esm a form a que a urina, o couro e os ossos, na vida diária. É com o gado que se aj ustam casam entos, se selam am izades e se resolvem disputas. E em torno do boi gira a vida espiritual. Não se deve contar o arm ento, m as quem se sabe proprietário de grande rebanho usa um a insígnia para distinguir-se dos dem ais.

A relação entre pastor e boi é de estreita intim idade. Não só na África Índica, m as tam bém entre povos pastores de outras regiões. Com o os fulas, que raspam a cabeça, choram e se desesperam , quando um a rês m orre.

Entre os nilóticos, o m enino cresce com seu novilho-irm ão, que o acom panha sem pre, ao longo da existência. Firm a-se, entre hom em e anim al favorito, forte

x

identidade afetiva. Em alguns povos, com o o nuer (do Sudão), os próprios nom es pessoais derivam do gado, recebendo o j ovem designação idêntica à do

19

boi que lhe é entregue, ao iniciar-se ritualm ente na vida adulta.

Pastores e agricultores não abandonaram a coleta de raízes, de folhas com estíveis (com o os carurus), de grãos e frutos silvestres, de ovos e de m el. A atividade de recolha do que lhes era oferecido pela natureza tendia a aum entar na estação seca, quando as condições de vida pioravam e um a dem ora das chuvas podia traduzir-se em fom e.

Era tam bém no estio que se fazia m ais propícia a caça, pois os anim ais afluíam para os pontos de água e os agricultores não tinham o que fazer nas lavouras. Caçava-se, porém , o ano todo, sobretudo nas florestas, onde, sendo poucos os anim ais dom ésticos, havia constante falta de carne.

Geralm ente, todos caçavam . Anim ais pequenos e m aiores. Roedores. Passarinhos. Macacos. Porcos-do-m ato. Gam os. Antílopes. Com tacape, lança, arco e flecha e toda sorte de arm adilhas.

Um a aldeia inteira podia ir à m atança de elefantes, que encurralavam e

drogavam , antes que os caçadores contra eles atirassem , do alto das árvores. y Pois a tarefa de enfrentar os grandes anim ais — o elefante, o leopardo, o búfalo, o rinoceronte, a pantera, o leão — cabia a um pequeno grupo de hom ens que exerciam prim ordialm ente a caça e que gozavam de im enso prestígio, pela coragem pessoal, pela habilidade no uso das arm as, pela intim idade com a natureza, pelo conhecim ento das m anhas dos anim ais, pela ciência que tinham das ervas curativas e do fecham ento de corpo.

Quase todos os povos do litoral ou m oradores às m argens de rios ou de lagos dedicam -se à pesca. Com o atividade supletiva da agricultura ou do pastoreio. Ou com o principal m odo de vida. Neste últim o caso, estavam os budum as do Chade,

z aa

os ij ós do delta do Níger, os sorcos ou bozos, que vivem no grande arco do

m esm o rio, os tongas bb cc do Zam beze, os bij agós da Guiné-Bissau, os tuas da

dd ee

Zâm bia, os fantes do atual Gana, os songolôs do rio Zaire.

Pesca-se com anzol, arpão, rede de arrasto, puçá, tarrafa e arm adilhas, em alguns lugares. Com o em Ganvié, no lago Nokwé, no sul da República do Benim .

Ali vivem , em casas de m adeira, bam bu e palha, sustentadas por palafitas, os

assuvies, ff que se dedicam à pesca e ao defum o do peixe. Ruas, becos e praças são de água, e não se vai de um sítio a outro senão de canoa ou a nado. Nas proxim idades da aldeia, constroem os assuvies am plos círculos de estacas fincadas no fundo do lago, a criar assim refúgios artificiais para os peixes. Cercam , algum tem po m ais tarde, o espaço circular com redes, retiram as estacas e capturam os peixes.

A técnica era bastante difundida. No fim do século XIX, Mary Kingsley 21 viu-a ser utilizada no Gabão, com algum a diferença: em vez de cercarem a paliçada com redes, os pescadores entraram no tapum e circular e apanharam o peixe com cestos. Presenciou tam bém um outro processo, idêntico ao de pesca com tim bó, do índio brasileiro. Esm agam -se certas ervas narcotizantes, que são lançadas nas lagoas ou nos rem ansos dos rios. Os peixes, entorpecidos, boiam e

22

são recolhidos com facilidade.

O pescado, seco ou defum ado, constituiu-se num dos itens m ais im portantes do com ércio interafricano. Juntam ente com o sal, o cobre, o ferro e o ouro — este últim o exportado em grande parte para fora do continente, pelos portos do Saara, do Índico e, m ais tarde, do Atlântico.

Havia carência de sal em quase toda a África. O sal era tão raro em algum as partes da savana sudanesa, que chegava a ser trocado por igual peso de ouro. Em certos lugares — com o Aulil, no sul da Mauritânia, Bilm a, Taoudeni e Tagaza, no Saara, Idj il, no sul do Marrocos, e, em m enor escala, Manga, no Bornu (Nigéria) — a principal ou única atividade econôm ica era a extração do sal. Pela lixiviação dos solos salinos, em Aulil e Bilm a. Pelo corte em blocos do sal encontrado em estado sólido, em Idj il, Taoudeni, Tagaza e Manga.

Quando Ibn Batuta chegou a Tagaza em 1352, viu um a cidade construída de

sal, com peles de cam elo a servirem de teto.23 Pois o sal ali era pedra, com o se

observou no Manuscrito “Valentim Fernandes”,24 um século depois. Os dois autores denunciam um a cidade sem relva e sem árvores, e com um único poço d’água, que às vezes secava.

Esses estabelecim entos do deserto viviam do sal, cuj o com ércio os tuaregues controlavam . E se, em alguns deles, as casas e as m esquitas não se construíram com o m esm o m aterial que em Tagaza, ergueram -se com tij olos de barro saturados de sal, com o em Bilm a, e ficaram suj eitas a se desm anchar parcialm ente, quando, de raro em raro, chove.

Obtinha-se sal, na costa, pela evaporação da água do m ar. Das águas fortem ente salobras de fontes (com o as de Uvinza, na Tanzânia) e de lagunas e pântanos, em vários pontos do interior. Em m uitas partes, o sal provinha da queim a de folhas e raízes de algum as árvores, sobretudo dos m angues. Punha-se

25

a cinza de m olho, retirava-se a água e subm etia-se esta à evaporação.

Ao contrário do sal, que era escasso, o ferro se encontrava por todo canto. No próprio laterito, ou crosta ferruginosa dos solos tropicais. Praticam ente cada aldeia possuía o seu ferreiro. E extraía seu m inério. Havia, contudo, áreas em que o ferro era m ais abundante ou de m elhor qualidade — Méroe, no Sudão, os m ontes Mandara, na fronteira nigero-cam aronense, Bom vu, na Suazilândia, Tureta, no noroeste da Nigéria, os m ontes Pare, no norte da Tanzânia — e que se transform aram , por isso, em centros de m ineração e fundição. Para algum as delas vinha gente de longe recolher o m inério e trabalhá-lo.

Tinha-se o cobre por m etal tão precioso quanto o ouro. Ou m ais precioso do que o ouro, em grande parte da África. Sua dem anda era quase insaciável. E via-se acudida principalm ente pelas m inas existentes em Dkra (talvez Nioro, no atual

Mali 26), em Takedda (provavelm ente a cidade que hoj e se cham a Azelik, no Níger), no norte da Zâm bia, no baixo Zaire e no Chaba ou Catanga.

O ouro era de aluvião, ou provinha de m inas que podiam ser bastante profundas. As m ais fam osas zonas produtoras foram a Núbia, Bam buk (nos lim ites do Senegal com o Mali), Buré (na Guiné-Conacri), Lobi (sobre o rio Volta Negro), o país dos axantes (no atual Gana) e o planalto oriental de Zim babué.

Retiravam -se do chão outros m inérios, com o o chum bo e o estanho. Trabalhavam -se as rochas duras e as m oles. Para fazer corantes e cosm éticos. Para produzir pontas de flecha e de lança, m achados, raspadeiras, gam elas e outros recipientes dom ésticos. Para fabricar o vidro, com o em Ifé na prim eira m etade do segundo m ilênio de nossa era, e no vidro m oldar contas m ulticores, a fim de com por colares, cintos, pulseiras e até m esm o as coroas dos reis iorubanos, com suas franj as a cair por sobre o rosto. Faziam -se, de ferro, arm as, enxadas, m achados, enxós. E de cobre, ouro, estanho e ligas com o o bronze e o latão, os m ais variados obj etos e ornam entos.

A cerâm ica era produzida por quase toda parte, com enorm e riqueza de texturas, form as, ornam entação e colorido. As cabaças, que serviam para guardar água, leite, cereais e tam bém coisas m iúdas, recebiam frequentem ente profusa decoração. Eram gravadas, pintadas e enceradas.

De m adeira faziam -se vigas de sustentação das casas, portas e colunas (m uitas vezes ricam ente esculpidas), canoas, pilões, bandej as, vasos, colheres, bastões de cerim ônia, pentes e toda sorte de obj etos utilitários.

Havia gente especializada nesses ofícios. E tam bém em produzir cestaria, esteiras, chapéus, tetos de palha. Em fazer sabão. Em trabalhar o m arfim . E o couro. Em curti-lo, tingi-lo e com ele fabricar selas, arreios, sandálias, escudos, bainhas para arm as brancas, vestim entas, alm ofadas, tendas e o que m ais. A Hauçalândia foi grande exportadora de couro, e parte substancial da pele de cabra ou carneiro conhecida na Europa por m arroquim — um a pele de alta qualidade, suave, flexível, am oldável — saía das cidades hauçás e, desde a Idade Média, atravessava o Saara e o Mediterrâneo.

Faziam -se panos de entrecasca das árvores. Teciam -se a ráfia, a lã e o algodão. Em alguns poucos lugares, conhecia-se a seda.

Onde se im plantou a prática da tecelagem , a tendência era para que houvesse teares em quase todas as casas. Teares em geral estreitos, dos quais saía um a tira de fazenda, que se ia j untar a outras tiras sem elhantes, para form ar o pano. Na África Ocidental, um pano forte, grosso, durável, bonito. Que era obj eto de com ércio interafricano. E exportado para fora do continente. Desde o século XII, para a Europa, onde as palavras m andingas bouracan e bougran designavam

certo tipo de fazenda.27 Desde o século XVI, para o Brasil e outras partes do continente am ericano, onde a escravaria criou am plo m ercado para os tecidos da África Atlântica.

Ao iniciar-se o Novecentos, Nina Rodrigues28 observava que as negras crioulas (isto é, nascidas no Brasil), fossem livres ou escravas, pobres ou ricas, adotavam e conservavam os vestuários de origem africana, nos quais tinha realce o pano da costa, “espécie de com prido xale quadrangular, de grosso tecido de algodão, im portado da África”. Frequentem ente do Iorubo, de onde deriva,

29

com várias outras influências que a tornam exem plo de síntese aculturativa, a

roupa tradicional da baiana, traj e sim bólico da brasileira.

A fiação e a tecelagem faziam -se em casa. No agbo ile iorubano. No com pound, ou conj unto de habitações de um a fam ília. Na intim idade criada pelo m uro ou pela cerca. Bem com o em oficinas fam iliares. Nisso não se distinguia das outras atividades m anufatureiras, todas de pequena escala, baseadas na m ão de obra dom éstica.

gg hh ii j j

Num só com pound iorubano, hauçá, tive, nupe, igbirra, j ucum ou

canúri, kk o núm ero de teares existentes podia alcançar a m eia dúzia e até m esm o

ultrapassar a dezena. 30 Produzia-se boa quantidade de pano. E isto que se dava na Nigéria tinha correspondência em m uitas outras áreas da África Ocidental —

ll

entre os axantes e os m andingas, por exem plo —, de form a que não era raro haver troca, nos m ercados, de tipos de tecidos de diferentes regiões e etnias.

Nem todos os povos, porém , conheciam ou praticavam a tecelagem . Nem todos sabiam trabalhar o cobre e o ouro, ou obter o bronze e o latão. Nem todos m anej avam o couro com a m esm a perícia. Nuns lugares, hom ens e m ulheres fiavam e teciam ; noutros, só m ulheres. Entre alguns grupos, a olaria é atividade exclusivam ente fem inina; em outros, divide-se com o hom em . Aqui, preza-se o ferreiro, que é tido com o participante dos m istérios do m undo; ali, é m arginalizado por im puro. Pois a África é rica em diversidade, fraciona-se em incontáveis culturas e fala num erosíssim os idiom as.

Calcula-se que existam na África cerca de 1.250 línguas diferentes. Se se adotar, no entanto, um critério em que se tenham por idiom as distintos aqueles que seus falantes assim o considerem — com o sucede na Europa com o sueco, o dinam arquês e o norueguês, que podem , por outro m étodo, ser classificados

31

com o um a só língua —, o núm ero sobe para 2.050.

Alguns desses idiom as, com o o hauçá, são falados por dezenas de m ilhões de pessoas e num a área geográfica extensíssim a. Outros, por uns poucos m ilhares e num perím etro que m al abarca algum as centenas ou dezenas de quilôm etros quadrados. O teda cobre vasta zona do Sael e do Saara, m as só porque neste vazio se m ovem os pequenos grupos de nôm ades que da língua se valem . E dá-se o caso, em certas regiões m ontanhosas, de com prim ir-se em espaço relativam ente restrito enorm e quantidade de gente que se expressa no m esm o idiom a.

A pequena distância, existem grupos que falam línguas inteiram ente distintas. No m eio de am pla área de hom ogeneidade linguística, pode haver um ou m ais pequenos bolsões de dessem elhança. E nas regiões de refúgio, com o as m ontanhas, o desenho da distribuição dos idiom as pode apresentar o aspecto de m osaico. Assim é nas terras altas do Togo e dos Cam arões, no planalto de Jos (na Nigéria) e no altiplano da Etiópia Ocidental.

Desde o século XIX, procura-se sistem atizar esta espécie de Babel, dar-lhe um a organização lógica e estabelecer os parentescos entre as diversas línguas, agrupando em fam ílias as que parecem possuir origem com um e apresentam form as ou estruturas sem elhantes.

Das várias classificações, duas tiveram boa fortuna: a nascida dos trabalhos de C. Meinhof e de D. Westerm ann, no início do século XX, e difundida por Alice

32 33

Werner e pelo próprio Westerm ann; e a de Joseph H. Greenberg, que na

prática substituiu aquela. A classificação de Greenberg, apresentada pela

34

prim eira vez em 1949 e 1950, tom ou nova feição em 1963.

Tanto a classificação de Westerm ann quanto a de Greenberg foram am plam ente aceitas. E am bas receberam , desde o m om ento em que foram form uladas, enorm e quantidade de reparos e críticas. O que m ostra a quase insuperável dificuldade da tarefa.

Segundo a prim eira classificação, haveria basicam ente na África cinco grandes grupos de línguas: o sem ítico, o cam ítico, o sudanês, o banto e o sã (ou san). Greenberg substituiu essa prim eira grande chave do esquem a por outra, com apenas quatro fam ílias: a afro-asiática, a níger-cordofaniana, a nilo-

saariana e a khoisan ou coissã.35

A fam ília afro-asiática, ou cam ito-sem ítica, dom ina todo o norte e o Chifre da África, além de possuir um a cunha que avança, pelo interior, na direção do sul, até o centro da Tanzânia. Ela se divide nos seguintes ram os: berbere, egípcio antigo, sem ítico, cuxita e chádico.

Ao ram o berbere pertencem o berbere propriam ente dito e as línguas tuaregues, sendo possível que nele tam bém se incluíssem o líbio antigo e o guancho, que se falava nas Canárias.

Do ram o sem ítico, fazem parte o árabe e vários idiom as da Etiópia (com o o tigrina, o tigrê, o gueze ou geêz, o am árico, o gurague, o argoba, o gafate e o harari). Há quem nele inclua o berbere, que não seria um ram o próprio da fam ília afro-asiática, m as um a língua irm ã do árabe.

O cuxita abrange num erosíssim as línguas e se subdivide em cuxita setentrional (o bej a), central (o agô ou agaw), oriental (o som ali, o gala, o afar, o saho, o boni, o sidam o etc.), m eridional (o burungi, o goroa, o alaua, o asu, o sanie e outras falas do interior da Tanzânia) e ocidental — que alguns têm por ram o destacado do afro-asiático (aribam a, m aj i, nao, cafa, gim ira, om eto etc.).

O quinto ram o da fam ília afro-asiática é o chádico, no qual se agrupam o hauçá, o cotoco, o bauchi, o m usgu, o m andara-gam ergu, o gabere e num erosíssim as outras falas.

Im enso é o esgalhar da fam ília níger-cordofaniana.

Há um ram o pequeno, o das línguas cordofanianas propriam ente ditas, que abrange vários idiom as falados por pouca gente, nas m ontanhas do Cordofã, no Sudão. E um ram o enorm e, que m ais parece o tronco, o níger-congo, a dividir-se em forquilhas: para um lado, saem os galhos das línguas m andes, e para o outro, os dos dem ais idiom as.

Nas línguas m andes ou m andingas incluem -se o sussu-ialunca, o soninquê, o vai-cono, o m aninca-bam bara-diula, o m ande-bande, o loco e o lom o, a form arem o subgrupo de noroeste; e o m ano, o dã, o guro, o tura, o sam o, o bisa e o busa, a com porem o subgrupo do sudeste.

Os dem ais idiom as níger-congos, que cobrem quase a m etade da África, são classificados em cinco ram os: o oeste-atlântico, o gur ou voltense, o cua (ou kwa), o benué-congo e o adam aua oriental.

O ram o oeste-atlântico subdivide-se, por sua vez, em três sub-ram os: o do norte (fula, serere, j alofo, noon, diola, balante, tenda, beafada, paj ade, banhum , nalu etc.), o do sul (sua, tene-baga, xerbrocrim , quisi, gola, lim ba, para citar algum as línguas) e o bij agó.

O ram o gur ou voltense com preende o grunce ou gurúnsi, o m oregurm a, o tam ari, o borgu ou bariba, o lobiri, o senufo, o sem e e o dogom , entre outros idiom as.

No cua integram -se o cru (kru), o cua ocidental (ou ewe-akan com o evé ou ewe, o fom , o axante, o fante, o gã), o iorubá, o igala, o nupe, o edo, o idom a, o ibo e o ij ó.

O adam aua engloba num erosas pequenas línguas do Burquina Faso e do norte dos Cam arões e dois idiom as m ais im portantes, o beia (gbey a) e o zande.

Muitíssim o m ais frondoso é o benué-congo. Nele se distinguem quatro sub-ram os: o do planalto, o j ucunoide, o do rio Cross e o bantoide.

No do planalto incluem -se m ais de cem falas diferentes. Vizinhas um as das outras, com o no planalto de Jos, na área de Kafanchan e em torno de Kontagora, sem pre na Nigéria.

O sub-ram o j ucunoide abraça o j ucum , o cutebe e o am bem be. E o do rio Cross, além de um grande núm ero de idiom as praticados por pequenos grupos, o efique, o ibíbio, o ogoni e o oron.

O últim o sub-ram o do benué-congo é enorm e. Bem se assem elha a esses esgalhos de caj azeira, que criam raízes, ao tocar o solo, e sobem com o novas árvores. O bantoide, com efeito, abarca não apenas o tive e vários idiom as m enores do curso m édio do rio Benué, m as todo o inum erável grupo das línguas bantas, que, divididas em banto ocidental (duala, quicongo, quim bundo, um bundo, luba-cassai, luba-catanga, herrero e m uitas m ais) e banto oriental (quicuio, ganda, nioro, rúndi, suaíli, iaô, bem ba, venda, soto, xosa, zulu etc.), cobrem a África, dos Cam arões a oeste e do Quênia a leste, até o extrem o sul do continente, com exceção das áreas onde prevalecem os idiom as da fam ília khoisan.

Tão num erosas são as línguas bantas, tão am plo o território por onde se estendem , tão enorm e a conta das gentes que as falam , que sua inclusão no sub-

ram o bantoide do ram o benué-congo tem sido contestada. Malcolm Guthrie36 as tem por geneticam ente separadas do ram o níger-congo. Com o um a fam ília independente, tal com o estava em Westerm ann.

A terceira fam ília da classificação de Greenberg é a nilo-saariana. Ela ocupa o vale superior do Nilo, parte do Saara e do Sudão Orientais e a grande curva do Níger, onde outrora ficava o espinhaço do im pério de Songai. E assim se subdivide: songai, saariano (canúri-canem bu, teda-daza, zagaua, berti), m abã, furiã, com ã e chari-nilo.

O grupo chari-nilo com preende o berta, o cunam a, o sudanês central (o bongo-bagirm i, o craixe [kreish], o m oru-m adi, o m angbetu, o lendu etc.) e o sudanês oriental. Este últim o reparte-se em núbio, m urle-didinga, barea ingassana, niiam a-afiti, tem ein, m erarit, dagu niangij a, teuso (ique ou ik) e nilótico. Por seu turno, o nilótico divide-se em três subgrupos: o ocidental (burum , luo, dinca-nuer), o oriental (bari, caram oj ongue, teso, turcana, m assai) e o m eridional (nandi, suque, tatoga).

Por fim , a quarta e últim a fam ília: a coissã (khoisan), em que se reúnem as línguas que possuem cliques entre as consoantes. São três os seus ram os: o hadza, o sandaue e o coissã sul-africano. O hadza e o sandaue são idiom as de grupos recolectores e caçadores da Tanzânia. O coissã sul-africano, falado por bosquím anos e hotentotes, subdivide-se em coissã do norte (línguas sãs), do centro (naron, cói-cói ou khoi-khoi, kiechware) e do sul (com grande núm ero de pequenas falas).

A esse quadro há que acrescentar: o m algaxe, língua m alaio-polinésia, trazida pelos indonésios que ocuparam , faz m uitos séculos, Madagáscar; o africâner, aparentado ao neerlandês, desenvolvido pelos colonos brancos da África do Sul; e o português, que, até com eços do Oitocentos, era a língua franca nos portos da África Atlântica — contam inando com seu vocabulário idiom as com o o urrobo e o itsequíri — e corrente em algum as cidades da África Índica, tornando-se depois o idiom a oficial das colônias lusitanas — tal qual ocorreu, após a partilha do continente africano, nos territórios sob dom ínio europeu, com o francês, o inglês, o alem ão e o espanhol. Na Contracosta, os im igrantes trazidos da Índia e do Paquistão m antiveram , dentro de suas com unidades, as falas m aternas.

Além disso, das línguas coloniais europeias surgiram vários crioulos, o vernáculo de m uita gente. Assim , para ficar em poucos exem plos, o crioulo da Guiné-Bissau e os de Cabo Verde, e o krio, de Freetown, na Serra Leoa.

Muitos africanos falavam m ais de um a língua: a de casa e a de um ou m ais grupos vizinhos. Ou ainda um idiom a de ligação, que se im punha num a determ inada área, com o o j alofo no Senegal e o canúri no lago Chade, ou em toda um a vasta região, com o o suaíli, na Costa Índica, o m andinga e, m ais recentem ente, o hauçá, no Sudão Ocidental. Esse papel de língua franca passou, em nossos dias, a ser tam bém exercido pelo francês, o inglês, o português e o espanhol.

A necessidade de entender-se em m ais de um idiom a nascia sobretudo do com ércio. Não por acaso as línguas francas foram falas de m ercadores. De gente que viaj ava constantem ente, a trocar produtos entre um a região e outra. Para os que ficavam em seus com pounds e em suas aldeotas, o m undo se restringia a um a circunferência de poucas dezenas de quilôm etros de raio — de um as poucas centenas, em algum caso. Conheciam -se uns vilarej os vizinhos, frequentava-se o m ercado m ais próxim o, ia-se às vezes buscar noiva num a terra m ais adiante.

Nas roças, nas aldeias e nas cidades de grande parte da África contavam -se, todos os anos, angustiadam ente, os dias de seca. Quando estes se estendiam , era sinal de fom e. Se excetuarm os as com unidades que habitavam certas zonas privilegiadas — Buganda, Ruanda, Burundi, o sul da Nigéria, o litoral de Gana, por exem plo —, poucas tinham a certeza de com ida farta durante o correr de todos os m eses. Dois ou três anos de pluviosidade insuficiente, nas cam pinas, nas savanas e nos cerrados, tinham efeitos em tudo sem elhantes aos da seca no nordeste do Brasil. A terra esturricava. Os anim ais m orriam em grande núm ero. Os hom ens, tam bém .

Não faltavam — ali com o no resto do m undo — outros flagelos: as inundações, as nuvens de gafanhotos, os bandos de aves tão densos quanto os de avoantes, as pestes vegetais, as enferm idades anim ais, as contendas, as guerras. E as razias dos preadores de escravos.

Foi enorm e e im piedosa a sangria que o tráfico de vidas hum anas im pôs à África. E não apenas a partir do século XVI, com a colonização das Am éricas, para onde se transplantaram m ultidões de africanos. Os núm eros exatos da m aior de todas as m igrações forçadas da história, “ninguém os sabe e nunca os saberá”,

37

com o afirm ou Basil Davidson. É possível, entretanto, tentar aproxim ações.

Com o as feitas no fim do século XIX e que encontraram eco em Oliveira

Martins: 38 vinte m ilhões de cativos. Ou com o as estim ativas de Philip D. Curtin,

num livro fam oso, 39 que reabriu a discussão do assunto: 9.566.100 escravos. Ou

40 41 42

com o as de outros, antes e depois: 14.650.000; 13.392.000; 11.345.000;

9.778.500 43 44 ; entre 9.600.000 e 10.800.000. Não seriam m enores os núm eros dos levados para a África do Norte, o Oriente Médio e a Arábia, m as num período de 13 séculos.

Os estragos do tráfico foram , porém , incom ensuravelm ente m ais dram áticos do que essas estim ativas. Basta lem brar que o preço de cada escravo vendido em terras do Islam e ou desem barcado nas Am éricas era o de vários seres hum anos, que m orriam nos ataques arm ados, nas cam inhadas do interior para o Sael e para a costa, na espera j unto aos caravançarás e aos portos e na viagem através do Saara, do m ar Verm elho, do Índico e do Atlântico. O com ércio negreiro desorganizou m uitas sociedades africanas, afetou-lhes a produção, corrom peu lealdades, tradições e princípios, partiu linhagens e fam ílias, dissem inou continente afora a insegurança e o m edo.

A expectativa de vida devia ser, por quase toda a África, m uito baixa. Com o na Europa, até praticam ente o século XIX. Poucas crianças atingiam a adolescência. Poucos adolescentes, a m aturidade. E raros chegavam à velhice. A m alária, a doença do sono, a febre am arela, o verm e da Guiné, a xistossom ose, a cegueira dos rios, os parasitas intestinais, o tétano e num erosas outras enferm idades eram generalizadas. A essas doenças acrescentaram -se, após o século XVI, outras tantas, de proveniência europeia, com o a tuberculose, o tifo e a varíola.

Viver de pouco e com pouco — esta a regra na África, onde a pobreza dos palácios e das casas dos deuses dá bem ideia da extrem a sim plicidade da residência do hom em com um .

O m eio áspero e ingrato não im pediu, contudo, que o africano visse o m undo com aguda percepção; que se adaptasse ao am biente que o cercava e o procurasse dom inar e m elhorar; que desbravasse novas terras; que construísse obras de arte de profunda síntese em otiva e intensa verdade; que criasse sistem as de solidariedade e apoio, de inj ustiça e opressão; que fosse senhor ou servo de im périos; que encontrasse consolo para as calam idades e a indigência, para a inundação e a seca, para o m edo e o silêncio, para o abrasado erm o e o desam paro da noite, para as deform ações do corpo e as m ortes na infância, não apenas no convívio com os deuses, m as tam bém num sentim ento de profunda coesão entre os hom ens e o m undo, que faz com que cada um deles participe, com seus ancestrais e descendentes, de um a form a a um só tem po coletiva e individual de eternidade.