A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 11 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo XIV

Onde manava o mel, onde o carvalho,

O cedro e a palma o verde, ou claro ou torvo,

Tão grato á vista, em bosques misturavam:

Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham

Crescimento espontaneo entre as roseiras,

Hoje, campo de lagrymas, só cria

Humilde musgo de escalvados cerros.

 

XIV.

 

Ide vós a Mambré:--lá, bem no meio

De um valle, outrora de verdura ameno,

Erguia-se um carvalho magestoso:

Debaixo de seus ramos, largos dias

Abrahão repousou: na primavera

Vinham os moços adornar-lhe o tronco

De capellas cheirosas de boninas,

E corêas gentis traçar-lhe em roda.

Nasceu com o orbe a planta veneravel,

Viu passar gerações, julgou seu dia

Final fosse o do mundo, e quando airosa

Por entre as densas nuvens se elevava,

Mandou o Nume aos aquilões rugíssem.

Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,

Murcharam-se caíndo, e o rei dos bosques

Servio do pasto aos tragadores vermes:

Deus estendeu a mão:--no mesmo instante

A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros

Da Palestina os platanos frondosos

Não mais cresceram, como d'antes, bellos:

O armento, em vez de relva, achou nos prados

Somente ingratas, espinhosas urzes.

No Golgotha plantada, a Cruz clamára

Justiça: a seu clamor horrido espectro

No Moriah sentou-se; era seu nome

Assolação--e despregando um grito,

Caíu com longo som de um povo a campa.

Assim a herança de Judah, outrora

Grata ao Senhor, existe só nos ecchos

Do tempo que já foi, e que ha passado

Como hora de prazer entre desditas.

Minha Patria onde existe?

É lá somente!

Oh lembrança da Patria acabrunhada

Um suspiro tambem tu me has pedido:

Um suspiro arrancado aos seios d'alma

Pela offuscada gloria, e pelos crimes

Dos homens que ora são, e pelo opprobrio

Da mais illustre das nações da terra!

A minha triste Patria era tão bella,

E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro

E o sabio e o homem bom acolá dormem,

Acolá, nos sepulchros esquecidos,

Que a seus netos infames nada contam

Da antiga honra e pudor e eternos feitos.

O escravo portuguez agrilhoado

Carcomir-se-lhes deixa juncto ás lousas

Os decepados troncos desse arbusto,

Por mãos delles plantado á liberdade,

E por tyrannos derrubado em breve,

Quando patrias virtudes se acabaram,

Como um sonho da infancia.

O vil escravo

Immerso em vicios, em bruteza e infamia

Não erguerá os macerados olhos

Para esses troncos, que destroem vermes

Sobre as cinzas de heróes, e, acceso em pejo,