A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 4 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo VI

Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.

Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento,

Se esváe, como da cerva a leve pista

No pó se apaga ao respirar da tarde,

Do seio dessa terra em que és estranho

Saír fazes as moles seculares,

Que por ti, morto, fallem: dás na idéa

Eterna duração ás obras tuas!

Tua alma é immortal, e a prova a déste!

 

VI.

 

Anoiteceu:--nos claustros resoando

As pisadas dos monges ouço: eis entram;

Eis se curvaram para o chão beijando

O pavimento, a pedra: oh sim, beijai-a!

Igual vos cubrirá a cinza um dia,

Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto

É a pedra do tumulo. Se-lo-ia

Mais se do justo só a herança fora;

Mas tambem ao malvado é dada a campa.

E o criminoso dormirá quieto

Entre os bons sotterrado!--Oh não! em quanto

No templo ondeam silenciosas turbas,

Exultarão do abysmo os moradores,

Vendo o hypocrita vil, mais ímpio que elles,

Que escarnece do Eterno, e a si se engana;

Vendo o que julga que orações apagam

Vicios e crimes, e o motejo e o riso

Dado em resposta ás lagrymas do pobre;

Vendo os que nunca ao infeliz soltaram

De consolo palavra, ou de esperança:

Sim:--malvados tambem hão-de pisar-lhes

Os frios restos que separa a terra,

Um punhado de terra, a qual os ossos

Destes ha-de cubrir em tempo breve,

Como cubriu os seus, qual vai sumindo

Nos mysterios da campa a humanidade.

Porém a turba esvae-se: ermam bem poucos

Do templo na amplidão: só lá no fundo

De affumada capella, o justo as preces

Ergue pio ao Senhor, as preces puras

De um coração que espera, e não mentidas

De labios de impostor, que engana as turbas

Com seu meneio hypocrita, calcando

Na alma lodosa da blasphemia o grito.

Então exultarão os bons, e o ímpio,

Que passou, tremerá. Em fim, de vivos,

Da voz, do respirar o som confuso

Vem-se verter no sussurrar das praças,

E pela galilé só ruge o vento.

Em trevas não ficou silenciosas

O sagrado recinto: os candieiros,

No gelado ambiente ardendo a custo,

Espalham debeis raios que reflectem

Das pedras pela alvura; o negro mocho,

Companheiro do morto, horrido pio

Solta lá da cornija; pelas fendas

Dos sepulchros deslisa um fumo espesso,

Ondêa pela nave--esvái-se: um longo

Suspiro não se ouviu!--Olhai! lá se erguem

De umas espectros palidos, medonhos,

A quem baço clarão da luz dos mortos

Ainda custa a soffrer:--eis de outras surgem

Radiosos espiritos que o premio

Da virtude, nos ceus, hão recebido:

Alli treme ante o pobre o rico, e o forte

Ante o humilde, que nelle os olhos fita