A Harpa do Crente
Deus.
(Da Minha Mocidade--Poesia e Meditação Cap....)
A HARPA DO CRENTE.
TENTATIVAS POETICAS
PELO
AUCTOR
DA
VOZ DO PROPHETA.
TERCEIRA SERIE.
LISBOA--1838
NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.
Rua direita do Arsenal--n. o 55.
Deus.
Deus.
Nas horas do silencio--á meia-noite--
Eu louvarei o Eterno!
Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,
E os abysmos do inferno.
Pela amplidão dos céus meus cantos soem,
E a lua prateada
Pare no gyro seu, em quanto pulso
Esta harpa, a Deus sagrada.
Antes de tempo haver, quando o infinito
Media a eternidade,
E só do vacuo as solidões enchia
De Deus a immensidade,
Elle existiu--em sua essencia involto;
E, fóra delle, o nada:
No seio do Creador a vida do homem
Estava ainda guardada:
Ainda então do mundo os fundamentos
Na mente se escondiam
Do Omnipotente, e os astros fulgurantes
Nos céus não se volviam.
Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
Das mãos sáe do Senhor:
Surge o sol, banha a terra, e desabrocha
Uma primeira flor:
Sobre o invisivel eixo range o globo:
O vento o bosque ondêa:
Retumba ao longe o mar: da vida a força
A naturesa ancêa!
Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,
Ou cantar teu poder?
Quem dirá de Teu braço as maravilhas,
Fonte de todo o ser,
No dia da creação; quando os thesouros
Da neve amontoaste;
Quando da terra nos mais fundos valles
As aguas encerraste?!
E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,
Com dextra poderosa,
Fez, por lei immutavel, se librassem
Na mole ponderosa?
Onde existia então? No typo immenso
Das gerações futuras;
Na mente do meu Deus. Louvor a Elle
Na terra e nas alturas!
Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,
Do raio, e do trovão!
Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,
Da tarde a viração!
Por sua Providencia nunca, embalde,
Zumbiu minimo insecto;
Nem volveu o elephante, em campo esteril,
Os olhos, inquieto.
Não deu Elle á avezinha o grão da espiga,
Que ao ceifador esquece;
Do norte ao urso o sol da primavera,
Que o reanima e aquece?
Não deu Elle á gazella amplos desertos,
Ao cervo o bosque ameno,
Ao flamingo os paues, ao tigre um antro,
No prado ao touro o feno!
Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,
Consolação e luz?
Acaso, em vão, algum desventurado
Curvou-se aos pés da cruz?
A quem não ouve Deus? Sómente ao ímpio,
No dia da afflicção,
Quando pesa sobre elle, por seus crimes,
Do crime a punição.
Homem, ente immortal, que és tu perante
A face do Senhor?
És a junça do brejo, harpa quebrada
Nas mãos do trovador!
Olha o negro pinheiro, campeando
Dos Alpes entre a neve:
Quem arranca-lo de seu throno ousára,
Quem destruir-lhe a seve?
Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia
Extremo Deus mandou!
Lá correu o aquilão: fundas raizes
Aos ares lhe assoprou.
Suberbo, sem temor, saíu na margem
Do caudaloso Nilo,
O corpo monstruoso ao sol voltando,
Medonho crocodilo.
De seus dentes em roda o susto móra:
Vê-se a morte assentada
Dentro em sua garganta, se descerra
A boca affogueada.
Qual duro arnez de intrepido guerreiro
É seu dorso escamoso;
Como os ultimos ais de um moribundo
Seu grito lamentoso:
Fumo e fogo respira quando irado:--
Porém, se Deus mandou,
Qual do norte impellida a nuvem passa,
Assim elle passou!