A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 37 de 47

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A Harpa do Crente

Deus.

(Da Minha Mocidade--Poesia e Meditação Cap....)

 

A HARPA DO CRENTE.

 

TENTATIVAS POETICAS

PELO

 

AUCTOR

DA

 

VOZ DO PROPHETA.

 

TERCEIRA SERIE.

 

LISBOA--1838

NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.

Rua direita do Arsenal--n. o 55.

 

Deus.

Deus.

 

Nas horas do silencio--á meia-noite--

Eu louvarei o Eterno!

Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,

E os abysmos do inferno.

Pela amplidão dos céus meus cantos soem,

E a lua prateada

Pare no gyro seu, em quanto pulso

Esta harpa, a Deus sagrada.

Antes de tempo haver, quando o infinito

Media a eternidade,

E só do vacuo as solidões enchia

De Deus a immensidade,

Elle existiu--em sua essencia involto;

E, fóra delle, o nada:

No seio do Creador a vida do homem

Estava ainda guardada:

Ainda então do mundo os fundamentos

Na mente se escondiam

Do Omnipotente, e os astros fulgurantes

Nos céus não se volviam.

Eis o Tempo, o Universo, o Movimento

Das mãos sáe do Senhor:

Surge o sol, banha a terra, e desabrocha

Uma primeira flor:

Sobre o invisivel eixo range o globo:

O vento o bosque ondêa:

Retumba ao longe o mar: da vida a força

A naturesa ancêa!

Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,

Ou cantar teu poder?

Quem dirá de Teu braço as maravilhas,

Fonte de todo o ser,

No dia da creação; quando os thesouros

Da neve amontoaste;

Quando da terra nos mais fundos valles

As aguas encerraste?!

E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,

Com dextra poderosa,

Fez, por lei immutavel, se librassem

Na mole ponderosa?

Onde existia então? No typo immenso

Das gerações futuras;

Na mente do meu Deus. Louvor a Elle

Na terra e nas alturas!

Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,

Do raio, e do trovão!

Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,

Da tarde a viração!

Por sua Providencia nunca, embalde,

Zumbiu minimo insecto;

Nem volveu o elephante, em campo esteril,

Os olhos, inquieto.

Não deu Elle á avezinha o grão da espiga,

Que ao ceifador esquece;

Do norte ao urso o sol da primavera,

Que o reanima e aquece?

Não deu Elle á gazella amplos desertos,

Ao cervo o bosque ameno,

Ao flamingo os paues, ao tigre um antro,

No prado ao touro o feno!

Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,

Consolação e luz?

Acaso, em vão, algum desventurado

Curvou-se aos pés da cruz?

A quem não ouve Deus? Sómente ao ímpio,

No dia da afflicção,

Quando pesa sobre elle, por seus crimes,

Do crime a punição.

Homem, ente immortal, que és tu perante

A face do Senhor?

És a junça do brejo, harpa quebrada

Nas mãos do trovador!

Olha o negro pinheiro, campeando

Dos Alpes entre a neve:

Quem arranca-lo de seu throno ousára,

Quem destruir-lhe a seve?

Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia

Extremo Deus mandou!

Lá correu o aquilão: fundas raizes

Aos ares lhe assoprou.

Suberbo, sem temor, saíu na margem

Do caudaloso Nilo,

O corpo monstruoso ao sol voltando,

Medonho crocodilo.

De seus dentes em roda o susto móra:

Vê-se a morte assentada

Dentro em sua garganta, se descerra

A boca affogueada.

Qual duro arnez de intrepido guerreiro

É seu dorso escamoso;

Como os ultimos ais de um moribundo

Seu grito lamentoso:

Fumo e fogo respira quando irado:--

Porém, se Deus mandou,

Qual do norte impellida a nuvem passa,

Assim elle passou!