A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 42 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo II

Quando ao quebrar do vento,

Noite e silencio é só;

Quando sussurram meigas

Ondas que a nau separa,

E a rapida ardentia

Em torno a sombra aclara.

 

II.

 

Eu já ouvi, de noite,

No pinheiral fechado,

Um fremito soturno

Passando o vento irado:

Assim o murmurio

Do mar, fervendo á prôa,

Com o gemer do afflicto,

Sumido, accorde soa:

E o scintillar das aguas

Gera amargura e dôr,

Qual lampada, que pende

No templo do Senhor,

Lá pela madrugada,

Se o oleo lhe escacêa,

E a espaços expirando,

Affrouxa e bruxulêa.

 

III.

Bem abundante messe

De pranto, e de saudade,

O foragido errante

Colhe na soledade!

Para o que a patria perde

É o universo mudo;

Nada lhe ri na vida;

Móra o fastio em tudo;

No meio das procellas;

Na calma do oceano;

No sopro do galerno,

Que enfuna o largo panno;

E no entestar co'a terra

Por abrigado esteiro;

E no pousar á sombra

Do tecto do estrangeiro.

E essas memorias tristes

Minha alma laceraram;

E a senda da existencia

Bem agra me tornaram:

Porém nem sempre ferreo

Foi meu destino escuro;

Sulcou de luz um raio

As trévas do futuro:

Do meu paiz querido

A praia ainda beijei;

E o velho castanheiro

No valle ainda abracei!

Nesta alma regelada

Surgiu ainda o goso;

E um sonho lhe sorriu

Fugaz, mas amoroso.

Oh, foi sonho da infancia

Desse momento o sonho!

Paz e esperança vinham

Ao coração tristonho.

Mas o sonhar que monta

Se passa, e não conforta?

Minh'alma deu em terra,

Como se fosse morta,

Foi a esperança nuvem,

Que o vento some á tarde.

Facho de guerra acceso

Em labaredas arde!

Do fratricidio a luva

Irmão a irmão lançára;

E o grito: ai do vencido!

Nos montes retumbára.

As armas se hão cruzado:

O pó mordeu o forte:

Caiu: dorme tranquillo:

Deu-lhe repouso a morte.

Ao menos, nestes campos

Sepulchro conquistou;

E o adro do estrangeiro

Seus ossos não tragou.

Elle herdará, ao menos,

Aos seus honrado nome: