A Harpa do Crente
Capítulo II
Quando ao quebrar do vento,
Noite e silencio é só;
Quando sussurram meigas
Ondas que a nau separa,
E a rapida ardentia
Em torno a sombra aclara.
II.
Eu já ouvi, de noite,
No pinheiral fechado,
Um fremito soturno
Passando o vento irado:
Assim o murmurio
Do mar, fervendo á prôa,
Com o gemer do afflicto,
Sumido, accorde soa:
E o scintillar das aguas
Gera amargura e dôr,
Qual lampada, que pende
No templo do Senhor,
Lá pela madrugada,
Se o oleo lhe escacêa,
E a espaços expirando,
Affrouxa e bruxulêa.
III.
Bem abundante messe
De pranto, e de saudade,
O foragido errante
Colhe na soledade!
Para o que a patria perde
É o universo mudo;
Nada lhe ri na vida;
Móra o fastio em tudo;
No meio das procellas;
Na calma do oceano;
No sopro do galerno,
Que enfuna o largo panno;
E no entestar co'a terra
Por abrigado esteiro;
E no pousar á sombra
Do tecto do estrangeiro.
E essas memorias tristes
Minha alma laceraram;
E a senda da existencia
Bem agra me tornaram:
Porém nem sempre ferreo
Foi meu destino escuro;
Sulcou de luz um raio
As trévas do futuro:
Do meu paiz querido
A praia ainda beijei;
E o velho castanheiro
No valle ainda abracei!
Nesta alma regelada
Surgiu ainda o goso;
E um sonho lhe sorriu
Fugaz, mas amoroso.
Oh, foi sonho da infancia
Desse momento o sonho!
Paz e esperança vinham
Ao coração tristonho.
Mas o sonhar que monta
Se passa, e não conforta?
Minh'alma deu em terra,
Como se fosse morta,
Foi a esperança nuvem,
Que o vento some á tarde.
Facho de guerra acceso
Em labaredas arde!
Do fratricidio a luva
Irmão a irmão lançára;
E o grito: ai do vencido!
Nos montes retumbára.
As armas se hão cruzado:
O pó mordeu o forte:
Caiu: dorme tranquillo:
Deu-lhe repouso a morte.
Ao menos, nestes campos
Sepulchro conquistou;
E o adro do estrangeiro
Seus ossos não tragou.
Elle herdará, ao menos,
Aos seus honrado nome: