A Harpa do Crente
Capítulo X
Callou-se o monge: sepulchral silencio
Á sua voz seguiu-se: e um som soturno
De orgam partiu-o; som que assemelhava
O suspiro saudoso, e os ais de filha,
Que chora solitaria o páe, que dorme
Seu ultimo, profundo e eterno somno.
Harmonias depois soltou mais doces
O instrumento suave; e ergueu-se o canto,
O lamentoso canto do propheta,
Da patria sobre o fado. Elle, que o víra,
Sentado entre ruinas, contemplando
Seu avíto esplendor, seu mal presente,
A quéda lhe chorou: lá na alta noite,
Modulando o Nebel, via-se o vate
Nos derrubados porticos, abrigo
Do immundo stellio e gemedora poupa,
Extasiado--e a lua scintillando
Na sua calva fronte, onde pesavam
Annos e annos de dor: ao venerando
Nas encovadas faces fundos regos
Tinham aberto as lagrymas: ao longe,
Nas margens do Kedron, a rãa grasnando
Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo
Era Sion!--o vasto cemiterio
Dos fortes de Israel. Mais venturosos
Que seus irmãos, morreram pela patria;
A patria os sepultou dentro em seu seio:
Elles, em Babylonia, as mãos em ferros,
Passam de escravos miseranda vida,
Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesá-los,
A dextra lhe vergou. Não mais no templo
A nuvem repousára, e os ceus de bronze
Dos prophetas aos rogos se amostravam,
O vate de Anathoth a voz soltára