A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 7 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo X

 

Callou-se o monge: sepulchral silencio

Á sua voz seguiu-se: e um som soturno

De orgam partiu-o; som que assemelhava

O suspiro saudoso, e os ais de filha,

Que chora solitaria o páe, que dorme

Seu ultimo, profundo e eterno somno.

Harmonias depois soltou mais doces

O instrumento suave; e ergueu-se o canto,

O lamentoso canto do propheta,

Da patria sobre o fado. Elle, que o víra,

Sentado entre ruinas, contemplando

Seu avíto esplendor, seu mal presente,

A quéda lhe chorou: lá na alta noite,

Modulando o Nebel, via-se o vate

Nos derrubados porticos, abrigo

Do immundo stellio e gemedora poupa,

Extasiado--e a lua scintillando

Na sua calva fronte, onde pesavam

Annos e annos de dor: ao venerando

Nas encovadas faces fundos regos

Tinham aberto as lagrymas: ao longe,

Nas margens do Kedron, a rãa grasnando

Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo

Era Sion!--o vasto cemiterio

Dos fortes de Israel. Mais venturosos

Que seus irmãos, morreram pela patria;

A patria os sepultou dentro em seu seio:

Elles, em Babylonia, as mãos em ferros,

Passam de escravos miseranda vida,

Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesá-los,

A dextra lhe vergou. Não mais no templo

A nuvem repousára, e os ceus de bronze

Dos prophetas aos rogos se amostravam,

O vate de Anathoth a voz soltára