A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 41 de 47

Páginas do PDF

A Harpa do Crente

O Soldado.

 

 

I.

 

Veia tranquilla e pura

Do meu paterno rio:

Dos campos, que elle rega,

Mansissimo armentio:

Rocío matutino:

Prados tao deleitosos:

Valles, que assombram selvas

De sinceiraes frondosos:

Terra da minha infancia:

Tecto de meus maiores:

Meu breve jardimzinho:

Minhas pendidas flores:

Harmonioso e sancto

Sino do presbyterio:

Cruzeiro venerando

Do humilde cemiterio,

Onde os avós dormiram,

E dormirão os paes;

Onde eu talvez não durma,

Nem rese, talvez, mais:

Eu vos saúdo!--E o longo

Suspiro amargurado

Vos mando.--É quanto póde

Mandar pobre soldado.

Sobre as cavadas ondas

Dos mares procellosos,

Por vós já fiz soar

Meus cantos dolorosos.

Na proa resonante

Eu me assentava mudo,

E aspirava ancioso

O vento frio e agudo;

Porque em meu sangue ardia

A febre da saudade,

Febre que só minora

Sopro de tempestade;

Mas que se irrita, e cresce,

Quando é tranquillo o mar;

Quando da Patria o céu

Céu puro vem lembrar,

Quando, lá no occidente,

A nuvem vaporosa

A frouxa luz da tarde

Tinge de côr de rosa;

Quando, qual globo em brasa,

O sol vermelho crece,

E paira sobre as aguas,

E em fim desapparece;

Quando no mar se estende

Manto de negro dó;