A Harpa do Crente
O Soldado.
I.
Veia tranquilla e pura
Do meu paterno rio:
Dos campos, que elle rega,
Mansissimo armentio:
Rocío matutino:
Prados tao deleitosos:
Valles, que assombram selvas
De sinceiraes frondosos:
Terra da minha infancia:
Tecto de meus maiores:
Meu breve jardimzinho:
Minhas pendidas flores:
Harmonioso e sancto
Sino do presbyterio:
Cruzeiro venerando
Do humilde cemiterio,
Onde os avós dormiram,
E dormirão os paes;
Onde eu talvez não durma,
Nem rese, talvez, mais:
Eu vos saúdo!--E o longo
Suspiro amargurado
Vos mando.--É quanto póde
Mandar pobre soldado.
Sobre as cavadas ondas
Dos mares procellosos,
Por vós já fiz soar
Meus cantos dolorosos.
Na proa resonante
Eu me assentava mudo,
E aspirava ancioso
O vento frio e agudo;
Porque em meu sangue ardia
A febre da saudade,
Febre que só minora
Sopro de tempestade;
Mas que se irrita, e cresce,
Quando é tranquillo o mar;
Quando da Patria o céu
Céu puro vem lembrar,
Quando, lá no occidente,
A nuvem vaporosa
A frouxa luz da tarde
Tinge de côr de rosa;
Quando, qual globo em brasa,
O sol vermelho crece,
E paira sobre as aguas,
E em fim desapparece;
Quando no mar se estende
Manto de negro dó;