A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 39 de 47

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A Harpa do Crente

A Tempestade.

 

Sibilla o vento:--os torreões de nuvens

Pesam nos densos ares:

Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas

Pela extensão dos mares:

A immensa vaga ao longe vem correndo,

Em seu terror involta;

E, d'entre as sombras, rapidas centelhas

A tompestade sólta.

Do sol, no occaso, um raio derradeiro,

Que, apenas fulge, morre,

Escapa á nuvem, que, appressada e espessa,

Para apaga-lo corre.

Tal nos affaga em sonhos a esperança,

Ao despontar do dia,

Mas, no acordar, lá vem a consciencia

Dizer que ella mentia.

As ondas negro-azues se conglobaram;

Serras tornadas são,

Contra as quaes outras serras, que se arqueam,

Bater, partir-se vão.

Oh tempestade!--eu te saudo! oh nume,

Da naturesa açoite!

Tu guias os bulcões, do mar princesa;

E é teu vestido a noite!

Quando no pinheiral, entre o granizo,

Ao sussurrar das ramas,

Vibrando sustos, pavorosa ruges,

E assolação derramas,

Quem porfiar comtigo, então, ousara

Da gloria e poderio;

Tu que fazes gemer pendido o cedro,

Turbar-se o claro rio?

Quem me dera ser tu, por balouçar-me

Das nuvens nos castellos,

E vêr dos ferros meus, em fim, quebrados

Os rebatidos élos!

Eu rodeára, então, o globo inteiro:

Eu sublevára as aguas:

Eu dos volcões, com raios accendêra

Amortecidas fráguas:

Do robusto carvalho e sobro antigo

Accurvaria as frontes;

Com furacões, os areaes da Lybia

Converteria em montes:

Pelo fulgor da lua, lá do norte

No polo me assentára,

E víra prolongar-se o gelo eterno,

Que o tempo amontoára.

Alli eu solitario, eu rei da morte,

Erguêra meu clamor,

E dissera: sou livre, e tenho imperio:

Aqui, sou eu senhor!

Quem se poderá erguer, como estas vagas,

Em turbilhões incertos;

E correr, e correr--troando ao longe--

Nos liquidos desertos!

Mas entre membros de lodoso barro

A mente presa está!....

Ergue-se em vão aos céus:--precipitada,

Rapido, em baixo dá.

Oh morte!--amiga morte!--é sobre as vagas,

Entre escarceus erguidos,

Que eu te invoco, pedindo-te feneçam

Meus dias aborridos:

Quebra duras prisões, que a naturesa

Lançou a esta alma ardente;

Que ella possa voar, por entre os orbes,

Aos pés do Omnipotente:

Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem

Desça, e estourando a esmague;

E a grossa proa, dos tufões ludibrio,

Solta, sem rumo vague!

Porém, não!--Dormir deixa os que me cercam

O somno do existir:

Deixa-os; vãos sonhadores de esperanças

Nas trévas do porvir.

Dôce mãe do repouso--extremo abrigo

De um coração oppresso--

Que ao ligeiro prazer, á dor cançada

Negas no seio accesso,

Não despertes--oh não--os que abominam

Teu amoroso aspeito;

Febricitantes, que se abraçam, loucos,

Com seu dorido leito!

Tu, que ao misero ris com rir tão meigo,

Calumniada morte;

Tu, que entre os braços teus lhe dás azilo

Contra o furor da sorte;

Tu que esperas ás portas dos senhores;

Do servo ao limiar;

E eterna corres, peregrina, a terra,

E as solidões do mar,

Deixa, deixa sonhar ventura os homens;

Já filhos teus nasceram:

Um dia acordarão desses delirios,

Que tão gratos lhes eram.

E eu, que vélo na vida,--e já não sonho,

Nem gloria, nem ventura;

Eu, que esgotei tão cedo, até as fezes,

O calis da amargura;

Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado

De quanto ha vil no mundo,

Morrer sentindo inspirações de bardo,

Do coração no fundo;

Sem achar sobre a terra uma harmonia

De alma, que a minha entenda;

Porque seguir, curvado ante a desgraça,

Esta espinhosa senda?

Torvo o oceano vae!--Qual dobre soa

Fragor da tempestade;

Psalmo de mortos, que retumba ao longe;

Grito da eternidade!....

Pensamento infernal!--Fugir cobarde

Ante o destino iroso?

Lançar-me, involto em maldicções celestes,

No abysmo tormentoso?

Nunca!--Deus poz-me aqui para apurar-me

Nas lagrymas da terra;

Guardarei minha estancia attribulada,

Com meu desejo em guerra.

O fiel guardador terá seu premio,

O seu repouso, em fim;

E atalaiar o sol de um dia extremo

Virá outro apoz mim.

Herdarei o morrer!--Como é suave

Benção de pae querido,

Será o despertar; vêr meu cadaver,

Vêr o grilhão partido.

Um consolo, entretanto, resta ainda

Ao pobre velador:

Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,