A Harpa do Crente
A Victoria e a Piedade.
Aos pés de Deus, qual oleo
De recendente nardo.
Leça da Palmeira 1835
A Victoria e a Piedade.
A Victoria e a Piedade.
Eu nunca fiz soar meu canto humilde
Nos paços dos senhores:
Eu jámais consagrei hymno mentido
Da terra aos oppressores.
Mal haja o trovador que vae sentar-se
Á porta do abastado,
O qual com ouro paga a alhêa infamia,
O cantico aviltado.
O filho das canções, da gloria o bardo
Não manchou o alaude;
O ingenho seu ha consagrado á Patria;
Seu canto é da virtude.
Ingenho!--dom dos ceus, consolo ao triste
Nos dias de afflicção,
Qual solto vento em areal deserto,
Livres teus cantos são.
No despontar da vida, do infortunio
Murchou-me o sopro ardente:
Pela terra natal, na flor dos dias,
Eu suspirei ausente.
O solo do desterro, ah, quanto ingrato
É para o foragido;
Ennevoado o ceu; arido o prado;
O rio adormecido!
Eu lá chorei, na idade da esperança,
Da patria a dura sorte:
Esta alma encaneceu;--e antes de tempo
Ergueu hymnos á morte.
E que infeliz ha hi, a quem não ria
Da sepultura a imagem?
Alli é que se afferra o porto amigo,
Depois de ardua viagem.
Mas, quando o pranto me queimava as faces,
O pranto da saudade,
Deus escutou dos profugos as preces,
Teve de nós piedade.
Armas!--bradaram do desterro os filhos:
Bem-disse-os o Senhor:
E vencer ou morrer juncto com elles
Jurou o trovador.
Pelas vagas do mar correndo affoutos,
Á gloria nos votámos;
E, nos campos nataes, pendão invicto
Os livres, nós, plantámos.
Fanatismo, ignorancia, odio fraterno;
De fogo céus toldados;
A fome, a peste, o mar avaro, as hostes
De innumeros soldados;
Um futuro sem raio de esperança;
Ouvir o vão lamento
De infante, a vida incerta conduzido
Por mão do soffrimento;
Comprar com sangue o pão, com sangue o fogo
Em regelado inverno;
Eis contra o que, por mezes de amargura,
Nos fez luctar o inferno.
Mas constancia e valor tudo ha vencido:
Ganhou-se eterna gloria;
E dos tyrannos apesar, colhemos
Os louros da victoria.
Teça-se, pois, o cantico subido
Aos fortes vencedores.
Livres somos!--Sumiram-se qual fumo
Da Patria os oppressores.
Sobre essa encosta, sobranceira aos campos,
De sangue ainda impuros,
Onde o canhão troou, por mais de um anno,
Contra invenciveis muros,
Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;
Pedir inspirações
A amiga noite, o genio que me ensina
Suavissimas canções.
Reina em silencio a lua, o mar não brame,
Os ventos nem bafejam.....
Mas que ossadas são estas, que na encosta,
Aqui e alli, alvejam?
Esses?--São ossos vís, que não resguarda
O sussurrar da gloria;
Herdeiros só das maldicções das gentes,
Das maldicções da historia:
São os restos dos homens, que luctaram,
Valentes no seu crime,
Contra nós, contra a mão da Providencia,
Que os maus derruba e opprime.
Mas quem porá padrão que aos evos conte,
Seus feitos derradeiros!
Quem dirá--aqui dormem portuguezes;
Aqui dormem guerreiros--?
Quem virá na alta noite erguer por elles
Resas de salvação?
Quem ousará pedir para o vencido
Um ai de compaixão?
Virão, acaso, alevantar seus filhos
O pranto solitario,
Pelo que lhes legou de avós o nome
Involto em vil sudario?
Será a esposa, que lhes cubra as cinzas
Com oração piedosa?
Não!--nenhuma ousará dizer, chorando,
Eu fui do escravo esposa.
Será a amante?--Em tremedaes a pura
Rosa nascer não sabe:
A mais bella paixão não é de servos;
Vil goso só lhes cabe.
De mãe o amor tentára, unicamente,
Sobre os corpos gelados,
Vir chorar a esperança, em flor colhida,
De seus annos cansados:
Mas o espanto lh'o veda, e o rouco grito
Do rude velador;
Da noite os medos; de armas, já sem donos,
Nas trévas o esplendor.
Quem, pois, consolará gementes sombras,
Que ondeam juncto a mim?
Quem seu perdão da Patria implorar ousa,
Seu perdão de Elohim?
Eu:--o christão:--o trovador do exilio,
Contrario em guerra crua,
Mas que não sei cuspir o fel da affronta
Sobre uma ossada nua.
O misero pastor desceu dos montes,
Abandonando o gado,
Para as armas vestir, dos céus em nome,
Por phariseus chamado.
De um Deus de paz hypocritas ministros
Os tristes enganaram:
Foram elles, não nós, que estas caveiras
Aos vermes consagraram.
Maldicto sejas tu, monstro do inferno,
Que do Senhor no templo,
A virtude insultando, ao crime incitas,
Dás do furor o exemplo!
Sobre os restos da Patria, tu bem creste
Folgar de nosso mal,
E, sobre as cinzas de cidade illustre,
Soltar riso infernal.
Tu, no teu coração insipiente,
Disseste--Deus não ha!--
Elle existe, malvado!--e nós vencemos:
Treme.... que tempo é já.
Mas esses, cujos ossos espalhados
No campo da peleja
Jazem, exoram a piedade nossa;
Piedoso o livre seja!
Eu pedirei a paz dos inimigos,
Mortos como valentes,
Ao Deus nosso juiz, ao que distingue
Culpados de innocentes.
Perdoou, expirando, o Filho do Homem
Aos seus perseguidores:
Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes!
Perdão--oh vencedores!
Não insulteis o morto. Elle ha comprado
Bem caro o esquecimento,
Vencido adormecendo em morte ignobil,
Sem dobre ou monumento.
Que resta aos desditosos?--Somno eterno,
Da Patria a maldicção,
A justiça de Deus, tremenda, ignota,
E a humana execração.
Mas nós, saibamos esquecer os odios
De guerra lamentavel;
É generoso o forte, e deixa ao fraco
O ser inexoravel.
Oh, perdão para aquelle, a quem a morte
No seio agasalhou!
Elle é mudo:--pedi-lo já não póde;
O da-lo a nós deixou.
Da lei a espada puna o criminoso,
Que vê a luz dos céus:
O que legou á terra o pó da terra,
Julga-lo cabe a Deus.
E vós, meus companheiros, que não vistes