A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 35 de 47

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A Harpa do Crente

A Victoria e a Piedade.

Aos pés de Deus, qual oleo

De recendente nardo.

Leça da Palmeira 1835

 

A Victoria e a Piedade.

A Victoria e a Piedade.

 

 

Eu nunca fiz soar meu canto humilde

Nos paços dos senhores:

Eu jámais consagrei hymno mentido

Da terra aos oppressores.

Mal haja o trovador que vae sentar-se

Á porta do abastado,

O qual com ouro paga a alhêa infamia,

O cantico aviltado.

O filho das canções, da gloria o bardo

Não manchou o alaude;

O ingenho seu ha consagrado á Patria;

Seu canto é da virtude.

Ingenho!--dom dos ceus, consolo ao triste

Nos dias de afflicção,

Qual solto vento em areal deserto,

Livres teus cantos são.

No despontar da vida, do infortunio

Murchou-me o sopro ardente:

Pela terra natal, na flor dos dias,

Eu suspirei ausente.

O solo do desterro, ah, quanto ingrato

É para o foragido;

Ennevoado o ceu; arido o prado;

O rio adormecido!

Eu lá chorei, na idade da esperança,

Da patria a dura sorte:

Esta alma encaneceu;--e antes de tempo

Ergueu hymnos á morte.

E que infeliz ha hi, a quem não ria

Da sepultura a imagem?

Alli é que se afferra o porto amigo,

Depois de ardua viagem.

Mas, quando o pranto me queimava as faces,

O pranto da saudade,

Deus escutou dos profugos as preces,

Teve de nós piedade.

Armas!--bradaram do desterro os filhos:

Bem-disse-os o Senhor:

E vencer ou morrer juncto com elles

Jurou o trovador.

Pelas vagas do mar correndo affoutos,

Á gloria nos votámos;

E, nos campos nataes, pendão invicto

Os livres, nós, plantámos.

Fanatismo, ignorancia, odio fraterno;

De fogo céus toldados;

A fome, a peste, o mar avaro, as hostes

De innumeros soldados;

Um futuro sem raio de esperança;

Ouvir o vão lamento

De infante, a vida incerta conduzido

Por mão do soffrimento;

Comprar com sangue o pão, com sangue o fogo

Em regelado inverno;

Eis contra o que, por mezes de amargura,

Nos fez luctar o inferno.

Mas constancia e valor tudo ha vencido:

Ganhou-se eterna gloria;

E dos tyrannos apesar, colhemos

Os louros da victoria.

Teça-se, pois, o cantico subido

Aos fortes vencedores.

Livres somos!--Sumiram-se qual fumo

Da Patria os oppressores.

Sobre essa encosta, sobranceira aos campos,

De sangue ainda impuros,

Onde o canhão troou, por mais de um anno,

Contra invenciveis muros,

Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;

Pedir inspirações

A amiga noite, o genio que me ensina

Suavissimas canções.

Reina em silencio a lua, o mar não brame,

Os ventos nem bafejam.....

Mas que ossadas são estas, que na encosta,

Aqui e alli, alvejam?

Esses?--São ossos vís, que não resguarda

O sussurrar da gloria;

Herdeiros só das maldicções das gentes,

Das maldicções da historia:

São os restos dos homens, que luctaram,

Valentes no seu crime,

Contra nós, contra a mão da Providencia,

Que os maus derruba e opprime.

Mas quem porá padrão que aos evos conte,

Seus feitos derradeiros!

Quem dirá--aqui dormem portuguezes;

Aqui dormem guerreiros--?

Quem virá na alta noite erguer por elles

Resas de salvação?

Quem ousará pedir para o vencido

Um ai de compaixão?

Virão, acaso, alevantar seus filhos

O pranto solitario,

Pelo que lhes legou de avós o nome

Involto em vil sudario?

Será a esposa, que lhes cubra as cinzas

Com oração piedosa?

Não!--nenhuma ousará dizer, chorando,

Eu fui do escravo esposa.

Será a amante?--Em tremedaes a pura

Rosa nascer não sabe:

A mais bella paixão não é de servos;

Vil goso só lhes cabe.

De mãe o amor tentára, unicamente,

Sobre os corpos gelados,

Vir chorar a esperança, em flor colhida,

De seus annos cansados:

Mas o espanto lh'o veda, e o rouco grito

Do rude velador;

Da noite os medos; de armas, já sem donos,

Nas trévas o esplendor.

Quem, pois, consolará gementes sombras,

Que ondeam juncto a mim?

Quem seu perdão da Patria implorar ousa,

Seu perdão de Elohim?

Eu:--o christão:--o trovador do exilio,

Contrario em guerra crua,

Mas que não sei cuspir o fel da affronta

Sobre uma ossada nua.

O misero pastor desceu dos montes,

Abandonando o gado,

Para as armas vestir, dos céus em nome,

Por phariseus chamado.

De um Deus de paz hypocritas ministros

Os tristes enganaram:

Foram elles, não nós, que estas caveiras

Aos vermes consagraram.

Maldicto sejas tu, monstro do inferno,

Que do Senhor no templo,

A virtude insultando, ao crime incitas,

Dás do furor o exemplo!

Sobre os restos da Patria, tu bem creste

Folgar de nosso mal,

E, sobre as cinzas de cidade illustre,

Soltar riso infernal.

Tu, no teu coração insipiente,

Disseste--Deus não ha!--

Elle existe, malvado!--e nós vencemos:

Treme.... que tempo é já.

Mas esses, cujos ossos espalhados

No campo da peleja

Jazem, exoram a piedade nossa;

Piedoso o livre seja!

Eu pedirei a paz dos inimigos,

Mortos como valentes,

Ao Deus nosso juiz, ao que distingue

Culpados de innocentes.

Perdoou, expirando, o Filho do Homem

Aos seus perseguidores:

Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes!

Perdão--oh vencedores!

Não insulteis o morto. Elle ha comprado

Bem caro o esquecimento,

Vencido adormecendo em morte ignobil,

Sem dobre ou monumento.

Que resta aos desditosos?--Somno eterno,

Da Patria a maldicção,

A justiça de Deus, tremenda, ignota,

E a humana execração.

Mas nós, saibamos esquecer os odios

De guerra lamentavel;

É generoso o forte, e deixa ao fraco

O ser inexoravel.

Oh, perdão para aquelle, a quem a morte

No seio agasalhou!

Elle é mudo:--pedi-lo já não póde;

O da-lo a nós deixou.

Da lei a espada puna o criminoso,

Que vê a luz dos céus:

O que legou á terra o pó da terra,

Julga-lo cabe a Deus.

E vós, meus companheiros, que não vistes