A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 26 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo V

Das arvores do valle, que verdecem,

Ricas d'encantos, co'a estação propicia;

Suavissimo aroma, que manando

Das variegadas flores, derramadas

Na sinuosa encosta da montanha,

Do altar da solidão subindo aos ares,

És digno incenso ao Creador erguido;

Livres aves, vós filhas da espessura,

Que só teceis da natureza os hymnos;

O que crê, o cantor, que foi lançado,

Estranho ao mundo, no bulicio delle,

Vem saudar-vos, sentir um goso puro,

Dos homens esquecer paixões e opprobrio,

E vêr, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,

O sol, e uma só vez pura saudar-lha.

Comvosco eu sou maior: mais longe a mente

Pelos seios dos céus se immerge livre,

E se desprende de mortaes memorias

Na solidão solemne, onde, incessante,

Em cada pedra, em cada flor se escuta

Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa

A dextra sua em multiforme quadro.

 

V.

 

Escalvado penedo, que repousas

Lá no cimo do monte, ameaçando

Ruina ás matas de alecrim e murta,

Que nesta encosta ondeam, meneadas

Pelo vento do sul, foste já lindo,

Já te cubriram cespedes virentes;

Mas o tempo voou, e nelle involta

A tua formosura: as grossas chuvas,

Despedidas das nuvens, se arrojaram

Sobre ti, oh rochedo, arrebatando

A terra e o viço, que te ornava o cimo.

Eis-te nú esqueleto!--o sol queimou-te:

Tua alvura passou: tão negro és hoje,

Quanto de mar erguido escuras vagas.

Cáveira da montanha, ossada immensa,

É tua campa o ceu: sepulchro o valle

Um dia te será. Quando sentires

Rugir com som medonho a terra ao longe,

Na expansão dos volcões, e o mar bramindo,

Lançar á praia vagalhões cruzados;

Tremer-te a larga base, e sacudir-te

Do vasto dorso, o fundo deste valle

Te váe servir de tumulo: e os carvalhos

Do mundo primogenitos, e os freixos,

Arrastados por ti lá da collina,

Comtigo hão-de jazer.--De novo a terra

Te cubrirá o dorso sinuoso:

Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,

Do seu puro candor hão-de adornar-te:

E tu, ora medonho, e nú, e triste,

Ainda bello serás, vestido e alegre.

Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle

Dos tumulos cair; quando uma pedra

Os ossos me esmagar, se me fôr dada,

Não mais reviverei: não mais meus olhos

Verão o pôr do sol, em dia estivo,

Se em turbilhões de purpura, que ondeam

Pelo extremo dos céus sobre o occidente,

Váe provar que um Deus ha a estranhos povos,

E alem das ondas tremulo sumir-se;

Nem, quando, lá do cimo das montanhas,

Com torrentes de luz inunda as veigas:

Nem mais verei o refulgir da lua