A Harpa do Crente
Capítulo XVII
Irados, de travez, amortecidos--
Aos ceus, cujo caminho a Eternidade
Co'a vagarosa mão te vai cerrando,
Para guiar-te á solidão das dores,
Onde maldigas teu primeiro alento,
Onde maldigas teu extremo arranco,
Onde maldigas a existencia e a morte.
XVII.
Calou tudo no templo: o ceu é puro:
A tempestade ameaçadora dorme.
No espaço immenso os astros scintillantes
O Rei da creação louvam com hymnos,
Não ouvidos por nós, nas profundezas
Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,
Ante milhões de estrellas, que recamam
O firmamento, ajunctará seu canto
Mesquinho trovador?--Que vale uma harpa
Mortal, no meio da harmonia etherea,
No concerto da noite? Oh, no silencio,
Eu pequenino verme irei sentar-me
Aos pés da Cruz, nas trévas do meu nada.
Assim se apaga a lampada nocturna
Ao despontar do sol o alvor primeiro:
Por entre a escuridão deu claridade,
Mas do dia ao nascer, que já rutila,
As torrentes de luz vertendo ao longe,
Da lampada o clarão sumiu-se inutil
Nesse fulgido mar, que inunda a terra.
Lisboa--1829.