A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 13 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo XVII

Irados, de travez, amortecidos--

Aos ceus, cujo caminho a Eternidade

Co'a vagarosa mão te vai cerrando,

Para guiar-te á solidão das dores,

Onde maldigas teu primeiro alento,

Onde maldigas teu extremo arranco,

Onde maldigas a existencia e a morte.

 

XVII.

 

Calou tudo no templo: o ceu é puro:

A tempestade ameaçadora dorme.

No espaço immenso os astros scintillantes

O Rei da creação louvam com hymnos,

Não ouvidos por nós, nas profundezas

Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,

Ante milhões de estrellas, que recamam

O firmamento, ajunctará seu canto

Mesquinho trovador?--Que vale uma harpa

Mortal, no meio da harmonia etherea,

No concerto da noite? Oh, no silencio,

Eu pequenino verme irei sentar-me

Aos pés da Cruz, nas trévas do meu nada.

Assim se apaga a lampada nocturna

Ao despontar do sol o alvor primeiro:

Por entre a escuridão deu claridade,

Mas do dia ao nascer, que já rutila,

As torrentes de luz vertendo ao longe,

Da lampada o clarão sumiu-se inutil

Nesse fulgido mar, que inunda a terra.

Lisboa--1829.