A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 5 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo VII

Severo:--oh que tormento! infernaes dores

São doces para o máu, a par do aspecto

Do bom, que mudo lhe recorda os crimes.

Ai!--nem paz cabe nos mortos! Entre as campas

Ainda habita o remorso. Embalde, espectro,

Te curvas ante as aras que insultaste:

Debalde imploras o perdão celeste.

Expiraste: o perdão morreu comtigo.

Infeliz para sempre, a mão levanta

A essa fronte gelada; entre teus olhos

De azulado fulgor ampla rajada

Toca--eterno signal que no perverso

Do cherubim da morte a dextra estampa:

Toca-a... Deus reprovou-te; a herança tua

Volveu-se em maldicção: luz de esperança

Para ti apagou-se: o abysmo evoca

O filho seu; despenha-te no abysmo!

 

VII.

 

Vaga meditação onde arrojaste

Minha imaginação!--ás horas mortas

De alta noite, no templo solitario,

E em congresso de mortos, quando o espanto

Os resguarda co'as azas acurvadas

Da vista do que vive!--Alli corria

Minha mente, qual vaga a mente do homem,

Que em febre ardente desvairou por sonhos,

Onde se ajunctam troços de existencias,

Em nebuloso quadro; ou como ondea,

Entre a esperança e o susto, o moribundo,

A quem do passamento o véu já cinge

A amarellada fronte, e a quem já pesam