A Harpa do Crente
Capítulo IV
Negras paredes, velhas testemunhas
De todas essas orações de mágoa,
Ou esperança, ou gratidão, ou sustos,
Depositados ante vós nos dias
De uma crença fervente, hoje enlutadas
De mais escuro dó, eu vos saudo!
A loucura da cruz não morreu toda
Apoz dezoito seculos!--Quem chore
Do sofrimento o Heróe existe ainda.
Eu chorarei--que as lagrymas são do homem--
Pelo Amigo do povo, assassinado
Por tyrannos, e hypocritas, e turbas
Envilecidas, barbaras, e servas.
IV.
Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;
Que no espaço entre o abysmo e os ceus vagueas,
D'onde mergulhas no oceano a vista;
Tu que do trovador na mente arrojas
Quanto ha nos ceus esperançoso e bello,
Quanto ha no inferno tenebroso e triste,
Quanto ha nos mares magestoso e vago,
Hoje te invoco!--oh vem!--lança em minha alma
A harmonia celeste e o fogo e o genio,
Que dêm vida e vigor a um carme pio.
V.
A noite escura desce: o sol de todo
Nos mares se afogou: a luz dos mortos,
Dos brandões o clarão fulgura ao longe,
No cruzeiro somente e em volta da ara:
E pelas naves começou ruído
De compassado andar. Fiéis acodem
A visitar o Eterno, e ouvir queixumes
Do vate de Sion. Em breve os monges
Lamentosas canções aos ceus erguendo,
Sua voz unirão á voz desse orgam,
E os sons e os écchos reboaráõ no templo.
Mudo o côro depois, neste recinto
Dentro em bem pouco reinará silencio,
O silencio dos tumulos, e as trevas
Cubrirão por esta área a luz escassa
Despedida das lampadas, que pendem
Ante os altares, bruxuleando frouxas.
Imagem da existencia!--Em quanto passam
Os dias infantís, as paixões tuas,
Homem, qual então és, são debeis todas:
Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso
Sobrenadam a dor, e o pranto, e o longo
Gemido do remorso, a qual lançar-se
Vai, com rouco estridor, no antro da morte,
Lá onde é tudo horror, silencio, noite.
Da vida tua instantes florescentes
Foram dous, e não mais: as cãas e rugas,
Breve, rebate de teu fim te deram.
Tu foste apenas som, que o ar ferindo
Se esvaíu pelo espaço immensuravel.
E a casa do Senhor ergueu-se!--o ferro
Cortou a penedia; e o canto enorme.
Polido alveja alli no espesso panno
Do muro collossal, que ha visto as eras
Velhas chegar, e adormecer-lhe ao lado:
A faia e o sobro no caír rangeram
Sob o machado: a trave affeiçoou-se;
Lá na cimo pousou: restruge ao longe
De martellos fragor, e eis ergue o templo,