A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 3 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo IV

Negras paredes, velhas testemunhas

De todas essas orações de mágoa,

Ou esperança, ou gratidão, ou sustos,

Depositados ante vós nos dias

De uma crença fervente, hoje enlutadas

De mais escuro dó, eu vos saudo!

A loucura da cruz não morreu toda

Apoz dezoito seculos!--Quem chore

Do sofrimento o Heróe existe ainda.

Eu chorarei--que as lagrymas são do homem--

Pelo Amigo do povo, assassinado

Por tyrannos, e hypocritas, e turbas

Envilecidas, barbaras, e servas.

 

IV.

 

Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;

Que no espaço entre o abysmo e os ceus vagueas,

D'onde mergulhas no oceano a vista;

Tu que do trovador na mente arrojas

Quanto ha nos ceus esperançoso e bello,

Quanto ha no inferno tenebroso e triste,

Quanto ha nos mares magestoso e vago,

Hoje te invoco!--oh vem!--lança em minha alma

A harmonia celeste e o fogo e o genio,

Que dêm vida e vigor a um carme pio.

 

V.

 

A noite escura desce: o sol de todo

Nos mares se afogou: a luz dos mortos,

Dos brandões o clarão fulgura ao longe,

No cruzeiro somente e em volta da ara:

E pelas naves começou ruído

De compassado andar. Fiéis acodem

A visitar o Eterno, e ouvir queixumes

Do vate de Sion. Em breve os monges

Lamentosas canções aos ceus erguendo,

Sua voz unirão á voz desse orgam,

E os sons e os écchos reboaráõ no templo.

Mudo o côro depois, neste recinto

Dentro em bem pouco reinará silencio,

O silencio dos tumulos, e as trevas

Cubrirão por esta área a luz escassa

Despedida das lampadas, que pendem

Ante os altares, bruxuleando frouxas.

Imagem da existencia!--Em quanto passam

Os dias infantís, as paixões tuas,

Homem, qual então és, são debeis todas:

Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso

Sobrenadam a dor, e o pranto, e o longo

Gemido do remorso, a qual lançar-se

Vai, com rouco estridor, no antro da morte,

Lá onde é tudo horror, silencio, noite.

Da vida tua instantes florescentes

Foram dous, e não mais: as cãas e rugas,

Breve, rebate de teu fim te deram.

Tu foste apenas som, que o ar ferindo

Se esvaíu pelo espaço immensuravel.

E a casa do Senhor ergueu-se!--o ferro

Cortou a penedia; e o canto enorme.

Polido alveja alli no espesso panno

Do muro collossal, que ha visto as eras

Velhas chegar, e adormecer-lhe ao lado:

A faia e o sobro no caír rangeram

Sob o machado: a trave affeiçoou-se;

Lá na cimo pousou: restruge ao longe

De martellos fragor, e eis ergue o templo,