A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 12 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo XV

Não surgirá jámais?--Não ha na terra

Coração portuguez, que mande um brado

De maldicção atroz, que vá cravar-se

Na vigilia e no somno dos tyrannos,

E envenenar-lhes o prazer nos braços

Das prostitutas vís, e em seus banquetes

De embriaguez, lançar fel e amarguras?

Não!--Bem como um cadaver já corrupto,

A nação se dissolve: e em seu lethargo

O povo, involto na miseria, dorme.

 

XV.

 

Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia

Terei de erguer á Patria hymno de morte,

Sobre seus mudos restos vagueando!

Sobre seus restos?--Nunca! Eterno, escuta

Minhas preces e lagrymas:--se em breve,

Qual jaz Sion, jazer deve Ulissea:

Se o anjo do exterminio ha-de riscá-la

Do meio das nações, que d'entre os vivos

Risque tambem meu nome, e não me deixe

Na terra vaguear, orpham de Patria.

 

XVI.

 

Cessou da noite a grão solemnidade

Consagrada á tristeza, e a memorandas

Recordações:--os monges se prostraram

A face unida á pedra: a mim, a todos

Correm dos olhos lagrymas suaves

De compuncção. Atheu, entra no templo;

Não temas esse Deus, que os labios negam,

E o coração confessa: a corda do arco

Da vingança, em que a morte se debruça

Frouxa está; Deus é bom; entra no templo.

Tu para quem a morte ou vida é fórma,

Fórma sómente de mais puro barro,

Que nada crês, mas nada esperas, olha,

Olha o conforto do christão: se o calis

Da amargura a provar os ceus lhe deram,

Elle se consolou: balsamo sancto

Dentro no coração a fé lhe entorna

"Deus piedade terá!"--Eis seu gemido:

Porque a esperança lhe sussurra emtorno:

"Aqui--ou lá--a Providencia é justa."

Atheu, a quem o mal fizera escravo,

Teu futuro qual é? Quaes são teus sonhos?

No dia da afflicçâo emmudeceste

Ante o espectro do mal. E a quem alçaras

O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas

Não altera por ti?--Ao ar, que some

Pela sua amplidão as queixas tuas?

Aos rochedos alpestres, que não sentem,

Nem sentir podem teu gemido inutil?

Tua dôr, teu prazer existem, passam,

Sem porvir, sem passado, e sem sentido.

Nas angustias da vida, o teu consolo

O suicidio é só, que te promette

Rica messe de goso, a paz do nada!--

E ai de ti, se buscaste, em fim, repouso,

No limiar da morte indo assentar-te!

Alli grita uma voz no ultimo instante

Do passamento: a voz atterradora

Da Consciencia é ella: e has-de escutá-la

Mau grado teu: e tremerás em sustos,

Desesperado aos ceus erguendo os olhos