A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 33 de 47

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A Harpa do Crente

A Voz.

Feliz da terra, os monges não maldigas;

Do que em Deus confiou não escarneças!--

Folgando segue a trilha, que ha juncado,

Para teus pés, de flores a fortuna,

E sobre a morta crença, em paz descança.

Que mal te faz, que goso vae roubar-te

O que ensanguenta os pés nas bravas urzes,

E sobre a fria pedra encosta a fronte?

Que mal te faz uma oração erguida,

Nas solidões, por voz sumida e frouxa,

E que, subindo aos céus, só Deus escuta?

Oh, não insultes lagryimas alheias,

E deixa a fé ao que não tem mais nada!...

E se estes versos te contristam--rasga-os.

Teus menestreis te venderão seus hymnos,

Nos banquetes opiparos, em quanto

O negro pão repartirá comigo,

Seu trovador, o pobre anachoreta,

Que não te inveja as ditas, como aos bardos

Do prazer dissoluto eu não invejo

Essas crôas, que ás vezes cingem frontes,

Onde, por baixo, se escreveu--Infamia!--

 

A Voz.