A Harpa do Crente
A Voz.
Feliz da terra, os monges não maldigas;
Do que em Deus confiou não escarneças!--
Folgando segue a trilha, que ha juncado,
Para teus pés, de flores a fortuna,
E sobre a morta crença, em paz descança.
Que mal te faz, que goso vae roubar-te
O que ensanguenta os pés nas bravas urzes,
E sobre a fria pedra encosta a fronte?
Que mal te faz uma oração erguida,
Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
E que, subindo aos céus, só Deus escuta?
Oh, não insultes lagryimas alheias,
E deixa a fé ao que não tem mais nada!...
E se estes versos te contristam--rasga-os.
Teus menestreis te venderão seus hymnos,
Nos banquetes opiparos, em quanto
O negro pão repartirá comigo,
Seu trovador, o pobre anachoreta,
Que não te inveja as ditas, como aos bardos
Do prazer dissoluto eu não invejo
Essas crôas, que ás vezes cingem frontes,
Onde, por baixo, se escreveu--Infamia!--
A Voz.