A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 34 de 47

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A Harpa do Crente

A Voz.

 

 

É tão suave ess'hora,

Em que nos foge o dia,

E em que suscita a lua

Das ondas a ardentia;

Se em alcantís marinhos

Nas rochas assentado,

O trovador medita,

Em sonhos enleiado!

O mar azul se encrespa

Co' a vespertina brisa,

E no casal da serra

A luz já se divisa.

E tudo em roda cala,

Na praia sinuosa,

Salvo o som do remanso,

Quebrando em furna algosa.

Alli folga o poeta

Nos desvarios seus;

E nessa paz que o cerca

Bemdiz a mão de Deus.

Mas despregou seu grito

A alcyone gemente,

E nuvem pequenina

Ergueu-se no occidente;

E sóbe, e cresce, e immensa,

Nos ceus negra fluctua,

E o vento das procellas

Já varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano,

Com horrido clamor:

Do vagalhão nas ribas

Expira o vão furor.

E do poeta a fronte

Cubriu véu de tristesa:

Partiu-se á luz do raio

Seu hymno á naturesa.

Feia alma lhe vagava

Um negro pensamento,

Da alcyone ao gemido,

Ao sibillar do vento.

Era blasphema idéa,

Que triumphava em fim:

Mas voz soou ignota,

Que lhe dizia assim:

"Cantor, esse queixume

Da nuncia das procellas,

E as nuvens, que te roubam

Myriadas de estrellas;

E o fremito dos euros,

E o estourar da vaga,

Na praia, que revolve,

Na rocha, onde se esmaga;

Onde espalhava a brisa

Sussurro harmonioso,

Em quanto do ether puro

Descia o sol radioso,

Typo da vida do homem,

É do universo a vida;

Depois do afan repouso,

Depois da paz a lida.

Se ergueste a Deus um hymno

Em dia de amargura;

Se te amostraste grato

Nos dias de ventura,

Seu nome não maldigas,

Quando se turba o mar:

No Deus, que é pae, confia,

Do raio ao scintilar.

Elle o mandou:--a causa

Disso o universo ignora--

E mudo está:--seu nume,

Como o universo, adora!"

 

Oh sim: torva blasphemia

Não manchará seu canto!

Brama procella embora;

Pese sobre elle o espanto;

Que de su' harpa os hymnos

Derramará o bardo,