A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 30 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo X

O repouso, e se atira aos pés do throno

Do Omnipotente, a demandar justiça

Contra os fortes do mundo--os seus tyrannos.

 

X.

 

Oh cidade, cidade, que trasbordas

De vicios, de paixões, e de amarguras!

Tu lá estás, na tua pompa involta,

Suberba prostituta, alardeando

Os theatros, e os paços, e o ruido

Das carroças dos nobres, recamadas

De ouro e prata, e os praseres de uma vida

Tempestuosa, e o tropear contínuo

Dos férvidos ginetes, que alevantam

O pó e o lodo cortesão das praças;

E as gerações corruptas de teus filhos

Lá se revolvem, qual montão de vermes

Sobre um cadaver putrido!--Cidade,

Branqueado sepulchro, que misturas

A opulencia, a miseria, a dôr e o goso,

Honra, infamia, pudor, e impudicicia,

Ceu e inferno, que és tu?--Escarneo ou gloria

Da humanidade?--O que o souber que o diga!

Bem negra avulta aqui, na paz do valle,

A imagem desse povo, que reflue

Das moradas á rua, á praça, ao templo,

Que a noite sorve, e que vomita o dia,

Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,

Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;

Absurdo mixto de baixesa extrema

E de extrema ousadia; vulto enorme,

Ora aos pés de um vil despota estendido,

Ora surgindo, e arremessando ao nada

As memorias dos seculos que foram;

E depois sobre o nada adormecendo.

Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se

Em joelhos, nos atrios dos tyrannos,

Onde, entre o lampejar de armas de servos,

O servo popular adora um tigre?

Esse tigre é o idolo do povo!

Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe

O ferreo sceptro: ide folgar em roda

De cadafalsos, povoados sempre

De victimas illustres, cujo arranco

Seja como harmonia, que adormente,

Em seus terrores, o senhor das turbas.

Passae depois. Se a mão da Providencia

Esmigalhou a fronte á tyrannia;

Se o déspota caíu, e está deitado

No lodaçal da sua infamia, a turba

Lá vai buscar o sceptro dos terrores,

E diz--é meu--; e assenta-se na praça;

E involta em roto manto, e julga e reina.

Se um ímpio, então, na affogueada boca

De volcão popular sacode um facho,

Eis o incendio que muge, e a lava sobe,

E referve, e trasborda, e se derrama

Pelas ruas além: clamor retumba

De anarchia impudente, e o brilho de armas

Pelo escuro transluz, como um presagio

De assolação; e se amontoam vagas

Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;

Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos,

Cava fundo da Patria a sepultura,

Onde, abraçando a gloria do passado

E do futuro a ultima esperança,

As esmaga comsigo, e ri morrendo.