A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 44 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo V

Que é, em fraternas lides,

Um canto de victoria?

É um prazer mesquinho;

É triumphar sem gloria.

Maldicto era o triumpho,

Que rodeava o horror,

Que me tingia tudo

De sanguinosa côr!

Então olhei saudoso

Para o sonoro mar;

Da nau do vagabundo

Meigo me riu o arfar.

De desespero um brado

Soltou, impio, o poeta.

Perdão!--chegára o misero

Da desventura á meta.

 

V.

Terra infame!--de servos aprisco,

Mais chamar-me teu filho não sei:

Desterrado, mendigo serei;

De outra terra meus ossos serão!

Mas a escravo, que pugna por ferros,

Que herdará só maldicta memoria,

Renegando da terra sem gloria,

Nunca mais darei nome de irmão!

Largo o mundo ahi 'stá ante o livre;

Que este mundo é a patria do forte:

Sobre os plainos gelados do norte,

Luz do sol tambem mana do céu:

Tambem lá se erguem montes, e o prado

De boninas, em maio, se veste;

Tambem lá se menêa um cypreste

Sobre o corpo que á terra desceu!

Que me importa o carvalho da encosta?

Que me importa da fonte o ruido?

Que me importa o saudoso gemido

Da rollinha sedenta de amor?

Que me importam outeiros cubertos

Da verdura da vinha, no estio?

Que me importa o remanso do rio,

E, na calma, da selva o frescor?

Que me importa o perfume dos campos,

Quando passa de tarde a bafagem,

Que se embebe, na sua passagem,

Na fragrancia da flor do alecrim?

Que me importa? Pergunta do inferno!