A Harpa do Crente
Capítulo XII
Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
Para um leito formar, onde velassem
Da magoa, ou do remorso as longas noites!
Aqui veio talvez buscar asylo
Um poderoso, outr'ora anjo da terra,
Despenhado nas trévas do infortunio:
Aqui, talvez, gemeu o amor trahido,
Ou pela morte convertido em cancro
De infernal desespero: aqui soaram
Do arrependido os ultimos gemidos,
Depois da vida derramada em gosos,
Depois do goso convertido em tedio.
Mas quem foram?--Na terra, onde deixaram
Suas vestes mortaes, nenhum vestigio
Resta dos nomes seus.--E isso que importa,
Se Deus os viu; se as lagrymas dos tristes
Elle contou, para as pagar com gloria?
Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda,
Que dos montes além conduz ao valle,
Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
Como um pharol de vida, em mar de escolhos:
Ao christão infeliz acolhe no ermo,
E consolando-o, diz-lhe: a patria tua
É lá no ceu:--abraça-te comigo:
Juncto della esses homens, que passaram
Acurvados na dôr, as mãos ergueram
Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança
Vem derramar seu coração afflicto:
É do deserto a historia a cruz e a campa;
E sobre tudo o mais pousa o silencio.
XII.