A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 32 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo XII

Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,

Para um leito formar, onde velassem

Da magoa, ou do remorso as longas noites!

Aqui veio talvez buscar asylo

Um poderoso, outr'ora anjo da terra,

Despenhado nas trévas do infortunio:

Aqui, talvez, gemeu o amor trahido,

Ou pela morte convertido em cancro

De infernal desespero: aqui soaram

Do arrependido os ultimos gemidos,

Depois da vida derramada em gosos,

Depois do goso convertido em tedio.

Mas quem foram?--Na terra, onde deixaram

Suas vestes mortaes, nenhum vestigio

Resta dos nomes seus.--E isso que importa,

Se Deus os viu; se as lagrymas dos tristes

Elle contou, para as pagar com gloria?

Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda,

Que dos montes além conduz ao valle,

Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,

Como um pharol de vida, em mar de escolhos:

Ao christão infeliz acolhe no ermo,

E consolando-o, diz-lhe: a patria tua

É lá no ceu:--abraça-te comigo:

Juncto della esses homens, que passaram

Acurvados na dôr, as mãos ergueram

Para o Deus, que perdoa, e que é conforto

Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança

Vem derramar seu coração afflicto:

É do deserto a historia a cruz e a campa;

E sobre tudo o mais pousa o silencio.

 

XII.