A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 29 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo IX

Após si volve os olhos; na existencia

Deserto árido só descobre ao longe,

Onde a virtude não deixou um trilho.

Mas o justo chegando á meta extrema,

Que separa de nós a eternidade,

Transpoem-a sem temor, e em Deus exulta.

O infeliz e o feliz lá dormem ambos,

Tranquillamente: e o trovador mesquinho,

Que peregrino vagueou na terra,

Sem encontrar um coração de fogo,

Que o entendesse, a patria de seus sonhos,

Ignota, por lá busca; e quando as eras

Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe

Tardios louros, que escondêra a inveja,

Elle não erguerá a mão mirrada,

Para os cingir na regelada fronte.

Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,

Ao pé da sepultura, é som perdido

De harpa eolia esquecida em brenha ou selva:

O despertar um pae, que saborea,

Entre os braços, da morte o extremo somno,

Já não é dado ao filial suspiro:

Em vão o amante, alli, da amada sua

De rosas sobre a c'roa debruçado,

Rega de amargo pranto as murchas flores

E a fria pedra: a pedra é sempre fria,

E para sempre as flores se murcharam,

 

IX.

 

Bello ermo! eu hei-de amar-te, em quanto est'alma,

Aspirando o futuro além da vida,

E um halito dos ceus, gemer, atada

Á columna do exilio, a que se chama,

Em lingua vil e mentirosa, o mundo.

Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho

Dos sonhos meus. A imagem do deserto

Guarda-la-hei no coração, bem juncto

Com minha fé, meu unico thesouro.

Qual pomposo jardim de verme illustre,

Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo

Comparar-se, oh deserto?--Aqui não cresce

Em vaso de alabastro a flor captiva,

Ou arvore educada, por mão do homem,

Que lhe diga: és escrava: e erga um ferro,

E lhe decepe os troncos. Como é livre

A vaga do oceano, é livre no ermo

A bonina rasteira, e o freixo altivo:

Não lhes diz: nasce aqui, ou lá não cresças:

Humana voz. Se baqueou o freixo,

Deus o mandou; se a flor pendida murcha,

É que o rocio não desceu de noite,

E da vida o Senhor lhe nega a vida.

Ceu livre, terra livre, e livre a mente,

Paz íntima, e saudade, mas saudade

Que não doe, que não mirra, e que consola

São as riquezas do ermo, onde sorriem

Das procellas do mundo os que o deixaram.

Ahi, na branda encosta, hontem de noite,

Alvejava por entre as azinheiras

Do solitario a habitação tranquilla:

E eu vagueei por lá: patente estava

O pobre alvergue do eremita humilde,

Onde jazia o filho da esperança,

Sob as azas de Deus, á luz dos astros,

Em leito, duro sim, não de remorsos,

Oh, com quanto socego o bom do velho

Dormia!--A leve aragem lhe ondeava

As raras cãas na fronte, onde se lia

A bella historia de passados annos.

De alto choupo atravez passava um raio

Da lua--astro de paz, astro que chama

Os olhos para o ceu, e a Deus a mente--

E em luz pallida as faces lhe banhava:

E talvez neste raio o Pae celeste

Da patria eterna lhe enviava a imagem,

Que o sorriso dos labios lhe fugia,

Como se um sonho de ventura e gloria

Na terra de antemão o consolasse.

E eu comparei o solitario obscuro

Ao inquieto filho das cidades;

Comparei o deserto silencioso

Ao perpétuo ruido que sussurra

Pelos palacios do abastado e nobre,

Pelos paços dos reis; e condoí-me

Do cortesão suberbo, que só cura

De honras, haveres, gloria, que se compram

Com maldicções e perennal remorso.

Gloria!--A sua qual é?--Pelas campinas,

Cubertas de cadaveres, regadas

De negro sangue, elle segou seus louros;

Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva,

Ao som do choro da viuva, e do orpham;

Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,

Os homens--seus irmãos--flagella e opprime.

Lá o filho do pó se julga um nume,

Porque a terra o adorou: o desgraçado

Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros

Nunca se ha-de chegar, para traga-lo,

Ao banquete da morte, imaginando

Que uma lagem de marmore, que esconde

O cadaver do grande, é mais duravel

Do que esse chão sem inscripção, sem nome,

Por onde o oppresso, o misero, procura