A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 45 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo VI

É meu berço!--A minh'alma está lá!

Que me importa?.... esta boca o dirá?!

Maldicção, maldicção sobre mim!

Combatamos!--O ferro se cruze,

Assobie o pelouro nos ares;

Estes campos convertam-se em mares,

Onde o sangue se possa beber!

Larga a valla!--que, apoz a peleja,

Nós e elles seremos unidos!

Lá, vingados, e do odio esquecidos,

Paz faremos.... depois do morrer!

 

VI.

 

Assim, entre amarguras,

Me delirava a mente!--

E o sol ía fugindo

No termo do occidente.

E os fortes lá jaziam

Co'a face ao céu voltada;

Sorria a noite aos mortos,

Passando socegada.

Porém, a noite delles

Não era a que passava!

Na eternidade a sua

Corria, e não findava.

Contrarios ainda ha pouco,

Irmãos em fim lá eram!

O seu thesouro de odio,

Mordendo o pó, cederam.

No limiar da morte,

Assim tudo fenece!

Inimisades callam,

E até o amor esquece!

Meus dias rodeados

Foram de amor outr'ora;

E nem um vão suspiro

Terei, morrendo, agora:

Nem o apertar da dextra

Ao desprender da vida:

Nem lagryma fraterna

Sobre a feral jazida.

Meu derradeiro alento

Não colherão os meus?

Por minha alma atterrada

Quem pedirá a Deus?

Ninguem!--Aos pés o servo

Meus restos calcará;

E o riso do despreso

Vaidoso soltará.

O sino luctuoso,

Não lembrará meu fim:

Preces, que o morto affagam,

Não se erguerão por mim!

O filho dos desertos,

O lobo carniceiro

Ha-de escutar alegre

Meu grito derradeiro!

Oh morte!--o somno teu

Só é somno mais largo:

Porém, na juventude,

É o dormi-lo amargo.

Quando na vida nasce

Essa mimosa flor,

Como a cecem suave,

Delicioso amor:

Quando a mente accendida

Crê na ventura e gloria:

Quando o presente é tudo,

É inda nada a memoria;

Deixar a cara vida,

Então, é doloroso;

E o moribundo á terra

Lança um olhar saudoso.

A taça da existencia

No fundo fezes tem;

Mas os primeiros tragos

Doces--bem doces--vem.

E eu morrerei agora,

Sem abraçar os meus,

Sem jubiloso um hymno

Alevantar aos céus?

Morrer!--E isso que importa?

Final suspiro, ouvi-lo

Ha-de a patria. Na terra

Eu dormirei tranquillo.

Dormir?--Só dorme o frio

Cadaver, que não sente;