A Harpa do Crente
Capítulo VI
É meu berço!--A minh'alma está lá!
Que me importa?.... esta boca o dirá?!
Maldicção, maldicção sobre mim!
Combatamos!--O ferro se cruze,
Assobie o pelouro nos ares;
Estes campos convertam-se em mares,
Onde o sangue se possa beber!
Larga a valla!--que, apoz a peleja,
Nós e elles seremos unidos!
Lá, vingados, e do odio esquecidos,
Paz faremos.... depois do morrer!
VI.
Assim, entre amarguras,
Me delirava a mente!--
E o sol ía fugindo
No termo do occidente.
E os fortes lá jaziam
Co'a face ao céu voltada;
Sorria a noite aos mortos,
Passando socegada.
Porém, a noite delles
Não era a que passava!
Na eternidade a sua
Corria, e não findava.
Contrarios ainda ha pouco,
Irmãos em fim lá eram!
O seu thesouro de odio,
Mordendo o pó, cederam.
No limiar da morte,
Assim tudo fenece!
Inimisades callam,
E até o amor esquece!
Meus dias rodeados
Foram de amor outr'ora;
E nem um vão suspiro
Terei, morrendo, agora:
Nem o apertar da dextra
Ao desprender da vida:
Nem lagryma fraterna
Sobre a feral jazida.
Meu derradeiro alento
Não colherão os meus?
Por minha alma atterrada
Quem pedirá a Deus?
Ninguem!--Aos pés o servo
Meus restos calcará;
E o riso do despreso
Vaidoso soltará.
O sino luctuoso,
Não lembrará meu fim:
Preces, que o morto affagam,
Não se erguerão por mim!
O filho dos desertos,
O lobo carniceiro
Ha-de escutar alegre
Meu grito derradeiro!
Oh morte!--o somno teu
Só é somno mais largo:
Porém, na juventude,
É o dormi-lo amargo.
Quando na vida nasce
Essa mimosa flor,
Como a cecem suave,
Delicioso amor:
Quando a mente accendida
Crê na ventura e gloria:
Quando o presente é tudo,
É inda nada a memoria;
Deixar a cara vida,
Então, é doloroso;
E o moribundo á terra
Lança um olhar saudoso.
A taça da existencia
No fundo fezes tem;
Mas os primeiros tragos
Doces--bem doces--vem.
E eu morrerei agora,
Sem abraçar os meus,
Sem jubiloso um hymno
Alevantar aos céus?
Morrer!--E isso que importa?
Final suspiro, ouvi-lo
Ha-de a patria. Na terra
Eu dormirei tranquillo.
Dormir?--Só dorme o frio
Cadaver, que não sente;