A Harpa do Crente

Alexandre Herculano · Capítulo 31 de 47

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A Harpa do Crente

Capítulo XI

Tal és cidade, licenciosa ou serva!

Outros louvem teus paços sumptuosos,

Teu ouro, teu poder:--sentina impura

Da corrupção, eu não serei teu bardo!

 

XI.

 

Cantor da solidão, eu me hei sentado

Juncto do verde cespede do valle;

E a paz de Deus do mundo me consola.

Avulta aqui, e alveja, entre o arvoredo,

Um pobre conventinho. Homem piedoso

O alevantou ha seculos, passando,

Como orvalho do ceu, por este sitio,

De virtudes depois tão rico e fertil.

Como um pae de seus filhos rodeado,

Pelos matos do outeiro o vão cercando

Os tugurios de humildes eremitas,

Onde o cilicio e a compuncção apagam

Da lembrança de Deus passados erros

Do peccador, que reclinou a fronte

Penitente no pó. O sacerdote

Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;

E perdoou-lhe, e consolou-o em nome

Do que espirando perdoava, o Justo

Que entre os humanos não achou piedade.

Religião! do misero conforto,

Abrigo extremo de alma, que ha mirrado

O longo agonisar de uma saudade,

Da deshonra, do exilio, ou da injustiça,

Tu consolas aquelle, que ouve o verbo,

Que renovou o corrompido mundo,

E que mil povos pouco a pouco ouviram.

Nobre, plebeu, dominador, ou servo,

O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,

Da desgraça no dia ajoelharam

No limiar do solitario templo.

Ao pé desse portal, que veste o musgo,

Encontrou-os chorando o sacerdote,

Que da serra descia á meia-noite,

Pelo sino das preces convocado:

Ahi os viu ao despontar do dia,

Sob os raios do sol, ainda chorando.

Passados mezes, o burel grosseiro,

O leito de cortiça, e a fervorosa

E contínua oração foram cerrando

Nos corações dos miseros as chagas,

Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.

Aqui, depois, qual halito suave

Da primavera, lhes correu a vida,

Até sumir-se no adro do convento,

Debaixo de uma lagem tosca e humilde,

Sem nome, nem palavra, que recorde

O que a terra abrigou no somno extremo.

Eremiterio antigo, oh se podesses

Dos annos que lá vão contar a historia;

Se ora, á voz do cantor, possivel fosse

Transsudar desse chão, gelado e mudo,

O mudo pranto, em noites dolorosas,

Por naufragos do mundo derramado

Sobre elle, e aos pés da cruz!... se vós podesseis,

Broncas pedras, fallar, o que dirieis!

Quantos nomes mimosos da ventura,

Convertidos em fabula das gentes,

Despertariam o eccho das montanhas,

Se aos negros troncos do sobreiro antigo

Mandasse o Eterno sussurrar a historia